quarta-feira, 25 de junho de 2014

A mulher na sociedade da borracha

Prostituta polaca sendo negociada em Belém no início do século 20.

Durante o apogeu da borracha na Amazônia (1890 - 1920), existiam tipos de mulheres para diferentes "mundos". Nas ricas cidades de Manaus e Belém, os seringalistas, conhecidos como 'Coronéis de barranco', mantinham a fachada de uma sociedade patriarcal. Por baixo dos panos, existia um enorme tráfico de prostitutas de luxo, vindas de vários países da Europa. A beleza alva, da mulher europeia, enchia os ricos de desejo, fazendo com que as nativas fossem esquecidas. No seringal, onde os pobres seringueiros morriam para erguer a riqueza da região, as mulheres eram raras e, quando existiam, eram índias, velhas e doentes. A raridade as tornava "artigo de luxo".

" Os coronéis de barranco vibravam com as polacas e francesas, mas as senhoras de respeito eram guardadas nos palacetes, cercadas de criadas e ocupadas em afazeres mesquinhos, como em 1820.  Numa sociedade carente de mulheres, também o sexo seria um privilégio. A presença feminina no seringal era rara e quase sempre em sua mais lamentável versão. Para os seringueiros isolados na floresta e presos a um trabalho rotineiro, geralmente homens entre vinte e trinta anos, portanto, premidos pelas exigências de seu vigor, a contrapartida feminina chegava sob a forma degradante da prostituição. Mulheres velhas, doentes, em número tão pequeno que mal chegavam para todos os homens, eram comercializadas a preço aviltante. Enquanto o coronel podia contar com as perfumadas cocottes, além de suas esposas, o seringueiro era obrigado a optar pela sexualidade de homens confinados.

Essa penosa contradição legou uma mentalidade utilitarista em relação à mulher. Na sociedade tribal amazônica, a mulher estava integrada sob diversas formas de submissão. Com o extrativismo da borracha, em que a procura era maior que a oferta, ela seria transformada em bem de luxo, objeto de alto valor, um item precioso na lista de mercadorias, uma mobília.

A sociedade do látex torna-se ia uma sociedade falocrata, que daria à mulher uma utilização tão aberrante quanto a forma de explorar a força de trabalho do seringueiro. Adornaram sua terra exótica com a venerável cultura europeia, mas não admitiam uma mulher como pessoa. Mulheres e Victor Hugo estavam no mesmo carregamento, como o parnasianismo parecia constar da mesma lista de panacéias contra a gonorreia ".

(SOUZA, Márcio. Breve história da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994. p. 138 - 139)

Com o fim dessa economia, a negociação de mulheres também entrou em decadência. Em Belém, o governo mapeou as áreas de atuação (para que ficasse bem delimitado o lugar das "famílias" e das "mulheres da vida") dessas profissionais, que passaram a atuar de forma mais intensa nos subúrbios. Em Manaus ocorreu o mesmo. A nível de informação, durante a década de 30 e com mais intensidade durante a Segunda Guerra, muitos bordéis saíram do Centro da cidade para bairros como Educandos e Santa Luzia; e outros em processo de formação.

O ciclo da borracha, que mais parece uma novela do que um período econômico, tem diferentes "finais". Se, por mais de trinta anos a borracha garantiu libras esterlinas para o Brasil e financiou a construção de cidades na Amazônia, ela também deixou um passado obscuro, marcado pela vida degradante do seringueiro e a prostituição da mulher. Hoje, os descendentes das tradicionais famílias que foram protagonistas desse período, preferem esquece-lo.



CRÉDITO DA IMAGEM: Belém Antiga



6 comentários:

  1. uma vergonha que a historia provoca ao ler e constatar que o ser humano é miserável mesquinho e mau, tudo pelo vil metal e nada pelo ser igual a ele chamado de "próximo". O mandamento diz "amar o próximo como a Ti mesmo" a historia mostrar a rejeição pelo próximo nos atos dos coronéis pois essa classe não conhecia a palavra amor. Vergonha de dizer que faço parte dessa raça.

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    1. Parece ser uma "regra" as sociedades humanas serem construídas mediante o sacrifício de muitos semelhante. Mesmo com todos os avanços, o processo continua sendo repetido.

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  2. História rica, porém com um lado obscuro contra o ser humano.
    Imagine viver numa época de pura escravidão, sem ao menos construir famílias e sentir o amor dos mesmos.

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    1. Muito triste. Era comum esses "filhos ilegítimos" se tornarem protegidos dos pais, antigos fregueses dessas mulheres, que não podiam chegar próximo ao filho.

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  3. Um dos pontos mais tristes desse processo, é que a relação mulheres e escravidão sexual sempre existiram e foram um negócio muito vantajoso.

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  4. Um dos pontos mais tristes desse processo, é que a relação mulheres e escravidão sexual sempre existiram e foram um negócio muito vantajoso.

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