sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

As Câmaras Municipais

Antiga Câmara Municipal de São Paulo (Reconstituição de José Wasth Rodrigues).

As Câmaras Municipais representavam o poder local das vilas e cidades. Elas foram criadas com o objetivo de resolver os problemas que estavam fora do alcance da Coroa Portuguesa. As câmaras eram compostas por um grupo de vereadores, dois juízes ordinários, um procurador, um tesoureiro e um escrivão.

Já ouviu falar em “homens bons”? Pois é, eles é que administravam as Câmaras das vilas. Mas quem eram eles? Os “homens bons” eram a classe dominante da colônia, grandes proprietários de terra, escravos e gado. Somente eles poderiam ser eleitos para exercer algum cargo nas câmaras. Ficavam excluídos escravos, judeus, estrangeiros, mulheres e degredados.

As principais funções da câmara eram: Resolver problemas locais de ordem econômica, política e administrativa nas vilas e municípios; verificar pesos e medidas; coordenavam e fiscalizavam a construção e manutenção de estradas; resolver brigas e disputas por terra; promover ações judiciais; realizar a manutenção dos bens públicos e a limpeza urbana; administrar os gastos públicos; e criar impostos e taxas sob o comércio local.

Com o passar do tempo, as câmaras, que atendiam os interesses dos poderosos locais, tornaram-se instituições independentes e poderosas. Os interesses locais, na maioria das vezes, mostravam-se contrários aos da metrópole. A corrupção nas câmaras e a desobediência frente os interesses portugueses, fizeram com que a Coroa passasse a intervir de forma rígida nas Câmaras para manter seus interesses.

As Câmaras tiveram seus poderes reduzidos em 1642, quando o governo português criou o Conselho Ultramarino, pelo o qual Portugal passava a regular as atividades econômicas de suas colônias e centralizar de forma extrema sua administração.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.tj.ba.gov.br/

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Entrevista: 50 anos do CIGS

Distintivo do CIGS.

Por Evaldo Ferreira

"Motivados para defender a Amazônia"

No próximo dia 2 de março, o Cigs (Centro de Instrução de Guerra na Selva) completará meio século de existência em Manaus, como uma das instituições mais respeitadas e admiradas do Exército. Seu primeiro comandante foi o então major Jorge Teixeira de Oliveira, o Teixeirão, que deixou sua marca, depois, como prefeito da capital amazonense. Hoje comandada pelo coronel de infantaria Alfredo José Ferreira Dias, o Cigs continua a cumprir sua missão que é formar guerreiros de selva para proteger a Amazônia. Na entrevista a seguir, o comandante explicou melhor o papel do Centro de Instrução, não só para Amazônia, mas para o Brasil e até outros países.

JC: Meio século de Cigs. Qual tem sido a importância desse Centro para o Amazonas e a Amazônia?

Alfredo José: O Centro de Instrução de Guerra na Selva é um estabelecimento de ensino militar bélico, subordinado ao Comando Militar da Amazônia. Nossa missão é especializar militares no combate na selva, realizando pesquisas e experimentação doutrinárias, para a defesa e proteção da Amazônia. Eu diria que o Centro tem importância não apenas no contexto regional, ele também tem importância nacional e internacional, pois além de formar militares estrangeiros, temos um acordo de cooperação de instrução com o Exército do Senegal e estamos em tratativas com o Exército da Índia.

JC: Quantos guerreiros já foram formados pelo Cigs? E as mulheres, também podem ser guerreiras?

Alfredo José: O CIGS já formou 5.633, dentre os quais 4.736 do Exército Brasileiro, 225 da Marinha do Brasil, 67 da Força Aérea Brasileira, 159 das Polícias e Bombeiros Militares e 446 militares estrangeiros. É bom ressaltar que o Brasil tem duas mulheres formadas no CIGS.

JC: Hoje, quantos homens integram o Cigs e como é a estrutura do Centro?

Alfredo José: Atualmente o Cigs conta com 468 militares, homens e mulheres que se dedicam integralmente à formação dos guardiões da Amazônia. O Centro está estruturado em Divisão de Doutrina e Pesquisa, Divisão de Alunos, Divisão de Ensino, Divisão de Saúde, Divisão Veterinária e Companhia de Comando e Serviços.

JC: Numa guerra hipotética na selva, há páreo para os homens do Cigs? Que outros países mandam seus homens para treinarem aqui?

Alfredo José: O Guerreiro da Selva formado no Cigs é um militar extremamente preparado para o combate no ambiente operacional de selva. São homens e mulheres capacitados e motivados para a defesa da nossa Amazônia. Já formamos 446 militares de nações amigas de todos os continentes, dentre os quais podemos citar Alemanha, Colômbia, Estados Unidos, Equador, França, Guiana Francesa, Inglaterra e Peru, entre outros.

JC: Quem pode realizar o Curso de Operações na Selva no Cigs?

Alfredo José: O Curso de Operações na Selva pode ser realizado apenas por militares de carreira, oficiais e sargentos. O militar voluntário é submetido a teste físico, intelectual e psicotécnico. Só depois disto ele está apto a ser matriculado no Curso de Operações na Selva.

JC: Quanto aos treinamentos, como são? Todos sabemos que são pesados, mas imprescindíveis para um Centro de Instrução de Guerra na Selva.

Alfredo José: O Curso de Operações na Selva é dividido em três fases. A Fase de Vida na Selva, onde o militar aprende a integrar-se ao ambiente amazônico; a Fase de Técnicas Especiais, quando ele adapta os conhecimentos de sua formação profissional às peculiaridades da selva; e a Fase de Operações, na qual o militar realiza diversos tipos de planejamentos operacionais e participa como comandante ou integra as frações de combate em Operações Convencionais, Garantia da Lei e da Ordem e Operações de Resistência, sendo que esta última é exclusiva para os militares brasileiros por contar com conhecimentos relacionados a uma doutrina única no mundo que visa a defesa do território no caso de uma invasão por um inimigo incontestavelmente superior.


CRÉDITO: Jornal do Commercio. Manaus, AM. Fundado em 2 de janeiro de 1904.

CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.cigs.ensino.eb.br/

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

As Capitanias Hereditárias

Mapa das capitanias hereditárias.

No ano de 1534, a Coroa portuguesa lançou em terras brasileiras um sistema de colonização que já vigorava há muito tempo nas ilhas dos Açores e da Madeira, conhecido como capitanias hereditárias. A implementação desse sistema visava atrair investimentos privados para a colônia. Nas capitanias, os particulares recebiam grandes extensões de terra, e estavam responsáveis de promover o povoamento, explorar a região de forma que essa gerasse algum lucro (o donatário tinha que entregar para o rei de Portugal 10% dos lucros conseguidos com a comercialização dos produtos da terra) e exercer o governo, o comando militar e os poderes de justiça. Além disso, os donatários deveriam enviar para Portugal cerca de 1/5 dos metais preciosos encontrados em sua terra e escravizar e enviar 30 índios por ano para servirem com escravos.

Os poderes e direitos do Donatário, como diz o próprio nome do sistema, eram hereditários, mas ele podia distribuir sesmarias (lotes de terra) entre os colonos, que deveriam utilizá-los para gerar algum lucro. Dois documentos fundamentavam a ligação jurídica entre o Rei de Portugal e os donatários: A Carta de doação, que atribuía ao donatário a posse hereditária da capitania, quando de sua morte, seus descendentes continuavam a administrá-la, sendo proibida a sua venda. A Carta foral, que estabelecia os direitos e deveres dos donatários para com as terras.

O sistema de capitanias hereditárias, que na teoria parecia infalível, foi um fracasso. Diversos fatores o levaram ao fracasso. Conflitos com tribos indígena, o desinteresse de alguns donatários, que nunca colocaram os pés em suas capitanias, e os altos custos de manutenção. Mas o principal fator que dificultava o andamento do sistema era a implementação de uma atividade econômica que garantisse a ocupação e o povoamento. Para piorar, já estava começando a ficar difícil a extração do pau-brasil. As velhas bugigangas, como facas, espelhos e miçangas, já não atraiam mais os índios.
As únicas capitanias que vingaram foram as de Pernambuco e São Vicente, graças a implementação da cultivo da cana-de-açúcar, produto de grande valor comercial na Europa. O cultivo da cana-de-açúcar era uma solução para o controle da colônia.

As capitanias hereditárias eram:  capitania do Maranhão (dividida em 2 lotes), capitania do Ceará, capitania do Rio Grande do Norte, capitania de Itamaracá, capitania de Pernambuco ou Nova Lusitânia, capitania da Bahia de Todos os Santos, capitania de Ilhéus, capitania de Porto Seguro, capitania do Espírito Santo, capitania de São Tomé, capitania de São Vicente (dividida em dois lotes: São Vicente e Rio de Janeiro), capitania de Santo Amaro e capitania de Santana.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.coladaweb.com/

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Intelectuais Amazonenses: Armando Andrade de Menezes

Armando Andrade de Menezes, grande expoente da intelectualidade amazonense.

ARMANDO ANDRADE DE MENEZES (87), nasceu na cidade de Parintins, em 21 de março de 1926. É aposentado como advogado, professor de História do Brasil no IEA (Instituto de Educação do Amazonas) e Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Atualmente, Armando é presidente da Academia Amazonense de Letras, membro do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), Academia Amazonense de Letras Jurídicas e da Associação de Escritores do Amazonas.

É um dos jornalistas mais antigos do Amazonas, tendo começado a trabalhar em 1949, no Jornal do Commercio. No mesmo ano, na condição de presidente da União dos Estudantes do Amazonas (UEA), deu início a uma campanha contra o fechamento da Faculdade de Direito do Amazonas, então única escola superior no Estado que havia sido federalizada e estava em péssimas condições de funcionamento.  Também coordenou em 1950, a reforma estatutária da UEA. És um ser nobre, que inspira a vida das pessoas com seu amor e simplicidade.

Possui mais de vinte livros publicados. Os principais são:

O Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (1977);

Autopreservação Democrática - Oposição e Contestação Políticas (1980);

Destaques e Vidas (1993);

A Família Menezes (1996);

Aderson de Menezes - O Professor (1997);

Armando de Menezes e sua posse na Academia Amazonense de Letras (1998);

O Ministério Público do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (2003);

Em Memória de Paulo Jacob (2004);

Imponderável Silêncio (2011);

"O Chá do Armando em prosa e verso" (2012);

reeditou: A Primeira Universidade Brasileira (2000), de autoria de seu irmão, Aderson de Menezes.


CRÉDITO DA IMAGEM: catadordepapeis.blogspot.com






sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

As Igrejas de Chiloé

As ilhas do Arquipélago de Chiloé, sul do Chile, guardam igrejas seculares construídas em madeira. Essas obras fabulosas estão na lista do Patrimônio da Humanidade da Unesco. As igrejas da bucólica Chiloé constituem a maior riqueza cultural desse arquipélago, sendo um exemplo único de arquitetura religiosa na América. Elas são o produto final de uma tradição iniciada pelas missões jesuíticas nos séculos 17 e 18, e enriquecida pelos franciscanos durante o século 19.

Exemplos da integração da arquitetura com a paisagem, testemunhas dos valores religiosos das comunidades chilotes, elas falam da bem-sucedida fusão da cultura indígena com a européia. Para construí-las, os habitantes do arquipélago lançaram mão de suas reconhecidas habilidades de carpintaria de barcos, e aproveitaram a abundância da madeira de alerces (cipreste-da-patagônia) e de outras espécies de coníferas da região.

Das 150 igrejas ainda existentes, 60 se encontram preservadas. Dessas últimas, 16 foram escolhidas pela Unesco para serem reconhecidas como patrimônio da Humanidade. As torres das igrejas são dominantes na paisagem dos vilarejos de Chiloé. As fachadas das igrejas são adornadas por colunas e arcos com motivos que variam de uma igreja para outra. As torres podem ser compostas por três corpos distintos, algumas vezes pintados com cores fortes, como o amarelo ou o azul.

O interior dos templos normalmente compreende três espaços: a nave principal ao centro e duas outras menores, em ambos os lados. Abaixo, algumas das principais igrejas de Chiloé:

Em Chonchi


Os construtores da Igreja de São Carlos Barromeo, de 1762, em Chonchi, tiveram uma ideia original: conservar uma coluna de madeira com a pintura original que simulava o mármore. Outra curiosidade é que as paredes dessa igreja não são paralelas. A entrada é mais larga que a área do altar. Isso contribui para aumentar a sensação de espaço e de profundidade, de modo que a igreja parece maior do que é na realidade.

Em Vilupulli


Solitária, construída no alto de uma colina em 1747, essa igreja - cujo nome no idioma indígena mapudungun significa, "a colina da serpente" - possui uma das torres mais altas de Chiloé. Devido à sua proximidade do mar, os pescadores a utilizam como farol. Sua característica principal são os pilares arredondados do pórtico de entrada.

Em Nercón


Datada de 1734, a Igreja de Nossa Senhora da Graças se localiza no bairro Nercón, na cidade de Castro. Chama a atenção sua localização privilegiada, de frente para a baía, sua torre em três seções, seu jardim bem cuidado bem diante do portal de entrada do templo.

Em Castro


Conhecida por suas palafitas coloridas, a cidade de Castro possui a maior igreja em madeira do arquipélago. Datada de 1567, foi destruída várias vezes por piratas. Nos séculos seguintes foi consumida pelo fogo em 1772, 1857 e 1902. Seu projeto atual, de 1910, foi desenhado pelo arquiteto italiano Eduardo Provasoli, valorizando a nave interna, inteiramente construída com enormes vigas de madeira entalhada.


FONTE: Adaptado de Igrejas de Chiloé, texto de Heitor e Silvia Reali. In: Revista Planeta. Conheça o mundo, descubra você. Edição 420, ano 35. Setembro de 2007.


CRÉDITO DAS IMAGENS: http://viajarentreviagens.blogspot.com.br/
                                   http://commons.wikimedia.org/







terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Memória Afetiva da Cidade

CIDADE DA MEMÓRIA 

1° semestre de 2002

Por Otoni Moreira de Mesquita

Vista aérea do Centro de Manaus, 1960.

Ainda que aparentemente mergulhado em devaneio nostálgico, justifico esse meu passeio afetivo por uma cidade que mistura o vivido ao imaginado, e ainda que estejamos em outra época acredito ser possível compartilhar, mesmo com aqueles de memória mais recente. Não é preciso ter vivido aquele momento para encantar-se com seus elementos. Senão que validade teria fazer História e como explicaríamos o despertar das paixões pelas antigas civilizações; interesse pelas outras culturas, de que valeriam as reflexões que tentam, mas nem sempre evitam a repetição das mesmas ações equivocadas.

Mas o que me interessa nesse momento, é discutir que elementos despertam o interesse e encantam a imaginação, mantendo em nós a história uma coisa viva. Certamente não são as repetições de datas e nomes dos pontos decorados no grupo escolar. Penso que deve existir um momento ou um ato capaz de atiçar a fantasia e a memória, algo presente no ato de contar a história. Seria a narrativa em si, “o como”, apenas uma questão de talento que pode ser aperfeiçoado, ou algo natural e especial na postura, no timbre da voz, na sensualidade ou afeto contido gesto, não importando “o que” se conte - mentira ou verdade soam com a mesma intensidade. O certo é que há qualquer coisa que vibra e contagia, reverberando e gravado em nossa película interna. Por outro lado, penso que a imaginação é algo em nós guardado, como asas que ao receber um sopro qualquer ganham impulso e podem fazer voar.

Hoje, mesmo a academia, tende a escapar daquela história de narrativa insípida e fria, insossa para digerir, estimulando outras abordagens. A Nova História abre-se num grande leque de possibilidades: são as micros histórias, as questões regionais, situações que se restringiram a pequenos grupos locais e nem por isso deixaram de refletir o todo de uma realidade. A história oral com seus sons e tons, e as imagens trazendo momentos e personagens que já se foram. As idéias, as técnicas, a política. Indo ao tempo remoto ou vindo ao momento recente, tudo pode ser relevante. E como são tantas as lacunas, penso ser urgente recuperar tudo que nos for possível, os mais diversos aspectos da história da nossa cidade, mesmo que recente ou pessoal não importa. Ainda que pequena e aparentemente banal poderá ser algo vibrante e original. O tempo é como um grande incêndio, passa devorando tudo que não fica protegido, não basta reter em nossas memória, é preciso compartilhar, deixando para o futuro.
            
Penso assim por lembrar de significativos momentos passados no 4o ano primário, quando a professora Aurelina, uma gaúcha de longa trança negra nos fazia cantar: o “terra dos Barés, dos igarapés...”, falava dos rios colossais, contava do ciclo áureo da borracha, mostrando diferentes aspectos da cidade, lembrando da riqueza marcada na fachada dos prédios antigos; da instalação da eletricidade e dos bondes como uma novidade que chegou à poucas cidades.

Aqueles momentos não desbotaram, ficaram em mim gravado, e penso que modelaram uma espécie de arquétipo da cidade que fui construindo, misturando ao vivido e ao imaginado. Desde então, carrego e monto uma cidade cuja matéria, pode não corresponder precisamente à verdade que temos na razão. Nesse espaço abstrato, que é bem a cara da gente, guarda-se de tudo, coleções de pequeninos fatos, assim como fragmentos e traços do material. Arquivos que retém o cheiro da chuva no barro, o gosto das suculentas  pitanga do cemitério, o canto triste das cigarras nas pitombeiras do fim do dia. Não é um cenário que pode ser desmontado, ou somente uma montagem de diferentes temporalidades, nem esquema, nem réplica da cidade, são apenas representações, e mesmo que apontem para diferentes direções, funcionam como bússola a nos guiar.

Penso que a lembrança desse fato pode remeter diretamente ao papel assumido pelas narrativas na construção e permanência de mitos e heróis. Ciclicamente eles necessitam ser rememorados, remontados, ganham corpo e vontade, dando sentido à existência, sustentando e fortalecendo a cultura que os gerou. Caso contrário serão apagados e esquecidos como qualquer mortal. Parece-me que somente na circularidade do sistema adotado são capazes de existir essas entidades. Como aplicar isso à cidade? Será que apenas nossas imagens colecionadas e meia dúzia de significados são suficientes para dar sentido e manter viva a alma da cidade?


Otoni Moreira Mesquita nasceu em Autazes-AM, em 27 de junho de 1953. É artista plástico e professor da Universidade Federal do Amazonas. Formado em jornalismo (1979 - UFAM) e em Gravura (1983 - Escola de Belas Artes - UFRJ). É mestre em Artes Visuais e História e Crítica da Arte (1992 - UFRJ). De março de 1997 a dezembro de 1998, atuou como coordenador do Patrimônio Histórico, da Secretaria de Cultura e Estudos Amazônicos. É doutorado em História Social pela UFF, concluido em 2005 com o trabalho O Mito de progresso na refundaçao da cidade de Manaus: 1890/ 1900. Livros publicados: La Belle Vitrine: Manaus entre dois tempos - 1890/1900 (2009) e Manaus: História e arquitetura - 1852/1910 (3 edições. 1997, 1999 e 2006).







CRÉDITO DA IMAGEM: www.manausdeantigamente.blogspot.com.br


Entrevista: "Ária Ramos virou eterna"

Ária, em sua casa, no Canto do Quintela, na Avenida Joaquim Nabuco.

Por Evaldo Ferreira

No dia 17 de fevereiro de 1915, em pleno baile de Carnaval no Ideal Clube (cuja sede então ficava nos altos de um prédio na avenida Eduardo Ribeiro com Henrique Martins) a jovem Ária Paraense Ramos, de apenas 19 anos, caiu abatida com um tiro. A alegria acabou naquele momento na cidade de Manaus, pois Ária era conhecida por todos. A jornalista Betsy Bell, que há vários anos pesquisa e escreve um romance sobre aqueles acontecimentos, conta o que aconteceu desde então com o caso Ária Ramos, uma história que nunca acabou.

JC: No dia 17 passado fez 99 anos da morte de Ária Ramos, a jovem morta em pleno Carnaval, no Ideal Clube, mas a história continua bem atual.

Betsy: Sim. Pra mim, é uma história que envolve tudo que é eterno: triângulo amoroso, ciúme, juventude e Carnaval.

JC: Afinal de contas quem matou Ária Ramos naquele 17 de fevereiro de 1915, o namorado dela, Idílio Barroco, ou o ex-namorado, Mário Travassos?

Betsy: Não posso afirmar quem matou Ária. No romance que ensaio sempre fazer, que já tem inúmeras páginas escritas, mas nunca mostradas (risos), há um culpado, mas é bom deixar claro que eu vou romancear a história real. Não sou historiadora. Pelos fatos relatados, não apareceu o culpado. O namorado de Ária foi preso, mas porque ele mataria a namorada? Não seria mais lógico o ex-namorado, aquele que foi trocado por outro, cometer o crime? Mas isso são suposições. Não dá pra afirmar o culpado. O ex de Ária era filho de família renomada na época. Ora, hoje em dia, prender “filhinho de papai” já é difícil, imagina no ínicio do século 20, em Manaus.

JC: A Manaus de 1915 tinha a população de Parintins, hoje, umas 100 mil pessoas, e Ária era uma pessoa muito conhecida na cidade. Imagina-se como a população não deve ter ficado alvoroçada naqueles dias.

Betsy: A cidade parou. Como se não bastasse, Ária era no início do século o que Leila Diniz foi na década de 1960. No Carnaval ela saia em cima de um carro alegórico do corso “Paladinos da Galhofa” e isso era raro. Mulheres não faziam essa exposição, só as de má reputação – que não era o caso dela. Ela também participava de saraus com intelectuais da época. Enfim, era uma pessoa querida e conhecida. Foi uma comoção.

JC: É verdade que ela era violinista e, quando foi baleada tocava a valsa “Subindo ao Céu”, ou isso é lenda? E como, em pleno Carnaval, se tocar uma valsa?

Betsy: Nos carnavais do início do século, nos círculos elitistas, como era o de Ária, se tocava apenas polcas, marchinhas nem um pouco provocantes e valsas. Ela realmente foi baleada quando foi convidada a tocar “Subindo ao Céu”. Ela não era uma violinista. Estudava violino, mas era uma menina de família, estudante normal.

JC: Explique um pouco mais quem eram os “Paladinos da Galhofa”?

Betsy: Era um corso, ou seja, um bloco de carnaval dos mais famosos. Ele tinha 11 carros. Era uma espécie de escola de samba da época. Ária foi convidada para ser rainha desse corso e saiu nas ruas na Terça-Feira Gorda pela manhã. A noite aconteceu o baile no Ideal.

JC: É verdade que Idílio Barroco morreu louco, ouvindo um violino imaginário tocar a valsa "Subindo ao Céu"?

Betsy: Sim, é o que dizem alguns jornais da época.

JC: Se Ária morresse da mesma forma, no Carnaval desse ano, por ser jovem e cheia de vida, possivelmente a história se repetiria por mais 99 anos?

Betsy: Há uma história com aura de romance por trás da tragédia de Ária Ramos. Primeiro, há o pano de fundo da Manaus Bélle Epoque, da qual ela fazia parte. Aliás, ela nasceu quando Manaus começou a ficar rica e morreu quando Manaus começou a ficar pobre. É um ícone de uma era. Como se não bastasse, há um triângulo de amor e um assassinato de uma menina, no auge da juventude, que ao solar uma música chamada “Subindo ao Céu” é atingida por uma bala. Ela estava vestida de Diana, a Deusa Caçadora e seus pretendentes de caçador e cowboy. Ou seja, é um enredo emblemático.

JC: Fale sobre o romance que você está escrevendo a respeito do caso. Qual vai ser o título? Quando ficará pronto? A história vai ser a mesma?

Betsy: Ensaio esse romance há pelo menos 20 anos. Sinceramente, não vejo obrigação de fazê-lo agora, pra mostrar pra todo mundo. Acho que ele tem seu tempo. Sou apaixonada por essa história. Ela será seguida como baseada em fatos, que já são inusitados, mas será um romance. A morte de Ária fará 100 anos ano que vem. Não quero estabelecer datas, mas seria interessante lançar o livro nessa data. O livro será um meio pra fazer justiça porque, pra mim, essa menina foi assassinada e a cidade foi tão injusta que não prendeu seu culpado ou culpados. O namorado, acusado de atirar nela, foi logo solto e o ex-namorado nunca foi preso, mas a vida fez sua justiça. Ela virou eterna.


CRÉDITO: Jornal do Commercio. Manaus, AM. Fundado em 2 de janeiro de 1904.

CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.bauvelho.com.br/

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Imagens de Luís XIV, o Rei Sol

“Louis XIV en costume de sacre”, de Hyacinthe Rigaud, 1701, Museu do Louvre.

[...] Havia imagens visuais de Luís em pintura, bronze, pedra, tapeçaria (ou, mais raramente, em pastel, esmalte, madeira, terracota e até cera). Vão desde a infância até a digna velhice [...]. O simples número de estátuas e retratos pintados do rei, dos quais mais de trezentos se conservam, era notável para os padrões da época. O mesmo pode ser dito do número de gravuras do rei, das quais quase 700 ainda podem ser encontradas na Bibliothèque Nationale. Igualmente notável era a escala colossal de alguns dos projetos, como o da estátua de Luís de pé na Place des Victoires ou da estátua equestre para a Place Louis-le-Grand, tão imensa que 20 homens podiam se sentar e almoçar dentro do cavalo - o que de fato fizeram, durante a instalação do monumento.

Imagens do rei eram por vezes agrupadas para compor uma narrativa. O número de representações de Luís em forma seriada é inusitado no período. Uma famosa série de pinturas de Lebrun, conhecida como "a história do rei" [l' histoire du roi], representava eventos importantes do reinado até a década de 1670. Essa narrativa, como a chamariam os retóricos, foi reproduzida na foram de tapeçarias e também de gravuras. As medalhas cunhadas para comemorar os grandes acontecimentos do reinado (são mais de 300, outro número inusitadamente elevado) eram gravadas e as gravuras eram publicadas na forma da "história metálica" do rei. Os chamados "almanaques reais", com frontispícios gravados que representavam um evento diferente a cada ano, eram também qualificados, por vezes, como "a história do rei". [...]

Rituais excepcionais (isto é, não recorrentes), como a unção do rei em 1654 ou seu casamento em 1660, ou rituais recorrentes, como o toque dos doentes para curá-los ou a recepção de embaixadores estrangeiros, poderiam também ser vistos como eventos multimídia, que apresentavam a "imagem viva" do rei. De fato, o mesmo poderia ser dito dos atos cotidianos do rei - levantar-se, fazer refeições, deitar-se -, que eram a tal ponto ritualizados que poder ser vistos como minipeças teatrais.

O cenário desses rituais era, em geral, um palácio: Louvre, Saint-Germain, Fontainebleau, Versailhes. Este último, em especial, poderia ser visto como uma exposição permanente de imagens do rei. Ali se via Luís por toda a parte, até no teto. Quando o relógio instalado em 1706 batia as horas, a estátua do rei aparecia e a Fama descia para coroá-lo com louros. [...]

BURKE, Peter. A fabricação do rei. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 28-29.


Imagens de Luís XIV

Gravura do século 17 anônima do rei Luis XIV, aos 15 anos, como dançarino interpretando o Sol.

Luís XIV e parte da sua corte. Quadro de Jean-Leon Gerôme, século 19.

Busto de Luís XIV no Chambre du roi.

Estátua de Luís XIV, do escultor Bosio.

"Apoteose de Luís XIV" , 1677. Pintura de Charles Le Brun.

Retrato de Luís XIV, 1661. Pintura de Charles Le Brun.

Retrato de Luís XIV durante a Guerra de Devolução, 1668. Pintura de Charles Le Brun.


CRÉDITO DAS IMAGENS: 

http://www.marcosabino.com/
http://www.conexaoparis.com.br/
http://en.wikipedia.org/







domingo, 16 de fevereiro de 2014

Pesquisadores encontram rastros de El Dorado, a cidade de ouro perdida


A antiga lenda do mítico El Dorado, um lugar supostamente repleto de riquezas que atiçaram a cobiça dos espanhóis, volta a despertar atenção. Pesquisadores da Universidade Nacional da Colômbia encontraram um imenso cemitério, próximo à cidade de Bogotá, pertencente à comunidade Muisca, com mais de 100 tumbas que seriam de habitantes da civilização de El Dorado.
 
Os restos humanos datam entre os séculos VIII e XVI. O que se sabe até agora é muito pouco diante do que pode ser revelado durante a exploração, pois apenas 400 dos 80 mil metros do cemitério foram escavados. As estatísticas já mostram um corpo a cada oito metros quadrados e, se os cálculos estiverem certos e uma vez concluída a escavação, mais de 2 mil corpos deverão ser encontrados. 
 
A empreitada pode levar em torno de 20 anos. No momento, os pesquisadores vão fazendo descobertas valiosas como o fato de os Muiscas realizarem enterros coletivos e, em muitos casos, enterrarem pessoas vivas. Na cultura Muisca, os mortos eram sepultados em posição fetal, de bruços ou com as mãos cruzadas no peito. Um dos cadáveres descobertos em uma grande tumba é de uma mulher, sem o crânio e vários de seus ossos maiores, o que indica que foi desmembrada e decapitada, possivelmente como oferenda, ou castigada. Segundo os estudiosos, a posição em que as pessoas eram enterradas e os objetos que eram depositados com o corpo possuem uma estreita relação com o status social de cada um.  E, como todos os mitos históricos, cada vez que o El Dorado reaparece surgem também seus enigmas. Por conta de sua suposta riqueza, ela também foi chamada de “cidade do ouro perdida”, que nunca foi encontrada.



Disponível em: http://noticias.seuhistory.com/



A democracia antiga e a democracia contemporânea

" A era de Péricles", Phillipp von Foltz, 1853.

A democracia, como já se sabe (mas nem sempre é posto em prática) é o poder do povo ("demos"= povo, "kratos"= poder). Esse sistema de governo foi criado em Atenas. Porém, esse poder era bastante limitado. Embora tenha sido o berço da democracia, nem todos podiam participar nesta cidade. Mulheres, estrangeiros, escravos e crianças não participavam das decisões políticas da cidade. Portanto, esta forma antiga de democracia era bem limitada. A democracia contemporânea, mesmo com todos os problemas, se distingue da Antiga por proclamar uma declaração de direitos humanos.

" A liberdade Guiando o Povo" , por Eugène Delacroix.

"A democracia é o poder do povo ("demos"= povo, "kratos"= poder). Não quer dizer que o povo governe diretamente: tanto na Grécia como no mundo de hoje, as funções de poder eram delegadas. Mas o decisivo é que isso se faça em nome do povo e de sua vontade. Ainda hoje, a democracia ateniense, que durou só dois séculos (do 6° ao 4° antes de Cristo) e afetou apenas dezenas de milhares de pessoas, parece admirável.  Nossa democracia é representativa, isto é, os cargos de poder são atribuídos, em eleição (ai se manifesta o povo), a alguns atores políticos que nos representam - presidente, governador, deputados. A democracia grega era direta, ou seja, a cada semana e meia, o povo de Atenas se reunia e decidia todo o tipo de questão.

Isso é impraticável numa sociedade como a nossa, não só porque em países grandes não há como reunir a população toda num único lugar, mas, sobretudo, porque poucos se disporiam a deixar seus afazeres privados e os prazeres pessoais para discutir política toda a semana. Mesmo assim, há uma crítica forte a democracia representativa, porque nela os representantes ficam muito soltos: fazem o que querem, já que seus eleitores, afinal, só os controlam a cada tantos anos.

Por isso, uma questão fundamental, hoje, é como tornar a democracia mais efetiva. Há duas possibilidades. Uma é manter a representação, mas fazer os representantes prestarem contas aos representados. A transmissão das sessões legislativas pela TV, uma cobertura detalhada pela mídia (como a que a Rádio Eldorado de São Paulo faz da Câmara Municipal), o hábito do eleitor de escrever a seu deputado ou vereador, a formação de redes que divulgam os votos dos parlamentares e a supressão do voto secreto nas sessões do legislativo são alguns meios de fazer a cidadania controlar os políticos.

Outra maneira é introduzir, sempre que possível, a democracia direta, que seria uma injeção de Grécia na nossa sociedade. Decisões sobre um bairro, como as tomadas no Orçamento Participativo, que começou com o PT de Porto Alegre, mas se estendeu a outros Estados e partidos, são exemplos de escolhas que se podem em uma assembleia dos diretamente interessados. Em suma, a democracia direta exige que as pessoas não se limitem a votar uma vez a cada dois anos, mas se mantenham ligadas por seus interesses e desejos, a fim de que o poder - que só é legítimo porque foi eleito - os respeite.

Comecei pela representação porque ela é a grande diferença entre a democracia antiga e a moderna. Houve um quase eclipse da democracia por mais de 2.000 anos, isto é, entre o fim da democracia ateniense e a recuperação dessa forma de governo com as revoluções americana (1776) e a francesa (1789). Ora, as jovens repúblicas estadunidense e francesa representativas tem outra diferença da Antiguidade: elas proclamam uma declaração de direitos.

Esses direitos humanos são um traço essencial da democracia moderna. Englobam o direito à vida, a um julgamento honesto, à liberdade de escolha, à propriedade. Seu elenco só tem aumentado: em 2000, a Constituição brasileira foi emendada para incluir, entre os direitos humanos, o direito à moradia. Aliás, nossa Constituição proíbe qualquer emenda que suprima direitos humanos (art. 60).

O importante, aqui, é que o poder do povo, hoje, não pode eliminar esses tipos de direitos que se supõe que antecedem o próprio poder do Estado, isto é, que são superiores à própria política. É por isso que se fala em declaração de direitos: uma assembleia (como a da ONU, em 1948, autora da Declaração Universal) pode declarar que tais direitos existem, mas não pode criá-los, nem suprimi-los, porque eles são mais importantes do que ela própria. É como se eles fossem "naturais", palavra que vem do verbo "nascer" e que indica que nascemos com eles.

Isso deixa empatado o jogo entre democracia antiga e moderna. A democracia ateniense faz 1 a 0, porque a democracia direta é vista por muitos como superior a representativa (só que impossível em nossos tempos). Mas a democracia moderna marca um tento com os direitos humanos: Sócrates não teria sido condenado a morte numa sociedade democrática de nossos dias. Aristides não teria sido banido de Atenas. Por isso, a democracia atual não consiste só em eleições. Ela também inclui todo um rol de direitos humanos, bem variados. [...]

RIBEIRO, Renato Janine. A democracia antiga e a democracia contemporânea. Folha de S. Paulo, 28 jan. 2003.


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