segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A Peste Negra

Em meados do século 14,como se já não bastassem tantos problemas trazidos pela fome,pela desnutrição,pelo frio intenso e pela sensação de insegurança,a Europa foi atingida por uma epidemia de efeitos devastadores.


A Peste Negra se espalhou pela Europa.Calcula-se que,aproximadamente,um terço da população da Europa Ocidental foi contaminada pela doença.

Segundo estudiosos,a peste existia em estado endêmico na Ásia Central.Em 1347 os mongóis,através de catapultas,lançaram cadáveres empesteados sobre o estabelecimento mercantil genovês de Caffa no Mar Negro.Um navio que partiu de Caffa semeou a peste na Itália e daí ela se propagou pela Europa.Em 1348 a Peste atingiu todo o continente,chegando as Ilhas Britânicas e na Escandinávia,no extremo norte,e ao norte da África,mais ao sul.

"Em outubro de 1347 (...) Navios genoveses chegaram ao porto de Messina,na Silícia,com homens mortos e agonizantes nos remos. (...) Os marinheiros doentes tinham estranhas inchações escuras,do tamanho de um ovo ou uma maçã nas axilas e virilhas,que purgavam pus e sangue e eram acompanhadas de bolhas e manchas negras por todo o corpo,provocadas por hemorragias internas. (...) Sentiam muitas dores e morriam rapidamente (...)
TUCHMAN,B.W. Um espelho distante: o terrível século XIV.Rio de Janeiro: José Olympio,2000,p.97.


Logo que a epidemia começou a se propagar,a população percebeu que se tratava de uma doença que se disseminava rapidamente.A doença atacava de três formas.A mais conhecida era a peste bubônica,devido os tumores (bubões) que nasciam na virilha e sob as axilas.Já a peste pneumônica,ela ataca os pulmões.A septicêmica infectava a corrente sanguínea.

Ilustração da Peste na Bíblia de Togemburgo (1411).

A Peste era extremamente contagiosa e transmitida pelo bacilo Yersinia pestis,contido na picada da pulga dos ratos contaminados,e pelo contato com outros doentes,levando a morte rapidamente.Áinda hoje,sem tratamento adequado,isso pode acontecer.

Para evitar o contágio da Peste,médicos e cirurgiões usavam uma longa vestimenta escura e uma máscara.Lancetavam os bubões com facas de até 1,80 m de comprimento.

A proliferação da Peste,durante o Período Medieval,estava relacionada a inadequação das estruturas rurais e urbanas para atender as novas demandas em termos de saúde e higiene públicas.

As cidades medievais,em geral,eram sujas e desprovidas de redes de esgoto.Havia valas de despejo de lixo nas ruas.No campo,as grandes e modestas casas camponesas podiam abrigar várias famílias juntas,bem como animais domésticos,aumentando o risco do contágio.

As cidades de Milão e Nuremberg (cujos governantes adotaram um rígido programa de saúde pública e remoção de dejetos,limpeza das ruas,isolamento dos doentes,etc.) tiveram um número pequeno de vítimas.Mas poucas foram as cidades que tiveram essa sorte.Os efeitos da peste foram catastróficos.A epidemia atingiu aldeias e cidades inteiras.Os doentes passaram a despertar o medo e a repulsa em todos.

Pieter Bruegel "O Velho".O Triunfo da Morte,1562.

Diante de tantos sofrimentos e mortes,as pessoas passaram a encarar a epidemia como um "castigo divino".Nesse sentido,a peste assumiu um aspecto sobrenatural e sinistro.O medo tomou conta da sociedade europeia e,em toda parte,as pessoas procuravam proteção no interior das igrejas,ignorando que,dessa forma,estavam contribuindo para espalhar a doença ainda mais.

Gravura representando os flagelantes.


Nessa época,surgiram muitos grupos de flagelantes,pregadores leigos vestidos com roupões negros que realizavam rituais de autoflagelo e percorriam grandes extensões a pé,chamando as pessoas para a penitência.Nas cidades,o ódio e a intolerância manifestaram-se também contra a população judia,a qual se atribuía a culpa pela peste e contra quem foram promovidas muitas ações violentas.

Judeus eram queimados vivos.

Além das perdas humanas (entre 25 e 75 milhões de pessoas),a peste contribuiu para agravar a crise feudal.A mão de obra,que havia se tornada escassa,ficou mais cara.Além disso,com a redução da oferta de produtos,os preços tenderam a crescer ainda mais.Na arte religiosa a imagem da morte passou a ser o tema predileto da época.Com a peste,o clero,que se mostrava falível,perdeu importância.Ganhou ênfase a busca da salvação pessoal.Muitos,porém,diante da iminência da morte,entregaram-se as devassidões,as bebidas e aos prazeres.


FONTES: História: Cultura e Sociedade.vol2.Fundamentos da modernidade.2011.Jean Moreno e Sandro Vieira.

História.Ensino médio.vol.único.2005.Renato Mocellin.


CRÉDITO DAS IMAGENS: http://commons.wikimedia.org






sábado, 26 de outubro de 2013

Leite de Colônia,o ouro branco

Um cearense inventou o Leite de Colônia,produto que há mais de um século é utilizado para a limpeza de rostos pelo mundo.A invenção ocorreu em Manaus.

Studart e sua esposa,Maria da Fonseca

O Leite de Colônia existe há mais de 100 anos sem nunca ter deixado de ser vendido no Brasil e até no exterior.O que a maioria das pessoas que moram em Manaus não sabe é que o famoso tônico facial foi inventado na cidade,possivelmente na esquina da rua 7 de setembro com a avenida Eduardo Ribeiro,onde hoje está localizada a sapataria Shop do Pé.

O criador do Leite de Colônia foi Carlos Guilherme Gordon Studart,um cearense nascido em 28 de março de 1862,em Fortaleza.Após formar-se em medicina e farmácia na Faculdade de Medicina e Farmácia da Bahia,em 1882,Studart voltou para Fortaleza,onde montou a "pharmácia" Studart.Em 1899,já casado,com filhos e um bom dinheiro no bolso,aproveitando o boom da economia do Amazonas devido ao comércio da borracha,chegou a Manaus.

De acordo com Jorge Franco de Sá,bisneto de Carlos Studart,não demorou para o bisavô montar a "pharmácia" Studart na capital amazonense e ganhar mais dinheiro do que já tinha,tanto que logo mandou construir (ou comprou) um belo casarão na esquina da Avenida Eduardo Ribeiro com a rua 24 de Maio (onde hoje está o edifício Palácio do Comércio),para ser sua residência,na qual morou com Maria da Fonseca Pereira,sua segunda esposa.O curioso sobre Maria é que ela ficou paralítica depois de cair de um cavalo,em Manaus.

Enquanto isso,no seu laboratório,na esquina da rua Municipal (atual 7 de Setembro) com avenida Eduardo Ribeiro,desenvolveu a fórmula do Leite de Colônia e o lançou no mercado.


Mudança de Rumo

Exemplar do Leite de Colônia

Com a riqueza que possuía e que aumentou com a exportação do Leite de Colônia para o resto do país e o exterior,Carlos Studart se tornou um dos homens mais ricos de Manaus,acumulando fortuna e prestígio,conforme demonstram as funções que exerceu: mordomo e provedor da Santa Casa de Misericórdia,juiz municipal e de órfãos,intendente,coronel da Guarda Nacional e até teve um jornal,o Commercio do Amazonas.

Na década de 1930,com a economia do Amazonas em decadência,Studart,apesar de estar com a vida estabilizada em Manaus e ter mais de 70 anos de idade,não titubeou em acabar com seus negócios na capital amazonense  e seguir para o Rio de Janeiro onde,aparentemente,seu filho Arthur assumiu o controle do novo laboratório.

No Rio,os negócios com o Leite de Colônia só fizeram expandir e Studart ficou mais rico ainda."Em Manaus não restou nenhuma relíquia do que Studart representou para a cidade.Até o nome sumiu.É que todos os filhos e netos dele foram embora de Manaus,só ficando a minha mãe,que quando se casou,adotou o sobrenome Franco de Sá",explicou Jorge.

Studart morreu com 103 anos,em 1965,ainda no Rio de Janeiro sem nunca mais ter voltado para Manaus.Na cidade maravilhosa deixou como herança,entre outros valiosos bens,dois edifícios que havia mandado construir (o Manaós e o Studart),somando mais de 100 apartamentos.

Após sua morte,seus netos não levaram adiante a empresa e resolveram vender a fórmula do Leite de Colônia,mantida até hoje em segredo.Jorge conta que não sabe quando foi feita essa transação e quanto os netos devem ter ganhado com ela,"mas com certeza foi um bom dinheiro.Apesar de a fórmula,pelo tempo de existência,já ser de domínio público,a marca Leite de Colônia é muito forte e ainda hoje rende muito lucro para quem a produz",garante.


FONTE: Amazônia,a revista da gente.edição-02.2010.ano I.













quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Mercado Municipal Adolpho Lisboa

Mercado Adolpho Lisboa,início do século 20.


Em meados do século 19,o abastecimento alimentar de Manaus era suprido por produtos da região, comercializados numa feira localizada às margens do rio Negro, em local conhecido como Ribeira dos Comestíveis, onde se vendiam peixes, carnes, farinhas, frutas, legumes, grãos, além de outras mercadorias, produzidas em municípios próximos.

No entanto, com o crescimento da cidade, foi necessário ampliar o ponto de venda, transformando-o em mercado, o que ocorreu em 1869, por ordem do então presidente da Província do Amazonas, João Wilkens de Matos, o Barão de Maruiá. Com a ampliação, a feira mudou-se para a Praça da Imperatriz, local onde funcionou por doze anos.

O desenvolvimento de Manaus, na chamada época áurea da borracha, propiciou diversas melhorias urbanas.

Em 1881, na gestão do presidente Satyro de Oliveira Dias, foi desapropriado um terreno de 5.400 metros quadrados, próximo ao porto, situado na Rua dos Barés, antigo bairro dos Remédios, dando-se assim o primeiro passo para a edificação de um mercado público coberto, com adequados padrões sanitários e comerciais, iniciada em agosto de 1882, na gestão do então presidente Alarico José Furtado.

Após diversos editais de concorrência para a realização das obras, o governo Provincial firmou um contrato com a Backus & Brisbin, empresa que atuava em Nova Orleans (EUA), no México e em Belém, no Pará. O contrato previa a construção de um galpão coberto (91.476 m2), com paredes de alvenaria, sustentado por colunas e com a fachada voltada para o rio Negro. 
Inaugurado em 15 de julho de 1883, o Mercado Público de Manaus tinha um frontão de pedra, em estilo neogótico e um relógio de fabricação alemã acima do lanternim do galpão. Sua parte  interna, com vinte boxes destinados à exposição e à venda de mercadorias, era calçado com pedras de Lioz (tipo raro de calcário originário de Portugal) e paralelepípedos.

Com o passar do tempo, o Mercado começou a ficar inadequado, sendo necessário ampliá-lo para atender a demanda da população. Em 1902, começou uma obra para ampliação do prédio, cuja nova fachada seria voltada para a Rua dos Barés e não para o rio Negro, como anteriormente. A obra só foi concluída em 1906, sendo inaugurada pelo então prefeito Adolpho Lisboa, que colocou seu nome na nova fachada. A partir dessa data, O Mercado Adolpho Lisboa passou a ostentar duas fachadas: uma para o rio Negro – onde havia um embarcadouro para descarregar as mercadorias – outra para a Rua dos Barés. 

Com a crise da economia amazonense, a partir de 1910, vários prédios públicos foram destruídos. O Mercado Adolpho Lisboa resistiu devido aos seus freqüentadores.

Já no triênio 1911-1913, durante a administração do prefeito Jorge de Moraes surgiram os dois pequenos pavilhões octogonais, montados próximos às extremidades do Pavilhão das tartarugas, homenageados com os nomes dos Estados do Amazonas e Pará. Destinaram-se, originalmente, à função de 'café e botequim'. Neste mesmo período, foi instalado o gradil de ferro fundido, oriundo da Praça Dom Pedro II, sobre base em alvenaria de pedra e dois portões, fechando a parte sul (com fachada voltada para o Rio Negro) e construídas duas escadas de alvenaria em Lioz nas laterais do edifício e desaparecidas anos depois.

Mercado Adolpho Lisboa,1970.


Com o advento e o sucesso da Zona Franca de Manaus, no início da década de 1970, grandes cadeias nacionais e estrangeiras de supermercados se instalaram na cidade, porém o manauara continuou fiel às compras no Grande Mercado, como passou a ser conhecido, adquirindo produtos frescos e de qualidade para o preparo dos pratos da típica culinária do Norte do Brasil. 

Situado no centro histórico de Manaus, com 3.500 metros quadrados de área construída, o conjunto arquitetônico do Mercado Adolpho Lisboa é composto por quatro pavilhões de ferro importados da Europa: o Central, o da Carne, o do Peixe e o das Tartarugas.

Quem foi Adolpho Lisboa ?

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O coronel (porque comissionado nesse posto para comandar o Regimento Militar do Estado - RME, em nossos dias, a PMAM) Adolpho Lisboa nasceu na capital da província da Bahia, "de cor morena, cabelos pretos lisos e olhos pardos", em 22 de janeiro de 1862, filho do capitão Felippe Guilherme de Miranda Lisboa, então servindo no 7º Batalhão de Infantaria do Exército, e de Olympia Rosa de Oliveira Lisboa. Sua chegada à Amazônia ocorreu aos cinco anos de idade, segundo fonte do RME, ou quando recém-nascido, conduzido por seu pai, este transferido para o 5º Batalhão da mesma arma, com sede em Belém. Esta notícia reputo mais confiável, porque o mesmo foi batizado na freguesia de Afogados, quando do trânsito da família por Recife.

Adolpho Lisboa exerceu em Belém, no governo Augusto Montenegro, o cargo de comandante do corpo de cavalaria e, em Manaus, o de comandante da brigada militar, no governo do Sr. Silvério Nery, desempenhando também o cargo de superintendente daquela capital na administração do general Constantino Nery.




Atualmente...

                            Mercado Adolpho Lisboa.2013.(Foto: Tácio Melo/Semcom)

Após sete anos fechado, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa reabre para a população nesta quinta-feira (24), aniversário de 344 anos de Manaus. A restauração e reforma foram realizadas em sete anos e atende ao projeto orçado em R$ 17 milhões. A restauração, aprovada em 2005 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), contemplou a repaginação de alguns espaços. Inovações foram trazidas com a promessa de melhorar e modernizar o local que também é ponto turístico municipal.

Com a nova disposição, os cinco mil metros quadrados do 'Mercadão' devem conter 64 boxes distribuídos no Pavilhão Central, 20 no do Peixe, 22 no da Carne, 24 no das Hortifruti, duas praças de alimentação cada uma com 11 boxes, duas bombonieres, dois restaurantes além do Pavilhões Pará e Amazonas. Mais de 170 profissionais entre restauradores, engenheiros e pedreiros estiveram envolvidos na obra.

Durante as obras, os 182 permissionários foram realocados nos arredores do mercado. Ao longo dos anos, os trabalhadores tentaram chamar a atenção do poder público e até um "abraço" simbólico foi promovido ao prédio do 'Mercadão' na intenção de cobrar posicionamento sobre a obra que iniciou em 2010. Nas últimas semanas da reforma, os feirantes foram retirados do local, receberam o valor de R$ 2 mil e fizeram cursos voltados à requalificação profissional.
                         Um dos pavilhões do mercado.2013.(Foto: Tácio Melo/Semcom)
O Adolpho Lisboa restaurado manterá estruturas que contam a história de Manaus nos tempos áureos da borracha. Um deles é o sino da creolina, utilizado para avisar os fregueses que o peixe havia baixado de preço. "Nos primeiros anos do mercado, não se usava o gelo para conservar o peixe e o valor do pescado baixava no decorrer das horas. Ao final, o poder público usava creolina para dar um fim nos peixes, e nós decidimos manter o sino pelo símbolo histórico que ele representa", explicou um dos engenheiros responsáveis pela obra, Jackson Freitas.
FONTES: GASPAR, Lúcia. Mercado Adolpho Lisboa, Manaus, AMPesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: http://basilio.fundaj.gov.br. Acesso em: 24 de outubro de 2013.
Matéria publicada no G1 Amazonas: No AM, Mercado Adolpho Lisboa será reaberto após sete anos em reforma.Disponível em: http://g1.globo.com.Acesso em: 24 de outubro de 2013.

Biblioteca virtual do Amazonas.



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Mesopotâmia: O Berço da Civilização


Mesopotâmia é uma palavra de origem grega que significa "entre rios" e se refere a região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates.Essa região faz parte do chamado Crescente Fértil,uma área excelente para a agricultura,embora esteja cercada por terras áridas.As primeiras sociedades dotadas de escrita e de uma estrutura social complexa surgiram nessa região,conhecida como o "Berço da Civilização".

A história da Mesopotâmia não expressa uma grande continuidade,ou seja,os povos que a habitaram não formaram uma unidade política e cultural única.Ao contrário,diversos povos se sucederam no domínio político da região.Em parte,isso explica por que esse território,fértil em algumas regiões,não tinha grandes barreiras naturais,o que facilitava as invasões de povos vizinhos.

Os povos que habitaram a Mesopotâmia ao longo de vários séculos foram os sumérios,os acádios,os amoritas (antigos babilônios),os assírios,os alamitas e os caldeus (novos babilônios).


Atividades Econômicas



Os povos da Mesopotâmia dependiam da agricultura irrigada.As cheias dos rios Tigre e Eufrates eram de grande importância para o sucesso da atividade agrícola,e tinham de ser bem aproveitadas,pois o Vale da Mesopotâmia era árido e pouco fértil.Sistemas locais de irrigação eram desenvolvidos e controlados por comunidades camponesas desde aproximadamente 4000 a.C.


Os templos desempenhavam um papel central na economia mesopotâmica.Planejavam a produção agrícola,estocavam os produtos,promoviam o comércio e realizavam empréstimos.O templo era um complexo agrário-artesanal,onde conviviam diferentes camadas sociais.Ao lado dos templos,existia o palácio como estrutura política e econômica.As terras dos templos e dos palácios eram arrendadas aos camponeses que,em troca dos serviços prestados,recebiam rações e cereais para o seu sustento.Produzia-se cevada,trigo,gergelim,palmeiras,verduras e frutas.Os camponeses também criavam animais,com destaque para porcos,bois,aves,cabras,ovelhas e cavalos.Os animais forneciam carne,leite e lã,além de serem usados para puxar o arado.Alguns lotes de terra eram administrados diretamente pelos templos e palácios,utilizando trabalhadores escravos.


O artesanato mesopotâmico revelava um elevado nível técnico para a época.Fabricavam barcos,produziam objetos de cerâmica,joias e tecidos.As tumbas da elite suméria estavam repletas de objetos de cobre,bronze,ouro e prata,trabalhados com técnicas variadas e ricamente ornamentadas.Também praticavam o comércio local e a longa distância,utilizando metais e cevada como moeda.Operações comerciais como o empréstimo a juros,o penhor e a caução eram comuns entre comerciantes que agiam como intermediários do templos e palácios.

O Código de Hamurábi




Sexto rei sumério durante período controverso (1792-1750 ou 1730-1685 A.C.) e nascido em Babel, “Khammu-rabi” (pronúncia em babilônio) foi fundador do 1o Império Babilônico (correspondente ao atual Iraque), unificando amplamente o mundo mesopotâmico, unindo os semitas e os sumérios e levando a Babilônia ao máximo esplendor. O nome de Hamurabi permanece indissociavelmente ligado ao código jurídico tido como o mais remoto já descoberto: o Código de Hamurabi. O legislador babilônico consolidou a tradição jurídica, harmonizou os costumes e estendeu o direito e a lei a todos os súditos. Seu código estabelecia regras de vida e de propriedade, apresentando leis específicas, sobre situações concretas e pontuais. 


O texto de 281 preceitos (indo de 1 a 282 mas excluindo a cláusula 13 por superstições da época) foi reencontrado sob as ruínas da acrópole de Susa por uma delegação francesa na Pérsia e transportado para o Museu do Louvre, Paris. Consiste em um monumento talhado em dura pedra negra e cilíndrica de diorito. O tronco de pedra possui 2,25m de altura, 1,60m de circunferência na parte superior e 1,90m na base. Toda a superfície dessa “estela” cilíndrica de diorito está coberta por denso texto cuneiforme, de escrita acádica. Em um alto-relevo retrata-se a figura de “Khammu-rabi” recebendo a insígnia do reinado e da justiça de Shamash, deus dos oráculos. O código apresenta, dispostas em 46 colunas de 3.600 linhas, a jurisprudência de seu tempo, um agrupamento de disposições casuísticas, de ordem civil, penal e administrativa. Mesmo havendo sido formulado a cerca de 4000 anos, o Código de Hamurabi apresenta algumas tentativas primeiras de garantias dos direitos humanos.

Divisão Social


Segundo o Código de Hamurábi,elaborado por volta de 1765 a.C.,a sociedade babilônica estava dividida em quatro camadas sociais básicas: os Awilu,os Mushkenu,os Gurush e os Wardu.

Awilu - Proprietários de terras e funcionários da burocracia palaciana.

Mushkenu - Camponeses e trabalhadores não escravos que viviam sob a dependência do palácio.

Gurush - Eram trabalhadores sem família que cultivavam os lotes dos templos.

Wardu - Eram os escravos.

Os escravos - em geral,provinham do exterior e eram obtidos por meio da guerra,da pirataria ou do comércio.Há documentos que indicam que crianças abandonadas podiam ser escravizadas.Em períodos de crise,era algo comum pessoas venderem-se a si mesmas ou membros de sua família como escravos.Os escravos,contudo,não eram a maioria da população.Havia uma massa de camponeses livres,cujo trabalho era apropriado na forma de tributos pagos ao Estado ou aos templos.

Os escravos podiam pertencer ao Estado ou aos templos e eram utilizados nas obras de irrigação,armazenamento e distribuição de excedentes agrícolas.Havia também escravos urbanos e domésticos,que pertenciam a particulares.

A Escrita Cuneiforme



Os mesopotâmicos desenvolveram uma das primeiras escritas da história,o sistema cuneiforme,cujos registros datam do IV milênio a.C.A invenção foi obra dos sumérios,que habitavam o sul da Mesopotâmia.Os sinais gravados na argila úmida tinham a forma de pregos de cabeça larga,ou cunhas,o que explica o nome cuneiforme.Inicialmente os sinais eram figurativos,representando objetos e ideias.Mais tarde,distanciando-se do desenho original,os sinais tenderam a se tornar mais abstratos.Dependendo dos agrupamentos que se faziam com os sinais,eles podiam representar ideias ou sons.

Apenas uma parcela muito pequena da população sabia ler e escrever.Nesse pequeno grupo,destacavam-se os escribas,funcionários especializados na escrita cuneiforme.Preparados desde criança na eduba,a escola da Mesopotâmia,os escribas eram peças-chave para garantir o funcionamento de todo o sistema político e econômico mesopotâmico,ocupando posição privilegiada na sociedade.

Os escribas registravam transações comerciais dos templos e dos palácios,redigiam contratos,controlavam o fluxo de entradas e saídas de produtos agrícolas dos templos,faziam a crônica dos reis e das batalhas e serviam de diplomatas nas relações com outros povos.Alguns deles foram verdadeiros eruditos e registraram textos literários,religiosos e científicos em tabuletas de argila,em metais ou na pedra.Outros até escreveram cartas pessoais.Muitos desses textos foram descobertos pelas escavações arqueológicas e se encontram hoje em museus do Oriente Médio e da Europa.

A Biblioteca de Assurbanipal



Nas ruínas da antiga cidade assíria de Nínive,no norte da Mesopotâmia,foi encontrado um conjunto de textos literários e eruditos que formam o que pode ser considerada a primeira biblioteca da história.A biblioteca pertencia ao rei Assurbanipal,governante do Império Assírio,que atingiu seu auge entre os séculos IX e VII a.C.

Na Biblioteca de Assurbanipal foram encontrados textos gravados em tabuletas de argila,como versões do célebre poema Epopeia de Gilgamesh (composto originalmente nos primeiros séculos do II milênio a.C.),um dicionário sumério-acádio,além de textos de matemática,astronomia,astrologia,magia e alquimia.As pesquisas levam a crer que Assurbanipal,um dos raros monarcas da época que sabiam ler e escrever,reuniu num mesmo local objetos importantes  do universo cultural da Mesopotâmia.

Religião




A inundação do Tigre e do Eufrates era violenta e imprevisível: de um dia para o outro,a chuva revigorante poderia transformar-se em agente de devastação.Acreditava-se que os deuses controlavam essas forças poderosas,com os seres humanos considerados pouco mais do que escravos sujeitos aos caprichos do destino.Tal fato colocou a religião firmemente no centro da vida diária,com um templo dedicado a um dos principais deuses no centro de cada cidade ou metrópole.No começo,eram construções absolutamente simples,feitas de tijolos de barro,decoradas com mosaicos geométricos em forma de cone e afrescos com figuras humanas e animais.Um santuário retangular,conhecido como "adega",possuía um altar de tijolos ou uma mesa de oferendas em frente a estátua da divindade do templo.Rituais públicos,sacrifícios de animais e libações aconteciam todos os dias,assim como festas mensais e celebrações anuais do Ano-Novo.


Os zigurates,os grandes templos mesopotâmicos,também guardavam uma correspondência com o céu.O zigurate era uma representação em escala reduzida do cosmos e era construído de tal modo que cada segmento do templo representava as principais divisões do universo: O mundo subterrâneo,a terra e o firmamento.O zigurate simbolizava a união entre o céu e a terra e acreditava-se que a alma dos mortos ascendia ao céu subindo um a um os degraus do templo.Dentro do zigurate havia um trono destinado ao deus que habitava o templo,em homenagem ao qual se realizavam festas e rituais conforme um calendário litúrgico anual.

Ciência


"Todo estudo sobre os conhecimentos adquiridos ao longo dos séculos pelas civilizações assíria e babilônica deve levar em conta certas crenças dos mesopotâmicos:

Interindependência do céu e da terra: qualquer fenômeno,qualquer ato que aconteça em uma esfera repete-se na outra.Domínio da terra pelo céu: tudo que aqui existe,seja em qualquer reino da natureza,está sob a dependência de uma divindade.

Tudo o que o homem sabe,todas as aplicações que ele pode fazer desse conhecimento,lhe chegou por revelação divina.Por consequência,a ciência possui uma característica sagrada e não deverá ser comunicada a mais ninguém que não sejam aqueles que serão dignos dela.[...]

A presença dessas condições,cuja reunião explica os atos religiosos dos mesopotâmicos em geral,é particularmente perceptível em certas práticas cotidianas que eles exerceram: a adivinhação,a magia,a medicina,que eles consideravam como ciências e,como tais,faziam parte das revelações divinas."

CANTENAU,D.G.La civilization d'Assur et de Babylone.Paris: Payot,1951.p.124-125.


Aspectos da Cultura e da Sociedade Mesopotâmica



Embora formada por diversos povos,podem-se traçar pontos característicos da sociedade e da cultura mesopotâmica.A partir dos sumérios,cada povo conquistador absorvia a cultura da região e acrescentava a ela algum aspecto particular.

Além da escrita cuneiforme,os povos da Antiga Mesopotâmia desenvolveram habilidades surpreendentes.Sua capacidade de abstração permitiu a organização de calendários,a realização de cálculos numéricos e a introdução de padrões monetários necessários ao desenvolvimento da economia de mercado.Suas observações astronômicas possibilitaram a distinção de planetas,estrelas e constelações,a identificação de eclipses,das estações do ano e das fases da Lua e a criação de um sistema de previsões baseado nos astros,conhecido hoje como horóscopo.




FONTES: Conexões com a História.Vol I - Das origens do homem a conquista da América.2010.Alexandre Alves e Letícia Fagundes de Oliveira.

História: Cultura e Sociedade.Vol I.2010.Jean Moreno e Sandro Vieira.

Almanaque Ilustrado dos Símbolos.2010.Mark O'Connell e Raje Alrey.

Biblioteca Virtual de Direitos Humanos - USP.


CRÉDITO DAS IMAGENS: blogdopcamaral.blogspot.com.br

bibliotecaninive.blogspot.com.br

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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A História dos Shopping Centers

Apesar de associarmos os shopping centers a vida das grandes cidades de hoje,esse tipo de centro de comércio não é exatamente uma invenção recente.

Já no século X a.C.,em Isfahan,no atual Irã,o Grande Bazar reunia uma grande variedade de produtos num ambiente coberto com nada menos que 10 quilômetros de extensão.

Grote bazaar van Isfahan (Grande Bazar de Isfahan).Gravura de 1703.G. Hofsted van Essen.

Em 1 de novembro de 1774 foi inaugurado,em Oxford,na Inglaterra,Oxford Covered Market (Mercado Coberto de Oxford) que,Assim como as galerias descritas por Walter Benjamin,já prenunciava o que viria a ser o modelo de shopping conhecido por nós.

O primeiro shopping center tal como conhecemos hoje surgiu em 1828,nos Estados Unidos,no estado de Rhode Island.Em 1861 foi inaugurada a "Galleria Vittorio Emanuelle II" em Milão,cujo nome homenageou o então rei da Itália.

Galleria Vitorrio Emanuelle II atualmente.

No Brasil,os primeiros shopping centers surgiram na década de 1960,no Rio de Janeiro e em São Paulo.No entanto,antes da construção desses centros de comércio,já havia,desde o início do século XX,grandes lojas de departamentos que vendiam uma enorme variedade de produtos e atraíam verdadeiras multidões para o seu interior.

A primeira dessas lojas no Brasil foi o extinto Mappin,fundado na Inglaterra em 1774 e inaugurado em São Paulo em 1913.Foi ele que introduziu práticas que hoje nos parecem muito comuns no mundo do comércio,como colocar etiquetas com preços nas vitrines e criar programas de crediário para os clientes.Durante as décadas de 1940 e 1950,o Mappin foi um verdadeiro ponto de encontro da elite paulistana,antecipando o shopping center que só viria a se disseminar no Brasil algumas décadas mais tarde,oferecendo produtos de diversos tipos e funcionando também como espaço de encontro.

Mappin Stores.São Paulo.1937.


Os shopping centers de média e grande dimensão funcionam como pequenas cidades (segundo Padilha V., 2006, ed. Boitempo), possuindo uma estrutura governamental (administração) e seus serviços de polícia e bombeiros (segurança), de limpeza, de abastecimento de água, de manutenção de infraestruturas, etc.


FONTES: BOMENY, Helena; MEDEIREIROS, Bianca Freire.Tempos Modernos,Tempos de Sociologia. Editora do Brasil, 2010.

IMAGENS: Wikimedia Commons.
               foto do Mappin/blog do Emerson Alecrim.






quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Getúlio Vargas ( 1951 - 1954 )




Getúlio Vargas havia sido deposto por um golpe de Estado em 1945 em prol da redemocratização do país, e se retirara para sua Fazenda em São Borja, Rio Grande do Sul. Parecia que o velho político embora tivesse governado ditatorialmente o país, houve perdido a credibilidade junto às classes populares. Mas como as camadas populares passavam por um período muito difícil devido à política econômica adotada pelo governo Dutra no seu final, Getúlio ainda mantinha sua enorme popularidade junto a essas classes. No conceito popular Getúlio era aquele defensor dos pobres e oprimidos que os protegia dos ricos e poderosos.

Durante o ano de 1950 tem campanhas nas ruas à presidência da República, Getúlio é candidato concorrendo pelo PTB e derrota fragorosamente os demais candidatos. Seu vice é João Café Filho. Na composição de seu governo Getúlio Vargas utiliza-se da mesma tática usada no governo anterior de Dutra na política de conciliação de forma a manter as elites participando do poder. Tanto que, embora eleito pelo PTB, ele compôs o ministério com elementos do PSD e da UDN. Esse período getulista expressa bem o populismo. O populismo apresentava como características comum na América Latina, o apelo ao desenvolvimento pela industrialização, a constante busca do apoio das massas populares e o nacionalismo. Vê-se que para o líder populista, na prática é relativamente impossível atender suas promessas de campanha. Isto vai se intensificar tanto que Getúlio a certa altura de seu governo, pressionado, acuado, hostilizado, não vê outra saída que a solução final para si. Também ocorrerá a outros governos populistas, cujos líderes sofrerão pressões violentas, haverá renúncia e deposição até chegar ao acontecimento revolucionário de 31 de março de 1964, com o colapso do populismo.
Fatos marcantes do 2º governo Vargas:

- a redemocratização
- nacionalismo econômico
- atentado da Rua Toneleiros
- criação da Petrobrás, Lei 2004
- o suicídio


Getúlio Vargas governou inicialmente costurando as elites; procurava agradar aos empresários capitalistas acenando-lhes com prosperidade dos negócios por meio de estímulo à industrialização do país. Aos pobres e trabalhadores acenava-lhes prometendo emprego, melhores salários e melhorias nas áreas de educação, transporte, alimentação, moradia e aposentadoria. Procurava ainda unir o povo à burguesia, numa luta contra a ganância internacional do imperialismo.

Diante dessas promessas e tentativas Getúlio encontrou muitas dificuldades. Para aprovar a Lei 2004 em 3 de outubro de 1953, o projeto de sua autoria, foi longa e duramente debatido no Congresso e passou após numerosas modificações. O nacionalismo contribuiu enormemente ao apelo popular que ganhou rapidamente a adesão das massas populares com a campanha "O petróleo é nosso". O Brasil importava o petróleo que consumia.
Getúlio foi sofrendo pressões, mas faltava-lhe muito dinheiro para realizar tudo o que prometera. Empréstimos externos não chegavam na proporção desejada, pois as exigências dos países credores, notadamente Estados Unidos eram inviáveis. Internamente a infração era alarmante., tanto que em 1952, ocorre uma manifestação gigantesca denominada "Campanha da Panela Vazia" composta por umas 500 mil pessoas. A seguir vieram as greves trabalhistas. Getúlio pressionado entre a burguesia e as camadas populares, prefere ficar ao lado destas últimas. Em maio de 1954 Getúlio aumentou o salário mínimo em 100 %.
Importantes setores da sociedades reagiram imediatamente ante as medidas nacionalistas e exigências das lideranças sindicais atendidas por Getúlio. Os militares viam essas atitudes como simpatia pelo comunismo. Tanto militares como burguesia e grande parte da classe média eram favoráveis a maior integração do Brasil ao bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos. Getúlio ganhava simpatia das massas populares e das lideranças sindicais devido as medidas adotadas, mas as críticas e campanhas antigetulistas foram-se intensificando muito principalmente pelos meios de comunicação. O clima de hostilidade envolveu o presidente.

O ano era 1954, uma grande crise política desestabilizava o Governo Vargas. O então Ministro do Trabalho, o advogado João Goulart, mais conhecido como “Jango”, que anos mais tarde chegaria à Presidência da República tentando uma política de aproximação com o movimento sindical, autorizou um aumento de 100% ao salário mínimo, temendo a grande ameaça de greve ocorrida meses antes.



A consequência foi uma grande pressão dos grupos de empresários e de seus opositores liderados pela União Democrática Nacional (UDN). Nem o próprio Ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, foi a favor desse aumento. Então, naquele momento, Getúlio foi obrigado a recuar e João Goulart não teve outra saída a não ser renunciar.




Em fevereiro do mesmo ano, veio a público um manifesto denominado de “O Memorial dos Coronéis”, no qual havia duras críticas ao aumento salarial proposto pelo ministro e um discurso em favor da necessidade de fortalecer ainda mais o Exército na luta contra o comunismo que estaria ameaçando o país. Os autores do manifesto viam a aproximação de Getúlio com a classe trabalhadora como uma ameaça e o acusavam de estar planejando transformar o Brasil numa “República-Sindicalista”. Carlos Lacerda denunciou o Pacto do ABC (Argentina, Brasil e Chile) e acusou o presidente de estar fazendo uma aliança com a Argentina de Perón para lutar contra os interesses e a hegemonia norte-americana.




Getúlio, tentando salvar o seu governo que já estava desestabilizado, se aproximou da classe trabalhadora buscando apoio. No dia 1º de maio, Dia do Trabalhador, fez um discurso denunciando as empresas estrangeiras e elogiando seu ex-ministro, e ele próprio concedeu o aumento de 100% aos trabalhadores assalariados. O auge de toda essa crise viria a estourar na madrugada de 5 de agosto de 1954. O jornalista Carlos Lacerda, chegando a seu apartamento no bairro Copacabana depois de um comício realizado no Colégio São José, sofreria um atentado. Esse episódio vitimaria o major da Força Aérea Brasileira, Rubens Florentino Vaz, segurança particular do jornalista.




Todas as suspeitas do mandante do crime caíram em cima de Gregório Fortunato, “o anjo negro”, homem de confiança e chefe da guarda pessoal do presidente. Na mesma noite Getúlio foi informado do atentado da Rua Tonelero, como ficou conhecido o episódio, e disse a seguinte frase: "Esse tiro no pé de Lacerda foi um tiro nas costas do meu governo”.




Dezenove dias após o atentado na Rua Tonelero, no dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas, o “Gegê” - apelido carinhoso usado por seus partidários -, acabaria com toda essa angústia com um tiro no coração. Imaginem o sofrimento de um senhor de 72 anos naqueles últimos meses e naquela madrugada, reunido com seus ministros. Como o mesmo Getúlio Vargas dizia: “o preço da derrota se paga com a vida”, mas ele em um golpe de mestre conseguiu vencer na derrota, deixando a sua Carta Testamento endereçada ao povo e que serviria como bandeira de luta para o trabalhador brasileiro.




Se Getúlio tinha uma mente suicida ou se foi uma decisão tomada em um momento difícil de sua vida, não podemos saber, o que sabemos é que o presidente, quando ainda jovem, era um leitor assíduo do escritor Raul Pompéia, autor do romance “O Ateneu”. E no momento de toda a crise do seu governo, em certa tarde, ao passar com a sua comitiva em frente à casa do escritor, pediu para que parassem. O chefe da nação permaneceu uma hora sozinho dentro da casa, as reflexões que passaram por sua cabeça durante aquela hora nunca poderemos descobrir, o que podemos dizer é que Raul Pompéia também foi um suicida.




Conforme o autor Lira Neto, em sua obra Getúlio (1882 – 1930) Dos anos de formação a conquista do poder, mostrou que Vargas presenciara dois suicídios em sua família. O do seu padrinho, o major Claudino da Silva, um veterano da Guerra do Paraguai, no qual, nesse episódio, Getúlio aos 17 anos olhara pela primeira vez dentro dos olhos de um suicida. E anos mais tarde, em 1920, o seu sogro Antônio Sarmanho, humilhado pelas dívidas devido à quebra do Banco Pelotense, resolveu atirar uma bala no próprio peito, a altura do coração, da mesma forma que seu genro Getúlio Vargas faria 34 anos depois.




Na manhã do dia 24 de agosto de 1954 o país perdia o chefe de sua nação, para o povo simples um “pai dos pobres”, para seus opositores “a mãe dos ricos”. O certo é que o Brasil chorou a perda do seu presidente e a comoção foi geral. O povo em um momento de fúria depredou o jornal do PCB, bem como todos os órgãos de imprensa que faziam oposição ao presidente, a exemplo do Tribuna de Imprensa, de Carlos Lacerda, e O Globo, de Roberto Marinho. Nem a embaixada norte-americana se livraria das depredações. As manifestações não ficaram restritas apenas à capital federal, houve revoltas populares em todo o país, inclusive em Sergipe. Na cidade de Estância ocorreram depredações nas sedes da UDN e do Partido Comunista. Em todo o país estima-se um saldo de 10 mortos. Carlos Lacerda e os opositores do presidente tiveram que fugir da capital federal para não sofrer o mesmo destino.




Getúlio deixou como marca a sua ambiguidade que serve de questionamento até hoje para os estudiosos. O homem que implantou uma ditadura no Estado Novo voltaria ao poder em 1951 pelo voto e pelos braços do povo. Um autoritário que criaria as leis trabalhistas ainda em vigor nos dias de hoje, ora estava com os sindicatos, ora fechava os mesmos; em alguns momentos políticos perseguiu os comunistas, em outros conseguiu fazer Luiz Carlos Prestes subir em seu palanque. Antes da Segunda Guerra era simpatizante das ideias de Hitler, porém , quando a guerra esquentou, aderiu à pressão dos Estados Unidos e conseguiu fazer os norte-americanos financiarem a Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional.




Getúlio Vargas foi um político habilidoso, ao ponto de o jornalista Assis Chateaubriand um dia dizer: “Maquiavel é pinto perto de Getúlio Vargas”. Com toda sua habilidade política, não podemos esquecer que Getúlio foi a ponte para transformar um país agrário num país industrial. Antes dele, o Brasil era uma grande fazenda. Por essas e outras, podemos dizer que Getúlio Dorneles Vargas foi o personagem político mais marcante da história do nosso país.


FONTES: www.tuia.com.br
                
artigo: 1954, ano em que Brasil chorou a morte do seu presidente.15/08/2012.Autor: Harley Augusto Oliveira Santos,graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe. O artigo integra as colaborações feitas à coluna do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPQ/UFS).