sábado, 19 de janeiro de 2013

Lincoln: o assassinato do presidente americano


Na noite de 14 de abril de 1865, quando assistia a uma comédia no Teatro Ford, em Washington, o presidente Abraão Lincoln foi atingido na cabeça por um disparo dado à queima-roupa. O assassino, John Wilkes Booth, era um conhecido ator americano, um rapaz que, com seu gesto espetacular, pensava estar vingando a derrota do Sul na Guerra de Secessão, que exaurira os Estados Unidos por quatro longos e sangrentos anos (1861-1865).

John Wilkes Booth, apesar de ainda jovem (tinha 26 anos no momento do crime), era um respeitado ator dramático, especializado em representar personagens de Shakespeare. Os homens o admiravam pela escolha dos seus papeis viris, e as mulheres o adoravam por considerarem-no como “o homem mais bonito da América”. Durante boa parte da guerra civil, mesmo atuando em palcos nortistas, ele prestara serviços regulares para a causa do Sul. Ele nunca escondera suas aflições pelo destino dos confederados, pois sempre se identificara com os valores deles. Ainda mais moço, ele militara no partido Know-Nothing, uma associação chauvinista da extrema direita que se opunha à chegada de imigrantes, e, como não poderia deixar de ser, era um ardoroso defensor da continuidade da escravidão. Booth, enfim, era contra tudo o que Lincoln representava.
Com o crescente colapso da confederação, destroçada pela Batalha de Gettysburg, vendo Atlanta incendiada durante a ofensiva do General Sherman contra o Sul, Booth, tomado de ódio monomaníaco contra Lincoln, arrebanhou um estranho grupo de conspiradores para executarem um plano seu; nada menos do que o sequestro do presidente!  Michael O’Laughlen, Samuel Arnold, Lewis Powell (Paine), John Surratt, David Herold e George Atzerodt, com quem ele reuniu-se no restaurante Gautier, em Washington, formavam um grupo extremamente heterogêneo (*), no qual  idealistas se misturavam com gente maluca que estava ali atraída pelo dinheiro de Booth (ele era um dos atores mais bem pagos da época, com rendimentos que ultrapassavam os U$ 12 mil anuais, uma fábula naquele tempo). 
 
Booth sempre afirmara publicamente suas inclinações políticas. Ainda em 1859, um pouco antes da Guerra de Secessão ter-se iniciado, ele se apresentou como voluntário na milícia da Virgínia (à época ele era ator titular do Teatro de Richmond, capital daquele estado sulista), para atuar na repressão, ao intento do abolicionista John Brown, de tentar tomar um arsenal local. Booth ofereceu-se para ficar de guarda junto ao corpo de Brown, enforcado depois de um julgamento sumário, para que seus seguidores não tentassem resgatá-lo. Outra história que ele gostava de contar era a do seu encontro com uma cigana que fez terríveis vaticínios sobre o seu destino. Só que, ao contrário de Macbeth, o assassino do rei que foi induzido ao crime por três bruxas que lhe pintaram um futuro de rei, a profetiza de Booth só previu-lhe desgraças. “Sua mão”, disse-lhe ela, “todas as linhas cruzam-se para o mal. Você destroçará corações e eles não significarão nada para você... pois você nasceu sob o signo de uma má estrela. Você morrerá jovem... uma multidão de inimigos irá contra você – não terá nenhum amigo -, pois você terá um fim muito ruim. Terá uma vida curta, mas célebre. 
 
Agora, moço, eu nunca vi uma mão pior do que a sua e gostaria até de não a ter visto, mas tudo o que eu disse saiu da verdade dos sinais. É melhor você se tornar missionário ou um padre para escapar dela.” Estava, pois, escrito na palma da mão de Booth, o homem mais bonito da América, vir a matar um dia Lincoln, o homem mais feio da América.
 
O primeiro plano
Os conspiradores supunham que a melhor oportunidade para raptar o Presidente Lincoln se daria no momento em que ele aparecesse para assistir a uma peça qualquer no Teatro Ford, em Washington. O elemento surpresa, pensavam, seria total. A primeira ação que marcaram deveria dar-se no dia 18 de janeiro de 1865, quando a guerra ainda não se encerrara. A Casa Branca anunciara que, naquele dia, o presidente iria estar presente ao drama ‘Jack Cade, or the Kentish Revolution’ (revolta popular inglesa de 1450, que, aliás, também foi tema de Shakespeare no seu Henrique VI). Impedimentos de última hora, porém, fizeram com que ele cancelasse o compromisso. Os conspiradores tiveram que adiar o seu plano para outra oportunidade.  
 
É interessante registrar que Lincoln chegara a presenciar uma atuação de Wilkes Booth dois anos antes de ser morto pelo ator. A ocasião deu-se a 9 de novembro de 1863, quando ele interpretou o escultor Rafael, na peça ‘The Marble Heart’ (Coração de mármore, de Charles Selby, 1854), naquele mesmo teatro, que depois serviria como o altar sacrificial de Lincoln. Com a rendição do Sul em Appomatox, ocorrida em 10 de abril de 1865, o rapto foi descartado. Cresceu, então, em Booth a ideia de que o presidente deveria ser morto. 
 
Filho e irmão de atores shakesperianos, parecia inevitável que Booth, homem treinado em encenações, se sentisse fortemente atraído por transformar o atentado contra Lincoln em algo dramático, sensacional, como tantas vezes ele vira e interpretara nos palcos. Afinal, ao longo das tragédias do grande bardo, não faltam finais sangrentos ou deposições reais por meio de crimes tremendos. 
 
A morte de César
Supõe-se que foi sua atuação na tragédia Júlio César, na qual ele contracenou em 1864 com dois dos seus irmãos, que o inspirou definitivamente. É bem possível que o momento em que Bruto diz aos conspiradores, quando César jazia morto aos seus pés: “Inclinemo-nos romanos: inclinemo-nos e banhemos nossas armas até o fundo no sangue de César, e salpiquemos com ele as nossas espadas!” tenha incendiado seu temperamento teatral ao máximo.  Lincoln, para ele, de certo modo era um César. Conquistara a glória numa guerra civil, governara o país como um ditador, e a coroa de louros que colheu vinha manchada com o sangue dos conterrâneos vencidos. Pior ainda, como se fora um Graco americano, Lincoln libertara os negros da escravidão.  
 
Apesar de Booth ter, na ocasião, representado o papel de Marco Antônio, o amigo de César, foi seguramente Bruto, o assassino do ditador, quem ele mais emulou. Deve ter-se comovido com a nobreza de Bruto que, para preservar a república, sacrifica a amizade e o sincero afeto que tinha por César. É possível, igualmente, que ele tenha se deixado tocar fundo pela imagem de perenidade do crime cometido pelos senadores romanos, aquela descortinada por Cássio - um dos conspiradores que enfiou sua espada em César -, quando disse: “Por quantos séculos se verá ser representada esta sublime cena em nações que ainda estão por nascer e em línguas ainda desconhecidas (Júlio César, IIIº ato, Iª cena). 
 
Ao trocar o rapto de Lincoln pelo seu assassinato em público, Booth reservou para si um papel extraordinário, o maior da sua vida: o de vingador. Aquele que seria simultaneamente um Bruto e um Coriolano sulista, cujo punhal iria redimir o desastre da confederação e a inconformidade do escravagista reacionário com a Lei da Emancipação.
 
A agonia do presidente
Quando Lincoln falou para uma multidão radiante que afluiu para as proximidades da Casa Branca no 10 de abril de 1865, o dia da vitória, celebrando a rendição do Sul, Booth, ali presente, comentou com um amigo: “É a última oração que ele fez”. De fato, o presidente só teria mais quatro dias de vida.  Na noite de 14 de abril, às 21:30 horas, Booth, nervoso, entrou no Star Saloon, ao lado do Teatro Ford e pediu uma dose de uísque. A espera tinha sido exaustiva. Afinal, como da outra feita, Lincoln poderia novamente cancelar sua presença. No balcão do bar, Booth perguntou a um conhecido seu, “você não vai ver o show de hoje à noite? Pois você deve. Você verá um final maldito!” A peça em cartaz era algo leve Our American Cousin (Nosso primo americano), divertimento adequado para o presidente alienar-se dos horrores passados na guerra recém-encerrada. 
 
Booth, íntimo dos interiores do teatro, não teve nenhuma dificuldade em alcançar às escuras a porta do camarote sete, onde estava o presidente e sua esposa Mary, e mais um jovem casal de acompanhantes. Levando uma pistola de cano curto, uma Derringer c.50, entrando por trás, Booth de imediato disparou na cabeça do presidente. Em seguida, saltou do camarote diretamente para o palco. Que situação! Ele escolhera o momento de propósito. Na cena dois do IIIº ato, só havia um ator presente. De um momento para o outro a brutal realidade interrompia a fantasia.  Perante um público ainda em estupor pelo pavoroso estampido, Booth, que fraturou a perna ao saltar para o tablado, ainda gritou: ...”Sic semper Tyrannis!” (Assim sempre ocorre com os tiranos!). Em seguida, mancando e com dores, fugiu pelos bastidores. Na ruela ao lado do teatro um cavalo encilhado o esperava. Partiu a galope. Deixava atrás de si uma nação em estado de choque, desolada. 
 
Logo, de luto, pois o presidente faleceu no dia seguinte ao atentado, cercado por médicos, Mary Todd e os filhos. Lincoln e Booth, a vítima e o seu executor - este último localizado no dia 26 de abril no celeiro da fazenda Garret por um pelotão de cavalaria na Virgínia e mortalmente ferido -, foram as últimas baixas da guerra civil americana. (*)
 
E o ator que, para imortalizar-se, sonhou um dia em derrubar o “Colosso de Rodes”, como ele referia-se a Lincoln, passou à história como o maior vilão dos Estados Unidos. Digamos que como consolação literária, Walt Whitman, o maior poeta da América, aproveitou o doloroso episódio para legar à nação um dos mais belos e comoventes poemas jamais feitos a um herói americano morto: “Oh! Capitão, meu capitão!”
 
(*) Os cinco outros conjurados, que atuaram com Booth, foram enforcados. 

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