sexta-feira, 18 de abril de 2014

As elites africanas pós-descolonização

iPhones de ouro 24 quilates foram as "lembrancinhas" do casamento da filha do presidente da Nigéria.

De acordo com o jornal Nigerian Eye, Jonathan Sakwe gastou, em 2013, para comemorar a independência do país, quase R$ 2 bilhões de dólares em 53 iPhones de ouro. Essa notícia, que para alguns não tem o menor interesse, me fez pesquisar sobre quem domina o continente africano atualmente e como se formou essa elite que "ostenta" em meio a tanta pobreza. É um texto simples, didático. Podemos começar pela abordagem de alguém com conhecimento de causa, o antropólogo congolês naturalizado brasileiro, Kabengele Munanga:

"Durante as campanhas anticolonialistas e os anos de luta, a independência soava para as grandes massas como uma palavra mágica. Poder, riqueza, conforto, vida fácil e de melhor qualidade, outrora reservados aos únicos colonizadores, mudariam automaticamente de mãos após a proclamação da independência. Naquela euforia geral dos anos 60, talvez não fosse o momento, na cabeça das massas, de pensar nas dificuldades de aprendizagem em autogovernar-se, mas de dominar os sofisticados mecanismos de relações internacionais (econômicas, diplomáticas...). [...] Com a independência, o efetivo dos serviços administrativos dobrou, triplicou e quadruplicou em todos os países africanos. Criou-se uma casta privilegiada de ministros, deputados, altos funcionários e oficiais do Exército. [...] Para a maioria das elites africanas, a independência consistiu em tomar a posição dos brancos e gozar das vantagens exorbitantes até então concedidas aos coloniais. Os carros luxuosos importados foram multiplicados por dez depois da independência. A corrupção já conhecida no meio colonial tomou proporções assustadoras em muitos países ".

MUNANGA, Kabengele. Trinta anos de processo de independência.  Revista USP - Dossiê Brasil/ África, n.18. Jun/jul/ago. 1993. p. 103 - 105.

De acordo com Júlio Mendes Lopes, professor de História da África em Luanda, a maior parte das elites colonizadas não conseguiu fazer uma ruptura com o passado colonial, mantendo os antigos sistemas administrativos. Júlio Mendes complementa: em alguns países, as elites, em vez de fazerem investimentos sérios nos seus países, por vários processos de gestão vão-se apoderando desses pequenos recursos dados por entidades internacionais, e, em vez de investirem nos países para melhor desenvolverem as suas sociedades, vão colocando em bancos americanos, europeus, etc., e esse dinheiro está a trabalhar para o desenvolvimento da Europa e não para o desenvolvimento da África e dos africanos.

O processo de descolonização da África, motivado pela péssima condição de vida das populações locais, pelo forte sentido de identidade nacional e a luta por liberdade, iniciado nos anos 1960, tirou, num primeiro momento, uma elite imperialista do poder, deixando aberto, no entanto, espaço para a instalação de uma elite local. As potências antagônicas da Guerra Fria começariam a ditar as regras no continente, dobrando esses grupos de poder às suas vontades, na busca incessante de zonas de expansão para o Capitalismo e para o Socialismo.

No contexto dessa Guerra, o Socialismo tentou, entre 1960 e 1970, se apresentar como uma alternativa às formas de governo existentes no continente desde o período colonial. Foram instalados no país, patrocinados pela URSS, governos alinhados à essa ideologia. Em pouco tempo, eles se mostraram autoritários, criando impostos pesados para a população, investindo maciçamente na área bélica, diminuindo investimentos na educação e na saúde. Esses governos, envoltos nessa ideologia, apenas mostraram mais do mesmo. Os governos aliados às grandes potências capitalistas continuaram os projetos dos antigos lideres coloniais, explorando de forma violenta os recursos do continente, incentivando a segregação racial entre nativos e descendentes de europeus. Ambos, de forma inescrupulosa, investiram as doações internacionais em benefícios próprios, mantendo o continente na mesma letargia dos tempos coloniais, só que agora sob nova direção, de fato o único diferencial.

Essa herança colonial deixou marcas profundas no continente. A partilha do continente entre as potências, que não levou em conta aspectos históricos e culturais de cadas povo, gerou inúmeros conflitos tribais e civis. Várias formas de governo se apresentaram como novas, mas mostraram apenas ser "mais do mesmo". Se no passado os responsáveis pelos crimes que geraram miséria, fome e epidemias foram os colonizadores europeus, agora, é a vez das irresponsáveis elites locais, sem compromisso algum com a população.



FONTES: FERNANDES, André. Em casamento ostentação, convidados ganham iPhone de ouro. Revista EXAME. 16/04/2014. Disponível em: http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/em-casamento-ostentacao-convidados-ganham-iphone-de-ouro Acesso em: 18/04/2014.

KALIENGUE, José. Elites africanas preservam processos da administração colonial. O País - O Jornal da Nova Angola. Disponível em: http://www.opais.net/pt/opais/?id=1647&det=12901&mid= Acesso em: 18/04/2014.


CRÉDITO DA IMAGEM: 

http://exame.abril.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário