domingo, 15 de junho de 2014

História do bairro Nossa Senhora Aparecida - Manaus

Vista aérea do bairro em 1950.

Aparecida é um bairro tradicional de Manaus, localizado na zona Sul. Faz limite com os bairros Centro, Presidente Vargas, São Raimundo e Glória. É um lugar onde antigos hábitos sobrevivem em meio às transformações de uma grande cidade. O bairro de Aparecida só veio a adotar este nome com a chegada dos padres Redentoristas, em 1943. Antes disso, ele recebeu os seguintes nomes:

Cornetas - o som das cornetas que os soldados do 3° Batalhão de Artilharia da Polícia Militar tocavam em seus exercícios diários num prédio antigo situado na então Praça da República, hoje Praça D. Pedro II, chegava até ao bairro, fazendo com que a ele fosse dado esse nome por algum tempo.

Cajazeiras - na área do bairro existiam frondosas árvores da família das Anacardiáceas, também chamadas de cajazeiras. Ainda hoje, algumas delas, resistindo aos avanços do "progresso", continuam embelezando as ruas do bairro.

Tocos - Na administração do governador Eduardo Ribeiro (1892 - 1896), deu-se início ao plano de urbanização da cidade, ocasião em que foram derrubadas as árvores do Bairro das Cajazeiras, para que houvesse maior expansão. Após a derrubada restaram os tocos. Em memória a esse fato que tanto entristeceu a sua população, o bairro passou a chamar-se de "dos Tocos".



Igreja N. S. Aparecida.

Os padres americanos Redentoristas chegaram a Manaus no dia 22 de julho de 1943, e ficaram hospedados provisoriamente na Casa dos Capuchinhos, na rua Tapajós, até se mudarem para a sua própria casa, em setembro, já no bairro dos Tocos, futuro bairro de Aparecida.

Os primeiros a chegar foram os reverendos Andrew F. Joerger, de Los Angeles; John Mc Cormick e James Martin, de Detroit; Joseph Buhler, de Nova Orleans; Joseph Elworth, de Saint Louis, e o irmão Cornelius (Clemente Ryan), de Omaha.

Em agosto de 1944 realiza-se a primeira quermesse organizada pelos padres, o que depois se tornaria uma espécie de "tradição" - hoje esquecida - que realizava todos os anos.

Nesse mesmo ano, o comendador Agesislau Araújo doou um terreno para a construção da Igreja, e em 1946 os padres iniciaram as obras do colégio e da nova igreja (provisória). Mais tarde foram feitos os estudos para a construção da basílica cujo projeto é o do artista Moacir Andrade, e cuja construção ficou à cargo da empresa Sociedade de Obras Limitada, de propriedade de Joaquim José da Cunha e imitações de mármore interiores pelo senhor José Gaspar.

Em 1954 é lançada a pedra fundamental da Igreja de N. S. Aparecida, cuja imagem seria trazida de São Paulo pelo Bispo Auxiliar daquela Diocese, em 1958, para a inauguração solene da Igreja. Na Igreja, além da novena à padroeira, também realiza-se a de N. S. do Perpétuo Socorro.


Rua Xavier de Mendonça, com vista para a antiga residência dos padres Redentoristas.

Cada uma das ruas de Aparecida leva o nome de um personagem. São pessoas que, ao logo de décadas ou séculos, foram deixando um enorme legado histórico para a região, e são lembrados até hoje pelos mais velhos.

Rua Alexandre Amorim - inicia na ponte Fábio Lucena, estendendo-se até a rua Luiz Antony.

Alexandre de Paula Amorim, nascido em Acro-de-Vez - Portugal em 15 de outubro de 1831, estabeleceu-se em Manaus como comerciante, criando a firma Amorim & Cia. Foi cônsul de Portugal durante vinte anos, vindo a falecer em 20 de junho de 1881.

Rua Dr. Aprígio - Começa no igarapé de São Vicente e termina na rua Alexandre Amorim.

Dr. Aprígio Martins de Menezes, médico nascido em 1844 na Bahia e falecido em Manaus em 1891. Além de médico era poeta e historiador, chegando ao posto de vereador em Manaus.

Rua Carolina das Neves - inicia na rua Xavier de Mendonça e termina na rua Bandeira Branca.

O nome da rua está relacionado a uma antiga moradora portuguesa, enfermeira de ofício e latifundiária, proprietária de vários terrenos naquela área, tendo aqui chegado por volta de 1906, permanecendo um pouco mais de uma década. Esta artéria ficou conhecida por um tempo como beco do Pau-não-cessa.

Rua Bandeira Branca - começa no igarapé de São Vicente e termina na rua Alexandre Amorim.

O nome está associado a um antigo morador português, dono de uma taberna, que tinha por hábito, colocar uma bandeira branca à porta do estabelecimento, dando dessa forma origem ao nome, como ficou conhecida até os dias de hoje. No passado, recebeu o nome de Praça 1° de maio, que acabou não caindo no gosto popular.

Beco da Escola - começa na rua Xavier de Mendonça, passado por trás do Grupo Escolar Cônego Azevedo, saindo por um estreito beco novamente na Xavier.

Este beco teve ainda outros nomes como: Tapa-Guela, beco do Rego da Maria Pia e beco do Pai-da-Vida.

Beco da Indústria - começa na rua Wilkens de Mattos, terminando na rua Xavier de Mendonça.

Antes de ter este nome, era conhecido por beco do Chora-Vintém. O nome está associado às pequenas e artesanais fabriquetas ali instaladas, como: Curtição de couro, fábrica de cachaça e outras. O seu nome atual é rua J. G. de Araújo Jorge, porém a tradição o tem mantido como beco da Indústria.

Rua Xavier de Mendonça - inicia na escadaria do igarapé de São Vicente e termina na rua Alexandre Amorim. Antes, recebera o nome de rua das Cajazeiras, em decorrência da grande quantidade destas árvores na área, e depois rua dos Tocos.

Francisco Xavier de Mendonça Furtado nasceu em 1700 em Portugal. Era irmão do Marquês de Pombal. Veio ao Amazonas participar da fundação da Capitania de São José do Rio Negro, aqui permanecendo por algum tempo, retornando depois à terra natal.

Rua Wilkens de Mattos - Começa no igarapé de São Vicente, onde está localizado o antigo estaleiro e termina na serraria Matias.

João Wilkens de Mattos nasceu em Belém do Pará em 1822 e faleceu no Rio de Janeiro em 1884. Foi nomeado presidente da Província do Amazonas em outubro de 1868. Foi vereador, diretor-geral dos índios e tenente-coronel. No final do seu mandato, foi nomeado cônsul em Loretto.

Rua Gustavo Sampaio - inicia na rua Xavier de Mendonça e acaba na rua Bandeira Branca.

Esta rua serve de escoamento para a entrada nas outras ruas da Aparecida, sendo uma das tradicionais artérias do bairro.

Rua das Flores - tem seu começo na Bandeira Branca e termina no igarapé de São Vicente.

Provavelmente o nome surgiu, segundo relatos de antigos moradores, com o cultivo de flores por um velho comunitário que ali residia, que abastecia o mercado do bairro. Após a sua morte, em homenagem deram o nome à rua.


Castelo da Cervejaria Miranda Corrêa.

A pedra fundamental da Cervejaria Amazonense foi posta em 1910. A planta veio da Alemanha. Os irmãos engenheiros Antonino e Luiz, fiscalizavam a construção com rigor, acompanhado pelo eficiente mestre de obra português Francisco Cunha. No dia 10 de outubro de 1912, a Cervejaria Amazonense era inaugurada. Fica localizada à margem do rio Negro e ao lado do igarapé do São Raimundo. 

O prédio é uma imponente e bela construção Art Nouveau, dentro do espírito das cervejarias alemães da época e com a riqueza de detalhes de construção industrial familiar. Vista de longe,lembra certo tipo de castelo da Renânia (região do oeste da Alemanha) ou um castelo Alsaciano, com sua bela torre encimada por beirais de chumbo trabalhado.Nessa torre foi instalado o primeiro elevador do Amazonas. As cervejas Amazonense e XPTO, eram famosas em todo o Brasil, sendo que a XPTO ganhou medalha de ouro na Exposição Nacional do Rio de Janeiro.

De acordo com uma matéria publicada no jornal A Crítica, em 2011, sobre o aniversário do bairro

Não se sabe ao certo quantos anos o bairro tem. Entre os moradores, há quem diga que o bairro faz 130, 115 e até 67 anos.

Ainda de acordo com a matéria

Para a historiadora Etelvina Garcia, são datas que se relacionam com o imaginário e as lembranças dos descendentes dos primeiros moradores. “Mas, infelizmente, não existe um documento que comprove, ao certo, a idade do bairro.”

Curioso após ler essa matéria, fiz algumas pesquisas em jornais antigos. Estabeleci uma relação de jornais publicados entre 1890 e 1900. Encontrei apenas uma notícia, de 1898, quando o bairro era conhecido como dos Tocos.

Commercio do Amazonas - sabbado, 19 de novembro de 1898

" No bairro dos Tocos, casa n°2, hábita uma mulher que antehontem à noite trouxe toda a visinhança em completo sobre-salto devido ao grande barulho, acompanhado de tiros de revolver que fizera com um de seus companheiros.

Esta scena prolongou-se até ao amanhecer de hontem, sem que os visinhos podessem conciliar o somno. Asseveram os moradores d'esse bairro que este caso não é a primeira vez que se reproduz, e urgem serias providencias por parte da policia".

Então, parece que até o momento o bairro tenha entre 116 e 130 anos, mas isso só futuras pequisas poderão dizer. De acordo com o Censo 2010, Aparecida tem 6.996 habitantes.



FONTES: BESSA, Roberto. Memorial Aparecida: síntese da história de um bairro. Manaus: Edições Muiraquitã, 2010.

Amazonas. Secretaria de Estado de Comunicação Social. Coordenadoria de Relações Públicas. Aparecida. Manaus, 1985.

CORRÊA, Luiz de Miranda. Roteiro histórico e sentimental da cidade do Rio Negro. Manaus: artenova, 1969.

Jornal Commercio do Amazonas, 1898.


CRÉDITO DAS IMAGENS: http://www.panoramio.com/
                                     http://www.skyscrapercity.com/
                                     http://www.bauvelho.com.br/


















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