sábado, 10 de agosto de 2013

As Reformas Religiosas do Século XVI



(O Juízo Final,obra de Michelangelo,feita entre 1535 e 1541)


Nos primórdios da Idade Moderna,muitas regiões da Europa encontravam-se devastadas pelas guerras,pela fome e pela peste.Essa situação contribuiu para aumentar a sensação de medo na população.Medo das doenças,da fome,das guerras e da ira de Deus.Cada vez mais as pessoas passaram se preocupar com questões de ordem religiosa e espiritual,como a salvação da alma.

Os meios para se conseguir o perdão divino não estavam somente na fé: As pessoas também podiam recorrer às indulgências (o mesmo que perdoar) e à realização de "boas obras".Para conseguirem a salvação divina,os fiéis deveriam cumprir e praticar de forma rigorosa os mandamentos,sacramentos e ritos cada vez mais complexos.

Porém,havia cristãos que se sentiam desorientados e desamparados,pois acreditavam que a Igreja preocupava-se mais com questões políticas e temporais do que com as questões espirituais.

Em meio a essa situação,uma parte dos europeus acabou se afastando da Igreja Católica,em busca de novas formas de religiosidade.Nesse processo,sofreram influência de outras religiões,como o Judaísmo,o Islamismo e os Cultos tradicionais de origem germânica.Mesmo com o aumento do número de adeptos de outras crenças,os Cristianismo permaneceu como a religião predominante na Europa.




Grandes transformações culturais vão marcar o século XVI na Europa.Sob influência do humanismo,muitos pensadores promoveram novas ideias,como o racionalismo.Para completar,os ideais Renascentistas de curiosidade e liberdade estimulavam os europeus a inovarem sua mentalidade,principalmente na política,ciência,artes e religião.

O contato com culturas de regiões distantes,que se deu por meio da expansão marítima europeia,também contribuiu para o aprimoramento dessas novas ideias.Muçulmanos e bizantinos,que haviam conservado obras dos antigos gregos em suas bibliotecas,apresentaram-nas aos estudiosos da Europa,propiciando a difusão e a valorização desses conhecimentos.

As reformas religiosas do século XVI foram fundamentais na configuração da Europa Moderna.Os movimentos mais importantes aconteceram na Alemanha,Suíça,França e Inglaterra,cada um apresentando motivações e características específicas,mas também pontos em comum.

A Reforma de Lutero






(Martin Luther,1483 - 1546)


O primeiro movimento de Reforma Protestante ocorreu na Saxônia,atual Alemanha.O líder desse movimento foi Martinho Lutero,em alemão Martin Luther.Nascido em 1483,na cidade de Eisleben,Lutero entrou para a ordem monástica dos agostinianos e,a partir de então,manteve uma vida rigorosamente pautada por princípios católicos.

Após uma viagem a Roma,em 1510,Lutero percebeu que muitos líderes da Igreja Católica estavam corrompidos,principalmente porque estimulavam a venda de indulgências.Preocupado,começou a formular o documento que seria considerado o marco fundador da Reforma Protestante: as 95 teses.Essas teses,que foram afixadas nas portas da Igreja de Wittenberg,em 1517,denunciavam,entre outras práticas,a venda de indulgências pela Igreja Católica.





(as 95 teses de Martinho Lutero)


Ao fundamentar sua doutrina,Lutero se baseou na ideia de justificação pela fé,ou seja,a salvação cristã dependeria da crença das pessoas em Deus,e não na realização dos rituais católicos.Além disso,acreditava que somente a Bíblia podia revelar a vontade de Deus,sem precisar da interpretação teológica dos clérigos católicos.

Outro importante elemento da doutrina luterana era o sacerdócio universal,isto é,o princípio de que todos os fiéis seriam membros do sacerdócio,eliminando a diferença entre leigos e clérigos.Consequentemente,deveria ser eliminada toda a autoridade do papa e da Igreja.

Lutero também traduziu a Bíblia do latim para o alemão,possibilitando que mais pessoas pudessem ter acesso direto ao que os cristãos consideram a palavra de Deus.Com essa tradução,sistematizou a escrita em alemão,contribuindo para o desenvolvimento da língua alemã moderna.

Uma das consequências imediatas da Reforma Luterana foi a Guerra dos Camponeses (1524-1525).Essa revolta teve início na região alemã da Suábia e espalhou-se por todo o Sacro Império Romano - Germânico.Os camponeses,estimulados pelas palavras de Lutero contra a autoridade da Igreja,interpretaram erroneamente as ideias da Reforma e iniciaram uma série de levantes contra a nobreza e o clero.Eles lutavam pela melhoria de suas condições de vida e pela restituição de direitos que haviam sido abolidos,como o uso das terras comunais.Em diversas ocasiões,chegaram a saquear e queimar castelos,igrejas e mosteiros.

A Guerra dos Camponeses foi rápida e brutalmente contida pelos nobres e pelas autoridades estatais.O líder da Revolta,Tomás Muntzer,foi preso,torturado e morto,e os camponeses não conseguiram nenhuma melhoria.





(Gravura ilustrando a revolta)


O Calvinismo





(João Calvino,1509 - 1564)


Outro importante movimento reformista foi iniciado pelo francês João Calvino,nascido em 1509.Apesar de ter recebido uma formação católica,Calvino se converteu ao Protestantismo,dizendo ser seguidor de Lutero.Por ter assumido a religião protestante,teve que fugir da França,fixando-se na cidade de Genebra,na Suíça,em 1536.

A doutrina calvinista se caracteriza pela teoria da predestinação,ou seja,a salvação ou a condena cão humana é determinada por Deus,decisão em que o ser humano não pode intervir.Outra característica da doutrina calvinista é a supervalorização do trabalho.

Ao se instalar em Genebra,Calvino assumiu o poder na cidade e estabeleceu um governo baseado em suas doutrinas.Dessa forma,governou com rigidez todos os setores da sociedade,como o sistema educacional de Genebra,por exemplo,no qual impôs uma educação cristã desde a infância até a universidade.

A Reforma Anglicana





(Henrique VIII,1491 - 1547)


A Recusa do Papa ao pedido de anulação do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão,para que ele pudesse desposar Ana Bolena,causou a ruptura entre o rei inglês e o papado.Mas os motivos verdadeiros foram políticos (escapar ao controle do Papa e submeter a Igreja ao Estado) e econômicos (tomar os bens da Igreja).Em 1534,pelo Ato de Supremacia,Henrique criou uma Igreja Nacional,mas sem mudar o culto.Seu filho,Eduardo VI,realizaria as mudanças.Em 1549,impôs o Livro de Orações Comuns,escrito em inglês.Em 1553,suprimiu a missa e autorizou o casamento dos padres.

A Reforma Anglicana estabeleceu-se definitivamente sob o reinado de Elizabeth I (1558-1603).Pela Lei dos 39 Artigos,de 1563,adotava-se o calvinismo,conservando a hierarquia episcopal e parte do cerimonial católico.O Anglicanismo passava assim a ter um conteúdo Protestante (calvinista) e uma forma católica.

Outros Movimentos

Entre os movimentos de Reforma,alguns grupos se destacaram pelo radicalismo de suas crenças e doutrinas,como os Zwinglianistas e os Anabatistas.

Zwinglianismo: fundada pelo religioso suíço Ulrich Zwinglio,essa doutrina caracterizou-se pela negação de muitos rituais católicos,como o culto às imagens e a celebração de missas.Os zwinglianistas defendiam,além disso,que a Bíblia era a única portadora da palavra de Deus,e não a Igreja Católica.Essa doutrina começou a perder espaço quando Zwinglio foi morto em uma batalha contra os católicos.

Anabatismo: os anabatistas,liderados por Conrad Grebel,formaram um grupo divergente do zwinglianismo.Os seguidores do anabatismo ("novo batismo") não aceitavam que o batismo fosse feito em crianças,pois acreditavam que somente pessoas adultas tinham condições de decidir sobre sua religiosidade.Eles formavam comunidades isoladas nas quais a religião comandava todos os aspectos da sociedade.Os anabatistas foram duramente perseguidos,mas vários de seus princípios influenciaram outros grupos,como os batistas e os quakers.

Reforma e Contra-Reforma

A Igreja Católica viu-se em situação desesperadora com o avanço do protestantismo,que se estendia por toda parte.O papado hesitava,diante da luta interna contra a teoria conciliar: seria impossível realizar uma reforma se convocar o concílio.Foi decisivo o surgimento da Companhia de Jesus,lançada por Inácio de Loyola em 1534,em Paris,e confirmada pelo Papa Paulo III em 1540.Os jesuítas,soldados de Cristo cegamente obedientes ao Papa,encarregaram-se de organizar o Concílio de Trento,que se reuniu em 1545.

Enquanto o Concílio não se reunia,o Papa tomou medidas: restaurou os tribunais da Inquisição.O Santo Ofício,dominado por dominicanos e com sede em Roma,conteve o avanço protestante violentamente,em Portugal,Espanha e Itália.Em 1543,foi criada a Congregação do Índex,para publicar a lista dos livros proibidos aos cristãos.

O Concílio Ecumênico,isto é,universal,reuniu toda a Igreja entre 1545 e 1563,em Trento,cidade do Império Germânico perto da fronteira italiana.Dele saiu uma Igreja reformada e modernizada.Graças à ação dos jesuítas,reforçou-se a autoridade do papa e manteve-se a doutrina tradicional,contra a oposição de setores do clero francês.A disciplina se restabeleceu,com a fixação de condições e idade mínima para o exercício de funções eclesiásticas e a proibição de acumulação de paróquias e bispados por um mesmo religioso.A grande mudança foi a criação de seminários para formar os padres.Foi criado um Catecismo e um Missal.

Os católicos desencadearam então a Contra-Reforma.Com medidas de combate sistemático aos protestantes,em três frentes.A primeira era a recuperação de áreas sob influência do protestantismo,através da educação,com a criação de colégios destinados ao ensino primário e à recuperação das novas gerações.O resultado foi a reconquista de parte da Renânia,Sul dos Países Baixos e Polônia.Segunda Parte: difusão do catolicismo entre povos não-cristãos,através da catequese,em que se destaca a ação de São Francisco Xavier no Japão.A terceira frente foi a contenção do protestantismo através dos tribunais da Inquisição.

A Intolerância Religiosa





(pessoa sendo queimada na Inquisição)




Nos séculos XVI e XVII,os europeus conviviam com a intolerância religiosa.Os cristãos que adotavam doutrinas e ritos considerados heréticos se confrontavam com os clérigos.Muitos protestantes,por sua vez,perseguiam hereges pagãos.

Em 1542,a Igreja Católica criou o Tribunal do Santo Ofício,também chamado de Inquisição Moderna.A Inquisição investigava e perseguia os suspeitos de heresia,obtinha confissões utilizando métodos como a tortura e podia condenar os hereges à morte.As execuções,muitas vezes feitas por meio da cremação em fogueira,eram realizadas em grandes eventos públicos,chamados de Autos de Fé.A Inquisição dispunha de uma lista dos livros heréticos,o Index,que incluía,por exemplo,obras de Maquiavel,Erasmo de Rotterdam,Lutero e Calvino.

Os Hereges

No início da Idade Moderna,os clérigos e nobres católicos já haviam dizimado muitas crenças cristãs consideradas heréticas,proibindo a sua divulgação e perseguindo quem as divulgava.Nesse contexto,vários pensadores cristãos se aproximaram do protestantismo,do racionalismo científico e de outras religiões.

O racionalismo,bastante divulgado pelos renascentistas e humanistas,atraiu filósofos e cientistas que propunham uma nova ciência,embasada em teorias fundamentadas na experiência,na curiosidade e no raciocínio matemático.No início do século XVII,vários cientistas,como Galileu Galilei,foram condenados pela Inquisição e obrigados a negar suas ideias "heréticas";outros,que se recusaram a se retratar,foram executados,como Giordino Bruno.

Muitos cristãos,tanto protestantes quanto católicos,costumavam delatar  para os tribunais da Igreja ou do Estado qualquer pessoa com atitudes suspeitas,que pudessem ser consideradas heréticas.Entre as pessoas mais visadas pelos delatores estavam os "cristãos novos",pessoas recém-convertidas ao cristianismo - muitos dos quais eram judeus os muçulmanos.Mas as heresias mais perseguidas eram aquelas consideradas pagãs,como a magia,a alquimia,o ocultismo e a astrologia,chamadas pelos cristãos de "bruxaria" ou "feitiçaria".

As "bruxas" ou "feiticeiras" eram,geralmente,mulheres que conheciam cultos tradicionais germânicos e técnicas medicinais e farmacêuticas,trabalhando como curandeiras,parteiras e conselheiras.Na época da Inquisição,muitas mulheres foram condenadas à morte na fogueira,acusadas de possessão demoníaca e de utilizarem encantos e unguentos mágicos para prejudicar as pessoas.As perseguições a essa mulheres se intensificaram na Europa principalmente em momentos de crise social ou de catástrofes naturais,que muitas vezes eram consideradas frutos de feitiços e bruxarias.


FONTE: Adaptado de: Coleção Novo Olhar,História.Marco Pellegrini,Adriana Machado Dias e Keila Grinberg.2010.

Toda a História,José Jobson de A.Arruda e Nelson Piletti.1994.



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