segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Dificuldades durante as Viagens Marítimas

Gravura de Alfredo Roque Gameiro (1864 - 1935) reproduz o interior de uma nau.

Todo empreendimento tem um custo. A realização das grandes navegações teve os seus. Os portugueses levaram mais de oitenta anos para conseguir contornar a África e alcançar as Índias. Foi um esforço enorme, que lhes custou muitas vidas e muito dinheiro. Se uma esquadra partia com 2000 mil pessoas, devido a péssima alimentação (os mantimentos, constituídos de biscoitos, pão, vinho, carne de porco e de vaca,acabavam rapidamente), catástrofes naturais, condições de trabalho e higiene, ela mal voltava com 500! Os relatos seguintes dão uma ideia das dificuldades enfrentadas pelos navegantes europeus durante as viagens marítimas:

[...] Já não tínhamos mais nem pão para comer, mas apenas polvo impregnado de morcegos, que tinham lhe devorado toda a substância, e que tinha um fedor insuportável por estar empapado em urina de rato. A água que nos víamos forçados a tomar era igualmente pútrida e fedorenta. Para não morrer de fome, chegamos ao ponto crítico de comer pedaços de couro com que se havia coberto o mastro maior, para impedir que a madeira roçasse as cordas. Este couro, sempre ao sol, a água e ao vento, estava tão duro que tínhamos que deixá-lo de molho no mar durante quatro ou cinco dias para amolecer um pouco. Frequentemente nossa alimentação ficou reduzida a serragem de madeira como única comida, posto que até os ratos, tão repugnantes ao homem, chegaram a ser um manjar tão caro, que se pagava meio ducado por cada um. [...]

(Antonio de Pigafetta, Diário da expedição de Fernão de Magalhães, 1519-22)

[...] aquém do Equador, tivemos não só muito mau tempo, entremeado de chuvas ou calmaria, mas ainda perigosa navegação por causa da inconstância dos ventos que sopram conjuntamente; apesar de andarem os nossos três navios perto uns dos outros, não podiam os pilotos observar uma marcha uniforme. Assim como num triângulo, um ia para leste outro para oeste e outro para o norte. Erguiam-se repentinamente borrascas* que com tal fúria açoitavam as nossas velas, que nem sei como não viraram cem vezes de mastros para baixo e quilha para cima [...]

O sol é fortíssimo e além do calor que padecíamos não tínhamos, fora das parcas refeições, água doce nem outra bebida em quantidade suficiente. Sofríamos assim tão cruelmente a sede que cheguei quase a perder a respiração e a ficar sem fala durante mais de uma hora, donde se compreende que o que mais desejam os marinheiros nessas longas viagens é ver o mar convertido em água doce.

(Jean de Léry, Viagem a terra do Brasil, 1578)

Os marinheiros, assim como os outros tripulantes do barco, não podiam tomar banho e lavavam-se pouco porque a água era um bem muito importante devendo ser usada apenas para beber e para cozinhar os alimentos.Por outro lado, como não havia casas de banho, as necessidades eram feitas, ou em cima de uma tábua com um buraco, colocada com uma parte de fora do barco, ou para dentro de baldes que eram despejados para o mar. 


FONTE: AMADO, Janaína; GARCIA, Franco Ledonias. NAVEGAR É PRECISO, Grandes descobrimentos marítimos europeus. São Paulo: Atual, 1989.


CRÉDITO DA IMAGEM: www.revistadehistoria.com.br

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