terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Contradições da Primeira República: Elites Orgulhosas e Trabalhadores Miseráveis

 Café do Rio, 1911.

A vida política, econômica e social na Primeira República, não mudou em nada da vivida nos tempos de Dom Pedro II. Os barões do Império tornaram-se ministros da República.A Ordem excluía muitos e o progresso era para poucos.

A agricultura era a atividade predominante. Os principais produtos da época eram o café e a borracha. Cerca de 70% da população economicamente ativa estava empregada no campo. Homens, mulheres e crianças, brasileiros e imigrantes, trabalhavam pesado e viviam em um mundo de miséria e sofrimento. Além de não consumir o que produziam, esses trabalhadores não possuíam benefícios sociais.

 Trabalhadores em lavoura de café, início do século 20.

Em contraste com essa situação, existia, desde os anos finais do império, uma elite que procurava imitar cada vez mais os costumes europeus, especialmente os franceses. Nos salões, cafés e teatros, grandes comerciantes, proprietários e políticos, acompanhados de suas famílias, mostravam hábitos e moda europeus. A elite brasileira renegava à si mesma, tanto que,alguns membros da aristocracia se passavam por estrangeiros. Viajantes, tanto nacionais como estrangeiros, relataram alguns aspectos de cidades da República. Sobre Manaus, Euclides da Cunha escreveu

"Felizmente a gente é boa. Em que pese o cosmopolitismo desta Manaus, onde em cada esquina range o português emperrado ou rosna rispidamente o inglês e canta o italiano,a nossa gente ainda os suplanta com as suas belas qualidades nativas de coração e, certo, uma das minhas impressões de sulista está no perceber que o Brasil ainda chega até cá."

Carta a Afonso Arinos, Manaus, 12/01/1905. In: Euclides da Cunha e seus amigos. FILHO, Francisco Venâncio.1938. p.143.


O Rio de Janeiro, então capital da República, passou por um processo de remodelagem e modernização. A reforma urbana do Rio de Janeiro foi levado a cabo pelo prefeito Francisco Pereira Passos a partir de 1903, sob incentivo do presidente Rodrigues Alves. A inspiração para esse projeto foi a Paris remodelada do Barão de Haussmann. Nesse período inúmeros moradores do Centro receberam ordens de despejo, e seus cortiços foram postos abaixo para a construção de avenidas, praças e novos edifícios. O Rio de Janeiro Tornou-se a "capital do progresso contraditório", assim como ocorria em várias capitais do país:

"A avenida Central foi aberta em 1905. A varíola desapareceu da cidade com a vacinação em massa obrigatória. O cais do porto foi remodelado e reequipado."O Rio civiliza-se",diziam então muitos,encantados com o cenário parisiense montado no centro da cidade (...).Estava feita a reforma que transformara o Rio de Janeiro na capital do progresso. (...)

Por trás do cenário francês da avenida Central,estava o Brasil de verdade,onde pouca coisa mudara com a proclamação da República. Por trás da barulheira e da agitação com as obras de reformulação da capital estava a rotina de um país que substituíra o açúcar pelo café na pauta de exportação, que deixara de ter escravos para ter ex-escravos, imigrantes e trabalhadores nacionais trabalhando no pesado e onde os barões do império viraram ministros da República. Por trás do discurso do progresso estava a preocupação com a ordem, uma ordem que excluía muitos da cidadania plena e que hierarquizava a sociedade como um todo. (...)"

NEVES, Margarida de Souza; HEIZER, Alda. A ordem é o progresso: o Brasil de 1870 a 1910.São Paulo, Atual, 1991. p.65-67.

Cortiço no Centro do Rio.

A Proclamação da República não representou nenhuma mudança na vida da população ,tanto em aspectos políticos, econômicos e sociais. Grande parte das massas permaneceu excluída da participação eleitoral. A modernização e o progresso só atingiram as camadas mais abastadas da sociedade, enquanto grande parte vivia na miséria e no sofrimento. A economia continuava centrada na agricultura. Toda essa conjuntura de fatores fez eclodir inúmeras revoltas pelo país, evidenciando assim o descaso do governo em relação aos direitos políticos e a grande parte da população.


CRÉDITO DAS IMAGENS: http://www.arquitetonico.ufsc.br
                                      http://bardoceara.blogspot.com.br
 



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