sábado, 28 de setembro de 2013

Cidade Grande


Na cidade grande,vivo dia a dia.
O medo me vigia,não existe garantia.
Ergo um muro,muro lá no alto.
Pensando estar a salvo,de um mundo tão macabro.

Na cidade grande,penso ser feliz.
Não existe uma matriz.
Prefiro ser infeliz.
Do que viver por triz.

Na cidade grande de um país violento.
Vive gente em meio ao relento.
Tenho pavor delas,não sei se aguento.
Olho de um apartamento,a pobreza do momento.

Na cidade grande,resumo num instante.
A vida delirante,de uma urbe inconstante.
Onde a alegria é utopia.
E o amor não contagia.


Autor: Fábio Augusto



Casarões e Palacetes de Manaus

Quando se conta, aos que não sabem, as belezas de Manaus, todo o seu progresso, todo o seu maravilhoso poder de sedução, parece que o que se diz é uma nova lenda da terra encantada, a maior de todas as lendas, a lenda em que faz erguer-se à beira dos grandes rios e por entre as florestas incomparáveis, uma cidade inacreditável de contos de fadas... E quando alguém passa da ficção para a realidade, descrevendo a Pérola do Rio Negro, essa Manaus soberba e grandiosa, que é orgulho dos que vivem nela e a saudade dos que estão longe, parece ser tudo uma alucinação imensa, um delírio insano, a ânsia de erguer nas selvas, para os gnomos e duendes, uma cidade cheia de avenidas e de palácios... Uma cidade incrível, que mais parece um sonho, cidade que é enlevo dos que vivem o seu conforto e a imensa saudade dos que já viveram no seu coração fascinado e meigo ("Manaus, A cidade incrível" Revista Amazônida, n*44, julho de 1930. apud MASCARENHAS;EDINEA, 2007, p.25).


Realmente Manaus já foi majestosa, um verdadeiro conto de fadas, com avenidas e casarões bem cuidados, ruas arborizadas e calçadas livres de ambulantes. A cidade, apesar de todos os problemas, ainda possui inúmeros casarões e palacetes. Essas construções datam do final do século XIX e início do XX (que coincide com o ciclo da borracha). Alguns estão bem conservados, outros, no entanto, tornaram-se "fabulosas" ruínas que por muita sorte resistem a décadas de abandono. A presente postagem, tem o intuito de descrever, de certa forma, os casarões e palacetes da cidade, que, direta ou indiretamente, contam um pouco da história da região. Irei utilizar como base o livro do acadêmico Luiz de Miranda Corrêa, Roteiro Histórico e Sentimental da Cidade do Rio Negro, publicado em 1969.


Muitas famílias fizeram fortuna em Manaus. Construíram suntuosas residências, todas no mais refinado padrão europeu. Algumas dessas famílias merecem ser citadas: Os Oliveira da "Vila Fany", os Araújos, donos da maior casa aviadora do Amazonas, os Bretislau de Castro, os Mattos Areosa, os Rezende Rocha e os Miranda Corrêa. Algumas sobrevivem até os dias de hoje, outras, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Incríveis fortunas, como a dos Mello Resende, dos Rapôso da Câmara, dos Ramalho, dos Rêgo Monteiro, dos Nery, dos Bittencourt ou dos Pedrosa, desapareceram como por encanto. "Fizeram do dia para a noite e perderam da mesma forma".

Vaso chinês,Palácio da Justiça

A casa das pessoas mais ricas eram decoradas com tapetes europeus, pianos alemães, jarras de sévres, cristal St.Louis ou Bacarat, as louças de Limóges, Wedgwood, ou Vista Alegre, compunham todo o aparato para garantir os confortos da nova elite.

Casarões na rua Ferreira Pena

As velhas casas do tempo da borracha tem histórias e fantasmas, estes últimos, uma espécie de herança inglesa, bem aceita pela ingenuidade do indígena, sempre pronto a acreditar no sobrenatural. Nas redondezas da Praça dos Remédios (já foi um dos mais belos logradouros da cidade. Atualmente é um local perigoso de se frequentar no Centro Histórico) e na Avenida Joaquim Nabuco, concentram-se as residências dos senhores da borracha. Outras, porém, são encontradas nos altos da Avenida 7 de Setembro, na Eduardo Ribeiro e perto da Praça Dom Pedro II (outro logradouro infelizmente perigoso de se frequentar). Alguns fugiram do Centro urbano, e, imitando os ingleses, procuraram terrenos mais altos: já nos limites com a floresta, perto do Reservatório do Mocó.

Castelinho da Vila,Adrianópolis

Voltando ao Centro, deve-se olhar a tão conhecida "Vila Fany", ponto de encontro, até os anos 30, da melhor sociedade amazonense e dos estrangeiros mais categorizados. Sobradão português de larga fachada, em que certos elementos neoclássicos foram empregados visando a conseguir um efeito palaciano. As proporções do prédio são mais portuguesas, e a aparência sólida do bloco foge à leveza do neoclássico, que se pretendeu conseguir.

Grupo Escolar Nilo Peçanha,Avenida Joaquim Nabuco

Continuando na Joaquim Nabuco, rua onde se encontra a "Vila Fany", encontra-se mais de meia dúzia de belos sobradões portugueses, alguns com azulejos de inspiração colonial ou já Art Nouveau, ostentando em seus frontões estatuária do Porto. Deve-se notar, também, um outro tipo de construção mais singela, cujas origens portuguesas se denunciam à primeira vista. Espécie de pequenas casas de fazenda já com requintes urbanos, construção híbrida que talvez Gilberto Freyre chamasse de rurbana, cujo melhor exemplo é a bela casa em que hoje se encontra instalada a Legião Brasileira de Assistência.

Ainda na Joaquim Nabuco encontramos a sede amazonense do IRB, um tipo de "Vila Fany" em maiores proporções, trazida até a calçada em que os elementos neoclássicos já não são tão evidentes. Pertenceu à família do seringalista Mendes Cavaleiro e depois serviu de Consulado da Colômbia. É outro prédio a lembrar que a Joaquim Nabuco foi das ruas mais prediletas do Nouveau Riches do início do século.

Palacete Nery,Avenida Joaquim Nabuco

Na mesma via pública, alguns blocos mais abaixo, o palacete Nery, construído pelo Governador Silvério Nery, servindo atualmente como sede de repartição federal (nos dias de hoje em total abandono), nos parece suave e imponente em seu neoclássico tranquilo, com frontão triangular decorado um tanto à maneira shereaton. Sem dúvida, é a mansão manauense mais neoclássica, com janelas e portas francesas, seu pátio com varandas, seus gradis forjados ao gosto de Paris da época. Fato histórico importante é ter hospedado, em 1906, o primeiro presidente da república a vir no Amazonas – Afonso Pena veio para o lançamento da pedra fundamental do edifício da Alfândega.



Palacete Bretislau de Castro

Ainda digno de nota é o palacete Bretislau de Castro, casarão português com certos maneirismos franceses, escadarias de mármore italiano, grades e beirais enfeitados com flores de lis. Em nossos dias, serve a uma repartição do governo federal, mas já foi cenário de grandes jantares e recepções em que D.Mariquinha Bretislau pontificava com seus quitutes e especialidades famosas nos quatro cantos da cidade, dentro de um espírito luso-brasileiro tão raro e encontrar no Amazonas, a lembrar o modo de vida patriarcal das cidades nordestinas interpretado por Gilberto Freyre em Sobrados e Mocambos.


Escola Superior de Magistratura do Amazonas

Na Praça da Saudade o palacete a abrigar a Reitoria da Universidade do Amazonas, por muitos e muitos anos conhecido como a casa do Juiz Federal, é de um art nouveau depuradíssimo com portas e janelas mouriscas. É de se observar a inspiração na cultura oriental e um certo saudosismo ibérico. O pé direito desmesurado dos andares lhe prejudica o equilíbrio externo, mas se as proporções não foram respeitadas, garantiram, no todo, grandeza um tanto antiquada mas, sem dúvida, de casa nobre.

Palacete Miranda Corrêa

Na Praça Antônio Bittencourt, também chamada da Saúde ou do Congresso, encontramos o Palacete Miranda Corrêa (já demolido), com seu ar de hotel particular francês, ligado diretamente a arquitetura de Mansard com nítidas influências dos castelos do norte da França, como o Chateau Champs de Bataille, por exemplo, ou de outras casas campestres. Com porão alto, dois andares nobres e sótão mansardo, constitui-se em bela forma arquitetônica. Em seus grandes dias era decorado internamente com móveis ingleses e franceses e seus salões abriam-se regularmente para grandes jantares em homenagem a visitantes ilustres, políticos, intelectuais e músicos que, após os suculentos comes e bebes amazônicos, servidos em cristais e porcelanas francesas de 1900, se exibiam em saraus musicais e um dos quatro famosos pianos de cauda importados da Alemanha e da Inglaterra, dois Blutner, um Beckstein e um Cramer.



Existem, é claro, muitos outros casarões, palacetes e mansões no Centro Histórico e em bairros adjacentes. Seria impossível descrever todos aqui. Muitos já foram demolidos em nome de um progresso selvagem, outros, graças ao bom coração de seus proprietários ou a sorte do tempo, permanecem imponentes, mesmo que em forma de ruínas, contado em cada cômodo, mal ou bem assombrado, a história de uma cidade tão fabulosa chamada MANAUS.


CRÉDITO DAS IMAGENS: www.skyscrapercity.com
                                           jmartinsrocha.blogspot.com
                                           Fundação Getúlio Vargas: CPDOC.



















domingo, 22 de setembro de 2013

Mitologia Grega: Divindades Alegóricas

A Paz, de Sansovino.

A Maioria das Divindades Alegóricas surgiram na Grécia, a partir do século VI a.C., e só depois chegaram à Roma. São o resultado da influência de diversas doutrinas filosóficas e personificam os conceitos abstratos dos vícios e das virtudes. Estão bastante relacionadas a mitos cujo objetivo é mais filosófico que religioso.

Antigamente, e por muito tempo, os gregos utilizavam os mitos sem procurar interpretá-los. E o mundo mitológico, tal como se conhece em sua essência, precede a todos os poetas que escreveram sobre ele. Assim, Homero (século IX a.C.) e Hesíodo (século VIII a.C.) não fizeram mais que elaborar uma matéria mítica, preexistente. Eles intervieram mais como organizadores do que como criadores. Uma vez expressos, nomeados e divulgados pelos poetas, os mitos passaram a constituir objeto de discussão para pensadores e filósofos. A partir desse momento, o mito perde sua fecunda plenitude poética, sai da esfera da imaginação e é obrigado a penetrar no campo racional, onde serve como elemento de especulação conceitual, moral, social e política.

Essa mudança com relação ao mito acontece quando o homem começa a questionar os valores, em sua primordialidade de pureza, substituindo-os pela preocupação imediata de um utilitarismo prático, onde o mito deixar de ser o princípio inspirador da ação para tornar-se portador da significação racional. Com isso, no interior do mito, procura-se a alegoria, não mais a densidade psicológica do ato criativo que o produziu. Procura-se um desdobramento dos sentidos, mediante o qual se perde a estupenda união - que provocou o mito - entre a realidade natural e a sobrenatural.

A partir dessa atitude para com o mito surgiu a explicação alegorista, que consiste em supor, na mitologia, uma estrutura ambivalente, ou seja, a dualidade de um sentido aparente e de um sentido oculto. Conclui-se que, olhado em profundidade, o mito deixaria transparecer um fundo também doutrinal, embora dissimulado, e não apenas poético.

A Vitória, escultura romana.

As divindades alegóricas representam os conceitos abstratos do homem acerca dos vícios e das virtudes, sendo utilizadas para orientar o comportamento humano em sociedade. Assim, Nike, a Vitória, simboliza o triunfo da guerra e também a participação na vida civil. É uma divindade pacífica. Aparece frequentemente relacionada a deusa Atena (Minerva), sendo por vezes um epíteto desta deusa. A Amizade, outra divindade alegórica, não se liga a nenhum mito. É uma abstração, chamada pelos gregos de "divindade das grandes almas". Assim como as Erínias ou Fúrias, a Vingança, denominada Nêmesis, castiga o crime e os excessos, cuidando para que os mortais não tentem igualar-se aos deuses.

A Justiça, de Stefano.

Têmis, a justiça, é uma das raras divindades associadas aos olímpicos. Foi esposa e conselheira de Zeus (Júpiter). Mais do que a Justiça, Têmis encarna a Lei. Seu casamento com Zeus exprime como próprio deus pôde ser submetido a ela, que ao mesmo tempo é sua emanação direta.

Éris representa a Discórdia, e Enio, a Guerra. Esta última, companheira habitual de Ares (Marte), revestiu-se de grande importância entre os romanos, que a invocavam sob o nome de Belona. Diante de seu templo, no campo de Marte, em Roma, erguia-se uma coluna onde era exposto um dardo ensanguentado nas cerimônias de declaração de guerra.

Homonóia personifica a Concórdia. Na Grécia, era cultuada sobretudo em Olímpia. Em Roma, teve seu primeiro templo construído no século IV a.c., onde os fiéis a veneravam para pedir-lhe que mantivesse a cidade em harmonia.


Métis,a Prudência.

Métis, a Prudência, na concepção de Hesíodo, representa, antes de tudo, a Sabedoria. Suas figurações mostram-na como uma mulher de dois rostos; um voltado para o passado e outro para o futuro.

Mânia (a Loucura), Ate (o Erro) e Apate (o Engano) são agentes da cólera divina enviados àqueles que não observam os ritos. Ate é principalmente a deusa da divergência. Seus pés são leves e ela não toca o chão. Caminhando sobre a cabeça dos homens, ocasiona-lhes dificuldades.

Considera por alguns como filha do Luxo e da Ociosidade, Pênia representa a Pobreza. Platão, entretanto, a fez mãe de Eros, o Amor, o grande nivelador das classes sociais, que ela teria concebido com Poros (Recurso). Para Teócrito (315? - 250? a.C.), Pênia é mãe da indústria e das artes, pois, movidos por ela, os homens lançam-se ao trabalho.

Tique, a Fortuna.

Tique, a Fortuna, embora desconhecida nos poemas homéricos, teve grande importância durante o helenismo e em Roma, onde cada imperador tinha a própria Fortuna; por isso, seus cultos, nomes e representações são incontáveis.

Limos, a Fome, é o castigo divino contra os homens impiedosos e arrogantes. De acordo com Virgílio (70 - 19 a.C.), Limos habita as portas dos Infernos. Ovídio (43 a.C. - 18 d.C.) descreve-a como uma mulher lívida, descarnada, de olhos fundos e ossos protuberantes.

Lete, o Esquecimento, é irmã da Morte e do Sono. Seu nome foi dado a uma fonte situada na Beócia, perto do oráculo de Trofônio. Os peregrinos deveriam beber de sua água durante as cerimônias proféticas.

Momo, o Sarcasmo, de Hippolyte Berteaux.

Companheiros inseparáveis, amigos dos divertimentos, são Como (deus dos festins) e Momo (o Sarcasmo). Este último personifica a zombaria e viveu no Olimpo. Devido a sua irreverência, foi expulso do convívio dos deuses.

Híbris, a Desmedida, induz o homem a esquecer a sua condição de mortal, a desejar igualar-se ao deuses, atraindo, com isso, castigos divinos.

Deimos (o Terror) e Fobos (o Medo) são irmãos. Ao lado de seu pai, Ares, percorrem os campos de batalha. Homero considera-os deuses potentes, capazes de atingir mesmo os mais corajosos heróis.

A Inveja, de Sebastián de Covarrubias.

Ftonos, a Inveja, era temida por gregos e romanos. Ambos costumavam dedicar-lhe cerimônias religiosas para afastá-la de seus filhos. É representada como uma velha esquálida, segurando serpentes que lhe roem o coração.

A Velhice, designada por Geras, representa a decrepitude e a tristeza. Veste-se de negro e apóia-se num bastão. Muitas vezes aparece coberta de folhas mortas, trazendo ora um cálice, ora uma ampulheta, mostrando sua ligação com o tempo.

Dessa maneira, as divindades alegóricas, apesar de abstratas, cristalizam a concretude do relacionamento humano na esfera da consciência e apresentam-se como pontos firmes e definidos da ação. Se Ares é, mitologicamente, o deus da guerra, provocando toda espécie de litígios insensatos, Enio, divindade alegórica, expressa a própria guerra, como luta em campo de batalha. Terminada a guerra, ela cede o campo a Nike, a Vitória, e a Irene, a Paz. Ares, ao contrário, continua procurando novos combates.

As divindades alegóricas, portanto, são a mitificação não de fenômenos que o homem antigo não entende, mas de problemas que agitam sua realidade espiritual. A esses problemas ele procura dar uma solução e, assim, cria imagens divinas, desprovidas dos defeitos humanos e sempre consequentes no bem ou no mal que possam representar.


FONTE: Mitologia. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1973.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Os Negros no Amazonas

*

O negro foi introduzido na Amazônia em pequenas quantidades ao longo do processo de colonização, formando um total aproximado de 12.587, oriundos tanto de terras africanas como do tráfico interior. Desse total existia apenas uma pequena parcela de 1.501 em 1884, quando foram libertos.

Não muito diferente dos índios, os negros na Amazônia também ofereceram resistência ao senhor escravocrata. Embora a historiografia regional não exalte a luta dos negros pela liberdade e as formas como essas ocorreram, tais lutas tomaram os mesmos contornos das outras partes do Brasil, famosas por sua organização e ferocidade. E essa resistência foi dura. Eles se embrenhavam nas matas amazônicas, formando mocambos e agrupamentos independentes, aterrorizando moradores brancos temerosos do ódio que estes os dispensavam.


Nègres a Fond de Calle (Negros no Porão de Navio) – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil” (1835).

Muitas rebeliões de negros escravos deram-se ainda na viagem de destino, realizada nos porões insalubres dos navios "tumbeiros". Depois de toda a sorte de atrocidades que suportavam nessas viagens, eles eram vendidos para os senhores de escravos, que os levavam às fazendas e os submetiam aos mais atrozes regimes de exploração, para que produzissem o máximo de riqueza para o seu deleite. Durante os trezentos anos de escravidão que vigorou no Brasil, ocorreram mais de trezentas rebeliões de negros, por conta da não aceitação dessa submissão horrenda criada pelo homem para explorar o homem.

As formas mais eficientes de resistência dos negros contra os escravocratas eram a organização de quilombos e mocambos fortificados, nos quais eles resistiam anos e até décadas, aos ataques das tropas de resgates dos brancos. No Brasil, o mais famoso quilombo a resistir aos ataques de bandeirantes foi o Quilombo dos Palmares, localizado no sertão de Alagoas, que resistiu por 65 anos às investidas dos senhores de escravo, sendo destruído em 1695, por tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho.

O mais famoso mocambo da Amazônia foi o do rio Trombetas, que chegou a ter mais de 2.000 negros e mestiços. Tinham governo próprio e plantavam mandioca, o milho e o tabaco. Colhiam castanhas e salsaparrilha, dos quais comerciavam com regatões clandestinos dos rios próximos. Nunca foi atacado, deixando como herança várias comunidades remanescentes de quilombolas que viviam a duras penas.

Servindo mais como mercadoria de valor, o negro na Amazônia era uma peça cara. Nem por isso isento dos castigos que lhe era reservado. Eles foram usados como "negros de ganho", tanto em trabalhos braçais como na agricultura, em obras civis e como serviçais domésticos.

No Amazonas a intelectualidade e a aristocracia da borracha, que estavam se formando, começaram a se sensibilizar para as causas abolicionistas. Incentivados por uma propaganda intensa, promovida pela imprensa do Sudeste, esses grupos passaram a organizar várias entidades humanistas com o objetivo de acelerar a libertação do negro cativo.

Destacou-se como a primeira instituição a lutar pela alforria de negros no Amazonas a "Sociedade Emancipadora Amazonense", funda em 6 de março de 1870. Outras entidades foram criadas reunindo segmentos diversos da sociedade amazonense com o mesmo propósito. Durante muito tempo essas entidades arrecadavam fundos, tanto da sociedade como dos cofres públicos, destinados a pagar a alforria de negros escravos, até que, no dia 24 de maio de 1884, o presidente da província, Theodoreto Souto, entregou as últimas 186 cartas de alforria. Em 10 de julho de 1884, ele assinou o decreto declarando extinta a escravidão no Amazonas, 4 anos antes da Lei Áurea.

Vale salientar que, como já foi dito, a representação da etnia negra no Amazonas,numericamente,foi inexpressiva e de pouca importância no contexto econômico, pouca ou nada alterando nas decisões e conjunturas regionais. A abolição em âmbito nacional já era um processo evidente durante o transcurso do Segundo Reinado, que foi acelerado a partir da elevação da resistência dos próprios negros e das mudanças internacionais nas relações de trabalho, pressionando as elites escravocratas a realizá-la imediatamente. Portanto, a emancipação dos negros no Amazonas foi apenas um ato antecipado, do que viria a ocorrer pouco depois em âmbito nacional,ocasionado tão somente pela inexpressividade da escravidão negra na província e pela conjuntura nacional.


De acordo com a professora Luciane Páscoa e da pesquisadora Mikelane do Carmo “A Lei Áurea" trata-se de uma obra alegórica (personagens simbólicos) e seu estilo pode estar relacionado ao neo-maneirismo e ao neo-barroco, devido às cores vibrantes e a disposição com que às personagens são colocadas na tela. Não há uma divisão definida de planos, mas, pode-se notar uma divisão principal em simbologia a dois mundos: O lado esquerdo retrata os fatos relacionados à escravidão e sua emancipação: Ambiente com pouca iluminação, como se fosse um fim de tarde na mata. Aparentemente trata-se de uma fortaleza em ruínas (possivelmente uma referência ao Forte de São José da Barra do Rio Negro), que pode estar representando uma estrutura de poder desgastada, um mundo arruinado e em decadência, abrangendo as questões nacionalistas e republicanas; a presença do elemento indígena, cafuzo e negro, vestidos e ornados com cocares, flechas, etc. Do lado direito, está à visualização desse novo mundo cheio de perspectivas e novidades em toda área da ciência e vida humana, há muita movimentação e vários personagens: parece ser um altar de glorificação às Artes e à Liberdade, representadas pelas alegorias da Pintura, Música, Escultura e Poesia. A liberdade pode ser representada através dos nus. Representação também da Ciência, Indústria, Comércio, imprensa, e muitos outros elementos que compunham uma realidade totalmente diferente de tudo o que o negro tinha vivido motivo pelo qual tanto chamava sua atenção”. (Artes Plásticas em Manaus nos séculos XIX e XX: reflexões sobre o quadro "A Lei Áurea" de Aurélio de Figueiredo).

Aurélio de Figueiredo (Areia, 3 de agosto de 1856 - Rio de Janeiro, 9 de abril de 1916). Foi escultor, pintor, desenhista, caricaturista e escritor brasileiro. Era irmão mais novo do célebre pintor Pedro Américo.


A Rua...


                                Rua 10 de julho (Foto: Girlene Girlene/G1AM)

Em entrevista ao G1 (24/10/12) a historiadora Etelvina Garcia afirma que:

A Rua 10 de julho já chegou a ser chamada de Rua do Progresso. A data 10 de julho é o dia em que os amazonenses, no ano de 1884, deram liberdade aos escravos da então Província do estado. "O marco aconteceu quatro anos antes de o movimento de liberação dos escravos acontecer em âmbito nacional com a assinatura da Lei Áurea", explicou Etelvina.


FONTES: FIGUEIREDO, Aguinaldo Nascimento. História do Amazonas. Editora Valer,2011.

G1 Amazonas (Ruas de Manaus persistem à troca de nomes e guardam história da capital). Acesso em 17/09/13.


Artes Plásticas em Manaus nos séculos XIX e XX: reflexões sobre o quadro "A Lei Áurea" de Aurélio de Figueiredo. Disponível em: www.revistas.uea.edu.br . Acesso em: 17/09/2013.






domingo, 15 de setembro de 2013

A Segunda Guerra Mundial



As condições objetivas para a deflagração de um novo conflito já existiam desde o final da Primeira Guerra Mundial.Os acordos pós-guerra e importantes acontecimentos no período entre guerras criaram instabilidade permanente no continente europeu: a consolidação da Revolução Socialista na Rússia e a formação da URSS;a paz "forçada" obtida pelo Tratado de Versalhes,que minou a economia alemã,fragmentou seu território e disseminou forte sentimento nacionalista;e a crise de 1929.




Em 1933,na Alemanha,Adolf Hitler conquistou o cargo de chanceler.Em pouco tempo,suprimiu os partidos de esquerda e os sindicatos,instaurou uma férrea censura aos meios de comunicação e rompeu com as cláusulas impostas pelo Tratado de Versalhes.Dessa forma,Hitler contestou a ordem mundial definida após a Primeira Guerra e formou,com a Itália e o Japão,uma nova aliança militar: o Eixo.De acordo com a concepção geopolítica de Hitler,a Alemanha necessitava de espaço vital para a promoção de seu desenvolvimento econômico.Com isso,justificava a retomada dos territórios perdidos após a Primeira Guerra e a expansão,sem limites,da área de influência alemã.Para alcançar seus objetivos,Hitler formou um exército forte e numeroso e investiu maciçamente na indústria de armamentos.



Em 1938,a Alemanha ocupou a Áustria e,em 1939,a Tchecoslováquia.Quando,em setembro de 1939,a Polônia foi invadida pelo exército alemão,a França e a Grã-Bretanha (que formaram uma aliança militar oposta ao Eixo,a dos Aliados) declararam guerra à Alemanha.



A invasão da Polônia pela Alemanha foi precedida de um acordo de não agressão com a Rússia,o Pacto Germano-Soviético.Hitler temia iniciar a guerra em duas frentes e,por meio desse acordo,conseguiu neutralizar o potencial inimigo da frente oriental.O tratado autorizou também a ocupação de parte das terras polonesas pelos soviéticos,além da Finlândia e de outros países do Leste Europeu.



As ações empreendidas pela máquina de guerra alemã foram fulminantes.Em menos de um ano,a Alemanha já havia ocupado a Holanda,Bélgica,Luxemburgo,Dinamarca,Noruega e a maior parte da França.As forças do Eixo tiveram significativo avanço nos dois primeiros anos de Guerra.A Itália invadiu a Somália e a Albânia,e o Japão invadiu a Malásia,Cingapura,as Filipinas e outras regiões dominadas pelo império colonial dos Aliados.A guerra também se estendeu à China e ao Norte da África,ganhando uma dimensão geográfica nunca vista em conflitos anteriores.No final de 1941,os Estados Unidos e a União Soviética entraram na guerra ao lado das tropas Aliadas.



A participação desses dois países no conflito mostrou-se decisiva para a derrota dos países do Eixo,que,nos últimos anos de guerra,tiveram de recuar e abandonar boa parte dos territórios invadidos no início do conflito.

Em 1943,a Itália assinou um acordo de paz com as tropas Aliadas.Em maio de 1945,quando o exército soviético invadiu Berlim,a Alemanha se rendeu incondicionalmente.Apesar de o Japão ainda resistir,sua rendição seria inevitável,pois a marinha japonesa já tinha sido praticamente destruída.Em agosto de 1945,os Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki,numa demonstração indiscutível de seu poderio militar.Esse fato assinalou o fim da Segunda Guerra Mundial.



Terminada a guerra,a Europa e vários países de outros continentes estavam economicamente arrasados,com cidades destruídas e a produção industrial e agrícola totalmente desorganizada.

As duas guerras mundiais colocaram fim à hegemonia europeia.No período posterior à Segunda Guerra,uma nova ordem mundial começou a ser estruturada sob a liderança de duas grandes potências militares que emergia: os Estados Unidos e a União Soviética.

A nova divisão política da Europa foi a primeira expressão dessa nova ordem mundial.Os países europeus acabaram dominados pela influência das duas potências emergentes: na porção oeste,prevaleceram os Estados Unidos,com o sistema econômico capitalista; na porção leste,predominou a União Soviética,com o socialismo.


FONTES: Filosofando.Introdução à Filosofia.Maria Lúcia de Arruda Aranha e
             Maria Helena Pires Martins.2009.

             Território e Sociedade no Mundo Globalizado.Elian Alabi Lucci,
             Anselmo Lazaro Branco e Cláudio Mendonça.2010.

             Fotos: Fottus.com/foto da bomba atômica: funzug.com






Conde Francesco Matarazzo



Francesco Antonio Matarazzo nasceu em 9 de março de 1854, primogênito de nove irmãos. Era filho do médico e comerciante Costabile (falecido em 1873) com Mariangela. O sobrenome familiar, de origem greco-sarracena, significa “rocha forte”, e o jovem Francesco fazia jus a ele: era musculoso e alto. A calvície prematura o fez optar por raspar os cabelos. Desde o século 14, os Matarazzo viviam na pequena Castellabate, a cerca de 200 quilômetros de Nápoles, às margens do Mediterrâneo. Eram uma família tradicional da cidade, mas sem grande patrimônio.





A unificação da Itália, entre 1861 e 1870, foi o estopim para a emigração em massa dos italianos. A política do governo central incluía substituir a agricultura familiar pela produção em larga escala. Privados de seu modo de vida tradicional, camponeses partiram para buscar trabalho em países como o Brasil. Algumas comunidades foram literalmente partidas ao meio: estima-se que, por volta de 1900, havia 3 mil castellabatenses vivendo na Itália e outro tanto morando em São Paulo.

Ao chegar ao Brasil, aos 27 anos, acompanhado de sua companheira Filomena e de dois filhos, ele já tinha uma década de experiência no comércio. Além disso, trazia consigo economias equivalentes a algo entre 30 mil e 50 mil dólares, em valores atuais – não se fundamenta, portanto, a versão de que Matarazzo teria chegado pobre ao Brasil. Mas o jovem comerciante perdeu boa parte de seu patrimônio logo ao aportar aqui, em dezembro de 1881. No Rio de Janeiro, por um descuido no desembarque, ele viu naufragar duas toneladas de banha de porco que havia trazido da Itália para vender aqui.

Resta-lhe um milhar de liras, quantia apenas razoável, que usa na compra de quatro mulas e alguma mercadoria. Aventura-se como tropeiro comercial, zanzando pelas fazendas da região, tudo vendendo e tudo comprando. Em meados de 1882, abre modesto armazém de secos e molhados em Sorocaba. Comercialização de farinha de trigo, sal, fubá, arroz, feijão e outros alimentos. Especialmente banha de porco. “Abri um botequim, ou venda, como se diz aqui no Brasil. Eu lhe faço notar que não tive jamais, nem procurei ter, o que se chama patrão”, escreve a um amigo.

Em 1890, transferiu-se para São Paulo. Na primeira década do século 20, já havia acumulado um capital considerável que aplicou em atividades industriais e comerciais.

A princípio montou um moinho de trigo, depois tecelagens, indústria metalúrgica, moinhos para a fabricação do sal, refinarias de açúcar, fábricas de óleo e gordura, frigoríficos, fábrica de velas, sabonete e sabão. E mais: centros fabris, usina de sulfureto de carbono e de ácidos, fábrica de fósforos e pregos, de louças e azulejos, usina de cal, destilaria de álcool, fábrica de papel e a primeira destilaria de petróleo de Cubatão.

As Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM) chegaram a contar com mais de 200 fábricas. Paralelamente à expansão industrial, Matarazzo tinha um banco, uma frota de navios, um terminal no porto de Santos e duas locomotivas para transportar mercadorias. Sem falar nos imóveis que incluíam uma imensa mansão na avenida Paulista - cuja demolição, na década de 1990, provocou polêmica.


(Mansão Matarazzo)


Como outros pioneiros da industrialização brasileira, contou com a ajuda do governo, cuja política de proteção alfandegária reduzia o custo de importação de algumas matérias-primas e impunha tarifas elevadas a produtos estrangeiros competitivos.

Recebeu do rei Vitorio Emmanuele o título de conde por ter enviado à Itália mantimentos durante a Primeira Guerra Mundial. Admirador de Mussolini, o conde chegou a contribuir financeiramente com o fascismo. Muitos dos operários em suas fábricas eram imigrantes italianos. Fora da colônia, Matarazzo era visto com desconfiança pela elite tradicional e pela nascente classe média urbana.

nas décadas de 20 e 30 as Indústrias Reunidas Franceso Matarazzo alcançavam a exorbitância de 365 fábricas - uma para cada dia do ano, como se dizia.Matarazzo chegou a empregar 6% da população paulista da época.



FONTES: Aventuras na História,texto de Fábio Peixoto - 01/11/2005.
             Blog: Casas Históricas Paulistanas.
             Revista de História da Biblioteca Nacional - Senhor Indústria,
             texto de Ronaldo Costa Couto - 08/07/2009.
             Revista Constelar.Francesco Matarazzo,o Conde.Ed.068.Texto de
             Fernando Fernandes.

domingo, 8 de setembro de 2013

A Origem da Cidade de Manaus

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A História da cidade de Manaus se inicia no atual bairro do Tarumã, Zona Oeste. Historiadores contam que o local foi habitado, por volta de 1657, por índios aruaques e alófila. No mesmo ano chega uma tropa de resgate, que finca uma cruz jesuítica no local e batiza a comunidade com o nome de Missão do Tarumã. A expedição era comandada por Pedro da Costa Favela. Favela era conhecido como o mais famoso matador de índios do Amazonas. Uma segunda tropa de resgate que chegou na região a batizou de arraial do Tarumã. Essa expedição veio continuar a colonização e dar início a extração das Drogas do Sertão e fundou o primeiro núcleo cristão no vale do Rio Negro.

Os índios Aruaque conduziram o Capitão Pedro da Costa Favela,em 1668,do rio Urubu ao local onde atualmente localiza-se a formosa capital do Amazonas.Conhecendo a ótima situação da localidade,á margem esquerda do Rio Negro,a montante da sua confluência com o Solimões,o Capitão Pedro Favela da informações ao Capitão Mór do Pará,Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho,que,a muito tempo,se interessava pela região.A construção do forte era uma necessidade de assegurar os domínios da Coroa Portuguesa na região e garantir a conquista do elemento nativo.

O ano é 1669.Ergueu-se lentamente,à barreira da margem esquerda do Rio Negro,um simulacro de fortaleza,de forma quadrangular,em pedra e barro,sem fosso.Coube ao capitão Francisco da Mota Falcão,artilhar a fortaleza,com a ajuda de seu filho,Manuel da Mota Siqueira,grande especialista em assuntos militares.Duas peças de bronze e duas de ferro,respectivamente de calibres um e três,guarneciam a construção.

Chamavam-na de fortaleza São José da Barra,fundada sob a invocação de Jesus,Maria e José.Também era conhecida por fortaleza de São José da Barra,Fortaleza ou Forte da Barra,São José do Rio Negro,São José e Casa Forte.Esse forte ficava precisamente a três léguas da foz do Rio Negro,num cômoro suave (barreira,como era chamada à época),mais ou menos no local onde se encontra hoje o edifício da Fazenda Pública.Note-se que aquele local foi arrasado,pois o nível da barreira era mais alto do que atualmente.Duas léguas a montante ficava a tapera dos Tarumãs.O forte desempenhou placidamente a sua função durante 114 anos.

O Sargento Guilherme Valente conseguiu reunir no entorno da Fortaleza as nações indígenas mais prestigiosas da região: Manaus,Tacu,Baré,Passé e Baníua,que se agruparam formando a Aldeia de São José do Rio Negro.Depois da fundação da Capitania de São José do Rio Negro,nome herdado da fortaleza e do rio,no fim do século XVIII sendo a aldeia rebaixada à categoria de Lugar,tomou o nome de Lugar da Barra do Rio Negro,lembrando também a linha de separação das águas do Rio Negro,no encontro com o Solimões formando o Amazonas.No decreto de 25 de junho de 1833,artigo 4*,do Governo do Pará,que substitui a denominação da Comarca de São José do Rio Negro pela de Alto Amazonas,com apoio no artigo 3* do Código Criminal do Brasil,vem o Lugar da Barra do Rio Negro,incluído como Termo e sede da Comarca,com a denominação de Vila de Manaus.No entanto,pela lei n.146 de 24 de outubro de 1848,da mesma província,foi a Vila de Manaus elevada de categoria com o nome de Cidade da Barra do Rio Negro.




Instalada a Província do Amazonas,em 1852,da sua Assembléia,em sessão de 21 de agosto de 1856,o deputado João Inácio Rodrigues do Carmo apresentou um projeto mudando o nome da Cidade da Barra do Rio Negro para Cidade de Manaus.Em 28 do mesmo mês e ano subiu à sanção do Presidente da Província,Dr.João Dias Vieira,sendo convertido em lei n.68 de 4 de setembro de 1856.O nome seria oriundo de Manau,célebre nação indígena que habitou e preponderou no Rio Negro,tendo sua corte na antiga aldeia de Bararuá ou Pararuá,lugarejo que,em 1758,foi elevado à Vila com a denominação de Tomar.


*A Imagem: Este é um prospecto, constitui-se no único registro visual conhecido, data de 7 de Dezembro de 1754, feito pelo engenheiro alemão João André Schwebel, quando por aqui passou, fazendo parte da comitiva do governador e capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado, vindos de Belém em direção a Mariuá (Barcelos).



FONTES: MELLO, Octaviano. Topônimos Amazonenses.1986.
                 
MONTEIRO, Ypiranga Mário. Fundação de Manaus. 1971.

sábado, 7 de setembro de 2013

7 de Setembro: Independência do Brasil

Para que se possa compreender o processo de Independência do Brasil,é preciso analisar os eventos que antecederam tal acontecimento.




A fuga da Família Real de Portugal transformou o Brasil na sede político-administrativa do Império luso,permanecendo Lisboa tomada pelos franceses.Tinha início a luta da população portuguesa,que,graças ao apoio inglês,venceu diversas vezes as tropas invasoras napoleônicas,impossibilitando sua efetiva vitória e ocupação integral do território luso.

A frota que trazia a família Real portuguesa aportou em Salvador a 22 de janeiro de 1808,seguindo depois para o Rio de Janeiro.Ainda em Salvador,dias depois de sua chegada,D.João decretou a Abertura dos Portos às Nações Amigas,liberando a importação de quaisquer produtos vindos de países que mantivessem relações amigáveis com Portugal.Na prática,tal medida beneficiava exclusivamente a Inglaterra,mas significava para a Colônia o fim do "Exclusivo Colonial" ( As colônias só deveriam manter relações comerciais com a sua Metrópole) português no Brasil.Atendiam-se,dessa forma,os interesses imediatos da burguesia industrial inglesa de comercializar diretamente com o Brasil.

Ainda em 1808,D.João também revogou a proibição,imposta em 1785,de se instalarem indústrias no Brasil.Tal medida,no entanto,não foi suficiente para promover um surto manufatureiro na colônia dada a impossibilidade de nossos produtos concorrerem com a poderosa e capacitada indústria inglesa,que abastecia o mercado brasileiro com abundância de produtos a baixos preços.

Em seguida,ampliando ainda mais seu predomínio econômico sobre o Brasil,a Inglaterra obrigou Portugal a assinar os Tratados  de 1810,entre os quais se destacaram o Tratado de Comércio e Navegação e o Tratado de Aliança e Amizade.Esses acordos garantiam à Inglaterra privilégios na venda de seus produtos ao Brasil,que pagavam 15% de imposto de importação,enquanto as mercadorias portuguesas pagariam 16% e as dos demais países,24%.Os ingleses superavam os próprios portugueses nos privilégios comerciais sobre o Brasil.

Além de vantagens econômicas,os ingleses conseguiram outros benefícios na relação com o Brasil,como,por exemplo,o de que qualquer inglês que infringisse a lei dentro do Império português seria julgado por leis e juízes ingleses.Estabeleceram ainda os tratados de liberdade de culto protestante para os cidadãos ingleses,até então proibido.Na prática,a Inglaterra conseguia subordinar o governo português aos seus interesses,na medida que este dependia da proteção britânica  diante da ameaça francesa de Napoleão.




D.João transformou o Rio de Janeiro na capital do Império Luso e quis dar à cidade um ar europeu,digno da sede de uma monarquia.Para isso,criou órgãos públicos,como ministérios e tribunais,e fundou a Casa da Moeda e o Banco do Brasil.Também buscou estimular a produção artística,científica e cultural através da criação do Jardim Botânico,das escolas de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro,do Teatro Real,da Imprensa Real,da Academia Real Militar,da Academia Real das Belas Artes,da Biblioteca Real,além de patrocinar a vinda de artistas europeus que retratassem a paisagem e costumes brasileiros - a Missão Artística Francesa,cujo principal representante foi o pintor Jean-Baptiste Debret.

Na política externa,D.João declarou guerra à França e conquistou,em 1809,a Guiana Francesa,a qual só foi devolvida em 1817,depois da derrota de Napoleão Bonaparte pelas forças europeias.D.João também se aproveitou das guerras pela independência da América Espanhola,iniciadas com o período napoleônico,e conquistou o Uruguai,transformando-o na província Cisplatina,estendendo as fronteiras brasileiras até o rio da Prata.Somente em 1828 o Uruguai conseguiria a sua independência,separando-se do Brasil.

Em fevereiro de 1815,o Brasil foi elevado à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarves,deixando oficialmente de ser colônia,medida acertada no Congresso de Viena,reunião das potências que venceram Bonaparte.Com isso,buscou-se restabelecer o equilíbrio de forças na Europa e legitimar a permanência de D.João no Rio de Janeiro.

No ano seguinte,faleceu a rainha D.Maria I e o príncipe-regente foi coroado rei,com o título de D.João VI.

Enquanto isso,em Portugal,mesmo com a expulsão dos franceses,ampliavam-se cada vez mais as dificuldades econômicas e,dada a ausência do monarca,o governo local era exercido efetivamente pelo comandante militar inglês,Lord Baresford.Essa situação e a difusão intensa dos ideais iluministas determinaram a eclosão,na cidade do Porto,em 1820,de uma revolução liberal.A luta anti-absolutista ganhava força na Europa e os princípios constitucionais eram proclamados em vários pontos do continente.Em Portugal,os rebeldes do Porto decidiram pela convocação das Cortes,assembléia encarregada de redigir uma Constituição para Portugal.Ao meso tempo,exigiram o imediato regresso de D.João VI e o afastamento de Baresford.




As Cortes eram compostas por 205 deputados eleitos em todo o Império luso,cabendo ao Brasil pouco mais de 70 deputados,dos quais apenas 50 se apresentaram.Para a escolha dos deputados no Brasil,foram estabelecidas as juntas governativas ligadas aos revolucionários,organizadas nas capitanias,que passaram a ser chamadas de províncias.

O sucesso da Revolução Liberal do Porto e o receio de perder a Coroa obrigaram D.João VI a retornar a Portugal em abril de 1821,deixando seu filho,D.Pedro,como príncipe-regente do Brasil.

Antes de partir,pressentindo a possibilidade de o Brasil se separar de Portugal,D.João VI aconselhara D.Pedro a assumir a liderança de um movimento caso os brasileiros se manifestassem pela independência,dizendo ao filho: "Pedro,se o Brasil se separar,antes seja para ti,que me hás de respeitar,do que para alguns desses aventureiros."

As Cortes portuguesas,de um lado,defendiam o liberalismo em Portugal,reformulando a estrutura política lusa segundo os princípios europeus;de outro,no entanto,vislumbravam que a solução para suas dificuldades econômicas passava pelo restabelecimento do pacto colonial.Para isso,procuraram instituir medidas visando à recolonização do Brasil,como restaurar antigos monopólios,reimplantar privilégios portugueses e anular a autonomia administrativa representada pelos diversos órgãos criados por D.João durante a sua permanência no Rio de Janeiro e pela regência de D.Pedro.Ordens vindas de Lisboa promoveram a transferência de várias repartições governamentais e exigiram o imediato regresso de D.Pedro a Portugal,sob a justificativa de que era preciso completar a sua formação cultural.

Tais medidas foram mal-recebidas pelos brasileiros,que perceberam as reais intenções das Cortes de Lisboa e não estavam dispostos a retornar à situação anterior a 1808.Tudo isso acelerou o processo de ruptura entre Brasil e Portugal.




Os brasileiros,sentindo-se ameaçados em sua autonomia,formaram o que convencionou chamar de Partido Brasileiro,união de indivíduos favoráveis à Independência.Não se tratava propriamente de um partido político,mas de um agregado de posições contrárias às medidas recolonizadoras vindas de Portugal.Representava basicamente os interesses da aristocracia,mas também de burocratas,comerciantes e,até mesmo,portugueses com vínculos econômicos estabelecidos no Brasil.

O Partido Brasileiro procurou o apoio de D.Pedro em sua luta contra a recolonização.Seus principais líderes foram Gonçalves Ledo,Januário da Cunha Barbosa e José Bonifácio de Andrada e Silva.O retorno de D.Pedro para Portugal,como desejavam as Cortes,enfraqueceria a autonomia administrativa do Brasil e,para que isso fosse evitado,os brasileiros elaboraram um documento que contava com cerca de 8 mil assinaturas,pedindo a D.Pedro que ficasse no Brasil.a 9 de janeiro de 1822,José Clemente Pereira entregou o documento ao príncipe,que declarou: "Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação,estou pronto: diga ao povo que fico".Esse fato ficou conhecido como o Dia do Fico e foi fundamental para acelerar o avanço em direção ao rompimento com Portugal.

A decisão de D.Pedro contrariou as determinações do reino,o que levou as tropas portuguesas,o que levou as tropas portuguesas,comandadas por Jorge de Avilez,a se manifestar contra o príncipe-regente.A intervenção pessoal de D.Pedro forçou Avilez a abandonar o Rio de Janeiro.Pouco depois,os ministros portugueses se demitiram,levando D.Pedro a organizar um novo ministério,formado só por brasileiros,sob a chefia de José Bonifácio,um dos mais ativos defensores da independência.




Para fazer frente às medidas recolonizadoras de Portugal,esse ministério decretou,em maio de 1822,o "Cumpra-se",pelo qual as ordens de Portugal só seriam executadas com a expressa autorização de D.Pedro,transformado em símbolo da autonomia brasileira.Dias depois,o príncipe-regente recebia o título de "Defensor Perpétuo do Brasil",dado pela Câmara do Rio de Janeiro e pela maçonaria,confirmando o seu comprometimento com os brasileiros.

Em junho de 1822,D.Pedro convocou uma Assembléia Constituinte para elaborar as leis que deveriam regulamentar a vida dos brasileiros.Com isso,consolidava-se o clima pró-independência que existia na nação,tornando cada vez mais inevitável uma confrontação com Portugal.

Em agosto de 1822,D.Pedro estava em São Paulo,visitando as comarcas da região e deixara sua esposa,Dona Leopoldina,como regente,no Rio de Janeiro.Chegaram,então,novas ordens de Lisboa,determinando a anulação das decisões de D.Pedro e exigindo imediato regresso do regente sob a ameaça de envio de tropas metropolitanas ao Brasil.

José Bonifácio,diante da urgência e gravidade de tais notícias,enviou o mensageiro Paulo Bregaro ao encontro de D.Pedro para colocá-lo a par das notícias recém-chegadas da Corte.Bregaro encontrou D.Pedro na tarde do dia 7 de setembro,voltando de Santos,às margens do riacho Ipiranga,em São Paulo,e,ao ler as notícias e considerações de protesto de José Bonifácio e Dona Leopoldina,D.Pedro decidiu proclamar a independência do Brasil,oficializando a separação do Brasil frente a Portugal.

Em seguida,foram derrotadas as tropas portuguesas sediadas no Brasil e contrárias à independência e D.Pedro foi coroado imperador do Brasil,com o título de D.Pedro I.

Como o processo de independência foi dirigido pela aristocracia,sem a participação da grande massa da população,o fim do período colonial não implicou mudanças nem na estrutura produtiva nem na sociedade brasileira.Ficaram garantidos os interesses da elite agrária dominante: a escravidão,que era a base da economia brasileira,e a produção agrícola voltada para a exportação.Permaneceram também os privilégios dos ingleses e seu predomínio sobre a nossa economia,pois era grande a dependência do novo país em relação à importação de manufaturas e à obtenção de empréstimos.

Assim,a oficialização da independência brasileira foi acompanhada da manutenção não somente da dependência econômica,livre,sem dúvida,das amarras do pacto colonial,como também das estruturas de predomínio socioeconômico e político da aristocracia rural e da subjugação da grande maioria dos brasileiros aos interesses dessa elite.Vale lembrar que a instituição escravista permaneceu intocada.

O que se colocava agora era a definição de como se estruturaria o Estado nacional brasileiro,considerando que as elites nem eram homogêneas politicamente e nem tinham um projeto claro de ordenamento para a nova nação.