terça-feira, 17 de setembro de 2013

Os Negros no Amazonas

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O negro foi introduzido na Amazônia em pequenas quantidades ao longo do processo de colonização, formando um total aproximado de 12.587, oriundos tanto de terras africanas como do tráfico interior. Desse total existia apenas uma pequena parcela de 1.501 em 1884, quando foram libertos.

Não muito diferente dos índios, os negros na Amazônia também ofereceram resistência ao senhor escravocrata. Embora a historiografia regional não exalte a luta dos negros pela liberdade e as formas como essas ocorreram, tais lutas tomaram os mesmos contornos das outras partes do Brasil, famosas por sua organização e ferocidade. E essa resistência foi dura. Eles se embrenhavam nas matas amazônicas, formando mocambos e agrupamentos independentes, aterrorizando moradores brancos temerosos do ódio que estes os dispensavam.


Nègres a Fond de Calle (Negros no Porão de Navio) – Johann Moritz Rugendas – Da obra “Voyage Pittoresque au Brésil” (1835).

Muitas rebeliões de negros escravos deram-se ainda na viagem de destino, realizada nos porões insalubres dos navios "tumbeiros". Depois de toda a sorte de atrocidades que suportavam nessas viagens, eles eram vendidos para os senhores de escravos, que os levavam às fazendas e os submetiam aos mais atrozes regimes de exploração, para que produzissem o máximo de riqueza para o seu deleite. Durante os trezentos anos de escravidão que vigorou no Brasil, ocorreram mais de trezentas rebeliões de negros, por conta da não aceitação dessa submissão horrenda criada pelo homem para explorar o homem.

As formas mais eficientes de resistência dos negros contra os escravocratas eram a organização de quilombos e mocambos fortificados, nos quais eles resistiam anos e até décadas, aos ataques das tropas de resgates dos brancos. No Brasil, o mais famoso quilombo a resistir aos ataques de bandeirantes foi o Quilombo dos Palmares, localizado no sertão de Alagoas, que resistiu por 65 anos às investidas dos senhores de escravo, sendo destruído em 1695, por tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho.

O mais famoso mocambo da Amazônia foi o do rio Trombetas, que chegou a ter mais de 2.000 negros e mestiços. Tinham governo próprio e plantavam mandioca, o milho e o tabaco. Colhiam castanhas e salsaparrilha, dos quais comerciavam com regatões clandestinos dos rios próximos. Nunca foi atacado, deixando como herança várias comunidades remanescentes de quilombolas que viviam a duras penas.

Servindo mais como mercadoria de valor, o negro na Amazônia era uma peça cara. Nem por isso isento dos castigos que lhe era reservado. Eles foram usados como "negros de ganho", tanto em trabalhos braçais como na agricultura, em obras civis e como serviçais domésticos.

No Amazonas a intelectualidade e a aristocracia da borracha, que estavam se formando, começaram a se sensibilizar para as causas abolicionistas. Incentivados por uma propaganda intensa, promovida pela imprensa do Sudeste, esses grupos passaram a organizar várias entidades humanistas com o objetivo de acelerar a libertação do negro cativo.

Destacou-se como a primeira instituição a lutar pela alforria de negros no Amazonas a "Sociedade Emancipadora Amazonense", funda em 6 de março de 1870. Outras entidades foram criadas reunindo segmentos diversos da sociedade amazonense com o mesmo propósito. Durante muito tempo essas entidades arrecadavam fundos, tanto da sociedade como dos cofres públicos, destinados a pagar a alforria de negros escravos, até que, no dia 24 de maio de 1884, o presidente da província, Theodoreto Souto, entregou as últimas 186 cartas de alforria. Em 10 de julho de 1884, ele assinou o decreto declarando extinta a escravidão no Amazonas, 4 anos antes da Lei Áurea.

Vale salientar que, como já foi dito, a representação da etnia negra no Amazonas,numericamente,foi inexpressiva e de pouca importância no contexto econômico, pouca ou nada alterando nas decisões e conjunturas regionais. A abolição em âmbito nacional já era um processo evidente durante o transcurso do Segundo Reinado, que foi acelerado a partir da elevação da resistência dos próprios negros e das mudanças internacionais nas relações de trabalho, pressionando as elites escravocratas a realizá-la imediatamente. Portanto, a emancipação dos negros no Amazonas foi apenas um ato antecipado, do que viria a ocorrer pouco depois em âmbito nacional,ocasionado tão somente pela inexpressividade da escravidão negra na província e pela conjuntura nacional.


De acordo com a professora Luciane Páscoa e da pesquisadora Mikelane do Carmo “A Lei Áurea" trata-se de uma obra alegórica (personagens simbólicos) e seu estilo pode estar relacionado ao neo-maneirismo e ao neo-barroco, devido às cores vibrantes e a disposição com que às personagens são colocadas na tela. Não há uma divisão definida de planos, mas, pode-se notar uma divisão principal em simbologia a dois mundos: O lado esquerdo retrata os fatos relacionados à escravidão e sua emancipação: Ambiente com pouca iluminação, como se fosse um fim de tarde na mata. Aparentemente trata-se de uma fortaleza em ruínas (possivelmente uma referência ao Forte de São José da Barra do Rio Negro), que pode estar representando uma estrutura de poder desgastada, um mundo arruinado e em decadência, abrangendo as questões nacionalistas e republicanas; a presença do elemento indígena, cafuzo e negro, vestidos e ornados com cocares, flechas, etc. Do lado direito, está à visualização desse novo mundo cheio de perspectivas e novidades em toda área da ciência e vida humana, há muita movimentação e vários personagens: parece ser um altar de glorificação às Artes e à Liberdade, representadas pelas alegorias da Pintura, Música, Escultura e Poesia. A liberdade pode ser representada através dos nus. Representação também da Ciência, Indústria, Comércio, imprensa, e muitos outros elementos que compunham uma realidade totalmente diferente de tudo o que o negro tinha vivido motivo pelo qual tanto chamava sua atenção”. (Artes Plásticas em Manaus nos séculos XIX e XX: reflexões sobre o quadro "A Lei Áurea" de Aurélio de Figueiredo).

Aurélio de Figueiredo (Areia, 3 de agosto de 1856 - Rio de Janeiro, 9 de abril de 1916). Foi escultor, pintor, desenhista, caricaturista e escritor brasileiro. Era irmão mais novo do célebre pintor Pedro Américo.


A Rua...


                                Rua 10 de julho (Foto: Girlene Girlene/G1AM)

Em entrevista ao G1 (24/10/12) a historiadora Etelvina Garcia afirma que:

A Rua 10 de julho já chegou a ser chamada de Rua do Progresso. A data 10 de julho é o dia em que os amazonenses, no ano de 1884, deram liberdade aos escravos da então Província do estado. "O marco aconteceu quatro anos antes de o movimento de liberação dos escravos acontecer em âmbito nacional com a assinatura da Lei Áurea", explicou Etelvina.


FONTES: FIGUEIREDO, Aguinaldo Nascimento. História do Amazonas. Editora Valer,2011.

G1 Amazonas (Ruas de Manaus persistem à troca de nomes e guardam história da capital). Acesso em 17/09/13.


Artes Plásticas em Manaus nos séculos XIX e XX: reflexões sobre o quadro "A Lei Áurea" de Aurélio de Figueiredo. Disponível em: www.revistas.uea.edu.br . Acesso em: 17/09/2013.






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