terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Entrevista: "Ária Ramos virou eterna"

Ária, em sua casa, no Canto do Quintela, na Avenida Joaquim Nabuco.

Por Evaldo Ferreira

No dia 17 de fevereiro de 1915, em pleno baile de Carnaval no Ideal Clube (cuja sede então ficava nos altos de um prédio na avenida Eduardo Ribeiro com Henrique Martins) a jovem Ária Paraense Ramos, de apenas 19 anos, caiu abatida com um tiro. A alegria acabou naquele momento na cidade de Manaus, pois Ária era conhecida por todos. A jornalista Betsy Bell, que há vários anos pesquisa e escreve um romance sobre aqueles acontecimentos, conta o que aconteceu desde então com o caso Ária Ramos, uma história que nunca acabou.

JC: No dia 17 passado fez 99 anos da morte de Ária Ramos, a jovem morta em pleno Carnaval, no Ideal Clube, mas a história continua bem atual.

Betsy: Sim. Pra mim, é uma história que envolve tudo que é eterno: triângulo amoroso, ciúme, juventude e Carnaval.

JC: Afinal de contas quem matou Ária Ramos naquele 17 de fevereiro de 1915, o namorado dela, Idílio Barroco, ou o ex-namorado, Mário Travassos?

Betsy: Não posso afirmar quem matou Ária. No romance que ensaio sempre fazer, que já tem inúmeras páginas escritas, mas nunca mostradas (risos), há um culpado, mas é bom deixar claro que eu vou romancear a história real. Não sou historiadora. Pelos fatos relatados, não apareceu o culpado. O namorado de Ária foi preso, mas porque ele mataria a namorada? Não seria mais lógico o ex-namorado, aquele que foi trocado por outro, cometer o crime? Mas isso são suposições. Não dá pra afirmar o culpado. O ex de Ária era filho de família renomada na época. Ora, hoje em dia, prender “filhinho de papai” já é difícil, imagina no ínicio do século 20, em Manaus.

JC: A Manaus de 1915 tinha a população de Parintins, hoje, umas 100 mil pessoas, e Ária era uma pessoa muito conhecida na cidade. Imagina-se como a população não deve ter ficado alvoroçada naqueles dias.

Betsy: A cidade parou. Como se não bastasse, Ária era no início do século o que Leila Diniz foi na década de 1960. No Carnaval ela saia em cima de um carro alegórico do corso “Paladinos da Galhofa” e isso era raro. Mulheres não faziam essa exposição, só as de má reputação – que não era o caso dela. Ela também participava de saraus com intelectuais da época. Enfim, era uma pessoa querida e conhecida. Foi uma comoção.

JC: É verdade que ela era violinista e, quando foi baleada tocava a valsa “Subindo ao Céu”, ou isso é lenda? E como, em pleno Carnaval, se tocar uma valsa?

Betsy: Nos carnavais do início do século, nos círculos elitistas, como era o de Ária, se tocava apenas polcas, marchinhas nem um pouco provocantes e valsas. Ela realmente foi baleada quando foi convidada a tocar “Subindo ao Céu”. Ela não era uma violinista. Estudava violino, mas era uma menina de família, estudante normal.

JC: Explique um pouco mais quem eram os “Paladinos da Galhofa”?

Betsy: Era um corso, ou seja, um bloco de carnaval dos mais famosos. Ele tinha 11 carros. Era uma espécie de escola de samba da época. Ária foi convidada para ser rainha desse corso e saiu nas ruas na Terça-Feira Gorda pela manhã. A noite aconteceu o baile no Ideal.

JC: É verdade que Idílio Barroco morreu louco, ouvindo um violino imaginário tocar a valsa "Subindo ao Céu"?

Betsy: Sim, é o que dizem alguns jornais da época.

JC: Se Ária morresse da mesma forma, no Carnaval desse ano, por ser jovem e cheia de vida, possivelmente a história se repetiria por mais 99 anos?

Betsy: Há uma história com aura de romance por trás da tragédia de Ária Ramos. Primeiro, há o pano de fundo da Manaus Bélle Epoque, da qual ela fazia parte. Aliás, ela nasceu quando Manaus começou a ficar rica e morreu quando Manaus começou a ficar pobre. É um ícone de uma era. Como se não bastasse, há um triângulo de amor e um assassinato de uma menina, no auge da juventude, que ao solar uma música chamada “Subindo ao Céu” é atingida por uma bala. Ela estava vestida de Diana, a Deusa Caçadora e seus pretendentes de caçador e cowboy. Ou seja, é um enredo emblemático.

JC: Fale sobre o romance que você está escrevendo a respeito do caso. Qual vai ser o título? Quando ficará pronto? A história vai ser a mesma?

Betsy: Ensaio esse romance há pelo menos 20 anos. Sinceramente, não vejo obrigação de fazê-lo agora, pra mostrar pra todo mundo. Acho que ele tem seu tempo. Sou apaixonada por essa história. Ela será seguida como baseada em fatos, que já são inusitados, mas será um romance. A morte de Ária fará 100 anos ano que vem. Não quero estabelecer datas, mas seria interessante lançar o livro nessa data. O livro será um meio pra fazer justiça porque, pra mim, essa menina foi assassinada e a cidade foi tão injusta que não prendeu seu culpado ou culpados. O namorado, acusado de atirar nela, foi logo solto e o ex-namorado nunca foi preso, mas a vida fez sua justiça. Ela virou eterna.


CRÉDITO: Jornal do Commercio. Manaus, AM. Fundado em 2 de janeiro de 1904.

CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.bauvelho.com.br/

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