sábado, 28 de setembro de 2013

Casarões e Palacetes de Manaus

Quando se conta, aos que não sabem, as belezas de Manaus, todo o seu progresso, todo o seu maravilhoso poder de sedução, parece que o que se diz é uma nova lenda da terra encantada, a maior de todas as lendas, a lenda em que faz erguer-se à beira dos grandes rios e por entre as florestas incomparáveis, uma cidade inacreditável de contos de fadas... E quando alguém passa da ficção para a realidade, descrevendo a Pérola do Rio Negro, essa Manaus soberba e grandiosa, que é orgulho dos que vivem nela e a saudade dos que estão longe, parece ser tudo uma alucinação imensa, um delírio insano, a ânsia de erguer nas selvas, para os gnomos e duendes, uma cidade cheia de avenidas e de palácios... Uma cidade incrível, que mais parece um sonho, cidade que é enlevo dos que vivem o seu conforto e a imensa saudade dos que já viveram no seu coração fascinado e meigo ("Manaus, A cidade incrível" Revista Amazônida, n*44, julho de 1930. apud MASCARENHAS;EDINEA, 2007, p.25).


Realmente Manaus já foi majestosa, um verdadeiro conto de fadas, com avenidas e casarões bem cuidados, ruas arborizadas e calçadas livres de ambulantes. A cidade, apesar de todos os problemas, ainda possui inúmeros casarões e palacetes. Essas construções datam do final do século XIX e início do XX (que coincide com o ciclo da borracha). Alguns estão bem conservados, outros, no entanto, tornaram-se "fabulosas" ruínas que por muita sorte resistem a décadas de abandono. A presente postagem, tem o intuito de descrever, de certa forma, os casarões e palacetes da cidade, que, direta ou indiretamente, contam um pouco da história da região. Irei utilizar como base o livro do acadêmico Luiz de Miranda Corrêa, Roteiro Histórico e Sentimental da Cidade do Rio Negro, publicado em 1969.


Muitas famílias fizeram fortuna em Manaus. Construíram suntuosas residências, todas no mais refinado padrão europeu. Algumas dessas famílias merecem ser citadas: Os Oliveira da "Vila Fany", os Araújos, donos da maior casa aviadora do Amazonas, os Bretislau de Castro, os Mattos Areosa, os Rezende Rocha e os Miranda Corrêa. Algumas sobrevivem até os dias de hoje, outras, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Incríveis fortunas, como a dos Mello Resende, dos Rapôso da Câmara, dos Ramalho, dos Rêgo Monteiro, dos Nery, dos Bittencourt ou dos Pedrosa, desapareceram como por encanto. "Fizeram do dia para a noite e perderam da mesma forma".

Vaso chinês,Palácio da Justiça

A casa das pessoas mais ricas eram decoradas com tapetes europeus, pianos alemães, jarras de sévres, cristal St.Louis ou Bacarat, as louças de Limóges, Wedgwood, ou Vista Alegre, compunham todo o aparato para garantir os confortos da nova elite.

Casarões na rua Ferreira Pena

As velhas casas do tempo da borracha tem histórias e fantasmas, estes últimos, uma espécie de herança inglesa, bem aceita pela ingenuidade do indígena, sempre pronto a acreditar no sobrenatural. Nas redondezas da Praça dos Remédios (já foi um dos mais belos logradouros da cidade. Atualmente é um local perigoso de se frequentar no Centro Histórico) e na Avenida Joaquim Nabuco, concentram-se as residências dos senhores da borracha. Outras, porém, são encontradas nos altos da Avenida 7 de Setembro, na Eduardo Ribeiro e perto da Praça Dom Pedro II (outro logradouro infelizmente perigoso de se frequentar). Alguns fugiram do Centro urbano, e, imitando os ingleses, procuraram terrenos mais altos: já nos limites com a floresta, perto do Reservatório do Mocó.

Castelinho da Vila,Adrianópolis

Voltando ao Centro, deve-se olhar a tão conhecida "Vila Fany", ponto de encontro, até os anos 30, da melhor sociedade amazonense e dos estrangeiros mais categorizados. Sobradão português de larga fachada, em que certos elementos neoclássicos foram empregados visando a conseguir um efeito palaciano. As proporções do prédio são mais portuguesas, e a aparência sólida do bloco foge à leveza do neoclássico, que se pretendeu conseguir.

Grupo Escolar Nilo Peçanha,Avenida Joaquim Nabuco

Continuando na Joaquim Nabuco, rua onde se encontra a "Vila Fany", encontra-se mais de meia dúzia de belos sobradões portugueses, alguns com azulejos de inspiração colonial ou já Art Nouveau, ostentando em seus frontões estatuária do Porto. Deve-se notar, também, um outro tipo de construção mais singela, cujas origens portuguesas se denunciam à primeira vista. Espécie de pequenas casas de fazenda já com requintes urbanos, construção híbrida que talvez Gilberto Freyre chamasse de rurbana, cujo melhor exemplo é a bela casa em que hoje se encontra instalada a Legião Brasileira de Assistência.

Ainda na Joaquim Nabuco encontramos a sede amazonense do IRB, um tipo de "Vila Fany" em maiores proporções, trazida até a calçada em que os elementos neoclássicos já não são tão evidentes. Pertenceu à família do seringalista Mendes Cavaleiro e depois serviu de Consulado da Colômbia. É outro prédio a lembrar que a Joaquim Nabuco foi das ruas mais prediletas do Nouveau Riches do início do século.

Palacete Nery,Avenida Joaquim Nabuco

Na mesma via pública, alguns blocos mais abaixo, o palacete Nery, construído pelo Governador Silvério Nery, servindo atualmente como sede de repartição federal (nos dias de hoje em total abandono), nos parece suave e imponente em seu neoclássico tranquilo, com frontão triangular decorado um tanto à maneira shereaton. Sem dúvida, é a mansão manauense mais neoclássica, com janelas e portas francesas, seu pátio com varandas, seus gradis forjados ao gosto de Paris da época. Fato histórico importante é ter hospedado, em 1906, o primeiro presidente da república a vir no Amazonas – Afonso Pena veio para o lançamento da pedra fundamental do edifício da Alfândega.



Palacete Bretislau de Castro

Ainda digno de nota é o palacete Bretislau de Castro, casarão português com certos maneirismos franceses, escadarias de mármore italiano, grades e beirais enfeitados com flores de lis. Em nossos dias, serve a uma repartição do governo federal, mas já foi cenário de grandes jantares e recepções em que D.Mariquinha Bretislau pontificava com seus quitutes e especialidades famosas nos quatro cantos da cidade, dentro de um espírito luso-brasileiro tão raro e encontrar no Amazonas, a lembrar o modo de vida patriarcal das cidades nordestinas interpretado por Gilberto Freyre em Sobrados e Mocambos.


Escola Superior de Magistratura do Amazonas

Na Praça da Saudade o palacete a abrigar a Reitoria da Universidade do Amazonas, por muitos e muitos anos conhecido como a casa do Juiz Federal, é de um art nouveau depuradíssimo com portas e janelas mouriscas. É de se observar a inspiração na cultura oriental e um certo saudosismo ibérico. O pé direito desmesurado dos andares lhe prejudica o equilíbrio externo, mas se as proporções não foram respeitadas, garantiram, no todo, grandeza um tanto antiquada mas, sem dúvida, de casa nobre.

Palacete Miranda Corrêa

Na Praça Antônio Bittencourt, também chamada da Saúde ou do Congresso, encontramos o Palacete Miranda Corrêa (já demolido), com seu ar de hotel particular francês, ligado diretamente a arquitetura de Mansard com nítidas influências dos castelos do norte da França, como o Chateau Champs de Bataille, por exemplo, ou de outras casas campestres. Com porão alto, dois andares nobres e sótão mansardo, constitui-se em bela forma arquitetônica. Em seus grandes dias era decorado internamente com móveis ingleses e franceses e seus salões abriam-se regularmente para grandes jantares em homenagem a visitantes ilustres, políticos, intelectuais e músicos que, após os suculentos comes e bebes amazônicos, servidos em cristais e porcelanas francesas de 1900, se exibiam em saraus musicais e um dos quatro famosos pianos de cauda importados da Alemanha e da Inglaterra, dois Blutner, um Beckstein e um Cramer.



Existem, é claro, muitos outros casarões, palacetes e mansões no Centro Histórico e em bairros adjacentes. Seria impossível descrever todos aqui. Muitos já foram demolidos em nome de um progresso selvagem, outros, graças ao bom coração de seus proprietários ou a sorte do tempo, permanecem imponentes, mesmo que em forma de ruínas, contado em cada cômodo, mal ou bem assombrado, a história de uma cidade tão fabulosa chamada MANAUS.


CRÉDITO DAS IMAGENS: www.skyscrapercity.com
                                           jmartinsrocha.blogspot.com
                                           Fundação Getúlio Vargas: CPDOC.



















10 comentários:

  1. Muito bom.É importante que pessoas como você façam sempre um resgate histórico da nossa cidade.Parabéns.

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  2. Parabéns pelo texto crítico. Gostei muito. Sou historiador e dou aula de Manaus antiga. Parabéns.

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  3. Parabens sempre quis saber sobre o passado dos casaroes publique mais.

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    1. Sim, irei fazer mais publicações sobre o tema :)

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  4. Muito bom!!! Parabéns!

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    1. Muito obrigado, volte sempre. Esse assunto será abordado outras vezes. :)

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  5. Parabens ótimo texto. Que pena que o poder público não faça projetos para recuperar algumas ruinas, desta forma a história vai se perdendo.

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  6. Muito obrigado. Infelizmente isso é verdade. Os governantes não só de Manaus, mas os de outras cidades, não valorizam a nossa história.

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  7. Gostei muito do texto! Sempre que ando pelo centro observo com curiosidade cada casarão, imaginando como era viver nos tempos áureos da borracha...

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