sábado, 12 de abril de 2014

Tempos Sujos

"O banho", de Alfred Stevens.

A higiene pessoal, tal como a conhecemos hoje, com banhos, perfumes e cremes, demorou muito tempo para ser estabelecida. Até então, a sujeira era vista como algo "normal".

Todas as civilizações da Antiguidade tinham cuidado com a higiene, dando grande atenção para o corpo e o espírito. Tomemos como exemplo os greco-romanos. Para eles, o banho era uma convenção social, realizada por três motivos: higiene, espiritualidade e esporte. Este último, era originário da natação, um dos três pilares da educação dos jovens, como comprovam várias representações em vasos de cerâmica pintados naquele período.

Os banhos eram realizados nas termas, grandes balneários públicos que recebiam pessoas das mais variadas classes.

Com a queda do Império Romano e a expansão do Cristianismo, esse hábito passou a ser visto como Luxúria. E não faltavam motivos. Nas termas, onde não havia divisão entre homens e mulheres, a prostituição começou a aflorar, fazendo com que esses banhos públicos fossem fechados.

Para São Francisco de Assis "a sujeira era um modo de penalizar o próprio corpo, aproximando o espírito de Deus". Nos conventos, somente os monges doentes ou muito velhos eram autorizados a se banhar. Nesses conventos e monastérios, o banho era praticado duas ou três vezes ano, às vésperas de festas religiosas, como a Páscoa e o Natal.


Gravura representando um banho individual, possivelmente de um nobre.

O banho só voltou a fazer parte da vida dos Europeus depois de séculos. Os cavaleiros que voltaram das Cruzadas trouxeram o hábito do Banho Turco, que incluía depilação, massagem, branqueamento dos dentes (que até então, eram limpos somente com o esfregar de um pano) e maquiagem. Mesmo com esse retorno, muitos cristãos relutavam em banhar-se e somente lavavam as mãos e o rosto. Banho? uma vez no ano.

O ato de limpar os dentes é muito antigo. Nas antigas civilizações onde foram encontrados registros (Babilônia, Grécia e Egito), as pessoas utilizavam varas de mascar. Uma das pontas, fina e pontiaguda, era usada para palitar os dentes, a outra, era mastigada até virar uma escova, ajudando na limpeza dos dentes.


Ilustração da Peste na bíblia de Togemburgo, 1411.

A falta de higiene favoreceu o surgimento de epidemias devastadoras. A pior delas foi a Grande Peste, que dizimou cerca de 200 milhões de pessoas na Idade Média. Outra questão interessante foi o massacre contra os judeus nessa época. A Igreja começou a notar que eles dificilmente contraiam a doença, e com isso a Inquisição os condenava por bruxaria. Mas porque os judeus não adoeciam ? Por duas simples práticas: Lavar as mãos antes das refeições e tomar banho pelo o menos uma vez na semana.

A higiene pouco mudou na transição para a Idade Moderna, até piorou!. O rápido aumento das cidades gerou catástrofes sanitárias. Nas grandes cidades da época, como Londres, Paris e Lisboa, os lixos e dejetos eram colocados nas ruas.

"D. João VI", de Simplício de Sá.

Ainda nesse período, surge uma crença um tanto estranha sobre o poder purificador da roupa: acreditava-se que o tecido "absorvia" a sujeira do corpo. As pessoas acreditavam que bastava trocar de roupa todos os dias para se manterem limpas. No Brasil, o rei D. João VI mantinha esse hábito, mas não trocava de roupa: ele a usava até apodrecer. Mesmo com o corpo cheio de feridas e contaminações, o rei fugia da água.


A Higiene e a Sexualidade

Coito, representado no Códice medieval Tacuinum sanitatis.

A higiene (ou a falta dela) sempre esteve ligada com a sexualidade. No século 13, o Roman de la rose (romance de la rose), poema francês com conselhos eróticos, trazia recomendações para a higiene feminina: As mulheres deveriam manter unhas, dentes e pele limpos – e, sobretudo, deveriam zelar pela limpeza da "câmara de Vênus".  No século seguinte, o Decameron, do italiano Giovanni Boccaccio, vinha com alguns jogos eróticos para serem realizados no banho.

No Brasil Colônia, o "cheiro de mulher" era o ápice do erotismo e, se uma mulher lavasse suas partes íntimas antes do coito, era como se ocorresse uma ruptura sexual. Para as relações amorosas era necessário um equilíbrio de odores.

Gregório de Matos, poeta baiano conhecido como "Boca do Inferno", graças aos seus poemas obscenos, criticava o ato de lavar-se das mulheres:

                          “Lavai-vos quando os sujeis
                            E Porque vos fique o ensaio
                            Depois de foder lavai-o
                            Mas antes não o laveis”

Relatos dizem que tais odores ainda mantinham afastados mosquitos, baratas, moscas.

Napoleão, era asseado – mas encontrava estímulo erótico no cheiro do corpo. Em uma de suas campanhas militares, escreveu a sua mulher, Josefina: "Retorno a Paris amanhã. Não se lave"


Alguns "porquinhos" da história

Vasco da Gama. O navegador português levantou reações enojadas em sua viagem à Índia. Os indianos pediram que ele só falasse com a mão na frente da boca, para conter o bafo.

Luís XIV. O rei francês só tomava banho por ordem médica e vivia no imundo palácio de Versalhes, onde as fezes eram recolhidas dos corredores só uma vez por semana.

Isabel. Relatos palacianos dão conta de que a rainha espanhola que comissionou a viagem de Cristóvão Colombo só tomou dois banhos de corpo inteiro em toda a vida.




FONTES:  TEIXEIRA, JERÔNIMO. Séculos de imundície. Revista Veja, 12 de dezembro de 2007.                                                                
Disponível em: http://veja.abril.com.br/121207/p_192.shtml Acesso em: 09/04/2014.

ROSSI, GABRIEL BARBOSA. Sexualidade, Higiene e Intimidade durante os séculos. Disponível em: http://literatortura.com/2012/11/sexualidade-higiene-e-intimidade-durante-os-seculos/ Acesso em: 11/04/2014.

SCHUTZ, CAMILA PÍCOLO; SCHAEFER, MURILO MALUCHE; FRANÇA, ANA JULIA VON BORELL DU VERNAY. Linha do tempo: A história da higiene e do embelezamentoDisponível em: http://siaibib01.univali.br/pdf/Camila%20Schutz,%20Murilo%20Schaefer.pdf Acesso em: 09/04/2014.


CRÉDITO DAS IMAGENS: http://commons.wikimedia.org/




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