sábado, 31 de agosto de 2013

A Inconfidência Baiana (1798)



A Inconfidência Baiana,dentre as rebeliões coloniais,foi a que manifestou um caráter nitidamente popular.Dela tomaram parte padres,médicos,advogados,mas sobretudo pessoas do povo,como sapateiros,escravos,ex-escravos,soldados e vários alfaiates,motivo pelo qual ficou também conhecida como Conjuração dos Alfaiates.

"Retomar o estudo da sedição de 1798 é tarefa mais difícil do que se imagina.Sobre a mesma base documental conhecida e publicada,os 'Auto da Devassa do Levantamento e Sedição Intentados na Bahia em 1798',vários escritos históricos se produziram buscando responder aos requisitos mais diversos.O regionalismo baiano fez dos Alfaiates um dos seus avatares,visando demonstrar a maior contribuição baiana,mais social e mais popular do que a mineira,para a formação do Brasil independente.Aí também buscou-se a manifestação sul-americana da Revolução Francesa,que,segundo alguns autores,viajou mundo afora.Outros daí extraíram o esboço de proto-proletariado brasileiro,já precocemente socialista.Hoje grupos culturais como o Olodum recuperam o caráter étnico da sedição de 1798,chamando-o inclusive pelo seu nome mais popular: Revolta dos Búzios."

(ARAUJO,Ubiratan C."A Inconfidência Baiana".In Folha de S.Paulo,Caderno de Resenhas,9/8/1996.p.6)

As origens da revolta devem ser buscadas na transferência da capital para o Rio de Janeiro,em 1763,que acarretou dificuldades econômicas para a cidade de Salvador.Nela vivia uma população miserável,sobrecarregada de tributos,que contestava com frequência a exploração metropolitana.Este clima de descontentamento estimulou a propagação dos ideais de liberdade,igualdade e fraternidade,que varriam a Europa e a América,favorecidos pelo sucesso da independência dos Estados Unidos (1776),pelas realizações da Revolução Francesa,de 1789,e pela rebelião de escravos das Antilhas,ocorrida a partir de 1791,que culminou na independência do Haiti em 1793.

Esses ideais chegavam à Bahia por intermédio dos intelectuais e profissionais liberais e empolgavam a população de Salvador,ocasionando encontros secretos em que se discutiam os princípios revolucionários e se preparava uma conspiração contra as autoridades lusas.Nesse quadro,sobressaiu a atuação revolucionária da organização secreta Cavaleiros da Luz,sediada na casa do farmacêutico Figueiredo Melo.

Participaram da preparação do movimento tanto membros da elite baiana,como indivíduos representando as camadas pobres da população de Salvador - mulatos livres e até mesmo alguns escravos.Os objetivos de segmentos tão distantes da sociedade colonial brasileira coincidiam no que se refere ao desejo de autonomia do Brasil,mas divergiam quanto às mudanças da estrutura interna.Tanto que,quando as camadas populares passaram a enfatizar a luta contra os privilégios senhoriais e contra a escravidão,vários membros da elite local retiraram-se do movimento.

O tom popular da revolta foi dado pelos diversos motins que envolveram soldados e pessoas simples das ruas de Salvador,incluindo saques a armazéns e propriedades.Além disso,panfletos contendo idéias e propostas radicais foram afixados nas esquinas e nos muros de igrejas da cidade.

Entre os principais líderes da revolta estavam os alfaiates João de Deus e Manuel Faustino dos Santos Lira,os soldados Lucas Dantas de Amorim Torres,Luís Gonzaga das Virgens e Romão Pinheiro,o padre Francisco Gomes,o farmacêutico João Ladislau de Figueiredo,o professor Francisco Barreto e o médico Cipriano Barata.

Os conspiradores pregavam a proclamação de um governo republicano,democrático e livre de Portugal,a liberdade de comércio,o aumento dos salários dos soldados e boa parte deles defendia também o fim da escravidão e do preconceito contra os negros e mulatos.

No dia 12 de agosto de 1798,os rebeldes espalharam cartazes pela cidade proclamando o início da rebelião,ao mesmo tempo que o então governador de Pernambuco,D.Fernando José de Portugal,iniciava a repressão contra o movimento.A revolta acabou sendo denunciada às autoridades portuguesas por alguns traidores,que apontaram,inclusive,seus líderes,permitindo ao governador prender os cabeças do movimento.Foram presos dezenas de envolvidos,a maioria pessoas modestas,incluindo nove escravos.A revolta acabou sendo desarticulada por completo.

Depois de mais de um ano de prisões,interrogatórios e depoimentos,foram definidas as sentenças dos envolvidos.Aos mais pobres couberam as penas mais duras: João de Deus Nascimento,Manuel Faustino,Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens foram enforcados e esquartejados,e as partes de seus corpos,espalhadas pela cidade de Salvador.Vários condenados receberam castigos corporais.As penas mais leves foram reservadas aos membros da elite baiana e alguns deles acabaram inocentados;outros,porém,foram presos e degredados.




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