domingo, 13 de abril de 2014

Lisboa e o terremoto de 1755

Lisboa era uma das cidades mais bonitas da Europa. Mesmo com aspectos medievais, com becos e vielas desordenados, sujos, mal cheirosos e com mendigos, ela encantava com seus numerosos palácios e igrejas, nos mais variados tamanhos e estilos. Possuía um porto que acomodava facilmente 10.000 navios. Nessa época, a economia do Império Português estava voltada para a extração do ouro, açúcar e tabaco da colônia brasileira.

Lisboa antes do terremoto.

A beleza foi embora às 9:30 de 1 de novembro de 1755. Era Dia de Todos os Santos, e grande parte da população de Lisboa encontrava-se nas Igrejas. Depois de um grande ruído subterrâneo, ocorreu o primeiro abalo, sucedido por um estrondo subterrâneo, igual ao barulho de um trovão. O abalo ficou dividido em três fases:

"a primeira, não muito violenta, teve duração de minuto e meio aproximadamente; após um intervalo de um minuto, ocorreu a segunda fase, caracterizada por um movimento intenso que durou cerca de dois minuto e meio, causando danos avultados. Após outra pausa de um minuto, iniciou-se a terceira fase, com duração de três minutos, ainda mais violenta que a anterior. O tremor durou cerca de nove minutos".

O abalo foi sentido no Norte da África e muitas pessoas morreram em Fez e Mequinez. Algumas regiões sofreram leves danos, como Argel e o Sudoeste da Espanha. Na França, Suíça e Norte da Itália também foram sentidos alguns tremores. Estima-se que esse terremoto devastador tenha atingido entre 8,7 e 9,0 pontos na Escala Richter.

Depois dos fortes tremores, um maremoto de 20 metros causou danos severos ao longo da costa de Portugal, Sudoeste da Espanha e Marrocos Ocidental. Vários navios foram destruídos e pessoas, que acreditavam estar a salvo dos impactos da queda dos edifícios, foram tragadas pela água. Os desastres não para por ai. Um grande incêndio, iniciado pelo fogo das casas e pelas velas das igrejas, fez Lisboa arder por cinco dias. Um senhor residente em Lisboa relatou o ocorrido em uma carta destinada à um amigo em Londres.

"À hora a que o terramoto começou estava eu a escrever num gabinete, no cimo de um lanço de escadas; senti um abalo surpreendente e, incapaz de adivinhar o que se passava, corri de imediato para a janela, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi a esquina de uma casa a cair sobre duas pessoas que iam a passar; isto foi muito mau, mas, menos de um minuto depois, vi a minha mulher e filha (que tinham corrido para a rua ao primeiro abalo) morrerem esmagadas pela queda da parte restante da mesma casa..."

Algumas pessoas aproveitavam a situação para pilhar e saquear a cidade.

"Mal o tremor tinha cessado, um bando de patifes sem remorso começou a pilhar as casas que estavam desertas, pois os habitantes fugiram não sabiam eles para onde, com receio de que os edifícios caíssem sobre as suas cabeças; tão cedo quanto possível, guardas adequados receberam ordens para capturar saqueadores e disparar contra eles em caso de resistência". 

Estima-se que 30 mil pessoas perderam a vida em meio ao desabamento de prédios, do tsunami e do incêndio. É muito difícil imaginar como seria hoje Lisboa se não tivesse sido flagelada pelo terramoto de 1755. É praticamente incalculável o valor do que se perdeu – conventos, palácios, igrejas, o Castelo, a sumptuosa Ópera do Tejo, a Casa da Relação, o Paço da Ribeira (e a sua valiosa biblioteca de 70 mil volumes), a Torre do Tombo, o Hospital de Todos-os-Santos as livrarias do marquês de Louriçal e dos conventos de S. Domingos, do Carmo, do Espírito Santo, documentos, quadros e baixelas valiosas.

As ruínas de lisboa, 1755.

Portugal era um dos países mais religiosos da Europa e a maior parte da população interpretava esses acontecimentos como um castigo divino. Ocorreu uma série de discussões entre intelectuais iluministas. Voltaire usou o terremoto para combater o Otimismo de Leibniz, doutrina metafísica segundo a qual vivíamos “no melhor dos mundos”, escolhido pelo Criador como o melhor dos universos possíveis. Manteve discussão também com Rousseau, que achava que eram os erros do homem os responsáveis pela corrupção da harmonia da Criação. A partir de 1756, Kant publicou vários ensaios sobre o terremoto de Lisboa em que se apegava ainda às idéias de Aristóteles sobre canais no interior da Terra. Dizia que sob nossos pés há cavidades e galerias estendendo-se por toda parte, contendo fogo brilhante que, com pequeno estímulo, pode lançar-se e agitar ou mesmo fender a terra.

Marquês de Pombal, por Louis-Michel van Loo e Claude Joseph Vernet.

Quem reconstruiu Lisboa foi o secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal. Com o apoio do rei D. José I, Pombal definiu uma série de tarefas para reorganizar a cidade:

1 - ainda no dia do terremoto, instalou posto de distribuição dos mantimentos que foi possível encontrar nos escombros e o que chegava de fora, recebido nas portas da cidade ou no Tejo;

2 - foram deslocados para Lisboa regimentos militares de várias regiões do país;

3 - foram formadas equipes para desobstrução e remoção dos mortos;

4 - decreto instituiu aparelho judicial de emergência para processo verbal e sumário de saqueadores, especuladores e outros contraventores. Foram instaladas novas forcas;

5 - foram construídas barracas de lona (das velas dos navios) e de toda a madeira que se encontrou, para os desabrigados , que chegavam a 2/3 da população;

6 - foram tomadas providências para a reconstrução de Lisboa, que é hoje considerada grande obra do Marquês de Pombal.

Na reconstrução de Lisboa, houve estudos para projeto de estruturas que resistissem aos sismos, que talvez tenham sido os primeiros trabalhos de Engenharia Sísmica (foi criada uma estrutura construtiva anti-sismo conhecida como "gaiola Pombalina"). Os relatos e observações feitos em 1755 são considerados os fundamentos da Sismologia.



FONTES: KOZAK, JAN T. ; JAMES, CHARLES D. Representações históricas do Terramoto de 1755. Disponível em: http://nisee.berkeley.edu/lisbon/ Acesso em: 13/04/2014.

LOURES, CARLOS. Algumas notas sobre o terramoto de 1755. Disponível em: http://aviagemdosargonautas.net/algumas-notas-sobre-o-terramoto-de-1755-por-carlos-loures/ Acesso em: 13/04/2014.

Um relato minucioso do terramoto de 1755. Disponível em: http://dulcissimoamor.blogspot.com.br/2009/10/um-relato-minucioso-do-terramoto-de.html Acesso em: 13/04/2014.

O grande terramoto de Lisboa de 1755. Consequências científicas, políticas e culturais, na Europa e no Brasil. Disponível em: http://www.iag.usp.br/geofisica/sites/default/files/terremoto_lisboa_prof_Igor.pdf Acesso em: 13/04/2014.


CRÉDITO DAS IMAGENS: http://alvor-silves.blogspot.com.br/
                                     http://commons.wikimedia.org/







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