terça-feira, 3 de junho de 2014

O comércio nas antigas sociedades africanas

Produtos africanos.

As sociedades africanas desenvolveram formas de sobrevivência de acordo com a região onde viviam. Os grupos que não tinham acesso a um tipo de produto (ouro, pimenta, etc), praticavam escambo com outros. Por exemplo, as populações costeiras e ribeirinhas trocavam peixe seco por grãos cultivados nas regiões de savanas; os produtores de tubérculos das áreas de floresta comerciavam com os pastores dos planaltos. Na África central eram trocados búzios por sal, tecidos de ráfia por barras de ferro ou cruzetas de cobre. Na África ocidental, ouro, cauris, noz-de-cola, marfim e escravos eram trocados por sal, tecidos, grãos, contas. Os diferentes grupos trocavam seus produtos por meio do comércio de curta ou longa distância, havendo uma complementaridade entre as produções típicas de cada lugar.

As alianças mais sólidas entre os grupos eram feitas pelos casamentos, que uniam membros de linhagens diferentes e criavam novas solidariedades. O comércio era outra forma importante das sociedades se relacionarem, trocando não só mercadorias como idéias e comportamentos. O comércio é atividade das mais presentes na história de várias regiões da África, e por meio dele as sociedades mantinham contato umas com as outras. Os produtos eram negociados por pessoas vindas de longe, com costumes e crenças diferentes que algumas vezes eram incorporados, misturando-se às tradições locais. O exemplo mais marcante desse tipo de situação foi a influência muçulmana exercida em todo o Sael a partir das caravanas e comerciantes das rotas do Saara.

Era com o comércio a longa distância que se conseguiam os maiores lucros, pois nele se trocavam mercadorias caras, de luxo, raras, que apenas os mais poderosos podiam pagar. Esse tipo de atividade exigia um grande investimento, pois era preciso comprar as mercadorias a ser negociadas; providenciar o transporte e a segurança das cargas; esperar o melhor momento para negociar. Em compensação, a margem de lucro era suficientemente grande para sustentar um grupo de comerciantes ricos, próximos aos círculos dos poderes centrais das sociedades nas quais viviam.

Já o comércio a curta distância se articulava à vida da aldeia, das cidades próximas, das províncias, envolvendo também regiões vizinhas. O excedente de um grupo era trocado pelo outro, assim a dieta alimentar podia ser variada. Também se trocavam tecidos por contas, potes bolsas de couro, sal por conchas, ouro por cativos. Os dias de feiram se alternavam nos mercados da região, podendo haver uma circulação dos mesmos comerciantes entre as várias feiras. Nelas, as mulheres negociavam os produtos que plantavam.

Além do comércio feito a pé, em algumas áreas de savana podiam ser usados burros, que no entanto não resistiam às doenças das zonas mais úmidas de florestas, nas quais os cursos dos rios eram os melhores meios para transportar as cargas. Estas iam de mercado a mercado, nos quais alguns produtos ficavam e outros era adquiridos, entrando e saindo de canoas, subindo e descendo das costas de carregadores. Assim, não só aldeias vizinhas, mas também as mais distantes trocavam seus produtos. De mão em mão, esses produtos podiam percorrer grandes distâncias, cujo exemplo extremo é o caso das contas indianas e cacos de porcelana chinesa encontrados em escavações na região dos zimbabués.

Se nem todos os povos africanos estavam envolvidos com o comércio a longa distância, como os que estavam presentes nas cidades do Sael, nas cidades da costa oriental e na costa atlântica a partir do século XV, quase todos mantinham algum tipo de troca com seus vizinhos mais ou menos próximos. Rotas fluviais e terrestres existiam nas bacias dos rios mais importantes e nas regiões entre eles. A vitalidade do comércio dentro do continente africano, de curta, média e longa distância, põe por terra a ideia de sociedades isoladas umas das outras, vivendo voltadas apenas para sim mesmas.


FONTE: SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2008. p. 42 - 43.

CRÉDITO DA IMAGEM:  http://osdescobridoresbiju.blogspot.com.br/



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