quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Filme: Aguirre, a Cólera dos Deuses



País: Antiga Alemanha Ocidental
Direção: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Elenco: Klaus Kinski, Helena Rojo, Ruy Guerra e Del Negro
Ano: 1972
Duração: 90 minutos


Aguirre, a Cólera dos Deuses (Aguirre, der Zorn Gottes), é uma das melhores produções do diretor alemão Werner Herzog, contando com a magistral atuação do também alemão Klaus Kinski no papel de Don Lope de Aguirre (1510-1561), el tirano, el loco, conquistador espanhol do século XVI.

O filme, um drama histórico, retrata, com algumas alterações significativas, os desdobramentos da Expedição de Pedro de Ursúa e Lope de Aguirre (1560-1561), dois conquistadores que, após notícias dos sobreviventes da expedição de Orellana, reavivaram a crença da existência das ricas províncias de Omágua e El Dorado. Os cenários, entre o Peru e o Rio Amazonas, dão o tom de naturalidade ao filme, com vários enquadramentos que captam o enfrentamento entre homens europeus de valores cristãos medievais e a natureza selvagem, desconhecida e indomável, habitada por povos igualmente desconhecidos.

Klaus Kinski conseguiu transpor nessa obra a personalidade de Lope de Aguirre, marcante na historiografia da conquista da América: louco, sádico, disposto a tudo para liderar a expedição e alcançar os mais altos postos na Coroa Espanhola. Na América, além da busca por ouro e outras pedras preciosas, buscou-se o que dificilmente esses homens encontrariam na metrópole: a ascensão social. Uma pequena ou inexistente nobreza, às vezes imaginária, buscava por suas ações na conquista o reconhecimento, um alicerce e inserção no mundo das cortes.

Acreditando que organizaria uma rica colônia, Aguirre ordena aos soldados que o sigam numa rebelião contra a Coroa Espanhola, assassinando quem não concordasse. Auxiliomar Silva Ugarte afirma que, na segunda etapa da expedição, ela [...] "mergulharia em sangue, pois Lope de Aguirre, utilizando-se de todos os meios de que dispunha, eliminando opositores reais ou imaginários, pôs fim às buscas a Omágua e Dorado e deu início a uma das mais sangrentas rebeliões do período" (UGARTE, 2003, p. 26). Aguirre (Klaus Kinski) usa uma das melhores armas no processo de conquista após os instrumentos bélicos: a imposição psicológica, que vai criando temores tanto entre os tripulantes de sua expedição quanto entre os nativos que vão sendo encontrados ao longo dos rios.

Apesar de a expedição retratada incluir personagens históricos que não faziam parte dela, e de apresentar um desfecho idealizado por Aguirre, o filme consegue exemplificar as relações de poder e os modos de agir característicos do processo de Conquista da América Espanhola, lembrando la espada, la cruz e la hambre que iam dizimando a família selvagem, como bem escreveu Pablo Neruda. Devidamente contextualizado, partindo de um elemento micro (a expedição) para um elemento macro (o processo de conquista entre os séculos XVI e XVII), é um filme vale a pena ser assistido e analisado, do ponto de vista dos mecanismos e mentalidades da Conquista Colonial.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

UGARTE, Auxiliomar Silva. Margens Míticas: a Amazônia no Imaginário Europeu do século XVI. In:  DEL PRIORI, Mary; GOMES, Flávio dos Santos (org). In: Os Senhores dos Rios: Amazônia, Margens e Histórias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.


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maumiranda.wixsite.com

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

História da Criminalidade: O Caso Jairzinho


A atual Paróquia do bairro de São Francisco.

Esse é um daqueles casos cujos desdobramentos se arrastam por anos e, de forma abrupta, desaparecem dos noticiários. Como o assassinato de uma rica família, dona de uma transportadora, desaparece tão rápido dos grandes jornais da capital? O Caso Jairzinho, diferente dos casos do Monstro da Colina ou do Morto-vivo do Morro da Liberdade, tem uma construção narrativa mais difícil, pois até hoje, de acordo com aqueles que foram contemporâneos ao crime, teve uma conclusão ainda envolta de incertezas.

Bairro de São Francisco, 28 de dezembro de 1991. O natal já tinha passado, e esperava-se o ano novo. Mal sabiam os moradores daquele bairro que o início do novo ano seria macabro: No dia 01 de janeiro de 1992, o corpo de Jair de Figueiredo Guimarães, o ‘Jairzinho’, uma criança de oito anos, era encontrado em uma cova rasa nas proximidades do pátio da Igreja de São Francisco. Esse crime juntava-se a outros infanticídios registrados naquela última década, deixando a população do bairro de São Francisco em alerta. Manoel Brandão Neto (32), antigo morador do bairro, lembra que os “avós, pais e demais responsáveis não deixavam que se brincasse no local onde o corpo foi achado”. Os adultos, ainda de acordo com esse depoente, diziam para as crianças que aquela situação era como na novela Carrossel, uma fantasia, de forma para minimizar o terror que passou a reinar naquele local.

Marizete Brandão, moradora do bairro há 50 anos, lembra desse dia:

lembro como se fosse hoje, dia 31 de dezembro. Passei na rua ao lado por volta de 13.00 hrs, era um mal cheiro horrível. Falei para meu marido que parecia carniça. Dia primeiro foi o maior alvoroço, tinham achado o corpo. O pavor era tão grande que minha filha não quis mais ir para a igreja. Mães já não deixavam seus filhos brincarem na rua”.

Após as análises do perito da Universidade de Campinas, o médico Nelson Mansini, o mesmo que realizou a perícia do assassinato de Chico Mendes, foi constatado que Jair de Figueiredo Guimarães foi morto estrangulado pelo método do torniquete, processo bastante utilizado para estancar hemorragias. Antes, um dos suspeitos afirmara que matou a criança com um forte golpe na cabeça. Outras pessoas, como Sullivan Nascimento, afirmavam que o garoto fora estuprado e teve o órgão genital cortado, e que seu assassino jogou soda cáustica ou ácido para disfarçar o odor do cadáver. Foi “um dia sinistro”, conta Anderson P. de Souza. Ainda de acordo com a perícia, no dia em que o corpo foi encontrado já haviam se passado 11 ou 12 dias do assassinato.

OS SUSPEITOS

No Jornal do Comércio de 07 de fevereiro de 1992, a principal manchete informava que 'o suspeito do crime está preso'. Era o lanterneiro Afrânio Cardoso de Moraes, de 19 anos. Ele foi preso em uma blitz de rua após ter comentado com um colega de cela que tinha sido o autor do golpe que matou Jairzinho. Levado à Delegacia, confessou que cometeu o crime a mando de Frei Silvestre, da paróquia daquele bairro.

Afrânio disse que, passando em frente a Igreja de São Francisco, foi chamado pelo Frei que perguntou se este não queria ganhar algum dinheiro. Perguntando qual era o serviço, ouviu do religioso que era para pegar um garoto que estava jogando bola e levá-lo para os fundos da Igreja. Afrânio afirmou que, quando recebeu aquele pedido, estava embriagado, aceitando-o sem qualquer objeção. Chegando ao local, disse que o Frei disse o seguinte para a criança: “Eu não disse que você estava me devendo uma”? Jairzinho disse que não sabia de nada. Foi nesse momento que Frei Silvestre ordenou que Afrânio golpeasse o menor. O lanterneiro disse que não bateu com força, saindo correndo da cena do crime. Soube dias depois que Jairzinho tinha morrido. Ao delegado, dizia-se arrependido, e que não tinha intenção de matar.

O possível envolvimento de um membro do clero causou grande reboliço nas lideranças católicas da cidade, com o monsenhor da capital afirmando que “há alguém por trás fazendo com que a Igreja Católica seja desacreditada”. O Arcebispo Metropolitano de Manaus não quis se pronunciar a respeito do caso. Dias após essa matéria, a Arquidiocese de Manaus, O Centro de Defesa dos Direitos Humanos da CNBB Norte I e outras entidades da Igreja Católica se manifestaram sobre os rumos que as investigações estavam tomando. Para esses grupos, elas atingiram “pessoas e instituições, causaram prejuízos morais, retardando a elucidação do crime e confundindo a opinião pública”. Afirmavam também que estavam sendo forjados suspeitos e culpados.

Também foi investigado um senhor dono de um mercado próximo ao local do crime, mas contra ele nada foi comprovado. Era inocente.

Em 29 de dezembro de 1994, um dia após os três anos do assassinato de Jairzinho, mais um suspeito era investigado: Jair de Figueiredo Guimarães, técnico em eletrônica, morador da rua Valério Botelho de Andrade, em frente a Igreja. Quem ele era? O pai da criança assassinada. Nesse mesmo dia, os moradores do bairro protestavam em frente a sua casa, fixando faixas e cartazes pedindo justiça. 

Jair Guimarães, negando a todo momento o crime, teve decretada a prisão preventiva, sendo levado para a Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa. Mas como se chegou a mais esse suspeito? O frei Silvestre foi ouvido pela Polícia, sendo constatado que nada havia contra ele. O que levou Jair Guimarães à prisão foi a existência de uma carta na qual o pai da criança pedia uma grande soma de dinheiro para sequestrar o próprio filho. Desconfiado, o titular da Delegacia Especializada de Homicídios e Sequestros solicitou um exame grafológico, no qual foi confirmado que aquela carta fora escrita pelo pai de Jairzinho. Dessa forma, o representante do Ministério Público do 1° Tribunal do Júri Popular, ao denunciar Jair Guimarães, enquadrou-o nas sanções de homicídio qualificado com o agravante da ocultação de cadáver. Antigos afirmavam que ele era alcoólatra e viciado em drogas. Em 1995, o Promotor João Bosco Valente, reviu o caso, pensando seriamente em pedir o arquivamento do processo pela confusão e falta de provas. Uma pessoa, que não quis se identificar, afirma que, anos depois, ouviu por uma rádio que uma pessoa tinha se entregado, afirmando ter matado a criança porque seu pai lhe devia dinheiro. 

Falta de paciência de um Frei, por causa das brincadeiras de uma criança? As ações de um comerciante, com motivações ainda não esclarecidas? Um pai em um momento de descontrole? Acerto de contas? Quem, de fato, matou Jairzinho naquele final de ano de 1991? Essa é uma de várias perguntas cujas respostas nem o tempo foi capaz de dar…

FONTES: 

Jornal do Comércio, 07 de fevereiro de 1992
Jornal do Comércio, 29 de dezembro de 1994
Jornal do Comércio, 29 de abril de 1995

DEPOIMENTOS:

Manoel Brandão, 18/06/17
Marizete Brandão, 18/06/17
Anderson P. de Souza, 18/06/17
Sullivan Nascimento, 18/06/17


CRÉDITO DA IMAGEM:

Rederiomar.com.br

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Manaus das Catraias

O texto a seguir foi publicado entre 23 e 24 de outubro de 2005 no Jornal do Comércio pelo escritor, artista plástico e imortal da Academia Amazonense de Letras Moacir Andrade (1927-2016), por ocasião do aniversário da cidade. Em Manaus das Catraias, Moacir Andrade, através de pesquisas e de memórias que vão da década de 1940 até 1980, tece um breve histórico desse antigo meio de transporte que por séculos fez parte do cotidiano da cidade.

Moacir Andrade


Passageiros em uma catraia. Foto de 1964.

Dois grandes igarapés cortam a cidade no sentido norte sul; o igarapé de São Raimundo, que separa aquele populoso bairro por uma largura de aproximadamente duzentos metros, próximo a sua foz, segundo, o igarapé de Educandos que tem três tributários, o da primeira ponte, também conhecido como igarapé de Manaus, cuja nascente despontava nas proximidades da rua Tarumã e desembocava ao lado do Palácio Rio Negro, no chamado de igarapé da segunda ponte, teve o seu curso interrompido várias vezes, ao longo de seu comprimento por aterros executados pela Prefeitura de Manaus, para dar lugar ao procedimento das ruas Apurinã, Tarumã, Leonardo Malcher, cujo trecho se chamava "Buraco do Pinto", Ramos Ferreira, avenida Ipixuna e finalmente a avenida 7 de Setembro, por onde desliza sob uma ponte de pedra em estilo romano. A segunda a partir da sua foz, no entroncamento com os igarapés da segunda ponte, também denominado de igarapé da rua Jonathas Pedrosa, e o igarapé da Cachoeirinha, o trecho até a sua confluência com o Rio Negro, que era livre de pontes ou aterros, daí, a necessidade dos catraieiros. A palavra catraia é de origem portuguesa e veio para Manaus, com os primeiros navios a vela que aportaram aqui, com a abertura dos nossos portos para o mundo. Originalmente a catraia era um pequeno barco a vela que servia os transportes fluviais em Portugal e colônias. Possuía um mastro central com velas de painel em um mastro e outro mastro na popa para vela catita, onde se içava também a bujarrona.

O uso efetivo da catraia tornou-se necessidade imperiosa a partir da grande e permanente afluência de navios estrangeiros que mensalmente aportavam as águas das nossas praias fronteiras no fim do século passado, para transportar borracha, castanha e madeira, couro e óleos vegetais produzidos no chamado ciclo áureo da borracha.

Aí por volta de 1885 não havia ancoradouro, nem muros de arrimo, de cais flutuantes, e os navios que chegavam a Manaus para receber a borracha baixavam a âncora muito distante das praias livres que contornavam a margem esquerda do Rio Negro em toda sua extensão desde o igarapé dos Educandos até São Raimundo.

No princípio do século , todos ou quase todos os catraieiros eram portugueses da província da Póvoa de Varzim, de onde trouxeram esse tipo característico de veículos e se aglomeravam na antiga praia da Imperatriz, em frente a Igreja da Matriz, onde hoje está construído o cais flutuante da Portobras, antiga Manáos Harbour. Naquela época as catraias eram de extrema necessidade, pois os passageiros e cargas só poderiam desembarcar através desses veículos fluviais que eram pequenos barcos com aproximadamente 8 metros de comprimento, dotados de um banco inteiriço de mais ou menos 35 centímetros de largura em volta do barco, onde os passageiros se acomodavam sentados. A popa era adornada com uma placa de madeira, de forma semi-circular, onde estavam escritos os nomes das pequenas embarcações, geralmente de origem portuguesa, talvez como recordação da terra distante. Todos os barcos portavam uma bandeirinha com nome do proprietário ou da entidade que servia, eram pintados de cores múltiplas lembrando barcos que singram o rio Tejo, ou barcos pesqueiros das praias de Póvoa de Varzim e Nazaré em Portugal. As catraias originais ficavam esperando os seus eventuais fregueses ao longo da praia fronteiriça à Igreja da Matriz até o aterrado igarapé do Espírito Santo, exatamente no trecho onde ancoravam os navios que aqui aportavam. Com a construção do muro de arrimo e também do lado da ponte do igarapé em que o povo chegava rente as catraias, e do cais flutuante, pela antiga Manáos Harbour, as catraias se aglomeravam ao longo do trecho do cais que liga a parte que recebe os grandes navios e o continente. Aí se podiam ver as pequeninas e policrômicas embarcações balouçarem ao sabor das ondas do Rio Negro, num bonito espetáculo de balé aquático.

Seus tripulantes e proprietários, todos portugueses, usavam camisa de mangas compridas e geralmente quadriculadas, à moda dos pescadores de Póvoa de Varzim, com a cabeça sempre coberta com um boné de lã portuguesa. A construção do moderno cais pelos ingleses determinou a extinção dos catraieiros, porque já não necessitavam mais desse pequeno barco que tanto e inestimáveis serviços prestaram ao Amazonas e ao Brasil, no tempo em que no Amazonas se "amarrava cachorro com linguiça" e se "acendia charuto com nota de 100.000 réis". Eu mesmo cheguei a conhecer muitos portugueses que trabalharam nesse meio de transporte no ano de 1946, entre eles: Maravalhas Campos, Aurélio e Milhases, alguns já na quarta geração trabalhando no mesmo serviço, o Maravalhas e o Campos, só que agora a prestação de serviços é feita somente para firmas como Abraham Pazuello, Isaac Benzecry Serfaty, Sefair J. A. Leite, JG Araújo, J. S. Amorim, Abrahim & Irmãos e Booth Line, entre outras. Os remanescentes dos antigos barcos são: "Luz do dia", "Sempre Federal", "União", "Maravalhas", "Campos", "Aurélio", "Portugal", "Brasil", entre outros que continuam levando e trazendo trabalhadores para o serviço de estivas em navios ancorados e onde é feito o serviço de escolha e seleção de castanha para embarque.

Outro tipo de serviço de catraia que agora está se extinguindo, é o feito diariamente nos igarapés de São Raimundo e Educandos, trazendo principalmente trabalhadores para o Centro da cidade, e do Centro da cidade para os referidos bairros. Muita gente pensava que com a construção da ponte de São Raimundo que liga a cidade ao bairro de Santo Antônio através da avenida Leopoldo Neves, o serviço de catraia iria desaparecer, o que não aconteceu, embora tenha diminuído muito com a quantidade de pessoas que se deslocam utilizando esse tipo de transporte. No bairro de São Raimundo o serviço de catraia é ininterrupto, se desloca da rua 5 de Setembro sobre o igarapé de mesmo nome até a rua Doutro Aprígio do lado norte da serraria Hore. Os catraieiros se revezam trabalhando 24 horas por dia numa escala determinada por portaria da Capitania dos Portos do Amazonas, Acre e territórios federais de Rondônia e Roraima.

No bairro de Educandos, embora a Prefeitura Municipal de Manaus tenha construído recentemente uma ponte de concreto armado sobre o referido igarapé, ligando a rua Quintino Bocaiuva, no Centro de Manaus, ao bairro de Educandos, o serviço de catraia continua da Manoel Urbano até a rua dos Andradas ao lado da cidade, também nas mesmas condições, isto é, revezando-se ininterruptamente de acordo coma determinação da Capitania dos Portos.

O pagamento de cada passagem custa um terço do preço da passagem de ônibus, a razão por que da escolha do grande público que prefere se transportar em catraia ao utilizar o serviço de ônibus, três vezes mais caro, principalmente para os que moram nas proximidades dos igarapés de Educandos e São Raimundo.


FONTE:

ANDRADE, Moacir. Manaus das Catraias. Manaus, Jornal do Comércio, 23 e 24 de outubro de 2005.

CRÉDITO DA IMAGEM:

Instituto Durango Duarte

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

I Semana de História da Universidade do Amazonas (1986)


Recupero, a seguir, algumas matérias publicadas no Jornal do Comércio entre 19/08/86 a  06/09/1986 por ocasião da realização da I Semana de História da Universidade do Amazonas (01/09/86), evento que teve grande repercussão na cidade pela quantidade de participantes, mais de 200 professores das redes estadual e municipal, e também pelo tema: Como Ensinar História.


PROGRAMAÇÃO COMPLETA:

1° Dia: Sessão solene de abertura, às 08 horas, seguida da elaboração de diagnósticos sobre a realidade do ensino de História no Amazonas. Às 15 horas, abertura de uma sessão plenária com apresentação e discussão dos relatórios por unidade educacional.

2° Dia: Curso de Metodologia da História, com as professoras Patrícia Alves de Melo, Regina Celestino de Almeida e professor Hideraldo Lima da Costa. Curso "A Questão do Ensino de História" ministrado pelo professor Geraldo Sá Peixoto Pinheiro. Curso de História do Amazonas ministrado pelo professor Ribamar Bessa Freire. A partir das 10 horas, mesa redonda sobre a "Visão da História" com representantes da Seduc, Semec, IGHA, Biblioteca Pública, Arquivo Público, Cedeam, Museu do Homem do Norte, Museu do Porto e Museu Tiradentes, tendo como debatedores a professora Vânia Tadros e o professor Luís Balkar Peixoto. Às 15 horas, apresentação do filme "No Paiz das Amazonas", com comentários da professora Selda Valle.

3° Dia: Mesa redonda "A Regionalização do Ensino", com participação dos representantes da Seduc e da Semec, além do professor Francisco Jorge. Os debatedores serão a professora Patrícia Alves de Melo e o professor Geraldo de Sá Peixoto. Às 15 horas, mesa redonda "Os Currículos de 1° e 2° graus", com representantes da Seduc e da Semec.

4° Dia: Às 08 horas o tema "A Formação do Operariado no Amazonas 1890-1920" será exposto pelo professor Ribamar Bessa Freire, seguido da exposição, pelo mesmo professor, do tema "O que mudou no Amazonas com a Criação da Província".

5° Dia: Debate com o tema "Recuperação da Memória: Levantamento de Fontes Primárias para a História dos Municípios do Amazonas", com participação dos professores Geraldo Sá Peixoto, Francisco Jorge dos Santos e Sínval Carlos Mello Gonçalves.

Mais importante do que fazer parte ou interferir na História do seu Estado, País, ou região, é dar condições às pessoas de entenderem o processo histórico a que estão submetidas. Mais ou menos nesse sentido é que se pautou as discussões da I Semana de História promovida pela Universidade do Amazonas, cujo objetivo principal foi justamente reformular a metodologia do ensino, de 1° a 3° graus, da disciplina História. Nesse encontro, que terminou ontem, foram postos em evidência os principais problemas no desenvolvimento desta disciplina no Estado: falta de documentação e o incentivo à pesquisa.


COMO ENSINAR HISTÓRIA

Mudar, de certo modo, a visão “tendenciosa” que os professores de História vinham dando ao ensino da matéria e fazer com que muita coisa mude nesse sentido, foram os pontos principais das discussões que envolveram a I Semana de História

Da equipe do JC

Numa promoção do Departamento de História da UA-ANPUH (Associação Nacional dos Professores Universitários de História), dirigida a todos os professores da rede Estadual que buscam o aprimoramento de seus conhecimentos e desenvolver, a partir daí, uma nova metodologia do ensino dentro dessa área terminou ontem a I Semana de História.

Vários professores, entre eles o professor Ribamar Bessa (chefe do Departamento), a professora Vânia Novoa Tadros (coordenadora de extensão), a professora Selda Valle da Costa (FUA), e muitos outros representantes desta área de ensino no Amazonas, organizaram a Semana, de forma que pudessem ser discutidos os problemas do ensino e fossem feitas reciclagens através de três cursos: Metodologia da História, A Questão do Ensino da História e História da Amazônia. E, através dos cursos de extensão, tentar levar à comunidade aquilo que é feito dentro da universidade. Os trabalhos iniciaram com a colocação de todos os problemas enfrentados pelos professores das unidades educacionais, abrindo-se uma discussão em torno deles, tentando formular um diagnóstico sobre a realidade do ensino de História no Amazonas.

Essa tentativa de mudança se dá pelo fato de que a visão que um aluno de 1° e 2° graus tem da História é muito complexa. Decorar apenas datas e nomes não fará com que ele entenda os fatos de maneira compreensiva e clara ao ponto de conseguir se situar em qualquer época, num determinado momento histórico. Como explica a professora Vânia Tadros, é necessário mostrar ao aluno o outro lado dessa realidade, porque essa disciplina, por ser muito complexa, chega a ser um tanto “tendenciosa”, encaminhando os fatos apenas num sentido, quando na verdade existe uma série de episódios que devem ser mostrados porque através deles a compreensão pode ser ainda maior.

Por isso, foi feita uma mesa redonda para se debater “A Visão da História”, tendo como expositores representantes da Seduc, Semec, IGHA, Biblioteca Pública, Arquivo Público, Cedeam/UA, Museu do Homem do Norte, Museu do Porto e do Museu Tiradentes. Logo após foi mostrado um filme sobre a Amazônia na época da borracha, intitulado “No Paiz das Amazonas” (de Silvino Santos), apresentado e comentado pela professora Selda Valle. O filme foi feito em 1920 a 1922 por um contrato firmado pela firma JG com o cineasta Silvino Santos para retratar tudo o que estava acontecendo naquela época da decadência. “A firma JG, naqueles tempos, era muito poderosa, e foi uma das poucas que conseguiram superar esse período por ter conseguido diversificar sua economia. Não só se dedicando ao cultivo da borracha, mas utilizando o comércio da castanha, as padarias e o extrativismo como outras formas de renda. E isso lhe deu condições de comandar todo esse setor dentro da Amazônia. Esse filme foi mostrado também em Paris e Nova York, na tentativa de resgatar todo o poderio da borracha”, explicou a professora Vânia.


DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA

A falta de documentação suficiente que venha a servir como fontes de pesquisa é um dos principais problemas enfrentados pelos professores. E com a utilização deste filme a Semana de História tomou um novo rumo e Vânia explica porquê: “A imagem como objeto de estudo para o pesquisador ligado à área de Ciências Sociais, serviu para refletir as condições da sociedade naquela época, facilitando uma análise e debates sobre a questão. É um estudo que serve não somente para esse encontro, mas para qualquer filme que venham a assistir”.

O problema da falta de documentação suficiente para pesquisas é um problema relativo e o bibliotecário especializado em obras raras, Geraldo Xavier, explicou que em Manaus existe muito pouco interesse na conservação das coisas antigas, tudo que é considerado velho é jogado fora. No incêndio que houve na Biblioteca Pública em 45, muitos documentos foram perdidos, apenas alguma coisa foi salva. “Mas são documentos que poucas pessoas sabem de sua existência apesar das listas que são enviadas para os órgãos de ensino, principalmente às Universidades. Mesmo assim, não existe um interesse muito grande por parte dessas pessoas no sentido de procurar as fontes. É um trabalho que requer tempo e paciência o que geralmente é muito difícil”, destacou Geraldo.

Na Semana foi muito discutido também a falta de apoio e incentivo à pesquisa, reclamado pelos professores, que acham que só agora, com a nova direção de Roberto Vieira, esse apoio começou a ser dado; antes eles consideravam extremamente reprimida. “Às vezes é necessário buscar informações em outros lugares como Amsterdã, Paris e isso leva tempo e dinheiro, dificultando ainda mais as coisas. Um documento só não faz a História. Dele deve se iniciar um trabalho no sentido de tentar facilitar a sua compreensão. E trabalhar esse documento em cima de uma linha metodológica e teórica, não é fácil. Com um filme adquire-se uma forma de provar aquilo que se está falando. A imagem nesses momentos é muito importante”, ressaltou Vânia Tadros.

Quando se desenvolve uma pesquisa, vai-se encontrando ao longo dela muitos furos que devem ser preenchidos, já que se busca a verdade. Não se pode pegar um documento e acreditar em tudo que está contido. Deve-se buscar principalmente o outro lado da versão. “Nosso trabalho é um trabalho acadêmico, não é o fato de apenas tentar provar alguma coisa, só por ter levantado a questão. Acaba-se chegando à conclusão de que o erro dentro da hipótese é muito relativo. Não se pesquisa para se provar uma hipótese, mas para se procurar uma aproximação da verdade”, explicou Vânia.

A Semana, enfim, foi considerada muito importante para todos os participantes, principalmente no que se refere ao aprimoramento da metodologia, como destacou uma professora: “Na tentativa de passar os fatos históricos de uma forma muito mais dinâmica e atual”.


FONTES:

Jornal do Comércio, 19/08/1986
Jornal do Comércio, 02/09/1986
Jornal do Comércio, 06/09/1986

 

São Raimundo: Um bairro rodeado de beleza e muitas histórias

Por Elza Souza

Vista parcial do bairro de São Raimundo. Foto de 1960.

O registro da história de São Raimundo, zona oeste da cidade de Manaus, começa em 1849 quando foi feita a doação das terras ao Seminário São José. Por ali já havia alguns moradores vindos do Nordeste. E foram chegando cada vez mais. No lugar, uma pequena colina quase toda cercada pelo rio Negro, azulado às vezes, havia uma densa floresta com grandes árvores frutíferas, palmeiras e olhos d’água pra todo lado onde se formaram as cacimbas usadas pela população. Era a época das epidemias e, portanto, o governo fez daquele lugar “distante” do berço da cidade, um isolamento de doentes que por lá eram enterrados.

Em 1879 o conhecido e atuante padre amazonense Raimundo Amâncio de Miranda, nascido em Maués, que prestava seus serviços na igreja dos Remédios, começou os trabalhos religiosos no bairro trazendo a primeira imagem de São Raimundo Nonato. O padre emprestava os paramentos para as celebrações da Matriz e durante um ano organizou a igreja e orientou os moradores para o prosseguimento das atividades após sua saída. No topo da colina ficava o hospital e depois a igreja que iniciou num pequeno depósito de ferramentas onde hoje é mais ou menos a sacristia. A imagem resistiu até a época do padre Carlos Flhur, anos 1930. Depois sumiu tirando da História importante registro do bairro.

Entre 1892 e 1896 Eduardo Ribeiro, atento as necessidades urbanas, “enxergou” o bairro, que sempre foi esnobado por todos, autoridades e moradores do outro lado do rio, até então área nobre da cidade. No máximo ali se via uma aldeia. Mas que lugar lindo era aquela colina com uma imensidão de rio ao redor, com aquela praia, com aquelas árvores frondosas? Dizem que do alto daqueles barrancos o Ajuricaba, líder indígena dos Manáos, observava a passagem de seus opositores. Em 1928, Raimundo de Menezes, em seu livro Nas Ribas do Rio Mar, descreve o passeio que fez na cidade e cachoeira do Tarumã com o médico Araújo Lima e Raimundo Moraes: “Ao longe surgiu o bairro de São Raimundo, refletindo-se na água de um igarapé. É o subúrbio dos operários. Arruados enormes de casas. Uma capela. Um grupo escolar. Iluminação elétrica. Do outro lado a cidade imensa com o seu casario a rebrilhar ao sol. Bem pertinho o edifício enorme da fábrica de cerveja com os seus oito andares. Em São Raimundo está a estação rádio telegráfica do Estado...”

O bairro mudou muito. A floresta se reduziu a quintais que hoje não existem mais. As ruas e becos por onde a gente se perdia nas brincadeiras entre as árvores, estão asfaltadas e movimentadas e não são mais lugar pra criança brincar. A praia infinitamente bela que cercava toda a colina, foi aterrada, virou orla. As palafitas foram retiradas, alguns flutuantes teimam em ficar com negócios que não se sabe exatamente quais. As pedras jacaré que enfeitavam a área, no meu olhar, e serviam fragmentadas para as brincadeiras de “pedrinhas”, foram arrancadas dos barrancos. Como as árvores. O que vai evitar a queda das terras altas se retiraram a proteção natural que de fato seguravam os barrancos? Vão surgindo indagações para as quais não temos resposta. Uma coisa ninguém tira daquela colina. Foi o mirante do Ajuricaba e é o ponto de observação dos cenários mais lindos de Manaus. No fim do passeio do escritor Menezes, ele anotou que “o sol morria, num crepúsculo ensanguentado, a beijar docemente, suavemente, a linda cidade dos sorrisos”. Pois é.

Do alto da colina dá para apreciar o nascer e o pôr do sol e seus reflexos inebriando o rio e o igarapé que ali se juntam e formam paisagens que só os moradores têm o privilégio de ver e clicar a melhor foto. Se olharem para o além-rio e não para seu próprio umbigo. Os muros da Compensa (que já fez parte do velho São Raimundo) impedem qualquer olhar de afeto para o Negro e seus reflexos. Daquelas beiradas se observa a cidade, de longe uma beleza. De perto a cervejaria do outro lado e a Vila Aprígio estão decadentes como qualquer prédio que remonte a nossa história. Não tem mais praia. A festejada orla não tem dono. O projeto de governo que pintou e bordou por lá aterrando nascentes e histórias, calou perante o serviço mal feito. Mas o bairro continua lindo. Encolheu. As terras foram divididas em outras comunidades. Compensa, Santo Antônio, Glória. O povo foi bem-educado pelos padres e a partir dos anos de 1950 com as freiras que se esforçaram por deixar um conteúdo não só religioso, mas cultural e de boas maneiras. Rio e colina ninguém separa. E a igreja do alto ninguém derruba.

Nada, porém foi capaz de evitar o avanço das drogas que corrompeu mentes e corações de parte da juventude local que antes se envolvia com grupos de convivência, com teatro, com esportes, com música (coral, serenata, bailes). A luta continua para preservar o que restou. A igreja católica faz a sua parte junto com a maioria dos moradores, mas o mundo mudou, o bairro mudou, as pessoas mudam. A esperança continua inabalável. A união de todos vai fazer do São Raimundo, aquele lugar da minha infância onde o sorriso era constante e as portas não tinham grades, onde o violão vivia embaixo dos braços dos jovens para encantar as namoradas, um bairro de paz, de amor, de infinita beleza. Deus o criou assim. Vamos manter isso. E viva o Bairro de São Raimundo que está em festa com quase 168 anos.


Elza Maria Pereira Souza é Jornalista formada pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), com vários cursos na área de produção de rádio, Televisão e roteiro para cinemas. É autora dos livros São Raimundo: Do "alto" da minha colina - sem os bucheiros o bairro de São Raimundo perdeu o encantamento, publicado em 2008; Moacyr de todas as cores, 2010, e Palafitas, 2016.










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Instituto Durango Duarte


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O Pensamento Político de Frei Bartolomé de Las Casas

Frei Bartolomé de Las Casas (1474-1566), Bispo de Chiapas, México.

Bartolomé de Las Casas (1474-1566) foi um frade dominicano espanhol que atuou na América durante o processo de conquista, no século XVI. Mas, mais que um frade dominicano, Las Casas pode ser considerado, dada a produção, a dimensão e a difusão de suas ideias, um pensador político que atuou tanto em defesa dos nativos americanos quanto na reflexão sobre a diversidade de poderes políticos existentes naquele momento.

Dois mundos entraram em choque quando do “descobrimento” da América. De um lado, uma sociedade unida pelos valores culturais e políticos da cristandade europeia. Do outro, um mundo que apresentava-se como novo, com outros povos e realidades distintas. O impacto foi grande, pois como escreveu o cronista Fernando López de Gómara em sua História Geral das Índias (1552) “a maior coisa depois da criação do mundo, tirando a encarnação e a morte de quem o criou, foi o descobrimento das Índias”. O dominicano Frei Bartolomé de Las Casas, vindo para a América em 1503, aperfeiçoou seu pensamento político, ou teoria política, ao longo da evolução do processo de conquista empreendido pelos espanhóis.

O pensamento político de Las Casas caracteriza-se pela ênfase ao Direito Natural e aos valores cristãos, estes aplicados em defesa dos nativos, bem como à soberania popular e questões sobre a diversidade de poderes e seus papéis. Las Casas, a Espanha, a Europa, faziam parte da Cristandade, esta entendida como uma sociedade global unida por uma mesma religião, por um mesmo Deus e pela tradição escrita da língua latina. O objeto de estudo de Las Casas era a América, terra que ainda estava sendo incorporada a Cristandade. É nessa questão de incorporação da América ao mundo cristão que o frade dominicano começa a expressar seus primeiros questionamentos.

Para Las Casas, a forma como o continente estava sendo incorporado à Cristandade passava por cima de todos os preceitos do Direito Natural e daquela sociedade assentada nas bases cristãs católicas: A Igreja e o príncipe de Castela não tinham domínio sobre as populações americanas enquanto estas, de livre e espontânea, não aceitassem a nova religião e o novo soberano. Em Treinta Proposiciones Muy Jurídicas (1552) ele afirma que

“Todos os reis e senhores naturais, cidades e povos das Índias são obrigados a reconhecer os reis de Castela como universais senhores soberanos e imperadores da maneira dita, depois de terem recebido de sua própria e livre vontade nossa santa fé e o sacro batismo, e se antes que tenham recebido ou não queiram receber, não podem ser por algum juiz ou Justiça punidos” (Las Casas, 1965, vol. 1, p. 483 APUD Bruit, 2003, p. 9).

Já é por demais conhecido que os conquistadores não esperaram a “livre e espontânea” vontade dos nativos. Igreja e Coroa Espanhola passaram por cima das tentativas de uma incorporação mais “democrática” da América. Estava instalada uma crise de valores, pois para Las Casas, as ações violentas dos conquistadores impediram a formação de uma sociedade cristã livre, justa, com respeito à condição humana. Dado esse fracasso, era necessária a elaboração de uma teoria política sobre a sociedade e o Estado. Os primeiros argumentos de Las Casas são religiosos e humanitários, assumindo posteriormente um caráter jurídico-político.

Em Tratado Comprobatorio del Império Soberano e Algunos Princípios que deben servir de punto de partida, ambas de 1553, Las Casas escrevia que a sociedade deveria funcionar em equilíbrio a partir do império da lei, que mediaria as relações entre governantes e governados (LE BRUIT, 2003, p. 7). Para o frade dominicano os fundamentos do Cristianismo rejeitavam a força como instrumento de expansão da fé. O Papa era o senhor espiritual dos cristãos e também dos nativos, mas destes últimos apenas por suas vontades e consentimentos. Por essas ideias sobre os nativos e o Papa que Las Casas travou um acirrado debate, em 1550, com o sacerdote e filósofo Juan Ginés de Sepúlveda (1489-1573). Sepúlveda tinha como base a filosofia aristotélica e defendia que o nativo americano, “por sua bestialidade e inferioridade, marcadas por suas práticas de idolatria, politeísmo, canibalismo, sodomia, incesto e sacrifícios humanos, era escravo natural dos espanhóis” (FIGUEIREDO JÚNIOR, 2011, p. 5). Acusava, também, que Las Casas negava o poder temporal do Papa.

Em contrapartida, Las Casas defendia os nativos afirmando que qualquer nação e povos, possuidores de terras e reinos que habitam desde o início dos tempos, são povos livres que reconhecem apenas a autoridade de seus senhores. Em sua defesa também utilizou o preceito cristão de que todos os homens são criados à imagem e semelhança de Deus e de que somente pela fé, e não pela força, poderiam ser amenizadas e modificadas certas práticas nativas. Ele não negava o poder temporal do Papa, mas defendia veemente que este não poderia usar instrumentos que fossem contra a vontade dos indígenas. Las Casas nunca se questionou sobre a importância do poder espiritual, pois este se originava de Deus, estando acima do poder dos reis de Castela. O poder temporal “aperfeiçoava-se e atingia seu verdadeiro sentido pela aprovação do Papa, mas isto não queria dizer que esse poder tivesse origem no Papa, pois era de direito natural e estava fundado no povo” (BRUIT, 2003, p. 8).

Em outras palavras, quando os nativos aceitassem a fé cristã católica os reis teriam a jurisdição sobre eles. O poder político era uma consequência do espiritual eclesiástico, este último também devendo ser aceito e não imposto aos indígenas. Las Casas, dessa forma, dá luz a uma pluralidade de autoridades políticas. Caso os nativos aceitassem a fé cristã, o monarca espanhol seria o poder central, mas os soberanos nativos teriam autonomia para governar seus reinos, mediante o pagamento de um tributo à Coroa. O poder, para o autor, emanava do povo, e este não era inferior ao do soberano, sendo o segundo determinado pelo primeiro. Em Algunos Princípios ele expressa essa ideia da seguinte forma:

“Vendo os homens que não podiam viver em comum sem um chefe, elegeram por mútuo acordo ou pacto desde o início algum ou alguns para dirigir e governar toda a comunidade e cuidaram principalmente de todo o bem comum […] Somente deste modo, ou seja, por eleição do povo, teve sua origem qualquer domínio justo ou jurídico dos reis sobre os homens em todo o mundo e em todas as nações, domínio que, de outro modo, teria sido injusto e tirânico” (Las Casas, 1965, vol. 2, p. 1245 a 1259 APUD Bruit, 2003, p. 11).

Direito, justiça e lei são os três fundamentos do pensamento de Bartolomé de Las Casas. Para ele reis e imperadores não são senhores soberanos, mas sim administradores dos interesses públicos. O mais importante para que a sociedade funcionasse sem nenhuma arbitrariedade era a soberania popular, a união de vontades do povo, que os encaminharia à liberdade, ao bem-estar e a defesa da propriedade. Antes de um político tomar alguma decisão ou realizar alguma obra, era necessário que este consultasse sua comunidade, que diria se isso beneficiaria ou não a coletividade. O rei não pode “vender a jurisdição, contratá-la ou aliená-la, pois não é dono dela. A jurisdição é do povo. Se o rei a vendesse, cometeria roubo, pois a jurisdição é de direito público” (BRUIT, 2003, p. 17). É obrigação do rei administrar os bens fiscais e patrimoniais, bem como exercer jurisdição e proteção sobre os bens privados, não tendo, no entanto, direito de propriedade sobre eles.

Bartolomé de Las Casas, sem dúvidas, estava a frente de seu tempo, com uma teoria que prezava antes a soberania popular, o direito natural da liberdade e da propriedade dos povos, que o poder real e o eclesiástico. É possível falar que fosse ele um teórico da democracia, dos Direitos Humanos? Para Ruggiero Romano (1972) o “Estado” que se forma nos países da América é fraco, dominado por um número incrível de contradições, de interesses contrastantes que dificilmente chegam a encontrar um equilíbrio. Nesse ponto, é interessante ver o embate entre Las Casas, que defende os interesses da Coroa Espanhola; E Sepúlveda, que defende o interesse dos encomenderos, os particulares. Las Casas vê na ação da Coroa, mediada pela Igreja, ambas aceitas pelos nativos, a única forma de amenizar as relações políticas e sociais na América.


BIBLIOGRAFIA:

BRUIT, Héctor H. Uma utopia democrática do século XVI. São Paulo, Revista Eletrônica da Anphlac, n°03, 2003.

FIGUEIREDO JÚNIOR, Selmo Ribeiro. Valladolid: A polêmica indigenista entre Las Casas e Sepúlveda. Brasília, Revista Filosofia Capital, vol. 6, ed. 12, 2011.

ROMANO, Ruggiero. Os Mecanismos da Conquista Colonial. São Paulo, Editora Perspectiva, 1972. (Coleção Kronos).


CRÉDITO DA IMAGEM:


General Archives of the Indies (commons.wikimedia.org)

sábado, 26 de agosto de 2017

História da Criminalidade: O Monstro da Colina


Há quem pense que falar em crimes antigos é depreciar o passado de uma cidade. Eu, enquanto historiador, não acredito no mito de um passado "ordeiro e glorioso". É uma constante das sociedades humanas idealizar o passado para criticar, por inúmeros fatores, o presente em que vivem. Ao abordar crimes antigos, mais do que analisar o caso em si, trabalha-se com as mentalidades de uma época, da sociedade que presenciou esses acontecimentos, estando esse tipo de estudo ligado à História social, História Cultural e História das Mentalidades. O Caso a seguir aconteceu em Manaus em 1976, marcando inúmeras gerações que dele ouviram falar.



O MONSTRO DA COLINA

No dia 14 de novembro de 1976, o criminoso Wallace Barreto de Oliveira, de 19 anos, assassinou com requintes de crueldade o menor Carlos Andrade de Oliveira, de 14 anos. O crime ocorreu na rua 5 de Setembro, no bairro de São Raimundo.

Rosalvo Reis, no texto Os "monstros" da cidade, publicado em 26 de junho de 1977, afirma que Wallace Barreto, homossexual, estava apaixonado etentava induzir Carlos Andrade de Oliveira ao mundo do crime. Carlos passou a evitar qualquer forma de contato com Wallace. Enfurecido e com ciúmes, este arquitetou sua vingança:

Na madrugada de 14 de novembro, Wallace invadiu a residência de Carlos, invadindo seu quarto. Os pais do menor, no momento, estavam ausentes. Estuprando o menor, Wallace, com uma faca, lhe fez novas propostas. Carlos, novamente, recusou todas. Wallace lhe golpeou mortalmente com uma facada na nuca. Depois, lhe estripou e decepou seu pênis, eliminando o cadáver em uma fossa na parte de trás da casa.

Capturado pelos familiares de sua vítima, passou por um longo processo judicial, com duração de pouco mais de quatro anos, sendo condenado a 23 anos de prisão. Sempre afirmou que não matou o menor, sendo responsáveis pelo crime membros de uma quadrilha de traficantes de drogas, que também vitimou três taxistas, no caso conhecido como "Varadouro da Morte".

Um mês após a condenação, segundo consta no Jornal do Comércio de 29 de julho de 1980, escapou da penitenciária em 28 de julho de 1980, junto de seu companheiro, o arrombador Admilton Silva Pereira, atravessando a Praça 14 de Janeiro. A notícia de sua fuga causou pânico na cidade, com a polícia alertando sobre o grau de periculosidade desse fugitivo.

Wallace foi recapturado em 01 de agosto de 1980, no bairro de Santo Agostinho, junto de seu companheiro e também fugitivo Admilton Silva Pereira. Ambos confessaram à polícia que pagaram agentes penitenciários para terem a fuga facilitada. 

Classificado como "doente" mental, recebeu a liberdade condicional, passando a trabalhar no Tribunal do Júri Popular, de onde empreendeu nova fuga em 1984. Sem dinheiro, passou praticar assaltos, roubando uma máquina de datilografia da SECOM (Secretaria de Comunicação), no Aleixo. Foi recapturado com mais 17 criminosos. Tentou alegar sua doença mental, mas novos exames médicos atestavam se ele um indivíduo são. Em 1985, fugiu outra vez da Penitenciária, formando uma gangue de menores que arrombou o Palácio da Justiça.

Capturado e levado para a Penitenciária Agrícola Anísio Jobim, passou a mostrar bom comportamento, recebendo um indulto do presidente da República no dia 01 de abril de 1985. Foi preso novamente em 1986, acusado de roubo. Já estava com 29 anos. Que fim levou o Monstro da Colina? Parou de ser noticiado em 1986. Se estiver vivo, está hoje com 60 anos. Quem tiver algo a acrescentar sobre o crime, o paradeiro do assassino, outras versões, pode ficar a vontade...


FONTES:

Jornal do Comércio, anos 1976, 1977, 1978, 1979, 1980, 1984, 1985 e 1986.

IMAGEM: 

Wallace Barreto de Oliveira, o Monstro da Colina. Jornal do Comércio, 1976.