sábado, 8 de junho de 2013

Urbanização e Sociedade

Um dos aspectos mais significativos da segunda metade do século XIX foi o crescimento urbano


As capitais dos Estados europeus eram habitadas por centenas de milhares de pessoas.Em alguns casos,como Paris e Londres,o número de habitantes superava o milhão.Mas o mais comum eram cidades com menos de 100 mil habitantes,todas experimentando um acelerado e desordenado processo de crescimento.


Nessas cidades,a separação entre os grupos sociais começava a ficar bem clara,com os bairros operários e aqueles destinados à burguesia "vitoriosa".Os contrastes eram cada vez mais acentuados,o que,segundo alguns autores,acabava por fundamentar as críticas feitas ao sistema capitalista,que propiciava o enriquecimento de poucos em detrimento da miséria de muitos.Existiam,é claro,muitos outros grupos além da burguesia industrial e do proletariado.Em alguns países ainda existiam nobres,artesãos conseguiam sobreviver ao sistema fabril,e,no campo,conviviam arrendatários e pequenos proprietários ao lado dos camponeses: a diversidade era notável.



O mundo burguês podia ser resumido ao interior de um lar,conforme o historiador Eric Hobsbawn:


Precisamos olhar agora a sociedade burguesa.Os fenômenos mais superficiais são às vezes os mais profundos.[...] O lar era a quintessência do mundo burguês,pois nele,e apenas nele,podiam os problemas e contradições daquela sociedade ser esquecidos e artificialmente eliminados.Ali,e somente ali,os burgueses e mais ainda os pequenos burgueses podiam manter a ilusão de uma alegria harmoniosa e hierárquica,cercada pelos objetos materiais que a demonstravam e faziam-na possível,a vida de sonho que encontrou sua expressão culminante no ritual doméstico sistematicamente criado e desenvolvido para este fim,a celebração do Natal.


[...]



Nada era mais espiritual do que a música,mas a forma característica em que ela entrava no lar burguês era o piano,um aparato excessivamente grande,rebuscado e caro,mesmo quando reduzido - para o benefício de uma camada mais modesta aspirante a valores burgueses - às dimensões mais manuseáveis de um piano de parede (pianino).Nenhum interior burguês era completo sem ele;todas as filhas diletas da burguesia eram obrigadas a praticar escalas sem fim naquele instrumento.



HOBSBAWN,Eric J.A era do capital (1848-1975).Trad.Luciano Costa Neto.ed.Rio de Janeiro: Paz e Terra,1982.p.241-3.





(Paris,final do século XIX)

(Londres,final do século XIX,pintura de W.Logsdail)

Já o mundo dos trabalhadores crescia,pois a urbanização e a industrialização requeriam mais e mais operários,que se originavam do mundo rural.Nas cidades,portanto,havia uma massa enorme de trabalhadores que deixava as elites preocupadas.Afinal,o número de trabalhadores já era tão expressivo que,se eles se organizassem,poderiam trazer sérios problemas.E,de fato,em muitos países eles se organizaram politicamente,filiando-se aos partidos socialistas de diversos matizes.

Paralelamente,crescia também o número daqueles que não conseguiam empregos e que,sem maiores perspectivas,acabavam entrando para o mundo da delinquência,criando novos problemas para os governos.As prisões se multiplicavam e não conseguiam reabilitar praticamente ninguém;prova disso é que,quando um condenado deixava a prisão,carregava um estigma da criminalidade,e,novamente sem perspectivas,voltava a delinquir.

(Bairro Operário em Londres,século XIX)

Era preciso separar as "classes laboriosas" das "classes perigosas",como se caracterizavam,na época,esses dois grupos.Portanto:

[...] Veja as formidáveis campanhas de cristianização junto aos operários que tiveram lugar nessa época.Foi absolutamente necessário constituir o povo como um sujeito moral,portanto,separando-o da delinquência,portanto,separando nitidamente o grupo de delinquentes,mostrando-os como perigosos não apenas para os ricos,mas também para os pobres,mostrando-os carregados de todos os vícios e responsáveis pelos maiores perigos.Donde o nascimento da literatura policial e da importância,nos jornais,das páginas policiais,das horríveis narrativas de crimes.

FOUCAULT,Michel.Microfísica do poder.MACHADO,Roberto (Org.).6.ed.Rio de Janeiro: Graal,1986.p.133.

Nesse período,de grande efervescência literária,além dos jornais e revistas,romances e novelas também retratavam a realidade das sociedades urbanas:

Neste trecho da obra póstuma A Cidade e as Serras (1901),do português Eça de Queirós (1845-1900),o personagem Zé Fernandes conversa com o amigo Jacinto,parisiense riquíssimo,a quem trata por "príncipe",sobre Paris.

[...] E se ao menos essa ilusão da cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a mantêm...Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na cidade os gozos especiais que ela cria.O resto,a escura,imensa plebe,só nela sofre,e com sofrimentos especiais que só nela existem! [...] Aí jaz,espalhada pela cidade,como esterco vil que fecunda a cidade.Os séculos rolam; e sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo,e sempre debaixo deles,através do longo dia,os homens labutarão e as mulheres chorarão.E com este labor e este pranto dos pobres,meu príncipe,se edifica a abundância da cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se não abrigam;armazenada de estofos,com que eles se não agasalham;abarrotada de alimentos,com que eles se não saciam!Para eles só a neve,quando a neve cai,e entorpece a sepulta as criancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris...A neve cai,muda e branca na treva;as criancinhas gelam nos seus trapos;e a polícia,em torno,ronda atenta para que não seja perturbado o tépido sono daqueles que amam a neve,para patinar nos lagos do bosque de Bolonha com peliças de três mil francos.Mas quê,meu Jacinto! a tua civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas,que só obterá,nesta amarga desarmonia social,se o capital der ao trabalho,por cada arquejante esforço,uma migalha ratinhada.Irremediável,é,pois,que incessantemente a plebe sirva,a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor da cidade.

QUEIRÓS,Eça de.A cidade e as serras.São Paulo: Nova Cultural,2003.p.72-3.


FONTE: Adaptado de ESTUDOS DE HISTÓRIA,de Ricardo de Moura Faria,Mônica Liz Miranda e Helena Guimarães Campos,1* Edição,São Paulo,2010.










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