quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Catolicismo Popular no Brasil

Imagens de Santo Antônio e São João Batista, santos populares no Brasil.

Esse pequeno texto faz parte do artigo Fragmentos de objetos, costumes e crendices antigas em Manaus, ainda não publicado.

O português e o espanhol trouxeram para a América o catolicismo. Nessa parte do Atlântico essa religião se desenvolveu de forma curiosa: mesclaram-se às raízes da tradição cristã ibérico romana, ainda com fortes traços medievais de influência pagã e maometana, as crenças dos nativos e, mais tarde, dos escravos africanos. Por mais que os conquistadores tentassem suprimir os credos dos outros dois grupos, o sincretismo, lentamente forjado em uma relação nem sempre amistosa de séculos, já havia ocorrido. Surgiu algo novo, outro catolicismo, o popular. Os moradores de povoados, vilas e poucas cidades existentes na América Portuguesa, distantes do centro de poder de Roma, se apegam mais à devoção do que ao sacramento.

O atual Rio de Janeiro um dia foi São Sebastião do Rio de Janeiro. A primeira cidade da colônia foi consagrada ao padroeiro de Lisboa, São Vicente. A fortaleza que deu origem à Manaus foi construída entre 1669-1670, sob a “invocação de Jesus, Maria e José” (MONTEIRO, 1995, p. 25), a Sagrada Família, e ficou conhecida como Fortaleza de São José da Barra. Em 1695, os padres carmelitas constroem uma pequena igreja ao lado do forte, consagrando o templo e a localidade à Nossa Senhora da Conceição. São Sebastião, São Vicente, Sagrada Família, São José da Barra e N. S. da Conceição da Barra, referências e oragos do catolicismo lusitano implantado no litoral e na região amazônica. De acordo com o Banco de Nomes Geográficos do Brasil, do IBGE, uma em cada 9 cidades brasileiras têm nome de santo, sendo 652 dos 5.565 municípios. Os mais citados, por ordem, são: São José (60), São João (54), Santo Antônio (38) e São Francisco (27)4.

O leigo (a) é a autoridade do culto popular. Existiam, claro, padres, freis e monges, mas o catolicismo foi transmitido por pessoas não ligadas ao poder eclesiástico, mas conhecedoras, ao seu modo rústico, das práticas religiosas. Herdeiras dos primeiros tempos da religião na América Portuguesa, são as rezadeiras e benzedeiras que ainda existem nas regiões Norte e Nordeste, que transitam entre a linha da religião, invocando os nomes de Jesus e santos, e do conhecimento nativo, buscando na mistura de ervas e plantas panaceias para todas as dificuldades. Iemanjá, divindade do Candomblé e da Umbanda, tem seu par na figura de Nossa Senhora dos Navegantes; e a lavagem das escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, na Bahia, é realizada por mães de santo e filhas de santo (RIBEIRO, 2012, p. 18). Essa é uma característica da ausência do poder institucionalizado, que permite o surgimento de uma religião maleável e mais acessível às massas. Semelhante aos cultos fenícios e greco-romanos é a prática do ex-voto suspecto, o voto realizado, que consiste em deixar objetos para os santos como agradecimentos por graças alcançadas.

O santo tem papel de destaque na vida religiosa. Tudo gira em torno de sua figura. Oratórios, capelas e santuários são construídos com a ajuda da comunidade para honrá-lo. Esses templos movimentam as massas devotas e concentram em si a vida econômica e social, com a realização de arraiais, feiras e quermesses em seus terrenos ou arredores. As principais cidades do Nordeste se transformam durante os festejos de junho para São João, São Pedro e Santo Antônio. Deus é o ser supremo, representado como Senhor Bom Jesus, Divino Pai Eterno e Divino Espírito Santo. Não existe um culto específico para ele, pois os santos cumprem o papel da intercessão divina. Jesus, filho do criador

[…] é o protótipo dos santos: bom e justo, ele sofre sem ter pecado, e por esse sofrimento ele ganha a misericórdia divina para com os homens. Sua representação popular é, pois, a representação do sofredor: o Crucificado, o Senhor morto, o Jesus da Paixão. Só a partir da ‘romanização’ se introduz a representação de Jesus glorioso, Cristo-Rei, do Jesus suave e manso, como o Menino Jesus e Sagrado Coração de Jesus. Basta lembrar que a grande festa do catolicismo popular não é a Páscoa e nem mesmo o Natal, mas a Sexta-Feira Santa, a Sexta-feira da Paixão. Assim como Jesus sofreu, aceitando como resignação as provações que Deus lhe mandou, também os santos sofreram cada qual as suas provações, tendo assim provado diante de Deus sua conformidade com o que lhes mandava. Também os homens têm que se conformar com a sorte que Deus lhe deu, vivendo em fidelidade aos mandamentos de Deus sem jamais amaldiçoar sua vida5.

A relação com as imagens sacras é íntima e mistura superstições variadas. Santo Antônio, o casamenteiro, quando intercede e não encontra um parceiro, é congelado e posto de cabeça para baixo em um copo d' água. São Longuinho ganha “três pulinhos” se ajudar a encontrar um objeto perdido. Quando ajudam são recompensados e, quando não, ficam de castigo. Em cantiga vinda da antiga freguesia de Monsanto, em Portugal, São José ajuda a embalar uma criança para o sono6: 

José, embala o Menino,
Com a mão, nanja co pé,
O menino que ali vês
É Jesus de Nazaré.
Cantai, anjos, ao Menino,
Que a Senhora logo vem,
Foi lavar os cueirinhos
À ribeira de Belém

São amigos próximos mas também podem ser tratados como crianças birrentas. Os santos curam e ajudam nos problemas do cotidiano, bem como protegem a casa, a rua e o comércio. O catolicismo popular é um dos exemplos mais significativos de como se desenvolveu a sociedade na América Portuguesa e, mais tarde, no Brasil. Uma religião milenar, já transformada em sua região de origem, se aclimatou nos trópicos, onde também recebeu outras influências e se transformou em algo novo, expressão de uma sociedade desigual e culturalmente multifacetada.

NOTAS:

4 Uma em cada nove cidades do país tem nome de santo. Disponível em g1.globo.com/brasil/noticia/2011/09/uma-em-cada-nove-cidades-do-pais-tem-nome-de-santo.html. Acesso em 17/01/2017.
5 OLIVEIRA, Pedro A. Ribeiro de. Religião e dominação de classe: gênese, estrutura e função do catolicismo romanizado no Brasil. Vozes, Petrópolis, 1985, p. 112.
6 José embala o menino In: Pires, A. Tomás. Cantos Populares Portuguezes (em Português). 1 ed. Elvas: Tipografia Progresso, 1902. vol. I.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus. São Paulo, Editora Metro Cúbico, 4° ed, 1995.

RIBEIRO, Josenilda Oliveira. Sincretismo religioso no Brasil: Uma análise histórica das transformações no catolicismo, evangelismo, candomblé e espiritismo. UFPE, 2012.

CRÉDITO DAS IMAGENS:

commons.wikimedia.org

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Fotografias Post Mortem em Manaus

A morte nos assusta ao mesmo tempo que fascina. É o cessar do corpo biológico e, para a maior parte da população mundial, o início de uma caminhada em direção ao plano espiritual. Tenta-se fazer com que ela demore a chegar. No mínimo, se retarda. Mas que chega, chega. Surgem temores, devoções. Nós, do século XXI, estamos sem tempo até para ficar de luto. Exige-se rapidez nesse momento da vida. No entanto, nossos antepassados, além de guardar luto por meses e até anos, em sinal de respeito, encaravam esse processo como algo natural, o tornando às vezes em uma ocasião especial onde se reuniam na casa do falecido amigos e familiares. A morte virou objeto de pesquisas: Utilizando inventários e testamentos, José de Alcântara Machado de Oliveira publicou em 1929 Vida e morte do bandeirante, mostrando o peso da morte nos tempos coloniais. Jefferson Péres, em sua Evocação de Manaus – como eu a vi ou sonhei, nos dá algumas informações sobre luto na sociedade manauara.

Após a invenção do Daguerreótipo, precursor das câmeras fotográficas, as formas de guardar lembranças de entes queridos mudaram. A fotografia era mais acessível e passava uma sensação de realidade maior que as pinturas, comuns por muitos séculos, executadas por artistas renomados e muito caras. Da segunda metade do século XIX até a década de 80 do XXI, predominaram no Brasil as fotopinturas, pinturas feitas a partir de fotos em baixa resolução, populares em diferentes camadas da sociedade. Mas, além dessa técnica, existiu uma outra, ainda não abordada de forma satisfatória do ponto de vista histórico: a fotografia post mortem.

Essa técnica, a fotografia pós-morte, surgiu na Inglaterra durante a Era Vitoriana (1837-1901). Até o momento, acredita-se que ela teve início após a morte de um membro da família real, o qual a Rainha Vitória teria pedido para fotografar para guardar como recordação. Nesse período, final do século XIX e início do XX, a taxa de mortalidade infantil era bastante alta. Muitas famílias passaram a contratar fotógrafos para fazer o registro de seus filhos já mortos, talvez a única imagem que se teria dessa criança. Aos poucos essa prática se estendeu para todas as idades. Eram outros tempos, de conflitos violentos. Vivia-se menos. Sabe-se que essa prática chegou em outros países como Estados Unidos, França, Alemanha e Brasil.

Julieta Bosco e Idalina Tozzi ao lado do bebê em um caixão. Vila de São João Velho, São Paulo, 1930.

Não se sabe quando as fotografias post mortem começaram a ser produzidas no Brasil. Ao realizar pesquisas, encontrei um registro feito em 1930 na Vila de São João Velho, ao lado de São João Novo, em São Paulo. A legenda nos informa que, ao lado do bebê, estão Julieta Bosco e Idalina Tozzi. Apesar desta foto ser bastante popular, encontrei uma muito mais antiga, aqui de Manaus, possivelmente do final do século XIX. Nela temos uma criança em um caixão, como se estivesse acordado. Na legenda é identificada apenas a cidade do registro e o estúdio responsável, no caso, a “Photo Castro”. Não encontrei, em jornais, revistas e livros antigos qualquer menção a essa empresa. Talvez seja de outro estado ou país. O formato, um carte cabinet, espécie de cartão de visita, indica que foram feitas cópias da original, possivelmente entregues a parentes e conhecidos. Apenas famílias abastadas tinham acesso ao trabalho de estúdios fotográficos profissionais e à aquisição de cartões de visita.

Carte Cabinet de uma criança "dormindo". Manaus, século XIX. Photo Castro

Mais recentes são as fotografias da família de Eros Augusto da Silva, que conservou o costume da fotografia pós-morte dos anos 30 até os dias de hoje. Na primeira imagem temos o seu avô Carlos Pereira da Silva (1894-1931), fotografado em caixão aberto, pratica comum quando o serviço não era feito por um estúdio. A seguir, registro do cortejo fúnebre de sua bisavó Januária Lago (1862-1964) e de seu corpo. Acompanham o ato, além de outros familiares, o Dr. Eros Pereira da Silva, famoso advogado da capital. Notem a tranquilidade das pessoas presentes. A morte, no passado, era um processo pelo qual se passava lentamente, no particular da família. Existia tempo para chorar os mortos. As pessoas geralmente terminavam seus dias em família, em paz com o Deus de sua religião. O ato era puramente feito por respeito à sua memória. As duas últimas fotografias são do seu tio-avô Wild Lago, filho de Januária (1909-1992). Em 2008 fizeram o registro do Dr. Eros Pereira da Silva; e, em 2014, o de uma prima de Eros Augusto da Silva.

Carlos Pereira da Silva, 1931.

Cortejo fúnebre de Januária Lago, 1964.

Januária Lago, 1964.

Dr. Eros Pereira da Silva acompanhando o cortejo de Januária, 1964.

Dr. Eros Pereira da Silva ao lado do corpo de Wild Lago, 1992.

Wild Lago, 1992.

As fotografias post mortem que vimos estão divididas da seguinte forma: A primeira, mais antiga, mostra a criança como se estivesse acordada, uma forma simbólica de desafiar a morte. As outras, ao lado do caixão, representam sua aceitação. Quando esse tipo de fotografia chegou à Manaus? Seria uma herança dos ingleses que para cá vieram durante o ciclo econômico da borracha? São perguntas cujas respostas serão encontradas em pesquisas futuras. Mas sabe-se, agora, que esse é um novo capítulo da micro-história da cidade.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

www.alemdaimaginacao.com.br
M. Duarte
Acervo Eros Augusto Pereira da Silva

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Leituras de 2016

Santo Agostinho, Caio Júlio Fedro, Voltaire, Montesquieu e Antônio Simplício de Almeida Neto

Esse ano foi bastante produtivo. Tive um artigo publicado na revista do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), um capítulo em livro lançado em outro estado e fui convidado para ser um dos administradores da página Manaus de Antigamente. O número de curtidores e de acessos ao blog aumentaram de forma incrível. Com compromisso dentro e fora da universidade, consegui concluir a leitura de 5 livros, dos quais 4 incríveis clássicos da literatura ocidental: Santo Agostinho, Fedro, Voltaire e Montesquieu. Os clássicos são sempre atuais. A leitura da obra de Simplício de Almeida Neto ocorreu através de uma atividade acadêmica, e foi muito proveitosa.

Santo Agostinho (Coleção Os Pensadores, Abril Cultural, 1999)

Ler Santo Agostinho é tentar compreender o (s) pensamento (s) de um dos maiores autores do Ocidente. As principais obras do bispo da cidade de Hipona e santo da Igreja são, em ordem cronológica: Contra os acadêmicos (386); Solilóquios (387); Do Livre-Arbítrio (388-395); De Magistro (389); De Trinitate (399-422); Confissões (400); A Cidade de Deus (413-426); e Retratações (413-426). A Coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, traz recortes de várias obras suas. Me chamaram a atenção a concepção que ele tinha de História, abordada em A Cidade de Deus, para ele o resultado do pecado de Adão e Eva, transmitido para todos os homens e mulheres, que o expressam na construção da cidade terrena, dos impérios e das civilizações; e de homem, em Solilóquios, constituído de duas personalidades: a primeira personalidade seria o “Homem exterior”, do mundo mundano, com necessidades biológicas, instintivo e animal. O segundo, o “Homem interior”, está ligado aos sentimentos, ao plano metafísico com Deus. É no homem interior, ligado a Deus, que Agostinho busca a felicidade e um sentido para sua existência.

Fábulas (Editora Escala, 2006)

Caio Júlio Fedro, ou apenas Fedro, é um autor com uma trajetória interessante. Nascido na Trácia, no século I d.C., fora levado para Roma para servir como escravo de Augusto, que logo lhe deu a liberdade. Conhecedor do grego, aperfeiçoou seu latim e aprimorou suas habilidades na escrita. Leitor de Esopo, o principal fabulista do mundo grego, introduziu em Roma esse gênero através de sua obra Fabulae (Fábulas). Através de personagens fictícios como animais, objetos e pessoas, nos transmite grandes lições de moral, ética, prudência e humildade. Minhas fábulas preferidas são A gralha soberba e o pavão, sobre aceitar a nossa vida sem criar falsas imagens desta; A rã implodida e o boi, sobre como não devemos tentar parecer ser mais do que realmente somos; A gratidão do rato, de como não devemos menosprezar as pessoas simples; Desculpas sim, porém não esquecer, sobre como perdemos a confiança em pessoas que nos enganam uma vez; e O crime tem preço, sobre como que faz o mal, o recebe de volta.

Cartas Filosóficas (Editora Escala, 2006)

Três elementos estão presentes nessa obra epistolográfica de Voltaire: tolerância, liberdade e diversidade. Eles são a essência da cultura burguesa do século XVIII. Crítico ácido dos reis absolutistas, dos membros da nobreza e do clero, saiu da França e se refugiou na Inglaterra, redigindo as Cartas Filosóficas ou Cartas Inglesas. Em 25 cartas, o autor compara instituições, costumes, crenças e outros aspectos da Inglaterra com a França. É uma forma de mostrar para as autoridades civis e religiosas da França, onde foi perseguido. Gostei das seguintes cartas: As 7 primeiras sobre grupos religiosos; 10° Sobre o Comércio; 8° Sobre o Parlamento; 11° Sobre a Inoculação do Vírus da Varíola; 20° Sobre os Senhores que Cultivam as Letras; 23° Sobre a Consideração que se deve ter pelos Literatos; e 24° Sobre as Academias. Nessas cartas temos o Voltaire filósofo, historiador, ensaísta e novelista.


Cartas Persas (Editora Escala, 2 volumes, 2006)

Mais uma obra epistolográfica, de caráter crítico-social ou uma sátira para alguns críticos literários. Montesquieu, assim como Voltaire, é um burguês letrado do século das Luzes, e tece críticas às instituições políticas e religiosas. Através de um grupo fictício de viajantes persas, o autor constrói um choque cultural entre a Europa e o Oriente, gênero comparativo recorrente no século XVIII. É através de personagens como Rica, Usbek e Ibben, que Montesquieu consegue escrever, criticar e idealizar as instituições de Paris e de outras cidades da Europa sem se preocupar com a censura (publicou o livro de forma anônima em 1721). As cartas que mais me interessaram, enviadas para amigos que estão na Europa ou no Oriente, foram: sobre os Monarcas; o Papa, a Comédia, a Liberdade das mulheres ocidentais em relação às orientais; as Cortes; e as Religiões.

Representações Utópicas no Ensino de História (Editora Unifesp, 2011)

Mais que qualquer outra disciplina, a História traz a questão da utopia de forma mais clara, pois aborda variados temas passados, todos com suas contradições, necessitando ser esmiuçados e explicados, sempre com algum significado para o presente. Temas que retratam guerras, revoluções, conflitos de classe, movimentos sociais e políticos, são exemplos de como a História carrega, no passado, inúmeras lições para se aprender no presente. Representações Utópicas no Ensino de História, livro do professor Antônio Simplício de Almeida Neto, trata das representações utópicas que os professores de história possuem em relação a sua disciplina, a maneira como eles representam o futuro em relação à disciplina escolar.

Infelizmente, nem só de coisas boas o ano feito. Dia 14 perdi meu pai e avô João Augusto de Carvalho, o qual agradeço imensamente por minha formação, apesar de não ter sido um neto à altura. Deixei pelo caminho História do Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon; e De Pueris, de Erasmo de Roterdã. São leituras que vão ficar para 2017. Essas que foram feitas acima, recomendo, pois são obras agradáveis, edificantes para a moral e a ética, Desejo aos seguidores e seguidoras um bom final de ano e muitas leituras.

CRÉDITO DAS IMAGENS:

Estante Virtual
Editora Escala
Editora Nova Alexandria
Livrarias Saraiva


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

São Lázaro, o padroeiro do meu bairro

A palavra padroeiro tem origem no latim Patronus, que significa “defensor, protetor”, derivado de Pater, “pai”. O Santo Padroeiro de uma vila, povoado ou cidade, tem por objetivo a proteção do local a que foram dedicados e a intercessão entre o homem e o Criador. Na Idade Média conferiam prestígio às suas paróquias e cidades, que recebiam peregrinos de várias regiões em busca de contato com as relíquias e imagens divinas. Nas Sagradas escrituras, personagens que morreram puros no Senhor e alcançaram o Céu, continuam a interceder pelos vivos. Durante as perseguições a cristãos nos tempos do Império Romano, um grande número de pessoas que morreram em nome da fé foram aos poucos canonizadas pela Igreja Católica.

Manaus, fundada provavelmente em 1669, no entorno do Forte de São José da Barra, teve como primeira religião o Catolicismo, implantado na região através dos conquistadores portugueses. Essa religião viria a dominar por séculos a evolução da cidade. A primeira ermida construída na povoação foi consagrada à Nossa Senhora da Conceição; as primeiras ruas receberam o nome de Deus padre, Deus Filho e Deus Espírito Santo; os primeiros bairros foram São Vicente de Fora, uma homenagem ao santo padroeiro de Lisboa; e Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade. A escolha de um Santo Padroeiro é uma herança política e cultural dos tempos do Império Português, que assim dividia (a divisão ainda existe) suas freguesias em Portugal.

Lázaro era membro de uma família abastada da Palestina, e vivia com suas duas irmãs, Marta e Maria, em uma aldeia de Israel chamada Betânia (atualmente localizada na Cisjordânia), que junto da aldeia de Betfagé, era o último ponto de descanso para quem subia à cidade por Jericó. Betânia estava distante 3 km a leste de Jerusalém e do Monte das Oliveiras, um dos muitos lugares de transmissão dos ensinamentos de Jesus Cristo.

Os três irmãos tinham uma forte amizade com Jesus, tendo o hospedado muitas vezes em sua casa. Jesus ficou hospedado nos dias que antecederam a Paixão, do Domingo de Ramos até o dia de sua prisão. Além da relação que tinha com Cristo, a figura de Lázaro tornou-se importante para a História do Cristianismo pois este, após a morte, foi ressuscitado por seu amigo. Desde os primeiros séculos do mundo cristão o túmulo de Lázaro se converteu em local de devoção, tendo sido erguido, no século IV de nossa era, um santuário em seu redor.

De acordo com a Bíblia (compilação abaixo produzida pela Ordem Militar e Hospitalar de São Lázaro de Jerusalém – Grão Priorado de Portugal), no Evangelho segundo João, a história do milagre de Lázaro ocorreu da seguinte forma:

Lázaro caiu doente em Betânia, onde estavam Maria e sua irmã Marta. Maria era quem ungira o Senhor com o óleo perfumado e lhe enxugara os pés com os seus cabelos. E Lázaro, que estava enfermo, era seu irmão. Suas irmãs mandaram, pois, dizer a Jesus: Senhor, aquele que tu amas está enfermo. A estas palavras, disse-lhes Jesus: Esta enfermidade não causará a morte, mas tem por finalidade a glória de Deus. Por ela será glorificado o Filho de Deus. (João 11, 1-4)

Ora, Jesus amava Marta, Maria, sua irmã, e Lázaro. Mas, embora tivesse ouvido que ele estava enfermo, demorou-se ainda dois dias no mesmo lugar. Depois, disse a seus discípulos: Voltemos para a Judéia. Mestre, responderam eles, há pouco os judeus queriam-te apedrejar, e voltas para lá? Jesus respondeu: Não são doze as horas do dia? Quem caminha de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas quem anda de noite tropeça, porque lhe falta a luz. Depois destas palavras, ele acrescentou: Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo. Disseram-lhe os seus discípulos: Senhor, se ele dorme, há-de sarar. Jesus, entretanto, falara da sua morte, mas eles pensavam que falasse do sono como tal. Então Jesus lhes declarou abertamente: Lázaro morreu. Alegro-me por vossa causa, por não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos a ele. A isso Tomé, chamado Dídimo, disse aos seus condiscípulos: Vamos também nós, para morrermos com ele. (João 11, 5-16)

À chegada de Jesus, já havia quatro dias que Lázaro estava no sepulcro. Ora, Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. Muitos judeus tinham vindo a Marta e a Maria, para lhes apresentar condolências pela morte de seu irmão. (João 11, 17-19)

Mal soube Marta da vinda de Jesus, saiu-lhe ao encontro. Maria, porém, estava sentada em casa. Marta disse a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido! Mas sei também, agora, que tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá. Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressurgirá. Respondeu-lhe Marta: Sei que há-de ressurgir na ressurreição no último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto? Respondeu ela: Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que devia vir ao mundo. A essas palavras, ela foi chamar sua irmã Maria, dizendo-lhe baixinho: O Mestre está aí e chama-te. Apenas ela o ouviu, levantou-se imediatamente e foi ao seu encontro. (Pois Jesus não tinha chegado à aldeia, mas estava ainda naquele lugar onde Marta o tinha encontrado.) Os judeus que estavam com ela em casa, em visita de pêsames, ao verem Maria levantar-se depressa e sair, seguiram-na, crendo que ela ia ao sepulcro para ali chorar. Quando, porém, Maria chegou onde Jesus estava e o viu, lançou-se aos seus pés e disse-lhe: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E, sob o impulso de profunda emoção, perguntou: Onde o pusestes? Responderam-lhe: Senhor, vinde ver. Jesus pôs-se a chorar. Observaram por isso os judeus: Vede como ele o amava! Mas alguns deles disseram: Não podia ele, que abriu os olhos do cego de nascença, fazer com que este não morresse? (João 11, 20-37).

Tomado, novamente, de profunda emoção, Jesus foi ao sepulcro. Era uma gruta, coberta por uma pedra. Jesus ordenou: Tirai a pedra. Disse-lhe Marta, irmã do morto: Senhor, já cheira mal, pois há quatro dias que ele está aí… Respondeu-lhe Jesus: Não te disse eu: Se creres, verás a glória de Deus? Tiraram, pois, a pedra. Levantando Jesus os olhos ao alto, disse: Pai, rendo-te graças, porque me ouviste. Eu bem sei que sempre me ouves, mas falo assim por causa do povo que está em roda, para que creiam que tu me enviaste. Depois destas palavras, exclamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário. Ordenou então Jesus: Desligai-o e deixai-o ir. Muitos dos judeus, que tinham vindo a Marta e Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele. (João 11, 38-45).

No bairro São Lázaro, o dia do santo é comemorado com uma série de atividades que incluem missas, arraial e a procissão que percorre as principais ruas da comunidade, entre os dias 02 e 10 de fevereiro. No dia 11 do mesmo mês ocorre a benção dos animais. Durante a Idade Média, tornou-se padroeiro dos leprosos por causa de uma associação errônea feita entre sua figura e a de Lázaro da Parábola de São Lucas, o Evangelista. As imagens sacras reproduzidas mostram, em alguns casos, um Lázaro coberto por chagas, segurando muletas e acompanhado por dois cachorros; ou um Lázaro com vestes nobres segurando a Igreja de Larnaca, Chipre. São Lázaro é protetor dos enfermos, dos pobres e dos animais.

O escritor Raimundo Motta de Araújo Filho, autor do livro Nova Betânia (2008, Edições Muiraquitã, p. 20), afirma que o nome do bairro Betânia, fundado em 1964, escolhido pelo então arcebispo de Manaus Dom João de Souza Lima, foi uma alusão à cidade de onde veio o Santo São Lázaro, cujo nome batizara o bairro vizinho, fundado quase uma década antes.


CRÉDITO DA IMAGEM:

http://www.wjhirten.com/

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Antigas fotopinturas de família: Análise Histórica e Social

Fotopintura da família Rodrigues Vieira, 1969. FONTE: Coleção pessoal.

O presente texto faz parte de um futuro artigo sobre objetos, costumes e crendices antigas de Manaus, temas estes inseridos nos campos da História Cultural, Micro-História e História Social.

Antigas fotopinturas de família

Em nossas vidas adquirimos dois tipos de objetos: aqueles de valor sentimental, insubstituíveis, que ganham com o passar do tempo nosso carinho, cuidado e respeito; e os meramente supérfluos, facilmente substituíveis dada suas curtas vidas úteis, adquiridos na maioria das vezes por impulsos consumistas, em uma tentativa de ganhar com eles um status passageiro ou se satisfazer pessoalmente. Violette Morin (1969), conforme citado por Bosi (2005, p. 3), define os primeiros como “objetos biográficos, pois envelhecem com o possuidor e se incorporam à sua vida”. Uma moeda antiga, um desenho, as primeiras roupas dos filhos etc, quando guardados, nos dão a sensação de continuidade, de fazer parte de algo.

A posição, o local onde é posto um objeto na casa, revela as relações que os moradores têm com este. O quadro dos genitores, geralmente postos em destaque na sala de estar, representa a importância destes como os idealizadores e mantenedores de uma família, bem como o respeito em vida e depois dela. As imagens de santos e santas principais, N. S. de Aparecida, Sagrada Família, podem ficar em um pequeno altar, na sala ou na entrada da casa, enquanto aqueles menores, de culto particular, casamenteiros, protetores de lar e de empregos, ficam guardados no quarto, numa relação íntima com a pessoa que necessita de tal intercessão.

A técnica da fotopintura, de famílias inteiras, marido e mulher, de casamento, batizados etc, se faz presente no Brasil desde a segunda metade do século XIX, quando aqui chegou quase duas décadas após a invenção de Daguerre, sendo uma técnica que ainda resiste no Sul e no Nordeste. O inventor desse processo é o fotógrafo francês André Adolphe Eugène Disdéri (1819-1889), que em 1863 começou a produzir fotos em baixo contraste e usar tintas para dar cores às imagens. Esses registros em baixo contraste passaram a servir de esboço para os retratistas, que deixaram de fazer um desenho a lápis dos retratados, diminuindo o tempo de trabalho. Apesar de ser um processo bastante antigo, parece ter começado a se popularizar no país apenas no século XX, entre as décadas de 1940 e 1980. Esse sucesso se explica pelo fato de que, primeiramente, as fotos se tornaram mais realistas ao ganhar cores, deixando o preto e o branco de lado; segundo, os registros familiares, antes executados por pintores de renome e com alto custo, adquiridos apenas por famílias de posse, passaram a fazer parte das classes mais baixas, que pagavam esses trabalhos em suaves prestações.

Na região Nordeste a fotopintura se desenvolveu nos campos econômico e religioso: Nas praças, feiras, circos e romarias, existiam os fotógrafos fixos, com barracas ou lonas devidamente montadas e decoradas, que utilizavam a câmera “lambe-lambe”, em madeira e apoiada em um tripé; e os fotógrafos ambulantes, que passavam de casa em casa oferecendo o serviço, que podia ser feito a partir de uma foto já existente escolhida pela família, ou de uma feita na hora. No Sul e Sudeste predominavam os grandes estúdios de artistas profissionais.

A análise de uma fotopintura de Manaus

Nas casas manauaras era comum ter os quadros dos pais, filhos, avós e bisavôs, pintados a óleo ou com tinta à base de água e com molduras em madeira ou gesso, com desenhos florais, simples e em tonalidades douradas, verdes e escuras, pendurados na sala de estar. As origens dessa prática em Manaus, bem como os primeiros artistas que se dedicavam a ela, ainda estão encobertas de incertezas. Antônio José Souto Loureiro¹ (76), historiador, nos informa ao ver uma fotopintura:

Lembro-me que eram feitas sob encomenda, no Ceará. Também para esmaltados de cemitério (…) Eram feitas mais pelas famílias de bairros. Os desse tipo são mais recentes, mas existem os mais antigos, geralmente individuais, a guache, feitos por artistas de Manaus. Acho que essas informações sobre os pintores se perderam, a não ser que se achem referências no quadro. Nós tínhamos quadros pintados da família muito antigos. Da minha bisavó Liberalina Acioly de Menezes, que morreu aos 96 anos, em 1945, nascida na década de 1850, na Guaiúba, no Ceará, com um belo penteado e vestido negro do início do século.

As origens dos retratistas da capital, seus nomes e locais de trabalho continuam um mistério, pois é extremante raro encontrar um desses quadros assinados. Para a análise histórico-social foi escolhida uma fotopintura de 1969, que retrata duas gerações da família Rodrigues Vieira, natural de Boca do Acre (AM), à época residente no bairro São Lázaro em Manaus. Maria Hortência Rodrigues de Carvalho² (65), uma das personagens retratadas, nos diz o seguinte sobre o dia da contratação do serviço, o trabalho dos retratistas e a importância de ter o retrato:

(…) Eles vinham na casa e perguntavam se não queríamos fazer um quadro, aí a gente dava uma foto, eles faziam o quadro e tal dia vinham entregar. Foi minha mãe que contratou. Ela tinha 41 anos e o meu pai 47. Eu não estava em casa, estava na escola. Quando eu cheguei da escola ela me falou. Os retratistas falaram que iam diminuir a careca do meu pai (risos) e, como eu era muito nova, me fizeram com a aparência mais velha. Meu filho tinha 3 anos de idade, e era muito amado por meus pais. Eles que escolheram as roupas da pintura, suas cores e desenharam penteados para mim e minha mãe. Para mim é muito importante ter o quadro, pois sinto muitas saudades dos meus pais o vendo.

O depoimento de Maria revela algumas características da técnica e do trabalho do retratista. Ele era um trabalhador informal, que passava de casa em casa oferecendo seu serviço. Ao entregar a foto para ele, que poderia ser o único registro familiar existente, mostra-se uma relação de confiança entre o comprador e o vendedor. A pedido dos retratados, eram corrigidas imperfeições físicas como a calvície, cicatrizes, se dava uma aparência mais jovem ou mais velha; e também eram adicionados elementos que não existiam na foto, como roupas formais, joias e até paisagens. Os retratistas tinham certa autonomia ao escolher as roupas e fazer os penteados, possivelmente um padrão que levava em conta a moda da época.

A incorporação de objetos e roupas de valor revela um desejo de se projetar para as futuras gerações, em forma de registro, aparentando certa distinção social. A moldura trabalhada em tons dourados com desenhos de inspiração clássica, e a proteção da pintura por uma tela de vidro temperado, reforçam a ideia de distinção e enobrecimento de uma família de classe média de um subúrbio de Manaus. Para uma família, um grupo de posses, os objetos biográficos podem ter significados que vão além do campo sentimental, tornando-se objetos de status. Sobre esse significado, Bosi (2005, p. 8) faz algumas considerações sobre os usos destes objetos por parte de pessoas de classes mais altas:

A foto daquele mesmo parente poderia ter sido colocada com o espírito de quem faz uma exposição que interessa o olhar do outro – o olhar social. Por essa visada a foto sobre o móvel carece de uma aura afetiva própria e ganha outra aura, a do status, onde estão embutidos valores de distinção, superioridade, competição, na medida em que o morto foi uma pessoa importante, logo dotada de valor de troca.

Percebe-se que, para um burguês, ou, no contexto da análise da fotopintura, um grupo da classe média urbana do final dos anos 1960, o objeto biográfico não se fecha na esfera da afetividade, do sentimento de intimidade familiar, mas torna-se um mecanismo de reprodução de sua posição na sociedade. Mas essa era uma família simples e, para a entrevistada, a única filha do casal, o quadro tem um valor que pende apenas para o sentimento de saudade, pois é um dos poucos registros dos pais já falecidos. A ideia de reprodução de status pode ter se perdido com o tempo, ficando apenas o respeito e a memória dos que já partiram. A memória pode ser entendida, segundo Suzzari (1986, p. 27) como “uma representação do passado ou uma continuidade dele”, sendo que nós somos seletivos com ela, escolhendo o que deve ser esquecido e o que deve ser lembrado, partindo sempre de nossas necessidades do presente.

O Retrato e os retratados

Os retratados na fotopintura de 1969 são: Do lado direito, Zacarias Rodrigues Vieira (1922-1995); no centro, Leomar Rodrigues (n. 1966); do lado esquerdo, Maria Raimunda Rodrigues Vieira (1928-2008); e no topo, Maria Hortência Rodrigues Vieira (n. 1951). O retrato tem formato oval, para caber todas as figuras, com a moldura, já desgastada com o tempo, em cor dourada e feita em gesso, com desenhos florais e detalhes de inspiração clássica. As figuras dominantes são Zacarias e Maria Raimunda, pai e mãe de Maria Hortência e avós de Leomar.

A frontalidade das personagens, que parece ser recorrente em todos os quadros, passa a sensação de respeito e imponência. Todos estão sérios. Era comum, no passado, tornar especial o ato de tirar fotos. A família não poderia desperdiçar essa oportunidade, um ato simbólico de registrar um momento, com inúmeras tentativas. Na fotopintura o artista mantinha os semblantes de seus clientes dessa forma. Quanto às figuras femininas, os pintores lhes representavam com penteados elegantes e roupas simples em tonalidades claras, dando-lhes um ar de recato, exigência de épocas passadas. Maria, que teve um filho aos 15 anos, foi retratada com uma aparência mais velha, o que, apenas em nível de especulação, pode ter sido feito para caracterizá-la como uma mãe experiente, zelosa pelo filho. Zacarias e Leomar usam terno e gravata, padrão para os homens. O pintor escolheu como cor de fundo o verde-claro, cor leve.

A fotografia original que foi entregue para o pintor reproduzi-la em cores já não existe mais. A pintura é apenas uma vaga representação do que ela foi um dia. O filho de Maria, pintando do lado dos avós, reforça o depoimento desta, que disse que ele era bastante amado pelos dois. Esses retratos de época também revelam a composição étnica de determinada época: Zacarias tinha origem portuguesa, Maria Raimunda descendia de indígenas e cearenses. Maria e Leomar herdaram os traços de uma típica família cabocla. Futuras pesquisas elucidarão as origens dos pintores, de seus locais de trabalho e a influência que exerceram na cidade.

1 Entrevista concedida a Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa em 12/12/2016.
2 Entrevista concedida a Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa em 14/12/2016

BIBLIOGRAFIA:

BOSI, Ecléa. Tempos Vivos e Tempos Mortos. São Paulo: SEDUC - SP, 2005.
SUZZARI, François. A Memória. Lisboa: Verbo, 2006.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O IHGB e a História do Brasil

Adolfo Varnhagen e Capistrano de Abreu.

Antônio Astor Diehl, no capítulo O Instituto Histórico Geográfico e a Ilustração, discorre, do livro A cultura historiografia brasileira: do IHGB aos anos 1930, primeiramente, sobre como se pensou a história no século XIX, uma disciplina com um discurso de cientificidade e discurso historiográfico pautado no positivismo. É nesse contexto, da História vista como ciência, que se desenrola a questão do IHGB como mola propulsora dessa ciência humana no Brasil. Vale ressaltar que esses institutos, tanto na Europa quanto no Brasil, surgem em meio às questões de nacionalidade, quando nações como Itália e Alemanha, fragmentadas em vários estados, buscam construir uma unidade política e cultural.

A História, no Brasil, não se desenvolve nas universidades, mas sim nos institutos de membros eleitos, ao molde das Academias Ilustradas europeias dos séculos XVII e XVIII. Em 1838 surge, na capital do Império do Brasil, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, espaço privilegiado que por quase um século dominaria o que fosse produzido sobre a história do país. Estava no centro dessa academia o Estado Brasileiro, inimigo das repúblicas latino-americanas, mas ainda distante de constituir uma unidade política sólida, tendo em vista as revoltas que explodiam do Norte (Cabanagem) ao Sul (Revolução Farroupilha). Ele não rompe com a ideia de se desligar do antigo agente colonizador, o português, mas se vê como o continuador do projeto de conquista iniciado em 1500.

A historiografia produzida no IHGB construía uma visão homogeneizada da nação brasileira, comandada pelas elites, imbuídas, do topo, de encaminhar as demais classes sociais em direção ao progresso. O Instituto vivia entre a inovação e o tradicionalismo: a partir de 1851, foram incluídos estudos etnográficos, arqueológicos e linguísticos, mas história continuava presa a uma concepção linear e progressista. Em 1847 é lançado um concurso de ensaios sobre como se deveria escrever a História do Brasil, um país de dimensões continentais e socialmente diversificado. Venceu o alemão Carl Friedrich Philipp von Martius que sugeriu, em sua tese: a história do Brasil deveria ser escrita a partir do estudo das três raças que o compõe – índios, negros africanos e brancos europeus. O indígena remete aos primórdios de nossa civilização, ao mito da nacionalidade vista de forma romântica; o negro é visto como um fator de impedimento ao progresso, estereotipado como inadaptável a qualquer sistema econômico, que ao lado do indígena se rebelou diversas vezes contra o colonizador; e o branco europeu, o conquistador, redentor das outras raças, o único capaz de absorvê-las e encaminhar o país para o progresso.

Astor cita dois membros do IHGB para a análise da produção da segunda metade do século XIX: Adolfo Varnhagen e Capistrano de Abreu. Adolfo Varnhagen foi um historiador metódico, com uma obra alicerçada em rigorosa erudição. Sua abordagem, em alguns pontos considerada distante e fria, se preocupa com problemas do presente, no qual busca explicações no passado para delinear um bom futuro. O autor afirma que os únicos atributos de realce em sua obra são sua erudição histórica e a posição de pesquisador. Adolfo também foi um grande historiador político, abordando temas como a organização do Estado, seu papel na estruturação social, a centralização do poder político, a função do Estado na condução do processo de constituição da nação e do homem brasileiro. Varnhagen se preocupa com o papel da classe dominante no Império. Acontece que, para esse autor, durante o período colonial, a classe dominante, escravagista, era forte. Com a Independência, e as constantes pressões pelo fim do tráfico negreiro durante o Segundo Reinado,o índio e o negro passavam a ser incluídos como cidadãos da nação brasileira, o que era um problema para Varnhagen, que idealiza um Estado comandado pelo branco brasileiro. Sobre o Império, tinha o seguinte projeto político: a constituição de uma nação branca e de descendência europeia; a criação de um Estado forte e centralizado, constituinte da nação; constituição do homem branco brasileiro. Formas de manter a unidade: miscigenação forçada; centralismo e autoritarismo. Em síntese, Varnhagen entendia que era necessário manter a Lei, a Ordem e a Religião.

Capistrano de Abreu renovou a historiografia brasileira, prezando por uma história imparcial, sendo um contraponto ao defensor do Império, Varnhagen. Em sua abordagem, substituiu o conceito de raça pelo de cultura e seus estudos indígenas renovaram a etnografia; deu também importância para a história social e dos costumes, e sugeriu novos problemas para a historiografia brasileira: o regime de terras, a história da legislação e do parlamento, e os partidos políticos. Capistrano tem forte ligação com a análise sociológica alemã, e vê que os fatos são uma etapa da interpretação, que deveria ser regida por leis e regras da sociologia. O método crítico de Capistrano está baseado em três regras simples: o privilégio da testemunha visual, daquela que assistiu pessoalmente aos eventos que reconstrói; a ênfase ao caráter lógico do relato das testemunhas, como se a ambiguidade fosse sinônimo de equívoco ou falsidade, e à coerência, um pré-requisito para se acreditar na correspondência entre o texto e a realidade, e a utilização do número e da quantidade de documentos que contivessem afirmações contrárias, embora satisfeitas as exigências anteriores. Ele utiliza o empirismo, aliado à coerência lógica e o número de testemunhos como forma de se alcançar a verdade. Ele também foi crítico da memória, na medida em que ela se distância dos fatos abordados.

CRÉDITO DAS IMAGENS:

commons.wikimedia.org

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A evolução das vias públicas em Manaus (séculos XVII-XXI)

Resumo


Hoje, quem passa por uma rua, avenida, beco ou travessa, independente da cidade, talvez não se questione sobre a origem daquela via pública, quais os motivos para a sua abertura e quais as mudanças ocorridas com isso. As vias públicas como as conhecemos atualmente são o resultado de um longo processo de aperfeiçoamento social e técnico: social no sentido de ligar diferentes pontos de uma cidade, onde são realizadas transações comerciais, são oferecidos serviços, onde estão os templos religiosos e, claro, as casas; e técnico pela forma como são construídas e com quais materiais foram produzidas. O presente texto tem o objetivo de analisar como se deu a evolução dessas vias em Manaus, desde o século XVII até os dias de hoje.


Sobre a evolução da via pública

Quando os homens ainda se agrupavam em comunidades primitivas, com atividades de subsistência baseadas na pesca, coleta e troca de produtos, talvez a abertura de caminhos não tivesse um sentido técnico-econômico complexo, servindo apenas para atalhos, localizar um curso d' água ou para facilitar a comunicação entre as casas ou um local de adoração a divindades. Com algumas exceções, já existe uma preocupação no traçado desses caminhos (ruas e avenidas), como ficou claro em escavações arqueológicas na Turquia, em 1996-7, que revelaram a antiga cidade de Titris Hoyuk (cerca de 5.000 anos), que chegou a abrigar 10.000 habitantes.

Na Antiguidade Clássica, as ruas da Roma Imperial eram construídas em ângulos retos, e largas, possibilitando um tráfego fluente de carruagens, liteiras e transeuntes sem maiores problemas. Os templos e foros se comunicavam; comerciantes anunciavam os mais variados produtos em cavaletes e barracas instaladas de uma ponta a outra da via; semblantes de diferentes nacionalidades se aglomeravam em busca das melhores ofertas, de um lugar para repousar, como os albergues e pensões, ou cuidar da higiene em um dos vários banhos públicos. O anfiteatro, casas de prostituição e tavernas prolongam a vida noturna, iluminada por tochas ou pela queima do azeite, mas perigosa nas estradas mais afastadas, que ligavam Roma à diferentes pontos da Itália.

As ruas medievais eram estreitas, ou porque seguiam a linha da muralha, uma necessidade de defesa para a cidade; a direção dos ventos, para arejar; ou a formação geográfica tortuosa da região. Eram, no entanto, movimentadas pelo comércio e por atrações dos tipos mais variados. A nomenclatura das ruas é definida por nomes populares, geralmente ligadas a uma atividade comercial nela estabelecida: Rua dos Ourives, Rua dos Cuteleiros, Rua dos Livreiros. Existem também nomes de santos e de nobres. A pavimentação das vias era feita com pedras sob uma camada de cimento. Esgotos eram construídos para dar vazão aos detritos públicos, e o resto era queimado. Construídas na rua principal, a fim de dominarem a paisagem e servirem de confluência política, social e religiosa, estavam as catedrais, abadias e capelas.

Nos séculos XVI e XVII, as ruas e avenidas das principais metrópoles europeias foram favorecidas pela exploração ultramarina, que possibilitou o escoamento de riquezas para essas cidades, riquezas essas investidas em Lisboa, Paris, Madri e Amsterdã. As vias públicas mais preteridas pela burguesia eram aquelas com localização privilegiada, no caso a orla da cidade ou próximo a ela. A Rua Nova d' EL REI era a principal via da Lisboa Manuelina. Nela estavam os prédios públicos mais suntuosos e importantes e as principais lojas do país. Estrangeiros, vendedores de escravos, nobres e aristocratas frequentavam o local. O Óleo de baleia era utilizado na iluminação. Não só na Europa, mas também nas terras recém-descobertas, as ruas eram suntuosas. Hernán Cortés se impressionou com ruas de Tenochtitlán, largas e retas, tão grandes quanto as de Sevilha ou Córdoba, com praças e pontos de venda e troca de produtos1.

Os avanços industriais dos séculos XVIII, XIX e XX permitiram o prolongamento da vida urbana, com o advento da iluminação pública mais eficiente. Os caminhos do passado agora eram ruas e avenidas propriamente ditas, construídas sob a supervisão de engenheiros e através de códigos de conduta rígidos. O asfalto produzido através do petróleo substituiu as pedras e o cimento; a iluminação a gás ou energia elétrica permitiu que a ópera acabasse mais tarde, que as casas de diversão, os cafés e tavernas atendessem por mais tempo.


Caminhar na América Portuguesa


Os caminhos do Brasil Colonial ligavam a Igreja ao forte, o forte a casa do administrador, e a produção de matérias primas ao porto. O sentido era puramente econômico, como bem destaca Sérgio Buarque de Holanda no capítulo O semeador e o ladrilhador (p. 93-137) de seu Raízes do Brasil, ao diferenciar a colonização lusitana, exploratória, que jogou nessas terras suas “sementes” ao acaso, sem fazer maiores investimentos e sem os objetivos de fixar raízes e de se desenvolver socialmente em maior profundidade; da espanhola, que investe maciçamente, desde a abertura de ruas à construção de universidades, projetada e interiorizada para ser uma extensão do Império Espanhol.

Esses caminhos eram definidos pelas construções e muitas vezes eram o reaproveitamento de antigas trilhas indígenas. Na enriquecida Minas Gerais, por exemplo, os caminhos de terra batida interligavam a produção da região: Pelo Caminho Velho ou Caminho do Ouro, que passava pela Vila do Falcão, descendo o vale do rio Paraíba e atingia Vila Rica, o ouro das minas era transportado até o Rio de Janeiro, de onde partia para Lisboa. Os caminhos eram tortuosos, estreitos, perigosos, iluminados apenas em algumas cidades, por meio de velas feitas com cera de abelha ou pela queima de óleos vegetais e animais, revelando, por parte do colonizador português, nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência2. As cidades mais importantes recebiam o acompanhamento de engenheiros militares na hora de definir o traçado das ruas. A rua, junto à praça pública, era o local do divertimento popular, das procissões religiosas, do comércio, dos castigos no Pelourinho, trajeto dos condenados à morte, e local de exposição das partes dos corpos de rebeldes esquartejados.

Salvador, na Bahia, primeira capital do Brasil, abriga aquela que é considerada a via pública mais antiga do país. A Rua Chile, no Centro Histórico, próxima da Praça Castro Alves, foi aberta por ordem do governador-geral Tomé de Souza em 1549, recebendo primeiramente o nome de Rua Direita dos Mercadores, uma alusão à posição em que ficavam os mercadores nos 400 m de extensão do logradouro. Nela se instalaram os comércios, os teatros, as residências senhoriais, de grandes proprietários de terras e de funcionários da coroa; servindo de ponto de partida para a abertura de outras ruas.


Os Caminhos do Lugar da Barra e de Manaus (séculos XVII - XXI)


Os primeiros tempos do Arraial da Barra são marcados por uma evolução urbana tímida. Fundado entre 1669-70, em […] um terreno desigual repleto de ondulações, cerca de 30 pés acima do nível das mais altas cheias […]3, suas ruas, na verdade caminhos, pois ainda faltam os elementos estático (casa) e o dinâmico (homem), seguem o sentido natural da área, ficando com altos e baixos e cheias de buracos. Eles vão sendo abertos sem planejamento, sem materiais apropriados, de forma rústica em meio à mata vicejante. Sabe-se que, por séculos, a Barra conservou um aspecto mais rural que urbano. Tomavam conta das vias públicas o mato e os animais. As nomenclaturas eram pitorescas, não oficializadas, levando em conta alguma característica especial da região, nomes religiosos ou de moradores ilustres. As primeiras foram conhecidas como Deus-Padre, Deus Filho e Deus Espírito Santo4.

Uma das raras plantas5 do período colonial da Barra faz menção à existência da atual Avenida Sete de Setembro, à época conhecida como Rua Direita (1787)6. Observando sua extensão atualmente, percebe-se que foi um trabalho árduo para a época. No entanto, a situação do péssimo arruamento perdurará por todos os séculos XVII e XVIII, até a Barra deixar de ser um povoado insignificante e obscurecido pela capital Barcelos e, depois, Belém do Pará. O historiador Antônio Loureiro nos dá o exemplo de uma rua do Centro antigo, do século XVIII, que mesclava, em sua nomenclatura, um aspecto social e outro religioso:

[…] A antiga Rua Demétrio Ribeiro, hoje Visconde de Mauá, que passava aos fundos da Matriz Velha de Manaus, recebeu o nome de Travessa dos Inocentes, na Época Colonial, pois ela correspondia ao dito cemitério dos pequeninos pagãos, que haviam deixado chorosas famílias, tristes pelas suas prematuras partidas, sem o lenitivo do batismo7.

Chegando à Fortaleza da Barra em 1787, o naturalista português Alexandre Rodrigues Ferreira notou que, nos dois bairros que formavam o povoado, o arruamento das casas do primeiro, o mais povoado e onde se encontrava a Igreja Matriz, a casa do vigário e do comandante, estava disposto sobre 3 linhas de fundo e 10 de frente, contando as residências. Do topo desse bairro, na segunda linha de fundo, saem duas, avançando sobre o rio, passando pela casa das canoas no porto e na olaria. Na segunda linha de fundo contou 11; na terceira, 14. Todas possuíam vazios para ser preenchidos, além de seus alinhamentos não serem geométricos8. Lobo D' Almada, presidente da Capitania desde 1788, transferiu, em 1791, a capital de Barcelos para o Lugar da Barra, que possuía localização geográfica privilegiada, na confluência dos rios Negro e Amazonas, o que acabava facilitando a defesa e o comércio da região. Implementou mudanças significativas na estrutura urbana. Manobras políticas de Francisco de Sousa Coutinho, do Grão-Pará, com o auxílio de seu irmão Rodrigo, Ministro de Portugal, corta as verbas para a Capitania do Rio Negro e persegue Almada, conseguindo fazer a capital retornar para Barcelos, em 1799.

As primeiras mudanças, mesmo que pequenas, começam a surgir no início do século XIX. Em 1804, D. Marco de Noronha e Brito, Conde dos Arcos, decidiu transferir a capital da Capitania do Rio Negro de Barcelos para o Lugar da Barra, o que se consumou apenas em 29 de março de 1808. Tornar-se a capital da Capitania significava ganhar as condições urbanas necessárias para tal função. Sobre o período, nos oferecem dados inúmeros relatos de viajantes9 (ingleses, alemães, suíços), que se tornaram mais frequentes no país após a Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 1808 por D. João VI. Os alemães Karl von Martius e Johan von Spix, de passagem pela Barra em 1819, descreveram que as casas do povoado era “espaçadas uma das outras”, dando origem a ruas irregulares. O padre José Maria Coelho, em 1823, cita a existência de “onze pequenas ruas”. O tenente inglês Henrique Lister Maw, de passagem pelo lugar em 1828, viu que “as ruas não eram calçadas e quase todas pareciam inacabadas”.

É a partir da instalação de uma nova ordem política, com a elevação do Amazonas à categoria de Província do Amazonas (1850-52), que as transformações urbanísticas se tornam mais profundas, quando o antigo caminho colonial começa a tomar a forma do que seria uma rua propriamente dita, com o elemento estético e estático, a casa e o comércio, influenciando nas relações no elemento dinâmico, o homem. Na planta 'croquis' de 1852, feita pelo presidente João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, além dos limites urbanos, pode-se observar que a pequena cidade era dominada pelos igarapés de São Vicente, da Ribeira, do Espírito Santo e do Aterro, que cortavam seus poucos bairros (Remédios, República, Espírito Santo, Campina e São Vicente). As ruas continuavam estreitas e curtas, sendo definidas de forma natural pelo terreno.


Planta da Cidade de Manáos, 1852. FONTE: Biblioteca Nacional

Os esforços dos presidentes da Província em dotar a capital de vias públicas eficientes, mais largas, limpas e seguras, é notável. Entre 1865 e 1868, foi aberta uma das principais artérias do Centro, a Avenida Epaminondas, à época, primeiramente, estendendo-se da travessa do Cumã (atual rua Itamaracá) ao Cemitério São José, depois alargada da rua Itamaracá à Cachoeira Grande. No relatório de 04 de abril de 186910, apresentado na Assembleia Legislativa Provincial do Amazonas, o presidente João Wilkens de Mattos afirma que, entre os principais defeitos da cidade, estão as […] Quadras mui acanhadas. Ruas demasiadamente estreita. Como solução, sugere que […] Em clima abrasador como o nosso, as quadras ou quarteirões devem ter de 100 metros, pelo menos de face, e as ruas 20 de largura. Ele ainda fala do perigo que tem havido de abrir-se ruas e travessas sem uma causa racional. Percebe-se a preocupação com as condições climáticas, com a abertura de vias que possibilitassem a circulação do ar. No Código de Posturas de 1872, da cidade de Manaus, o presidente General Doutor José de Miranda da Silva Reis, estabelece nos seguintes artigos que tratam sobre as ruas:

Art. 8 – Proíbe a abertura de buracos nas ruas para fincar paus a fim de levantar andaime sem previa autorização da câmara. Caso fosse autorizado, o dono da obra deveria colocar durante a noite, dois lampiões acesos para a sinalização.
Art. 12 – Proíbe obstruir as ruas com entulhos, ou escavações.
Art. 39 – Proíbe o despejo de lixo nas ruas, praças da cidade11.

Esse Código de Posturas reflete as transformações urbanas pelas quais Manaus estava passando. O comércio da borracha começava a garantir uma maior arrecadação dos cofres públicos, e a cidade começava a receber novos contingentes sociais e agentes econômicos. Garantir uma aparência salubre, higiênica e organizada era apresentar uma cidade em plenas condições de expansão. O arruador dos tempos coloniais, o qual será abordado em próximo tópico, passou a ser substituído pelo agrimensor, uma pessoa graduada em engenharia e contratada pela Câmara municipal para cuidar do alinhamento de ruas, travessas e praças. No entanto, o agrimensor ainda enfrentaria problemas herdados do início do século XIX e que só seriam sanados na virada deste para o XX:

O beco da Cova Onça12 existiu entre os quarteirões da Avenida Eduardo Ribeiro e das ruas Henrique Martins, Barroso e Saldanha Marinho (antiga rua da Palma). Existem menções a ele desde 1860. Nesse beco existiam quatro casas com cobertura de palha, com as frentes para o Sul, fazendo limites com os quintais das casas de Francisco Galvão, na rua Henrique Martins. A entrada e saída da Cova da Onça se fazia pelo Igarapé do Espírito Santo, atual Av. Eduardo Ribeiro, mas, para encurtar o caminho, foi feito um atalho com saída para a rua Henrique Martins. A Cova da Onça desapareceu durante as reformas urbanísticas promovidas por Eduardo Ribeiro (1892-1896). Na primeira imagem temos um mapa da região em 1865. Na segunda, um mapa mostrando a atual localização (área destacada em vermelho).


À direita, desenho da Cova da Onça em 1865. FONTE: Jornal A Capital, 20/08/1917. À esquerda, a atual localização. FONTE: mapas.blogspot.com.


O Arruador


Existem menções ao arruador pelo menos desde o século XVI em Portugal. A construção de casas, prédios públicos, alinhamento e nivelação de ruas e praças eram suas tarefas. Possivelmente tiveram papel de destaque nas reformulações urbanas na capital portuguesa. Na América Portuguesa, não se sabe exatamente quando começaram a atuar, mas já no século XVIII, existem nomes como o de Antônio Fernandes da Silva, arruador responsável pelo traçado da cidade de Paraty, no Rio de Janeiro.

O arruador existe desde o estabelecimento da Vila da Barra como capital da Capitania de São José do Rio Negro. É um dos tipos sociais peculiares da Vila, ao lado do aguadeiro, do tocador de matraca e da lavadeira. Na ausência de engenheiros especializados, ele fiscalizava a construção de edifícios para que estes não “gerassem” ruas tortas ou espaços improdutivos como os becos; cuidava da limpeza das artérias públicas; e estabelecia os limites dos bairros. Nem sempre ele conseguia dar conta da fiscalização, por isso as constantes reclamações de presidentes da Província sobre a existência dos becos e travessas estreitos e escuros.

Entre 1835 e 1879 ocorreram cinco nomeações e uma solicitação para o cargo (YPIRANGA, 1994, p. 113-118). Além das funções já citadas, o arruador também estava encarregado da fixação de marcos (postes) que indicassem o nome das ruas, das travessas e das praças. Caso as ruas ficassem tortas, as casas e comércios irregulares, o arruador estava sujeito a multa. A Câmara Municipal de Manaus deixa de contratar pessoas não especializadas e, aos poucos, o arruador vai sendo absorvido ou, em alguns casos, desaparece diante da figura do Agrimensor, profissional graduado em engenharia.


A República


A proclamação da República traria consigo o boom econômico da borracha, o qual favoreceu enormemente a capital. Os impostos arrecadados da exportação dessa matéria prima garantiram a estruturação e embelezamento da cidade. Guiada pelos ideais positivistas, era chegada a hora de enterrar os passados colonial e provincial e se projetar para o futuro. A Manaus dos viajantes do século XIX era aquela das ruas esburacadas, irregulares, cortada por igarapés e com prédios em ruínas. A Manaus republicana seria aquela do alinhamento, da ordem e do progresso. O principal nome político dessa época, considerado aquele que soube aproveitar a situação econômica em benefício do estado, foi o do engenheiro militar Eduardo Gonçalves Ribeiro, governador entre 1892-1896. No quatro anos de administração Eduardo Ribeiro abriu novas ruas e estradas, as pavimentou e restaurou. Aproveitou a Avenida Sete de Setembro para expandir os limites da cidade para o Norte, através da construção das Pontes Romanas. A atual Av. Eduardo Ribeiro, em direção ao Porto, foi construída e nomeada Avenida do Palácio. Nos subúrbios da época, também construiu vias públicas. As ruas e avenidas do bairro da Cachoeirinha são obras de seu governo.

Através da planta da cidade de 1895, encomendada pelo governo a João Miguel Ribas, pode-se contrastar a evolução das vias públicas com a planta de 1852, de Tenreiro Aranha. A planta de 1852 mostra uma cidade pequena, com ruas estreitas e onduladas, seguindo um modelo português arcaico sem planejamento prévio. Na planta de 1895, que segue o famoso padrão “Tabuleiro de Xadrez”, modelo criado por Eugene Haussmann na urbanização de Paris no início do século XIX e popularizado na Europa, a malha urbana cresceu consideravelmente, avançando ao Norte pelo igarapé da Cachoeirinha. No lugar dos igarapés, agora aterrados, projetam-se ruas e avenidas largas e alinhadas.


Planta da Cidade de Manáos, 1895. FONTE: Acervo Marçal G. Trindade.


No início do século XX a construção de novas vias não para. Em 30 de novembro de 1905, a Lei Municipal 426 estabelece a nomenclatura de Constantino Nery para a via que seria construída para ser a continuidade da Avenida Epaminondas. Em 1910 o nome é trocado para Avenida João Coelho; em 1919 para Olavo Bilac; em 1927 volta a se chamar Constantino Nery; em 1930 volta para Olavo Bilac; e em 1953 volta definitivamente para Constantino Nery. João Batista de Faria e Souza afirmo que, comparada esta via pública com as congêneres de outros Estados, verifica-se ser a mais extensa, mais reta e de uma largura uniforme, o que é muito difícil conseguir-se em obras desta natureza.13


Ruas e estradas de outros bairros


Ruas também foram abertas em outros locais da cidade, como os conhecidos subúrbios da época, e também em áreas mais afastadas. De acordo com o Relatório da Comissão Organizadora do Tombo dos Próprios do Município, de 1927, as primeiras ruas do bairro de Educandos foram abertas em 1901, num total de 6, sob as ordens do superintendente Dr. Arthur Cezar Moreira de Araujo. Por meio do decreto n° 67, de 22 de julho de 1907, do superintendente interino Coronel José da Costa Monteiro Tapajós, a localidade de Educandos é batizada com o nome de Constantinópolis (Cidade de Constantino), uma homenagem ao governador da época, Constantino Nery.

Ainda com base nesse documento e nas informações do historiador Cláudio Amazonas, em 1908 a Intendência Municipal, sob os comandos do superintendente Domingos José de Andrade, através das Leis N° 487 (29 de fevereiro), 491 (4 de março), 507 (29 de maio) e 538 (9 de dezembro), dá a denominação das primeiras seis ruas que foram abertas no bairro:

A rua Norte/Sul n°1 passa a chamar-se Boulevard Sá Peixoto, "em homenagem ao sr. Senador Antonio Gonçalves de Sá Peixoto que tão relevantes serviços ha prestado ao Estado do Amazonas e especialmente à cidade de Manáos; As ruas Norte Sul n° 2 e 3 passam a chamar-se monsenhor Amâncio de Miranda e Innocêncio de Araújo; As ruas Leste/Oeste n° 1 e 2 passam a chamar-se Delcídio Amaral e Manuel Urbano; A que poderia ser a Norte/Sul n° 3, seria chamada pelo povo de Boulevard Rio Negro, pois se constitui a faixa marginal o bairro frente ao rio Negro. Quanto à praça, seria batizada de Dr. Tavares Bastos, advogado e político alagoano, morto no dia 3 de dezembro de 1875 em Nice, na França, que, dentre outros feitos importantes de sua vida, inclui-se a luta pela abertura dos portos do Amazonas ao comércio mundial e pela libertação dos escravos14.

No mesmo bairro, com suas obras iniciadas em 1928 e concluídas em 1929, a "Estrada de Constantinópolis", como era conhecida na época, foi aberta pelos membros da Sociedade Sportiva e Beneficente de Constantinópolis, para facilitar o acesso dos moradores ao bairro da Cachoeirinha, através da ponte Ephigênio Salles.

Em 1912 foi inaugurada a Vila Municipal, atual bairro de Adrianópolis, projeto do prefeito Arthur César Moreira de Araújo, aprovado em 1901. O bairro, distante, abrigaria parte da elite burocrata e comercial. O arruamento e o traçado foram realizados pelos engenheiros Lo Gonçalves Bastos Neto e Antônio Paiva e Melo. Através da Lei n°. 243, de 12 de dezembro de 1901, foram nomeadas as ruas e avenidas, a maioria homenageando capitais nordestinas: rua Fortaleza, rua São Luiz, rua Natal, rua Salvador, rua Teresina, rua Maceió e Avenida Paraíba. Em 1930 a Estrada do Paredão, na Colônia Oliveira Machado, é expandida para facilitar o acesso à região da Ponta Pelada, principal atracadouro das aeronaves da empresa Panair do Brasil.

Na década de 1950, o governador Plínio Ramos Coelho abriu a estrada do Morro da Liberdade, hoje conhecida como rua Branco Silva, fronteira com o bairro de Educandos. No bairro da Cachoeirinha, criado por Eduardo Ribeiro, o prefeito Paulo Pinto Nery abriu, em 1960, as avenidas Castelo Branco e Silves.

Ruas, Avenidas e Becos do tempo presente

As vias públicas da Manaus do século XXI são o ápice da evolução social e técnica pela qual a cidade vem passando desde o final do século XIX. Em 2010, foi inaugurada a Avenida das Torres, uma via que tem cerca de 6,3 mil metros e liga o bairro Cidade Nova, zona norte, ao bairro Aleixo, zona centro-sul, e ao bairro Coroado, zona Leste. Ela é uma alternativa mais rápida para ligar o bairro Distrito Industrial, na zona Sul, ao Aeroporto Eduardo Gomes, na zona Oeste, bem como desafogar o trânsito das avenidas Constantino Nery, Djalma Batista, Ephigênio Salles e Grande Circular. Parece que a função de atalho, aquela mesma utilizada desde os tempos da colônia, se conservou, estando diferentes apenas os limites e as estruturas.

Da mal estruturação das ruas, do espaço formado por alguma instalação industrial, do atalho para encurtar uma viagem, da construção irregular de casas que vão definindo o traçado dos caminhos transitáveis, surge um beco. Chamam a atenção pela ausência de movimentação mais intensa, pelo tamanho, pelo ar familiar, onde todos se conhecem a tempos. O Beco Carolina das Neves, na Aparecida, e o já desaparecido Beco do Macedo, no bairro de N. S. das Graças, são referências antigas. O beco (sem querer generalizar) também é o local onde o “poder paralelo” é mais facilmente exercido. O difícil trânsito impede a perturbação da ordem daqueles que comercializam todo tipo de drogas, como também facilita o acerto de contas: Aquele que persegue e segura a arma sabe que vai eliminar seu rival ou devedor, enquanto resta à vítima contar com uma sorte tão curta quanto o espaço entre as casas. Quanto aos moradores, vivem em uma relação mútua de não incomodar e não ser incomodado. Sobre esses logradouros, ainda faltam fontes mais densas em níveis históricos e sociológicos que possibilitem análises mais profundas.

Observando as vias de hoje, comparando com o traçado das antigas do final do século XIX e início do XX, com as leis sobre suas aberturas, parece que, em alguns aspectos, elas regrediram. As calçadas, por exemplo, eram retas, seguindo um mesmo padrão. Hoje, na maioria dos bairros da capital, são construídas em altos e baixos, grandes demais ou estreitas. Inúmeros registros fotográficos nos mostram as vias densamente arborizadas, diferente de hoje, onde domina o asfalto e o concreto, situação que coloca Manaus como uma das cidades menos arborizadas do país.


Conclusão

Portanto, as vias públicas em Manaus passaram por um lento processo de evolução, indo desde o simples caminho aberto na mata; passando pela travessa cortada por um igarapé; chegando até a grande avenida em modelo europeu. Com a influência econômica do final do século XIX e início do século XX, a via pública ganhou a função social que possui até hoje: é o local de lazer, das práticas mundanas e religiosas, das trocas comerciais, do trabalho, é elemento concreto das relações sociais, de manifestações públicas, o caminho que leva a diferentes locais e partes vitais da cidade.


1CORTEZ, Hernán. A Conquista do México. Porto Alegre: L&PM, 1996, p. 62-66.
2HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil, 26° ed, São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 110.
3WALLACE, Alfred Russel. Viagens pelo Amazonas e Rio Negro. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2004, p. 214.
4MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus. 4° ed, Manaus: Editora Metro Cúbico, 1994, p. 48.
5DUARTE, Durango Martins. Manaus: entre o passado e o presente. Manaus: Ed. Mídia Ponto Comm, 2009.
6MONTEIRO, Mário Ypiranga. Roteiro Histórico de Manaus. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1998, 2v.
7LOUREIRO, Antônio José Souto. A Travessa dos Inocentes. Disponível em: https://www.facebook.com/pardieiros/photos/a.692036210931902.1073741828.681961621939361/872332442902277/?type=3&theater Acesso em 21/11/16.
8FERREIRA, Alexandre Rodrigues. Viagem filosófica pelas capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá (1783-1793). p. 353-354. Disponível em CiFEFil, Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos - http://www.filologia.org.br/pereira/textos/diario_do_rio_negro_2.pdf Acesso em 22/11/16.
9MESQUITA, Otoni Moreira. Manaus, História e Arquitetura (1852-1910), 3° ed, Manaus: Editora Valer, Prefeitura de Manaus e Uninorte, 2006, p. 26-27.
10Código de Posturas de 1872. In: SÁ, Jorge Franco de. Manaus – Higiene, meio ambiente e segurança do trabalho na época áurea da borracha. Manaus: EDUA, p. 55-56.
11Ibidem, p. 58-59.
12RAMOS, A. Opiniões e Controversias. Jornal A Capital, 20/08/1917.
13SOUZA, João Batista de Faria e. Avenida Constantino Nery - Avenida João Coelho, Olavo Bilac e Constantino Nery. Diário Oficial do Estado, 1927. In Um historiador, alguns fatos inéditos e muitas histórias: uma homenagem a João Batista de Faria e Souza. DDC (Org.), 1° ed, Manaus: Mídia Ponto Comm Publicidade Ltda – EPP, 2014, p. 72.
14 Relatório da Comissão Organizadora do Tombo dos Próprios do Município. 1927. Administração do prefeito Basílio Torreão Franco de Sá. Disponível em: http://catadordepapeis.blogspot.com.br/2015/08/livro-tombo-da-prefeitura-de-manaus-1.html. Acesso em 24/11/2016.

Referências Bibliográficas

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