domingo, 5 de fevereiro de 2017

O casamento entre portugueses e indígenas na Amazônia: O Alvará de 04 de abril de 1755

Essa pintura retrata uma família formada por um branco europeu e um indígena. Da união dos dois surge um mestiço. América Espanhola, séculos XVIII-XIX.

A dimensão do Estado do Grão-Pará e Maranhão, na segunda metade do século XVIII, constituía-se de empecilho para o reino de Portugal. Seja em São Luís ou em Belém, a administração pública não dava conta de todas as localidades do interior da região, isoladas e carentes de comunicação e desenvolvimento econômico. Vendo o problema que isso acarretaria para a soberania de Portugal sobre a Amazônia, cobiçada por holandeses e espanhóis, Mendonça Furtado sugere a criação de uma nova região administrativa. Na Carta Régia de 03 de março de 1755 é criada a Capitania de São José do Rio Negro, com capital na aldeia de Mariuá de São José do Javari, elevada à categoria de vila em 06 de maio de 1758 com o nome de Barcelos. (REIS, 1989, p. 120).

            Criada a nova unidade, era necessário povoá-la. A carência demográfica era um antigo problema do Grão-Pará, que possuía uma população formada, em sua maioria, desde os tempos do Padre Antônio Vieira, por indígenas, divididos em gentios, que viviam no interior, e cristãos, que podiam ser livres ou escravos; e por brancos portugueses, divididos em nobres ou cidadãos, aqueles que desempenhavam altos cargos civis e militares; peões, que poderiam ser mercadores, mecânicos e operários; e os infames, que eram cristãos novos e degredados (SARAGOÇA, 2000, In SOUZA, 2009, p. 130).  O rei de Portugal, Dom José I, autorizou, no Alvará de 04 de abril de 1755, o casamento entre portugueses e indígenas, com amplos benefícios para os casais constituídos e seus descendentes, súditos a partir de agora com forte ligação com a metrópole portuguesa. Essa política de união entre brancos e indígenas começou a surtir efeito cedo, como fica claro em uma carta de Mendonça Furtado para o rei, onde ele transmite que conseguiu que [...] “naquele pouco espaço se contrahissem não menos de 78 matrimonios no Ryo Negro” (MONTEIRO, 1995, p. 47).

            As primeiras famílias da Capitania de São José do Rio Negro surgiram dessa política populacional. Portugueses com índias, índios com portuguesas, esses casais foram se fixando, com direito, na região, em casas simples de madeira e palha ou já de alvenaria. Seus filhos e, depois, outros descendentes, continuaram o trabalho de povoar a Amazônia. Confiram na íntegra, abaixo, o Alvará que autorizou a união entre portugueses e nativos na Amazônia:

Eu, El Rey. Faço saber aos que este meu Alvará de Lei virem, que considerando o quanto convém, que meus Reais domínios da América se povoem, e que para este fim pode concorrer muito a comunicação com os índios, por meio de casamentos: Sou servido declarar, que os meus Vassalos deste Reino, e da América, que casarem com as índias dessa, não ficam com infâmia alguma, antes se farão dignos da minha Real atenção, e que nas terras em que se estabelecerem, serão preferidos para aqueles lugares, e ocupações, que couberem na graduação das suas pessoas, e que seus filhos, e descendentes, serão hábeis, e capazes de qualquer emprego, honra, ou Dignidade, sem que necessitem de dispensa alguma, em razão destas alianças, em que serão também compreendidas as que já se acharem feitas antes desta minha declaração: E outrossim proíbo, que os ditos Vassalos casados com índias, ou seus descendentes, sejam tratados com o nome de caboclos, ou outro semelhante, que possa ser injurioso; e as pessoas de qualquer condição, ou qualidade, que praticarem o contrário, sendo-lhes assim legitimamente provado perante os Ouvidores das Comarcas, em que assistirem, serão por sentença destes, sem apelação, nem agravo, mandados sair da dita Comarca dentro de um mês, e até mercê minha; o que se executará sem falta alguma, tendo porém os Ouvidores cuidado em examinar a qualidade das provas, e das pessoas, que jurarem nesta matéria, para que se não faça violência, ou injustiça com este pretexto, tendo entendido, que só hão de admitir queixas do injuriado, e não de outra pessoa: O mesmo se praticará a respeito das Portuguesas que casarem com índios: e a seus filhos, e descendentes, e a todos concedo a mesma preferência para os ofícios, que houver nas terras em que viverem; e quando suceda, que os filhos, ou descendentes destes matrimônios tenham algum requerimento perante mim, me farão a saber esta qualidade, para em razão dela mais particularmente os entender. E ordeno que esta minha Real resolução se observe geralmente em todos os meus domínios da América. Pelo que mando ao Vice-Rei e Capitão general de mar e terra do Estado do Brasil, Capitães generais e governadores do Estado do Maranhão e Pará, e mais conquistas do Brasil, capitães-mores delas, chanceleres, e Desembargadores das Relações da Bahia, e Rio de Janeiro, Ouvidores Gerais das Comarcas, Juízes de fora, e Ordinários, e mais justiças dos referidos Estados, cumpram, e guardem o presente Alvará de Lei, e o façam cumprir, e guardar na forma que nele se contém, o qual valerá como Carta, posto que seu efeito haja de durar mais de um ano, e se publicará nas ditas Comarcas, e em minha Chancelaria mor em que semelhantes Alvarás se costumam registrar; e o próprio se lançará na Torre do Tombo. Lisboa, quatro de Abril de mil e setecentos e cinquenta e cinco.

Rei

Marquês de Penalva P.

            Alvará de Lei, porque V. Majestade é servido declarar, que os Vassalos deste Reino, e da América, que casarem com índios dela, não ficam com infâmia alguma, antes se farão dignos da sua Real atenção, e serão preferidos nas terras, em que se estabelecerem, para os lugares, e ocupações, que couberem na graduação de suas pessoas; e seus filhos, e descendentes serão hábeis, e capazes de qualquer emprego, honra, ou Dignidade, sem que necessitem de dispensa alguma, em razão destas alianças, em que se compreendem as que já se acham feitas antes desta Resolução; e que o mesmo se praticará com as Portuguesas, que casarem com índios, e a seus filhos, e descendentes, como acima se declara.
Para Vossa Majestade V:.

            Por Resolução de Sua Majestade de vinte e dois de Março de mil setecentos e cinquenta e cinco, tomada em Consulta do Conselho Ultramarino, de dezessete do dito mês, e ano.

O Secretário Joaquim Miguel Lopes de Lavre o fez escrever

            Registrado a fol. 48. Do liv. 12. De Provisões da Secretaria do Conselho Ultramarino. Lisboa, 10 de Abril de 1755.
Joaquim Miguel Lopes de Lavre.

Francisco Luiz da Cunha de Ataíde

            Foi publicado este Alvará de Lei na Chancelaria mor da Corte, e Reino, Lisboa, 12 de Abril de 1755.                                      
                                                                                                               Dom Sebastião Maldonado

            Registrado na Chancelaria mor da Corte, e Reino, no livro das Leis a fol. 83. Lisboa, 14 de Abril de 1755.
Rodrigo Xavier Alvares de Moura.


Theodosio de Cobellos Pereira o fez.



Foi reimpresso na Oficina de Miguel Rodrigues.


FONTES:

REIS, Arthur Cézar Ferreira. História do Amazonas. 2° ed, Belo Horizonte, Itatiaia, 1989. (Coleção reconquista do Brasil).

SOUZA, Márcio. História da Amazônia. Manaus, Editora Valer, 2009.

MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus. 4° ed, São Paulo, Metro Cúbico, 1995.

CRÉDITO DA IMAGEM:

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

De Boca do Acre para Manaus: A vida de uma migrante entre 1960 e 1980

Entrevista com a Sra. Maria Hortência Rodrigues de Carvalho
Entrevista realizada entre 12/01/2017 e 13/01/2017

DEPOENTE: Maria Hortência Rodrigues de Carvalho, 66 anos, natural do município de Boca do Acre (AM), há 54 anos moradora de Manaus.
TEMÁTICA: História Oral de vida

1° Imagem: Principal rua comercial de Boca do Acre, 1974. 2° Imagem: Av. Eduardo Ribeiro, Manaus, 1960.

“Eu tinha 12 anos quando sai de Boca do Acre. Fui obrigada. Meu pai foi obrigado a deixar a cidade porque trabalhava em uma empresa federal que lhe deu a ordem de vir para Manaus com a família. Chorei muito, eu era uma criança. Tenho muitas saudades de Boca do Acre, cidadezinha linda. Chegamos em Manaus de tarde. Era muito diferente de Boca do Acre. Achei a cidade feia porque nós fomos morar em uma região de mata onde existiam algumas casas da Base Aérea. Ficamos em uma onde já existia um casal e outra pessoa. O casal nos recebeu bem, o outro morador, não. Ele era estranho. Quem nos recebeu foi o seu Agostinho e a dona Raimunda Araújo. Fizeram um jantar, comemos e conversamos. Sabe o que era o jantar? Dois quartos de paca1 assada, uma delícia. No outro dia dona Raimunda nos convidou para ir no mercado fazer compras. Comprar comida porque aqui tudo era comprado. 
Aqui em Manaus meu pai continuou exercendo a mesma profissão de Boca do Acre, a de construtor de pistas para avião. Ele recebia as pedras para o trabalho de Santarém. Minha mãe sempre foi dona de casa, mãe e companheira. Zacarias Rodrigues Vieira e Maria Raimunda Rodrigues foram bons pais. Naquela época era no chicote (risos), qualquer erro apanhava, mas eram muito bons, me criaram com muito carinho.(Aponta para um grande quadro antigo da família, na sala) Esse quadro é uma das poucas lembranças que tenho deles. Ele é de 1969. Os retratistas vinham de casa em casa e perguntavam se não queríamos fazer um quadro, aí a gente dava uma foto, eles faziam o quadro e tal dia vinham entregar. Foi minha mãe que contratou o serviço. Ela tinha 41 anos e o meu pai 47. Eu não estava em casa, estava na escola. Quando eu cheguei de lá ela me falou. Os retratistas falaram que iam diminuir a careca do meu pai (risos) e, como eu era muito nova, me fizeram com a aparência mais velha. Meu filho tinha 3 anos de idade, e era muito amado por meus pais. Eles que escolheram as roupas da pintura, suas cores e desenharam penteados para mim e minha mãe. Para mim é muito importante ter o quadro, pois sinto muitas saudades dos meus pais o vendo. 
Eu e meus pais moramos nas casas da Base Aérea e depois fomos para a Betânia2, que estava sendo fundada. O dono daquelas terras limpou o lugar e construiu um escritório de venda de terrenos. Papai foi lá e comprou um, que ficou 10 meses pagando. Nele construiu uma palhoça onde ficamos morando. Depois, a prefeitura estava abrindo a rua Nova em São Lázaro. Era tudo propriedade da Base Aérea. Ela determinou que a área fosse loteada e que fosse dado um terreno para cada funcionário seu. Nós ganhamos e desde então passamos a morar no São Lázaro. Me lembro que meu pai estava construindo uma casa de madeira na rua Nova. Nós tínhamos uma também de madeira na rua 09 de Maio. Um dia vieram nos avisar que a casa da 09 de Maio estava pegando fogo. Quando chegamos lá alguns moradores, o Braga e a Nasa, já estavam apagando o fogo. Nos mudamos definitivamente para a Rua Nova. Em Boca do Acre eu estudava no Patronato Nossa Senhora de Nazaré. Quando viemos para Manaus eu fui estudar no Patronato Santa Terezinha. Nele estudei até começar os namoricos (risos) e me casar, ainda jovem. 
Na minha infância e adolescência Manaus era uma cidade linda. Não tinha tanto crime, era calma, boa para se morar. Lembro dos ônibus de madeira, das praças, a praça em frente ao Colégio Dom Pedro II, a da Polícia. Aos domingos todos levavam os filhos para brincar. Tinha alguns animais, na Praça da Matriz. Tinha tartaruga e peixe-boi. No Centro tinha arraial, mas acabou. A Cidade só ficava acesa até as 22:00 hrs, depois a energia era desligada e só voltava no outro dia. Os crimes eram muito raros. Quando acontecia, investigavam, assassinatos e outros tipos. Lembro do crime da Pensão Maranhense, na Avenida Eduardo Ribeiro, ocorrido em 1968. Era uma pensão, tinha restaurante. Era um recinto como outro qualquer. Um garoto, Waldegrace, que era engraxate, ficava trabalhando em frente a pensão. O dono dela, José Figueiredo, ficava observando ele. Um dia ele chamou o garoto e perguntou: Tu queres umas roupas usadas? O garoto disse que sim e ele falou: Então vamos lá em casa pegar. Fez isso só para assassinar o rapaz. No dia do julgamento, o pai de Waldegrace tentou matar o assassino. Só não matou porque o calibre era 22 e não fez muito efeito. O pai do menino foi para o presídio. 
Para se divertir nós tínhamos festas. Eu era muito nova e só ia para a Tarde Dançante. Eram a Manhã de Sol, a Tarde Dançante e a Noite Noturna. Era aqui no São Lázaro, organizadas pelos moradores. De noite também tinha cinema, de dia, muitas festas e, de tarde, muitas danças. Lá no Morro da Liberdade (apontando para cima) tinha o Libermorro. Nunca cheguei a ir. No Centro, o Ideal Clube era para os ricos. No São Jorge tinha o Arauto, casa de dança. E tinha uma no São Raimundo. As mulheres solteiras só saíam de casa a noite. De dia ficavam na “toca”, na casa delas. Só de noite podiam sair. 
Pela cidade nos locomovíamos de ônibus. Eles eram de madeira, pequenos. Não tinha cadeira para o cobrador, que ia em pé, segurando o dinheiro e procurando os passageiros que ainda não tinha pagado. Não lembro o preço da passagem, não lembro não. Tinha carroça, mas era para carregar rancho, madeira e palha para cobrir as casas. Tinha carro, tipo táxi. Não lembro do ano da instalação da Zona Franca, só sei que foi nos anos 70. A cidade ficou um alvoroço. Eu também gostei, pois podia comprar as coisas com facilidade. Tudo tinha aqui. Antes tinha que mandar buscar de longe. Depois que ela foi instalada, o ritmo de vida mudou, acelerou. Ninguém tinha mais tempo para nada. 
Existiram bons governos, que trabalhavam muito. Mas era Ditadura Militar. Foi pesada aqui. Daquela época eram bons os preços, aqui, no Morro da Liberdade e em qualquer lugar. No Centro a gente via aqueles senhores conversando na Praça, falando sobre o governo. A Polícia ficava vigiando e pegava eles, que eram presos ou sumiam. Disso eu não gostava. Ninguém podia ficar conversando muito tempo junto, vadiando, que a polícia vinha para cima. A política atual não é boa, não, tem muita corrupção. Não é bom para ninguém entrar na política hoje. 
Eu me casei com 14 anos, mas ele foi embora para Belém. Mandou me buscar mas meus pais não deixaram. Fui tendo meus filhos. Com ele tive apenas um. No meu segundo casamento eu já tinha 20 anos e fui tendo mais filhos. Tive quatro. Esse foi um bom casamento, que durou até ele falecer no ano passado, com 74 anos. O nome dele era João Augusto de Carvalho. Não estudou, mas eu também tinha pouco estudo, terminei eles com 62 anos. Era um bom marido, carinhoso. Com o primeiro marido eu tive o Leomar Rodrigues da Silva. Com o segundo, Giovana Rodrigues de Carvalho, Gerivan Rodrigues de Carvalho, Trissimara Rodrigues de Carvalho e Maralice Rodrigues de Carvalho, gêmeas. 
Eu já tinha 30 anos quando comecei a trabalhar e não parei mais, até me aposentar. Trabalhei na Caloi, onde hoje é outra loja, mas não gostei. Era um trabalho chato em uma fábrica de meias e tapetes. Depois fui trabalhar em uma fábrica de relógios, a Nelima. Trabalhei, trabalhei, mas não gostei. Resolvi estudar. Estudava, estudava mais, fazia cursos para cá e para lá. Fiz primeiros socorros e enfermagem. Fiz o concurso e entrei na SEMSA3. Fiz outro concurso e entrei na SUSAM4. Nela eu entrei como auxiliar mas também era técnica. Depois de uns anos, me convidaram para trabalhar na FUNAI5. Queria me aposentar pela SUSAM. Consegui. Na FUNAI era CLT, órgão federal que pagava bem. Fiquei trabalhando lá por 32 anos. Tinha vontade de fazer faculdade de Medicina, mas não fiz porque não tinha terminado os estudos. Depois estudei, mas aí já trabalhava em três empregos (mostra com os dedos) e estava cansada. Antes de trabalhar eu era doméstica. Ajudava a minha mãe a limpar a casa. Ajudar com dinheiro eu ainda não podia, pois meu marido ganhava muito pouco e também não deixava eu sair de casa para trabalhar. 
Ah, a melhor época da minha vida foi nos anos 60. Eu namorava muito (risos), muito mesmo, ia para muitas festas. Inventei de casar aí acabou (risos). Apesar da política suja, ainda espero uns bons anos para mim, para meus filhos, netos e tudo mais. Espero que minha cidade melhore bastante. Não tenho vontade de sair daqui, amo essa cidade. Assim como eu chorei quando sai da minha cidadezinha para vir para cá, se um dia eu precisar sair daqui, vou chorar muito mais...

NOTAS:
1 Espécie de roedor predominante em regiões de clima tropical
2 Bairro da Zona Sul de Manaus, vizinho do Morro da Liberdade, São Lázaro e Crespo.
3 Secretaria Municipal de Saúde.
4 Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas.

5 Fundação Nacional do Índio.

CRÉDITO DAS IMAGENS:

Manaus de Antigamente
Hernondino Chagas, IBGE.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Catolicismo Popular no Brasil

Imagens de Santo Antônio e São João Batista, santos populares no Brasil.

Esse pequeno texto faz parte do artigo Fragmentos de objetos, costumes e crendices antigas em Manaus, ainda não publicado.

O português e o espanhol trouxeram para a América o catolicismo. Nessa parte do Atlântico essa religião se desenvolveu de forma curiosa: mesclaram-se às raízes da tradição cristã ibérico romana, ainda com fortes traços medievais de influência pagã e maometana, as crenças dos nativos e, mais tarde, dos escravos africanos. Por mais que os conquistadores tentassem suprimir os credos dos outros dois grupos, o sincretismo, lentamente forjado em uma relação nem sempre amistosa de séculos, já havia ocorrido. Surgiu algo novo, outro catolicismo, o popular. Os moradores de povoados, vilas e poucas cidades existentes na América Portuguesa, distantes do centro de poder de Roma, se apegam mais à devoção do que ao sacramento.

O atual Rio de Janeiro um dia foi São Sebastião do Rio de Janeiro. A primeira cidade da colônia foi consagrada ao padroeiro de Lisboa, São Vicente. A fortaleza que deu origem à Manaus foi construída entre 1669-1670, sob a “invocação de Jesus, Maria e José” (MONTEIRO, 1995, p. 25), a Sagrada Família, e ficou conhecida como Fortaleza de São José da Barra. Em 1695, os padres carmelitas constroem uma pequena igreja ao lado do forte, consagrando o templo e a localidade à Nossa Senhora da Conceição. São Sebastião, São Vicente, Sagrada Família, São José da Barra e N. S. da Conceição da Barra, referências e oragos do catolicismo lusitano implantado no litoral e na região amazônica. De acordo com o Banco de Nomes Geográficos do Brasil, do IBGE, uma em cada 9 cidades brasileiras têm nome de santo, sendo 652 dos 5.565 municípios. Os mais citados, por ordem, são: São José (60), São João (54), Santo Antônio (38) e São Francisco (27)4.

O leigo (a) é a autoridade do culto popular. Existiam, claro, padres, freis e monges, mas o catolicismo foi transmitido por pessoas não ligadas ao poder eclesiástico, mas conhecedoras, ao seu modo rústico, das práticas religiosas. Herdeiras dos primeiros tempos da religião na América Portuguesa, são as rezadeiras e benzedeiras que ainda existem nas regiões Norte e Nordeste, que transitam entre a linha da religião, invocando os nomes de Jesus e santos, e do conhecimento nativo, buscando na mistura de ervas e plantas panaceias para todas as dificuldades. Iemanjá, divindade do Candomblé e da Umbanda, tem seu par na figura de Nossa Senhora dos Navegantes; e a lavagem das escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, na Bahia, é realizada por mães de santo e filhas de santo (RIBEIRO, 2012, p. 18). Essa é uma característica da ausência do poder institucionalizado, que permite o surgimento de uma religião maleável e mais acessível às massas. Semelhante aos cultos fenícios e greco-romanos é a prática do ex-voto suspecto, o voto realizado, que consiste em deixar objetos para os santos como agradecimentos por graças alcançadas.

O santo tem papel de destaque na vida religiosa. Tudo gira em torno de sua figura. Oratórios, capelas e santuários são construídos com a ajuda da comunidade para honrá-lo. Esses templos movimentam as massas devotas e concentram em si a vida econômica e social, com a realização de arraiais, feiras e quermesses em seus terrenos ou arredores. As principais cidades do Nordeste se transformam durante os festejos de junho para São João, São Pedro e Santo Antônio. Deus é o ser supremo, representado como Senhor Bom Jesus, Divino Pai Eterno e Divino Espírito Santo. Não existe um culto específico para ele, pois os santos cumprem o papel da intercessão divina. Jesus, filho do criador

[…] é o protótipo dos santos: bom e justo, ele sofre sem ter pecado, e por esse sofrimento ele ganha a misericórdia divina para com os homens. Sua representação popular é, pois, a representação do sofredor: o Crucificado, o Senhor morto, o Jesus da Paixão. Só a partir da ‘romanização’ se introduz a representação de Jesus glorioso, Cristo-Rei, do Jesus suave e manso, como o Menino Jesus e Sagrado Coração de Jesus. Basta lembrar que a grande festa do catolicismo popular não é a Páscoa e nem mesmo o Natal, mas a Sexta-Feira Santa, a Sexta-feira da Paixão. Assim como Jesus sofreu, aceitando como resignação as provações que Deus lhe mandou, também os santos sofreram cada qual as suas provações, tendo assim provado diante de Deus sua conformidade com o que lhes mandava. Também os homens têm que se conformar com a sorte que Deus lhe deu, vivendo em fidelidade aos mandamentos de Deus sem jamais amaldiçoar sua vida5.

A relação com as imagens sacras é íntima e mistura superstições variadas. Santo Antônio, o casamenteiro, quando intercede e não encontra um parceiro, é congelado e posto de cabeça para baixo em um copo d' água. São Longuinho ganha “três pulinhos” se ajudar a encontrar um objeto perdido. Quando ajudam são recompensados e, quando não, ficam de castigo. Em cantiga vinda da antiga freguesia de Monsanto, em Portugal, São José ajuda a embalar uma criança para o sono6: 

José, embala o Menino,
Com a mão, nanja co pé,
O menino que ali vês
É Jesus de Nazaré.
Cantai, anjos, ao Menino,
Que a Senhora logo vem,
Foi lavar os cueirinhos
À ribeira de Belém

São amigos próximos mas também podem ser tratados como crianças birrentas. Os santos curam e ajudam nos problemas do cotidiano, bem como protegem a casa, a rua e o comércio. O catolicismo popular é um dos exemplos mais significativos de como se desenvolveu a sociedade na América Portuguesa e, mais tarde, no Brasil. Uma religião milenar, já transformada em sua região de origem, se aclimatou nos trópicos, onde também recebeu outras influências e se transformou em algo novo, expressão de uma sociedade desigual e culturalmente multifacetada.

NOTAS:

4 Uma em cada nove cidades do país tem nome de santo. Disponível em g1.globo.com/brasil/noticia/2011/09/uma-em-cada-nove-cidades-do-pais-tem-nome-de-santo.html. Acesso em 17/01/2017.
5 OLIVEIRA, Pedro A. Ribeiro de. Religião e dominação de classe: gênese, estrutura e função do catolicismo romanizado no Brasil. Vozes, Petrópolis, 1985, p. 112.
6 José embala o menino In: Pires, A. Tomás. Cantos Populares Portuguezes (em Português). 1 ed. Elvas: Tipografia Progresso, 1902. vol. I.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus. São Paulo, Editora Metro Cúbico, 4° ed, 1995.

RIBEIRO, Josenilda Oliveira. Sincretismo religioso no Brasil: Uma análise histórica das transformações no catolicismo, evangelismo, candomblé e espiritismo. UFPE, 2012.

CRÉDITO DAS IMAGENS:

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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Fotografias Post Mortem em Manaus

A morte nos assusta ao mesmo tempo que fascina. É o cessar do corpo biológico e, para a maior parte da população mundial, o início de uma caminhada em direção ao plano espiritual. Tenta-se fazer com que ela demore a chegar. No mínimo, se retarda. Mas que chega, chega. Surgem temores, devoções. Nós, do século XXI, estamos sem tempo até para ficar de luto. Exige-se rapidez nesse momento da vida. No entanto, nossos antepassados, além de guardar luto por meses e até anos, em sinal de respeito, encaravam esse processo como algo natural, o tornando às vezes em uma ocasião especial onde se reuniam na casa do falecido amigos e familiares. A morte virou objeto de pesquisas: Utilizando inventários e testamentos, José de Alcântara Machado de Oliveira publicou em 1929 Vida e morte do bandeirante, mostrando o peso da morte nos tempos coloniais. Jefferson Péres, em sua Evocação de Manaus – como eu a vi ou sonhei, nos dá algumas informações sobre luto na sociedade manauara.

Após a invenção do Daguerreótipo, precursor das câmeras fotográficas, as formas de guardar lembranças de entes queridos mudaram. A fotografia era mais acessível e passava uma sensação de realidade maior que as pinturas, comuns por muitos séculos, executadas por artistas renomados e muito caras. Da segunda metade do século XIX até a década de 80 do XXI, predominaram no Brasil as fotopinturas, pinturas feitas a partir de fotos em baixa resolução, populares em diferentes camadas da sociedade. Mas, além dessa técnica, existiu uma outra, ainda não abordada de forma satisfatória do ponto de vista histórico: a fotografia post mortem.

Essa técnica, a fotografia pós-morte, surgiu na Inglaterra durante a Era Vitoriana (1837-1901). Até o momento, acredita-se que ela teve início após a morte de um membro da família real, o qual a Rainha Vitória teria pedido para fotografar para guardar como recordação. Nesse período, final do século XIX e início do XX, a taxa de mortalidade infantil era bastante alta. Muitas famílias passaram a contratar fotógrafos para fazer o registro de seus filhos já mortos, talvez a única imagem que se teria dessa criança. Aos poucos essa prática se estendeu para todas as idades. Eram outros tempos, de conflitos violentos. Vivia-se menos. Sabe-se que essa prática chegou em outros países como Estados Unidos, França, Alemanha e Brasil.

Julieta Bosco e Idalina Tozzi ao lado do bebê em um caixão. Vila de São João Velho, São Paulo, 1930.

Não se sabe quando as fotografias post mortem começaram a ser produzidas no Brasil. Ao realizar pesquisas, encontrei um registro feito em 1930 na Vila de São João Velho, ao lado de São João Novo, em São Paulo. A legenda nos informa que, ao lado do bebê, estão Julieta Bosco e Idalina Tozzi. Apesar desta foto ser bastante popular, encontrei uma muito mais antiga, aqui de Manaus, possivelmente do final do século XIX. Nela temos uma criança em um caixão, como se estivesse acordado. Na legenda é identificada apenas a cidade do registro e o estúdio responsável, no caso, a “Photo Castro”. Não encontrei, em jornais, revistas e livros antigos qualquer menção a essa empresa. Talvez seja de outro estado ou país. O formato, um carte cabinet, espécie de cartão de visita, indica que foram feitas cópias da original, possivelmente entregues a parentes e conhecidos. Apenas famílias abastadas tinham acesso ao trabalho de estúdios fotográficos profissionais e à aquisição de cartões de visita.

Carte Cabinet de uma criança "dormindo". Manaus, século XIX. Photo Castro

Mais recentes são as fotografias da família de Eros Augusto da Silva, que conservou o costume da fotografia pós-morte dos anos 30 até os dias de hoje. Na primeira imagem temos o seu avô Carlos Pereira da Silva (1894-1931), fotografado em caixão aberto, pratica comum quando o serviço não era feito por um estúdio. A seguir, registro do cortejo fúnebre de sua bisavó Januária Lago (1862-1964) e de seu corpo. Acompanham o ato, além de outros familiares, o Dr. Eros Pereira da Silva, famoso advogado da capital. Notem a tranquilidade das pessoas presentes. A morte, no passado, era um processo pelo qual se passava lentamente, no particular da família. Existia tempo para chorar os mortos. As pessoas geralmente terminavam seus dias em família, em paz com o Deus de sua religião. O ato era puramente feito por respeito à sua memória. As duas últimas fotografias são do seu tio-avô Wild Lago, filho de Januária (1909-1992). Em 2008 fizeram o registro do Dr. Eros Pereira da Silva; e, em 2014, o de uma prima de Eros Augusto da Silva.

Carlos Pereira da Silva, 1931.

Cortejo fúnebre de Januária Lago, 1964.

Januária Lago, 1964.

Dr. Eros Pereira da Silva acompanhando o cortejo de Januária, 1964.

Dr. Eros Pereira da Silva ao lado do corpo de Wild Lago, 1992.

Wild Lago, 1992.

As fotografias post mortem que vimos estão divididas da seguinte forma: A primeira, mais antiga, mostra a criança como se estivesse acordada, uma forma simbólica de desafiar a morte. As outras, ao lado do caixão, representam sua aceitação. Quando esse tipo de fotografia chegou à Manaus? Seria uma herança dos ingleses que para cá vieram durante o ciclo econômico da borracha? São perguntas cujas respostas serão encontradas em pesquisas futuras. Mas sabe-se, agora, que esse é um novo capítulo da micro-história da cidade.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

www.alemdaimaginacao.com.br
M. Duarte
Acervo Eros Augusto Pereira da Silva

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Leituras de 2016

Santo Agostinho, Caio Júlio Fedro, Voltaire, Montesquieu e Antônio Simplício de Almeida Neto

Esse ano foi bastante produtivo. Tive um artigo publicado na revista do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), um capítulo em livro lançado em outro estado e fui convidado para ser um dos administradores da página Manaus de Antigamente. O número de curtidores e de acessos ao blog aumentaram de forma incrível. Com compromisso dentro e fora da universidade, consegui concluir a leitura de 5 livros, dos quais 4 incríveis clássicos da literatura ocidental: Santo Agostinho, Fedro, Voltaire e Montesquieu. Os clássicos são sempre atuais. A leitura da obra de Simplício de Almeida Neto ocorreu através de uma atividade acadêmica, e foi muito proveitosa.

Santo Agostinho (Coleção Os Pensadores, Abril Cultural, 1999)

Ler Santo Agostinho é tentar compreender o (s) pensamento (s) de um dos maiores autores do Ocidente. As principais obras do bispo da cidade de Hipona e santo da Igreja são, em ordem cronológica: Contra os acadêmicos (386); Solilóquios (387); Do Livre-Arbítrio (388-395); De Magistro (389); De Trinitate (399-422); Confissões (400); A Cidade de Deus (413-426); e Retratações (413-426). A Coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, traz recortes de várias obras suas. Me chamaram a atenção a concepção que ele tinha de História, abordada em A Cidade de Deus, para ele o resultado do pecado de Adão e Eva, transmitido para todos os homens e mulheres, que o expressam na construção da cidade terrena, dos impérios e das civilizações; e de homem, em Solilóquios, constituído de duas personalidades: a primeira personalidade seria o “Homem exterior”, do mundo mundano, com necessidades biológicas, instintivo e animal. O segundo, o “Homem interior”, está ligado aos sentimentos, ao plano metafísico com Deus. É no homem interior, ligado a Deus, que Agostinho busca a felicidade e um sentido para sua existência.

Fábulas (Editora Escala, 2006)

Caio Júlio Fedro, ou apenas Fedro, é um autor com uma trajetória interessante. Nascido na Trácia, no século I d.C., fora levado para Roma para servir como escravo de Augusto, que logo lhe deu a liberdade. Conhecedor do grego, aperfeiçoou seu latim e aprimorou suas habilidades na escrita. Leitor de Esopo, o principal fabulista do mundo grego, introduziu em Roma esse gênero através de sua obra Fabulae (Fábulas). Através de personagens fictícios como animais, objetos e pessoas, nos transmite grandes lições de moral, ética, prudência e humildade. Minhas fábulas preferidas são A gralha soberba e o pavão, sobre aceitar a nossa vida sem criar falsas imagens desta; A rã implodida e o boi, sobre como não devemos tentar parecer ser mais do que realmente somos; A gratidão do rato, de como não devemos menosprezar as pessoas simples; Desculpas sim, porém não esquecer, sobre como perdemos a confiança em pessoas que nos enganam uma vez; e O crime tem preço, sobre como que faz o mal, o recebe de volta.

Cartas Filosóficas (Editora Escala, 2006)

Três elementos estão presentes nessa obra epistolográfica de Voltaire: tolerância, liberdade e diversidade. Eles são a essência da cultura burguesa do século XVIII. Crítico ácido dos reis absolutistas, dos membros da nobreza e do clero, saiu da França e se refugiou na Inglaterra, redigindo as Cartas Filosóficas ou Cartas Inglesas. Em 25 cartas, o autor compara instituições, costumes, crenças e outros aspectos da Inglaterra com a França. É uma forma de mostrar para as autoridades civis e religiosas da França, onde foi perseguido. Gostei das seguintes cartas: As 7 primeiras sobre grupos religiosos; 10° Sobre o Comércio; 8° Sobre o Parlamento; 11° Sobre a Inoculação do Vírus da Varíola; 20° Sobre os Senhores que Cultivam as Letras; 23° Sobre a Consideração que se deve ter pelos Literatos; e 24° Sobre as Academias. Nessas cartas temos o Voltaire filósofo, historiador, ensaísta e novelista.


Cartas Persas (Editora Escala, 2 volumes, 2006)

Mais uma obra epistolográfica, de caráter crítico-social ou uma sátira para alguns críticos literários. Montesquieu, assim como Voltaire, é um burguês letrado do século das Luzes, e tece críticas às instituições políticas e religiosas. Através de um grupo fictício de viajantes persas, o autor constrói um choque cultural entre a Europa e o Oriente, gênero comparativo recorrente no século XVIII. É através de personagens como Rica, Usbek e Ibben, que Montesquieu consegue escrever, criticar e idealizar as instituições de Paris e de outras cidades da Europa sem se preocupar com a censura (publicou o livro de forma anônima em 1721). As cartas que mais me interessaram, enviadas para amigos que estão na Europa ou no Oriente, foram: sobre os Monarcas; o Papa, a Comédia, a Liberdade das mulheres ocidentais em relação às orientais; as Cortes; e as Religiões.

Representações Utópicas no Ensino de História (Editora Unifesp, 2011)

Mais que qualquer outra disciplina, a História traz a questão da utopia de forma mais clara, pois aborda variados temas passados, todos com suas contradições, necessitando ser esmiuçados e explicados, sempre com algum significado para o presente. Temas que retratam guerras, revoluções, conflitos de classe, movimentos sociais e políticos, são exemplos de como a História carrega, no passado, inúmeras lições para se aprender no presente. Representações Utópicas no Ensino de História, livro do professor Antônio Simplício de Almeida Neto, trata das representações utópicas que os professores de história possuem em relação a sua disciplina, a maneira como eles representam o futuro em relação à disciplina escolar.

Infelizmente, nem só de coisas boas o ano feito. Dia 14 perdi meu pai e avô João Augusto de Carvalho, o qual agradeço imensamente por minha formação, apesar de não ter sido um neto à altura. Deixei pelo caminho História do Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon; e De Pueris, de Erasmo de Roterdã. São leituras que vão ficar para 2017. Essas que foram feitas acima, recomendo, pois são obras agradáveis, edificantes para a moral e a ética, Desejo aos seguidores e seguidoras um bom final de ano e muitas leituras.

CRÉDITO DAS IMAGENS:

Estante Virtual
Editora Escala
Editora Nova Alexandria
Livrarias Saraiva


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

São Lázaro, o padroeiro do meu bairro

A palavra padroeiro tem origem no latim Patronus, que significa “defensor, protetor”, derivado de Pater, “pai”. O Santo Padroeiro de uma vila, povoado ou cidade, tem por objetivo a proteção do local a que foram dedicados e a intercessão entre o homem e o Criador. Na Idade Média conferiam prestígio às suas paróquias e cidades, que recebiam peregrinos de várias regiões em busca de contato com as relíquias e imagens divinas. Nas Sagradas escrituras, personagens que morreram puros no Senhor e alcançaram o Céu, continuam a interceder pelos vivos. Durante as perseguições a cristãos nos tempos do Império Romano, um grande número de pessoas que morreram em nome da fé foram aos poucos canonizadas pela Igreja Católica.

Manaus, fundada provavelmente em 1669, no entorno do Forte de São José da Barra, teve como primeira religião o Catolicismo, implantado na região através dos conquistadores portugueses. Essa religião viria a dominar por séculos a evolução da cidade. A primeira ermida construída na povoação foi consagrada à Nossa Senhora da Conceição; as primeiras ruas receberam o nome de Deus padre, Deus Filho e Deus Espírito Santo; os primeiros bairros foram São Vicente de Fora, uma homenagem ao santo padroeiro de Lisboa; e Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade. A escolha de um Santo Padroeiro é uma herança política e cultural dos tempos do Império Português, que assim dividia (a divisão ainda existe) suas freguesias em Portugal.

Lázaro era membro de uma família abastada da Palestina, e vivia com suas duas irmãs, Marta e Maria, em uma aldeia de Israel chamada Betânia (atualmente localizada na Cisjordânia), que junto da aldeia de Betfagé, era o último ponto de descanso para quem subia à cidade por Jericó. Betânia estava distante 3 km a leste de Jerusalém e do Monte das Oliveiras, um dos muitos lugares de transmissão dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Os três irmãos tinham uma forte amizade com Jesus, tendo o hospedado muitas vezes em sua casa. Jesus ficou hospedado nos dias que antecederam a Paixão, do Domingo de Ramos até o dia de sua prisão. Além da relação que tinha com Cristo, a figura de Lázaro tornou-se importante para a História do Cristianismo pois este, após a morte, foi ressuscitado por seu amigo. Desde os primeiros séculos do mundo cristão o túmulo de Lázaro se converteu em local de devoção, tendo sido erguido, no século IV de nossa era, um santuário em seu redor.

De acordo com a Bíblia (compilação abaixo produzida pela Ordem Militar e Hospitalar de São Lázaro de Jerusalém – Grão Priorado de Portugal), no Evangelho segundo João, a história do milagre de Lázaro ocorreu da seguinte forma:

Lázaro caiu doente em Betânia, onde estavam Maria e sua irmã Marta. Maria era quem ungira o Senhor com o óleo perfumado e lhe enxugara os pés com os seus cabelos. E Lázaro, que estava enfermo, era seu irmão. Suas irmãs mandaram, pois, dizer a Jesus: Senhor, aquele que tu amas está enfermo. A estas palavras, disse-lhes Jesus: Esta enfermidade não causará a morte, mas tem por finalidade a glória de Deus. Por ela será glorificado o Filho de Deus. (João 11, 1-4)

Ora, Jesus amava Marta, Maria, sua irmã, e Lázaro. Mas, embora tivesse ouvido que ele estava enfermo, demorou-se ainda dois dias no mesmo lugar. Depois, disse a seus discípulos: Voltemos para a Judéia. Mestre, responderam eles, há pouco os judeus queriam-te apedrejar, e voltas para lá? Jesus respondeu: Não são doze as horas do dia? Quem caminha de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas quem anda de noite tropeça, porque lhe falta a luz. Depois destas palavras, ele acrescentou: Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo. Disseram-lhe os seus discípulos: Senhor, se ele dorme, há-de sarar. Jesus, entretanto, falara da sua morte, mas eles pensavam que falasse do sono como tal. Então Jesus lhes declarou abertamente: Lázaro morreu. Alegro-me por vossa causa, por não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos a ele. A isso Tomé, chamado Dídimo, disse aos seus condiscípulos: Vamos também nós, para morrermos com ele. (João 11, 5-16)

À chegada de Jesus, já havia quatro dias que Lázaro estava no sepulcro. Ora, Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. Muitos judeus tinham vindo a Marta e a Maria, para lhes apresentar condolências pela morte de seu irmão. (João 11, 17-19)

Mal soube Marta da vinda de Jesus, saiu-lhe ao encontro. Maria, porém, estava sentada em casa. Marta disse a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido! Mas sei também, agora, que tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá. Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressurgirá. Respondeu-lhe Marta: Sei que há-de ressurgir na ressurreição no último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto? Respondeu ela: Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que devia vir ao mundo. A essas palavras, ela foi chamar sua irmã Maria, dizendo-lhe baixinho: O Mestre está aí e chama-te. Apenas ela o ouviu, levantou-se imediatamente e foi ao seu encontro. (Pois Jesus não tinha chegado à aldeia, mas estava ainda naquele lugar onde Marta o tinha encontrado.) Os judeus que estavam com ela em casa, em visita de pêsames, ao verem Maria levantar-se depressa e sair, seguiram-na, crendo que ela ia ao sepulcro para ali chorar. Quando, porém, Maria chegou onde Jesus estava e o viu, lançou-se aos seus pés e disse-lhe: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E, sob o impulso de profunda emoção, perguntou: Onde o pusestes? Responderam-lhe: Senhor, vinde ver. Jesus pôs-se a chorar. Observaram por isso os judeus: Vede como ele o amava! Mas alguns deles disseram: Não podia ele, que abriu os olhos do cego de nascença, fazer com que este não morresse? (João 11, 20-37).

Tomado, novamente, de profunda emoção, Jesus foi ao sepulcro. Era uma gruta, coberta por uma pedra. Jesus ordenou: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, pois há quatro dias que ele está aí… Respondeu-lhe Jesus: Não te disse eu: Se creres, verás a glória de Deus? Tiraram, pois, a pedra. Levantando Jesus os olhos ao alto, disse: Pai, rendo-te graças, porque me ouviste. Eu bem sei que sempre me ouves, mas falo assim por causa do povo que está em roda, para que creiam que tu me enviaste. Depois destas palavras, exclamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário. Ordenou então Jesus: Desligai-o e deixai-o ir. Muitos dos judeus, que tinham vindo a Marta e Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele. (João 11, 38-45).

No bairro São Lázaro, o dia do santo é comemorado com uma série de atividades que incluem missas, arraial e a procissão que percorre as principais ruas da comunidade, entre os dias 02 e 10 de fevereiro. No dia 11 do mesmo mês ocorre a benção dos animais. Durante a Idade Média, tornou-se padroeiro dos leprosos por causa de uma associação errônea feita entre sua figura e a de Lázaro da Parábola de São Lucas, o Evangelista. As imagens sacras reproduzidas mostram, em alguns casos, um Lázaro coberto por chagas, segurando muletas e acompanhado por dois cachorros; ou um Lázaro com vestes nobres segurando a Igreja de Larnaca, Chipre. São Lázaro é protetor dos enfermos, dos pobres e dos animais.

O escritor Raimundo Motta de Araújo Filho, autor do livro Nova Betânia (2008, Edições Muiraquitã, p. 20), afirma que o nome do bairro Betânia, fundado em 1964, escolhido pelo então arcebispo de Manaus Dom João de Souza Lima, foi uma alusão à cidade de onde veio o Santo São Lázaro, cujo nome batizara o bairro vizinho, fundado quase uma década antes.


CRÉDITO DA IMAGEM:

http://www.wjhirten.com/

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Antigas fotopinturas de família: Análise Histórica e Social

Fotopintura da família Rodrigues Vieira, 1969. FONTE: Coleção pessoal.

O presente texto faz parte de um futuro artigo sobre objetos, costumes e crendices antigas de Manaus, temas estes inseridos nos campos da História Cultural, Micro-História e História Social.

Antigas fotopinturas de família

Em nossas vidas adquirimos dois tipos de objetos: aqueles de valor sentimental, insubstituíveis, que ganham com o passar do tempo nosso carinho, cuidado e respeito; e os meramente supérfluos, facilmente substituíveis dada suas curtas vidas úteis, adquiridos na maioria das vezes por impulsos consumistas, em uma tentativa de ganhar com eles um status passageiro ou se satisfazer pessoalmente. Violette Morin (1969), conforme citado por Bosi (2005, p. 3), define os primeiros como “objetos biográficos, pois envelhecem com o possuidor e se incorporam à sua vida”. Uma moeda antiga, um desenho, as primeiras roupas dos filhos etc, quando guardados, nos dão a sensação de continuidade, de fazer parte de algo.

A posição, o local onde é posto um objeto na casa, revela as relações que os moradores têm com este. O quadro dos genitores, geralmente postos em destaque na sala de estar, representa a importância destes como os idealizadores e mantenedores de uma família, bem como o respeito em vida e depois dela. As imagens de santos e santas principais, N. S. de Aparecida, Sagrada Família, podem ficar em um pequeno altar, na sala ou na entrada da casa, enquanto aqueles menores, de culto particular, casamenteiros, protetores de lar e de empregos, ficam guardados no quarto, numa relação íntima com a pessoa que necessita de tal intercessão.

A técnica da fotopintura, de famílias inteiras, marido e mulher, de casamento, batizados etc, se faz presente no Brasil desde a segunda metade do século XIX, quando aqui chegou quase duas décadas após a invenção de Daguerre, sendo uma técnica que ainda resiste no Sul e no Nordeste. O inventor desse processo é o fotógrafo francês André Adolphe Eugène Disdéri (1819-1889), que em 1863 começou a produzir fotos em baixo contraste e usar tintas para dar cores às imagens. Esses registros em baixo contraste passaram a servir de esboço para os retratistas, que deixaram de fazer um desenho a lápis dos retratados, diminuindo o tempo de trabalho. Apesar de ser um processo bastante antigo, parece ter começado a se popularizar no país apenas no século XX, entre as décadas de 1940 e 1980. Esse sucesso se explica pelo fato de que, primeiramente, as fotos se tornaram mais realistas ao ganhar cores, deixando o preto e o branco de lado; segundo, os registros familiares, antes executados por pintores de renome e com alto custo, adquiridos apenas por famílias de posse, passaram a fazer parte das classes mais baixas, que pagavam esses trabalhos em suaves prestações.

Na região Nordeste a fotopintura se desenvolveu nos campos econômico e religioso: Nas praças, feiras, circos e romarias, existiam os fotógrafos fixos, com barracas ou lonas devidamente montadas e decoradas, que utilizavam a câmera “lambe-lambe”, em madeira e apoiada em um tripé; e os fotógrafos ambulantes, que passavam de casa em casa oferecendo o serviço, que podia ser feito a partir de uma foto já existente escolhida pela família, ou de uma feita na hora. No Sul e Sudeste predominavam os grandes estúdios de artistas profissionais.

A análise de uma fotopintura de Manaus

Nas casas manauaras era comum ter os quadros dos pais, filhos, avós e bisavôs, pintados a óleo ou com tinta à base de água e com molduras em madeira ou gesso, com desenhos florais, simples e em tonalidades douradas, verdes e escuras, pendurados na sala de estar. As origens dessa prática em Manaus, bem como os primeiros artistas que se dedicavam a ela, ainda estão encobertas de incertezas. Antônio José Souto Loureiro¹ (76), historiador, nos informa ao ver uma fotopintura:

Lembro-me que eram feitas sob encomenda, no Ceará. Também para esmaltados de cemitério (…) Eram feitas mais pelas famílias de bairros. Os desse tipo são mais recentes, mas existem os mais antigos, geralmente individuais, a guache, feitos por artistas de Manaus. Acho que essas informações sobre os pintores se perderam, a não ser que se achem referências no quadro. Nós tínhamos quadros pintados da família muito antigos. Da minha bisavó Liberalina Acioly de Menezes, que morreu aos 96 anos, em 1945, nascida na década de 1850, na Guaiúba, no Ceará, com um belo penteado e vestido negro do início do século.

As origens dos retratistas da capital, seus nomes e locais de trabalho continuam um mistério, pois é extremante raro encontrar um desses quadros assinados. Para a análise histórico-social foi escolhida uma fotopintura de 1969, que retrata duas gerações da família Rodrigues Vieira, natural de Boca do Acre (AM), à época residente no bairro São Lázaro em Manaus. Maria Hortência Rodrigues de Carvalho² (65), uma das personagens retratadas, nos diz o seguinte sobre o dia da contratação do serviço, o trabalho dos retratistas e a importância de ter o retrato:

(…) Eles vinham na casa e perguntavam se não queríamos fazer um quadro, aí a gente dava uma foto, eles faziam o quadro e tal dia vinham entregar. Foi minha mãe que contratou. Ela tinha 41 anos e o meu pai 47. Eu não estava em casa, estava na escola. Quando eu cheguei da escola ela me falou. Os retratistas falaram que iam diminuir a careca do meu pai (risos) e, como eu era muito nova, me fizeram com a aparência mais velha. Meu filho tinha 3 anos de idade, e era muito amado por meus pais. Eles que escolheram as roupas da pintura, suas cores e desenharam penteados para mim e minha mãe. Para mim é muito importante ter o quadro, pois sinto muitas saudades dos meus pais o vendo.

O depoimento de Maria revela algumas características da técnica e do trabalho do retratista. Ele era um trabalhador informal, que passava de casa em casa oferecendo seu serviço. Ao entregar a foto para ele, que poderia ser o único registro familiar existente, mostra-se uma relação de confiança entre o comprador e o vendedor. A pedido dos retratados, eram corrigidas imperfeições físicas como a calvície, cicatrizes, se dava uma aparência mais jovem ou mais velha; e também eram adicionados elementos que não existiam na foto, como roupas formais, joias e até paisagens. Os retratistas tinham certa autonomia ao escolher as roupas e fazer os penteados, possivelmente um padrão que levava em conta a moda da época.

A incorporação de objetos e roupas de valor revela um desejo de se projetar para as futuras gerações, em forma de registro, aparentando certa distinção social. A moldura trabalhada em tons dourados com desenhos de inspiração clássica, e a proteção da pintura por uma tela de vidro temperado, reforçam a ideia de distinção e enobrecimento de uma família de classe média de um subúrbio de Manaus. Para uma família, um grupo de posses, os objetos biográficos podem ter significados que vão além do campo sentimental, tornando-se objetos de status. Sobre esse significado, Bosi (2005, p. 8) faz algumas considerações sobre os usos destes objetos por parte de pessoas de classes mais altas:

A foto daquele mesmo parente poderia ter sido colocada com o espírito de quem faz uma exposição que interessa o olhar do outro – o olhar social. Por essa visada a foto sobre o móvel carece de uma aura afetiva própria e ganha outra aura, a do status, onde estão embutidos valores de distinção, superioridade, competição, na medida em que o morto foi uma pessoa importante, logo dotada de valor de troca.

Percebe-se que, para um burguês, ou, no contexto da análise da fotopintura, um grupo da classe média urbana do final dos anos 1960, o objeto biográfico não se fecha na esfera da afetividade, do sentimento de intimidade familiar, mas torna-se um mecanismo de reprodução de sua posição na sociedade. Mas essa era uma família simples e, para a entrevistada, a única filha do casal, o quadro tem um valor que pende apenas para o sentimento de saudade, pois é um dos poucos registros dos pais já falecidos. A ideia de reprodução de status pode ter se perdido com o tempo, ficando apenas o respeito e a memória dos que já partiram. A memória pode ser entendida, segundo Suzzari (1986, p. 27) como “uma representação do passado ou uma continuidade dele”, sendo que nós somos seletivos com ela, escolhendo o que deve ser esquecido e o que deve ser lembrado, partindo sempre de nossas necessidades do presente.

O Retrato e os retratados

Os retratados na fotopintura de 1969 são: Do lado direito, Zacarias Rodrigues Vieira (1922-1995); no centro, Leomar Rodrigues (n. 1966); do lado esquerdo, Maria Raimunda Rodrigues Vieira (1928-2008); e no topo, Maria Hortência Rodrigues Vieira (n. 1951). O retrato tem formato oval, para caber todas as figuras, com a moldura, já desgastada com o tempo, em cor dourada e feita em gesso, com desenhos florais e detalhes de inspiração clássica. As figuras dominantes são Zacarias e Maria Raimunda, pai e mãe de Maria Hortência e avós de Leomar.

A frontalidade das personagens, que parece ser recorrente em todos os quadros, passa a sensação de respeito e imponência. Todos estão sérios. Era comum, no passado, tornar especial o ato de tirar fotos. A família não poderia desperdiçar essa oportunidade, um ato simbólico de registrar um momento, com inúmeras tentativas. Na fotopintura o artista mantinha os semblantes de seus clientes dessa forma. Quanto às figuras femininas, os pintores lhes representavam com penteados elegantes e roupas simples em tonalidades claras, dando-lhes um ar de recato, exigência de épocas passadas. Maria, que teve um filho aos 15 anos, foi retratada com uma aparência mais velha, o que, apenas em nível de especulação, pode ter sido feito para caracterizá-la como uma mãe experiente, zelosa pelo filho. Zacarias e Leomar usam terno e gravata, padrão para os homens. O pintor escolheu como cor de fundo o verde-claro, cor leve.

A fotografia original que foi entregue para o pintor reproduzi-la em cores já não existe mais. A pintura é apenas uma vaga representação do que ela foi um dia. O filho de Maria, pintando do lado dos avós, reforça o depoimento desta, que disse que ele era bastante amado pelos dois. Esses retratos de época também revelam a composição étnica de determinada época: Zacarias tinha origem portuguesa, Maria Raimunda descendia de indígenas e cearenses. Maria e Leomar herdaram os traços de uma típica família cabocla. Futuras pesquisas elucidarão as origens dos pintores, de seus locais de trabalho e a influência que exerceram na cidade.

1 Entrevista concedida a Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa em 12/12/2016.
2 Entrevista concedida a Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa em 14/12/2016

BIBLIOGRAFIA:

BOSI, Ecléa. Tempos Vivos e Tempos Mortos. São Paulo: SEDUC - SP, 2005.
SUZZARI, François. A Memória. Lisboa: Verbo, 2006.