domingo, 22 de setembro de 2013

Mitologia Grega: Divindades Alegóricas

A Paz, de Sansovino.

A Maioria das Divindades Alegóricas surgiram na Grécia, a partir do século VI a.C., e só depois chegaram à Roma. São o resultado da influência de diversas doutrinas filosóficas e personificam os conceitos abstratos dos vícios e das virtudes. Estão bastante relacionadas a mitos cujo objetivo é mais filosófico que religioso.

Antigamente, e por muito tempo, os gregos utilizavam os mitos sem procurar interpretá-los. E o mundo mitológico, tal como se conhece em sua essência, precede a todos os poetas que escreveram sobre ele. Assim, Homero (século IX a.C.) e Hesíodo (século VIII a.C.) não fizeram mais que elaborar uma matéria mítica, preexistente. Eles intervieram mais como organizadores do que como criadores. Uma vez expressos, nomeados e divulgados pelos poetas, os mitos passaram a constituir objeto de discussão para pensadores e filósofos. A partir desse momento, o mito perde sua fecunda plenitude poética, sai da esfera da imaginação e é obrigado a penetrar no campo racional, onde serve como elemento de especulação conceitual, moral, social e política.

Essa mudança com relação ao mito acontece quando o homem começa a questionar os valores, em sua primordialidade de pureza, substituindo-os pela preocupação imediata de um utilitarismo prático, onde o mito deixar de ser o princípio inspirador da ação para tornar-se portador da significação racional. Com isso, no interior do mito, procura-se a alegoria, não mais a densidade psicológica do ato criativo que o produziu. Procura-se um desdobramento dos sentidos, mediante o qual se perde a estupenda união - que provocou o mito - entre a realidade natural e a sobrenatural.

A partir dessa atitude para com o mito surgiu a explicação alegorista, que consiste em supor, na mitologia, uma estrutura ambivalente, ou seja, a dualidade de um sentido aparente e de um sentido oculto. Conclui-se que, olhado em profundidade, o mito deixaria transparecer um fundo também doutrinal, embora dissimulado, e não apenas poético.

A Vitória, escultura romana.

As divindades alegóricas representam os conceitos abstratos do homem acerca dos vícios e das virtudes, sendo utilizadas para orientar o comportamento humano em sociedade. Assim, Nike, a Vitória, simboliza o triunfo da guerra e também a participação na vida civil. É uma divindade pacífica. Aparece frequentemente relacionada a deusa Atena (Minerva), sendo por vezes um epíteto desta deusa. A Amizade, outra divindade alegórica, não se liga a nenhum mito. É uma abstração, chamada pelos gregos de "divindade das grandes almas". Assim como as Erínias ou Fúrias, a Vingança, denominada Nêmesis, castiga o crime e os excessos, cuidando para que os mortais não tentem igualar-se aos deuses.

A Justiça, de Stefano.

Têmis, a justiça, é uma das raras divindades associadas aos olímpicos. Foi esposa e conselheira de Zeus (Júpiter). Mais do que a Justiça, Têmis encarna a Lei. Seu casamento com Zeus exprime como próprio deus pôde ser submetido a ela, que ao mesmo tempo é sua emanação direta.

Éris representa a Discórdia, e Enio, a Guerra. Esta última, companheira habitual de Ares (Marte), revestiu-se de grande importância entre os romanos, que a invocavam sob o nome de Belona. Diante de seu templo, no campo de Marte, em Roma, erguia-se uma coluna onde era exposto um dardo ensanguentado nas cerimônias de declaração de guerra.

Homonóia personifica a Concórdia. Na Grécia, era cultuada sobretudo em Olímpia. Em Roma, teve seu primeiro templo construído no século IV a.c., onde os fiéis a veneravam para pedir-lhe que mantivesse a cidade em harmonia.


Métis,a Prudência.

Métis, a Prudência, na concepção de Hesíodo, representa, antes de tudo, a Sabedoria. Suas figurações mostram-na como uma mulher de dois rostos; um voltado para o passado e outro para o futuro.

Mânia (a Loucura), Ate (o Erro) e Apate (o Engano) são agentes da cólera divina enviados àqueles que não observam os ritos. Ate é principalmente a deusa da divergência. Seus pés são leves e ela não toca o chão. Caminhando sobre a cabeça dos homens, ocasiona-lhes dificuldades.

Considera por alguns como filha do Luxo e da Ociosidade, Pênia representa a Pobreza. Platão, entretanto, a fez mãe de Eros, o Amor, o grande nivelador das classes sociais, que ela teria concebido com Poros (Recurso). Para Teócrito (315? - 250? a.C.), Pênia é mãe da indústria e das artes, pois, movidos por ela, os homens lançam-se ao trabalho.

Tique, a Fortuna.

Tique, a Fortuna, embora desconhecida nos poemas homéricos, teve grande importância durante o helenismo e em Roma, onde cada imperador tinha a própria Fortuna; por isso, seus cultos, nomes e representações são incontáveis.

Limos, a Fome, é o castigo divino contra os homens impiedosos e arrogantes. De acordo com Virgílio (70 - 19 a.C.), Limos habita as portas dos Infernos. Ovídio (43 a.C. - 18 d.C.) descreve-a como uma mulher lívida, descarnada, de olhos fundos e ossos protuberantes.

Lete, o Esquecimento, é irmã da Morte e do Sono. Seu nome foi dado a uma fonte situada na Beócia, perto do oráculo de Trofônio. Os peregrinos deveriam beber de sua água durante as cerimônias proféticas.

Momo, o Sarcasmo, de Hippolyte Berteaux.

Companheiros inseparáveis, amigos dos divertimentos, são Como (deus dos festins) e Momo (o Sarcasmo). Este último personifica a zombaria e viveu no Olimpo. Devido a sua irreverência, foi expulso do convívio dos deuses.

Híbris, a Desmedida, induz o homem a esquecer a sua condição de mortal, a desejar igualar-se ao deuses, atraindo, com isso, castigos divinos.

Deimos (o Terror) e Fobos (o Medo) são irmãos. Ao lado de seu pai, Ares, percorrem os campos de batalha. Homero considera-os deuses potentes, capazes de atingir mesmo os mais corajosos heróis.

A Inveja, de Sebastián de Covarrubias.

Ftonos, a Inveja, era temida por gregos e romanos. Ambos costumavam dedicar-lhe cerimônias religiosas para afastá-la de seus filhos. É representada como uma velha esquálida, segurando serpentes que lhe roem o coração.

A Velhice, designada por Geras, representa a decrepitude e a tristeza. Veste-se de negro e apóia-se num bastão. Muitas vezes aparece coberta de folhas mortas, trazendo ora um cálice, ora uma ampulheta, mostrando sua ligação com o tempo.

Dessa maneira, as divindades alegóricas, apesar de abstratas, cristalizam a concretude do relacionamento humano na esfera da consciência e apresentam-se como pontos firmes e definidos da ação. Se Ares é, mitologicamente, o deus da guerra, provocando toda espécie de litígios insensatos, Enio, divindade alegórica, expressa a própria guerra, como luta em campo de batalha. Terminada a guerra, ela cede o campo a Nike, a Vitória, e a Irene, a Paz. Ares, ao contrário, continua procurando novos combates.

As divindades alegóricas, portanto, são a mitificação não de fenômenos que o homem antigo não entende, mas de problemas que agitam sua realidade espiritual. A esses problemas ele procura dar uma solução e, assim, cria imagens divinas, desprovidas dos defeitos humanos e sempre consequentes no bem ou no mal que possam representar.


FONTE: Mitologia. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1973.

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