quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O Imaginário Europeu


(Gravura do século XVI representando monstros marinhos)

Até o século XIV,o conhecimento que se tinha na Europa a respeito de outros lugares do mundo era bastante restrito.Além dos relatos do veneziano Marco Polo,as informações disponíveis sobre o Oriente eram encontradas,quase sempre,em obras escritas por pessoas que jamais haviam estado na Ásia.

Os europeus do século XV costumavam misturar conhecimentos geográficos com lendas,realidade com imaginação.Acreditavam,por exemplo,na existência de um país imaginário,Offir,de onde teriam se originado todos os tesouros do Rei Salomão.Os navegantes Cristóvão Colombo e Sebastião Caboto tentaram encontrar Offir na América e vários navegantes portugueses o procuraram na África.

Outro reino imaginário,governado por um rei cristão bondoso e rico chamado Preste João,reunia as cavaleiras amazonas,as relíquias de Santo Tomé,a fonte da juventude e enormes rios de ouro,prata e pedras preciosas...Localizado inicialmente na Ásia e,a partir do século XIV,na África,esse reino,apesar de nunca ter existido (quem sabe ?),recebeu descrições detalhadas:




" [...] Ora,devendo fazer menção ao Império do Preste João,que é o maior e mais rico príncipe que se encontra em toda a África,digamos,resumidamente,que [...] pode ter o Império deste Rei Cristão 4.000 milhas.A cidade principal [...] chama-se Babelmaleque; e o Estado é rico e abundante de ouro e prata e de pedras preciosas e de toda sorte de metal.A gente é de desvairadas cores,branca,preta e intermediária,de boa estatura e de bom parecer.Os cortesãos e Senhores trajam-se bem de panos de seda com ouro e pedraria [...] Na festa de Nossa Senhora de Agosto,ajuntam-se todos os Reis e Senhores principais [...] celebra-se uma procissão muito solene; e,da Igreja,de onde sai,levam uma imagem da Virgem Mãe de Deus,grande como uma pessoa comum,toda de ouro; a qual imagem tem por olhos dois riquíssimos e grandes rubis; e todo o mais corpo da estátua é coberto e arraiado de pedraria e de lavores diversos; e é conduzida num andor de ouro [...]

Nesta procissão,sai em público o Preste João,num carro de ouro ou em cima de um elefante [...] todo adornado de jóias e de coisas preciosas e raras,vestido de tela de ouro; e é tanta a multidão de gente que concorre a ver aquela imagem,que muitos morrem sufocados pelo aperto. [...]

(Filippo Pigafetta,humanista italiano,e Duarte Lopes,comerciante português,Relação do reino de Congo e das terras circunvizinhas,1591)

Da ignorância nascia o medo.Os europeus acreditavam que nos oceanos desconhecidos moravam terríveis monstros,prontos para atacar os marinheiros:




" Tinha somente a aparência de homem na cara,na cabeça não tinha cabelos mas uma armação,como de carneiro,revirada com duas voltas; as orelhas eram maiores que as de um burro,a cor era parda,o nariz com quatro ventas,um só olho no meio da testa,a boca rasgada de orelha a orelha e duas ordens de dentes,as mãos como de bugio,os pés como de boi e o corpo coberto de escamas,mais duras que conchas. [...]

(Relato do português Francisco Correia a respeito do naufrágio da nau Nossa Senhora da Candelária,na Ilha Incógnita,século XVII)

Existiam também no imaginário europeu as sereias,avistadas por Colombo na América e pelo padre jesuíta Henry Enriquez na Ilha Manor,juntamente com tritões,como eram chamados os homens-sereias.Outro jesuíta,Eusébio de Nuremberg,assegurava que os marinheiros da Galícia

" [...] descendem de um tritão e de uma moça (bastante avoada) das redondezas. [...]

Conta-se que,em 1548,o arquiduque Filipe da Áustria exibiu uma sereia que "viveu longos anos num convento.Ela não falava,mas trabalhava e tecia.Só que não podia corrigir seu amor pela água e fazia todos os esforços para a ela voltar".

O francês Ganeau,por sua vez,classificou as sereias entre os moluscos:

[...] Entre os moluscos há um peixe com rosto e seios de mulher,do tamanho de um novilho,cuja carne tem gosto de vaca.Dizem que seus dentes são um bom remédio para disenteria. [...]

Muitos europeus acreditavam que em direção ao Sul o mar seria habitado por monstros e estaria sempre em chamas.Segundo essa crença,aqueles que arriscassem cruzar o Atlântico - conhecido como Mar Tenebroso - iriam se deparar com o fim do mundo: em algum ponto o oceano acabaria e daria lugar a um enorme abismo.




FONTE: GISLANE E REINALDO. História em Movimento.Volume 1.

AMADO, Janaína ; GARCIA, Ledonias Franco. Navegar é Preciso.Grandes Descobrimentos Marítimos Europeus. 198925° edição.


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