quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O Entrudo no Brasil

 Entrudo, gravura de Jean Baptiste Debret.

Por volta do século XVI, colonos portugueses trouxeram para o Brasil (América Portuguesa) uma brincadeira que era comum em Portugal, o Entrudo. Um antigo folguedo comum nas terras portuguesas e em alguns países europeus, onde as pessoas se divertiam jogando água, tinta, farinha e ovos nas pessoas que passavam pelas ruas, eram comuns pessoas ficarem no segundo andar da casa aguardando uma pessoa distraída passar pela rua e ser alvejados por ovos ou outro item do festejo. Entrudo vem do latim introitus e quer dizer "introdução". Essa brincadeira tem sua origem ligada à antigas práticas pagãs romanas.

                          Ângelo Agostini, O entrudo, rua do Ouvidor, 1884.

Os portugueses denominavam o entrudo como o “dia dos gordos”, era tradição em Portugal o alto consumo de vinhos, abundância de comida e carne, também a prática desenfreada do sexo lícito ou não lícito. A prática do entrudo sempre esteve ligada as tradições católicas da quaresma, data cristã católica denominada para determinar aos fiéis 40 dias de consagração, que antecedem a Páscoa e início da quarta feira de cinzas havendo o término no domingo de ramos. Tradicionalmente o entrudo acontecia três dias antes a quarta feira de cinzas e durante a todo esse período havia abstinência de diversas práticas consideradas “mundanas” para os religiosos e os foliões da época buscavam a compensação em brincadeiras no período do entrudo.

Cerca de dois meses antes do evento, começava a fabricação de limas, laranjas ou limões de cheiro - pequenos objetos com a forma e o tamanho de uma laranja, feitos de cera fina, contendo produtos perfumados que eram usadas também nas “guerras carnavalescas” do Entrudo. Depois se começou a utilizar materiais pouco recomendáveis como lama, frutas podres e urina.
 

"Era no tempo em que ao carnaval se chamava entrudo, o tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas dágua, os banhos, e várias graças que foram substituídas por outras, não sei se melhores se piores.

'Dois dias antes de chegar o entrudo já a família de D. Angélica Sanches estava entregue aos profundos trabalhos de fabricar limões de cheiro. Era de ver como as moças, as mucamas, os rapazes e os moleques, sentados à volta de uma grande mesa compunham as laranjas e limões que deviam no domingo próximo molhar o paciente transeunte ou confiado amigo da casa.'...

... 'No momento em que tomamos conhecimento com a família Sanches estão eles em boa harmonia despejando cera dentro das fôrmas de limões ou enchendo os que já estão prontos com água de cheiro....Vinham para a mesa as caçarolas cheias de cera derretida, e todos aqueles operários mergulhavam nelas os limões e as laranjas, ou despejavam cera dentro de fôrmas de pau."

Um dia de entrudo, Machado de Assis. 1874.


 Entrudo familiar, aquarela de Augustus Earle, 1822.

As famílias normalmente brincavam em um espaço privado, previamente escolhido. As ruas e praças serviam de palco para as classes menos favorecidas, como os homens livres pobres e os escravos. Esses últimos, só podiam brincar em horários permitidos pelos senhores, quando não havia muita demanda de trabalho. Geralmente, saíam às ruas tatuados ou pintados de branco ou vermelho, ao anoitecer, dançando e cantando ao som de instrumentos musicais de percussão como atabaques, marimbas e zabumbas.

Segundo Luís A. Giron, o literato Gonçalves Dias descreveu no Folhetim do Correio Mercantil, em 1849, que o entrudo se iniciava às 04 horas da madrugada, com um tiro dado a partir do porto, levantando a população, como a menina que enfiava “o pé seco e nervoso no chinelo” e “procurava os limões cheirosos”, ou mesmo as velhas que se assanhavam ao ver os barris com os limões, além dos mancebos de “topete eriçado” que ganhavam as ruas com suas seringas colocadas sob os capotes. Era uma verdadeira mania.


A situação levava a elite brasileira, principalmente a do Rio de Janeiro, como mostra boa parte da documentação sobre a prática carnavalesca, a criar uma campanha pelo fim do entrudo a partir da década de 1840. Não que o entrudo fosse legalizado no período colonial ou mesmo naquele momento da vida urbana da capital imperial. A polícia não reprimia a manifestação popular. O que passou a fazer depois da campanha veiculada principalmente pelos jornais do Rio de Janeiro.


O que a elite pretendia era também poder festejar o carnaval sem que tivesse contato com a manifestação popular do entrudo. O código de conduta moral da elite carioca não poderia ser colocado frente a frente com o “jogo bárbaro, pernicioso e imoral”, sem que tivesse a intermediação da polícia.


A partir daí o entrudo foi proibido e reprimido nas ruas do Rio de Janeiro. Novas formas de festejo do carnaval foram surgindo, sejam nos bailes mascarados dos salões e teatros destinados às elites ou nos cordões de rua praticados pela população das classes baixas, profanando a estética e conteúdo das procissões religiosas.

 Baile de máscaras no Teatro Lírico do Rio de janeiro, em desenho de Guerave, 1883.



FONTES: O Entrudo: Carnaval no Brasil do Período Colonial, Imperial e República (Séculos XVI ao XX). Disponível em: http://www.webartigos.com/artigos/o-entrudo-carnaval-no-brasil-do-periodo-colonial-imperial-e-republica-seculos-xvi-ao-xx/98755/ . Acesso em: 08/01/2014.

Quanto riso, quanta alegria. Texto de Andrea Carvalho Stark. 24/01/2011. Revista de História da Biblioteca Nacional.

ASSIS, Machado de. “Um dia de entrudo”. 1874. Disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download id=6410 . Acesso em: 08/01/2014.

A prática carnavalesca do entrudo. Texto de Tales dos Santos Pinto. Disponível em: http://www.mundoeducacao.com/carnaval/a-pratica-carnavalesca-entrudo.htm . Acesso em: 08/01/2014.

O Entrudo e o carnaval brasileiro. Artigo de Claudia Lima. Disponível em: http://www.claudialima.com.br/ . Acesso em: 08/01/2014.


CRÉDITO DAS IMAGENS: 

http://www.historiadigital.org
http://commons.wikimedia.org
http://www.revistadehistoria.com.br

                                


 






 

 
 
 





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