quarta-feira, 30 de abril de 2014

A Era Meiji

Mutsuhito Meiji, 122° imperador do Japão. Retrato feito por Edoardo Chiossone.

O Japão desperta a curiosidade de muitas pessoas. No meu caso, um importante período histórico desse país me chamou atenção: A Era Meiji ou Restauração Meiji, foi o período histórico que moldou o Japão da forma que o conhecemos atualmente. Os 45 anos de reinado do Imperador Mutsuhito Meiji (Meiji: iluminado) foram decisivos para a transformação do Japão em potência, isso ainda no final do século 19.


A frota do comodoro Perry na segunda visita ao Japão em 1854.

Até 1854, o Japão tinha uma política de relações internacionais conhecida como "Sakoku". Essa política de "quase" isolamento, isso porque o Japão ainda mantinha, mesmo que de forma restrita, relações com a China e a Holanda, estabelecia que nenhum estrangeiro poderia entrar e nem qualquer japonês deixaria o país. Essa política de isolamento foi criada pelo Xogunato Tokugawa em 1639, tendo vigorado até 1854.

O isolamento acabou em 1853, quando o comodoro Methew Perry, à serviço do presidente dos Estados Unidos, Millard Fillmore, ancorou com seus navios na Baía de Edo (atual Tóquio). Os americanos agiram com ferocidade, bombardeando as águas da baía. O objetivo era mostrar superioridade bélica e conseguir respeito. O comodoro Perry trazia uma carta do presidente Fillmore, na qual ele solicitava permissão para que barcos americanos aportassem no Japão. Foi a "tacada final": ou os japoneses abriam caminho para os americanos ou iriam sofrer as consequências.

Uma rua japonesa em 1860.

Perry, depois de ter dado essa "demonstração" de superioridade, retornou ao Japão em 1854, e dessa vez conseguiu o que queria. Em 31 de março, o Japão assinou um tratado com os Estados Unidos, abrindo os portos de Shimoda e Hokodate. Os japoneses nada podiam fazer, pois eram belicamente inferiores. Ainda no período Xogum, ocorreram algumas tentativas de modernizar o exército. O Tokugawa Yoshinou importou armas americanas e assessoria militar da França.

Samurai empunhando uma Katana, 1860.

Estava rompido, assim, um isolamento de mais de 200 anos. Mas como era o Japão antes dele entrar na economia capitalista? O Japão tinha uma economia totalmente agraria e era dividido em várias ilhas autônomas governadas por daimiôs (chefes de clãs). O principal clã era o Tokugawa, que possuía a maioria das terras em seu poder e também o maior número de samurais (soldados da aristocracia rural).

Mesmo com as medidas  de Yoshinobu, alguns líderes locais acreditavam que ele não era a pessoa ideal para levar o país à modernização. Em 1866, Takamori Saigo e Takayoshi Kido, dois influentes líderes regionais, formaram uma aliança para derrubar o líder Tokugawa e restaurar o poder imperial. O imperador ficava em Kyoto, era venerado pelo povo mas não possuía poder político, era um símbolo. O xogum renunciou em 1867. Estava iniciada a Restauração Meiji, ou Restauração Iluminada, que não seria nada pacífica.

Em 1868, o exército do antigo xogum enfrentou as forças de Takamori e Takayoshi no conflito que ficou conhecido como Guerra de Boshin. O conflito durou um ano, e as tropas de Yoshinobu foram derrotadas. Estima-se que 3,5 mil pessoas morreram nessa guerra. Mas os conflitos não param por ai.

O Jovem Mutsuhito, com apenas 17 anos, assume o poder em 1869 e muda a corte de Kyoto para Tóquio, que passou a ser a capital oficial do país. O jovem imperador não demorou em tomar medidas para modernizar o país. Em 1871, aboliu o sistema de domínios, substituídos por províncias administradas por governadores nomeados pelo imperador, em lugar dos senhores feudais que transmitiam o poder hereditariamente. Os samurais, que haviam sido decisivos para o fim do xogunato de Tokugawa, acabariam sendo mortalmente atingidos no novo regime. O governo Meiji formou seu próprio exército, composto por estrangeiros. O Imperador se autoproclamava descendente direto da Deusa Amaterasu e o Xinstoísmo foi atribuído como religião oficial.


O jovem Imperador Meiji usando vestes militares, 1873.

Em 1876, os samurais foram proibidos de portar espadas – somente militares uniformizados do novo exército poderiam carregar a arma. Na prática, isso representava a extinção da classe dos samurais. O golpe final veio com a abolição do estipêndio pago aos samurais – que recebiam um salário fixo, proveniente da taxação do arroz produzido pelos camponeses. Com isso, cerca de 2 milhões de samurais, 6% da população japonesa da época, viram-se da noite para o dia obrigados a buscar outra atividade para sustentar-se.

1877, esse foi o ano de "extinção" dos samurais. Takamori, um dos líderes que apoiou a restauração Meiji no início, estava insatisfeito com a nova situação, em que cada vez mais os estrangeiros e os costumes ocidentais invadiam o país. Takamori reuniu um exército de 25 mil samurais, mas não resistiu ao Exército Imperial composto por mais 300 mil soldados e artilharia moderna.

Suprema Corte de Tokyo, 1900. Aos poucos, os hábitos, costumes e a arquitetura iam ganhando características ocidentais.

Depois desses conflitos, as mudanças ocorreram sem interferência . As mudanças implementadas por Meiji, possibilitaram a criação dos zaibatsus (grandes grupos econômicos controlados por famílias poderosas que controlavam as atividades industriais e financeiras e que tinham relações com o governo) como a Mitsubishi, Sumitomo, Yusuda e Mitsui. Para expandir seus negócios, o governo assegurou o equilíbrio entre a importação e a exportação de produtos. Logo, com essa solução típica de capitalista,o Japão transformou-se em uma potência imperialista da Ásia.

A educação foi altamente valorizada. As autoridades e o Imperador afirmavam que a riqueza e o poder do país seriam prejudicados se as pessoas comuns fossem iletradas. Da mesma forma que o serviço militar,a educação fomentava a identidade nacional japonesa. A educação deveria qualificar os cidadãos sem distinção de nível social.

Sobre esse período, que considero uma Belle Époque Oriental, existem relatos da época:

Texto imperial de 1868 sobre a Restauração Meiji.

" Vimos de assumir a sucessão do Trono imperial, no momento em que o Império é submetido uma reforma total. Reservamo-nos o direito de decidir, de modo supremo e exclusivo, os assuntos civis e militares. A dignidade e felicidade da nação reclamam a interferência de Nossa elevada função. De modo constante e sem repouso, consagraremos a isso os Nossos pensamentos. Por indignos que sejamos para a tarefa, pretendemos continuar o trabalho começado pelos nossos sábios antepassados e aplicar a política que nos legou o falecido imperador, dando paz aos clãs e ao nosso povo, e promovendo, além dos mares, no exterior, a glória da nação. Devido às intrigas imoderadas que o shogun Tokugawa Keiki alimentou, o Império se reduziu a pedaços e, em consequência, veio a guerra civil que padecimentos sem conta impôs ao povo. Assim, fomos forçados a fazer, pessoalmente, campanha contra ele.

Como já se declarou, a existência de relações com países estrangeiros implica em problemas muito importantes. Assim, também nós, por amor ao povo, estamos dispostos a enfrentar os perigos do abismo, a sofrer as maiores dificuldades, jurando estender ao estrangeiro a glória da nação, e a satisfazer aos manes dos nossos ancestrais e do defunto imperador.

Portanto, que vossos clãs reunidos nos assistam em nossas imperfeições; que unindo nossos corações e vossas forças desempenheis os papéis que vos estão atribuídos, desdobrando todo vosso zelo para o bem do Estado".

(selo imperial) - 21 de março de 1868.


Família Imperial Meiji, 1900.

A Era Meiji termina em 1912, com a morte do Imperador Mutsuhito. Ela deixou profundas marcas no país, que já no fim do século 19 e 20 era uma potência, vencendo entre 1894 e 1895 a China (conquistando o domínio de Taiwan) e, entre 1904 e 1905 a Rússia (conquistando a região da Manchúria). Nas palavras do historiador britânico Eric Hobsbawm:

" Não parecia de forma alguma que em apenas meio século o Japão seria uma potência mundial, capaz de derrotar uma potência européia numa guerra de maiores proporções, usando apenas uma das mãos, e que em três quartos de século estaria perto de rivalizar com a marinha inglesa; me- nos ainda, que na década de 1970 alguns observadores esperassem o Japão ultrapassar a economia dos Estados Unidos em alguns anos. "



FONTES: Era Meiji e os últimos samurais. Revista Aventuras na História. 01/04/2008.

SOMMA, Isabelle. Japão - O dia em que a ilha se abriu ao mundo. Revista Aventuras na história. 01/11/2003.

HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital. 1848-1875. 9° ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História - das cavernas ao terceiro milênio - Do avanço imperialista no século xix aos dias atuais. São Paulo: Moderna, 2010.

CRÉ, Kamila Gouveia Camargo; SARRAF, Luiza Rafaela Bezerra; LACERDA, Natália de Fátima de Carvalho. O Japão na Era Meiji: quando o distante se torna próximo. Disponível em: http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/O_Japao_na_era_Meij_-_quando_o_distante_se_torna_proximo.pdf Acesso em: 30/04/2014.


CRÉDITO DAS IMAGENS: http://www.printsoldandrare.com/japan/
                                     http://commons.wikimedia.org/
                                     http://www.oldphotosjapan.com/














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