sábado, 19 de julho de 2014

A Rebelião de 1924 em Manaus

Por Aguinaldo Nascimento Figueiredo


Com o colapso da economia gomífera, o Estado do Amazonas e todo o seu aparato institucional transformou-se em fonte de sustentação das oligarquias regionais, acasteladas no poder desde a fase da criação e instalação da Província. Manaus, outrora a vitrine da modernidade e símbolo da opulência no Norte do país, é uma cidade decadente. Em face dessa situação, desencadear-se-à uma violenta luta entre esses grupos oligárquicos pelo controle da máquina do Estado.

Enquanto a maior parte da sociedade manauara passava por uma crise econômica e social sem precedentes, o grupo oligárquico estabelecido momentaneamente no poder, se apoderava indevidamente das rendas estaduais, apropriava-se dos salários dos funcionários, vendia inescrupulosamente bens públicos e praticava as mais abomináveis fraudes e negociatas, com o intuito de auferir mais riquezas e se perpetuar no poder.

O Governo Central sediado no Rio de Janeiro mostrava-se sempre incompetente aos desmandos perpetrados pelos caudilhos regionais, bem como indiferente em atender aos reclamos das regiões mais pobres. Quando o fazia era tão somente para acolher pleitos pontuais, fazendo empréstimos paliativos para minimizar as dívidas ou fazer ou fazer alguma mínima concessão política. Até porque, no plano nacional, a política oligárquica da "República do Café com Leite", capitaneada pelos estados de São Paulo e Minas Gerais, polarizavam os interesses mais importantes da nação em benefício dos agronegócios de café, em detrimento aos demais estados brasileiros.

O desembargador e governador Cesar do Resende do Rego Monteiro.

No Amazonas o ponto crítico desses ardis sucedeu-se no governo do desembargador César do Rego Monteiro (1924), quando este tentou vender para um grupo norte-americano, o The J.C. White Engineering Corporation, 25% das terras do Estado, ou um território equivalente à França, em troca de um empréstimo de 3 milhões de dólares, sendo que, a transação só não se concretizou, por intervenção direta do governo federal.

A insatisfação popular era muito grande diante do comportamento reprovável da grupo de Rego Monteiro no poder, que não obedecia aos princípios federativos, desafiando, inclusive, o poder central, reprimindo opositores e praticando o mais descarado nepotismo.

Havia algum tempo que militares ligados ao Tenentismo vinham se articulando para promover um levante local para depor o poder constituído, substituindo Rego Monteiro e seu grupo e assim iniciar a grande revolta nacional pelo Norte do país. Faltava apenas a oportunidade e o momento adequado para realizá-lo.

A rebelião tenentista já havia eclodido em São Paulo em 05 de julho de 1924, estimulando os líderes locais a apressar o movimento. O motivo para a sua deflagração surgiu dias depois, quando o governador Rego Monteiro impôs a candidatura de Aristides Rocha para lhe suceder no mandato seguinte, que seria iniciado em 1925-1929. Esse ato foi interpretado pelos rebeldes como a senha para iniciar as operações militares, pois viam na intenção do governador um plano para manter seu grupo no poder e assim também continuar o status de descalabro político-administrativo que vigorava no Estado.

O Destacamento do Norte do general Mena Barreto, desembarcando em Manaus em 1924.

Apesar de alertadas pelo governo federal, as autoridades locais nada fizeram para impedir o levante. Em 23 de julho de 1924, à frente das tropas do 27° Batalhão de Caçadores, o capitão José Carlos Dubois, comandante do referido batalhão, os tenentes Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, Joaquim Magalhães Barata, todos do Exército brasileiro, junto com os tenentes da Marinha de Guerra José de Lemos Cunha e José Becker Azamor, depuseram o Governador Turiano Meira, substituto de Rego Monteiro, que se encontrava em viagem a Europa. Sobre esse momento a historiadora Eloina Monteiro dos Santos o descreve com as seguintes palavras:

"Uma força do 27° Batalhão de Caçadores descia a Avenida Eduardo Ribeiro, conduzindo a artilharia. Os soldados marchavam na melhor ordem, em forma, como se fossem realizar uma parada. Mas o carro de guerra que puxavam, despertou a atenção de toda a gente, que observava discretamente o desfile da tropa. Dez minutos depois, ouviram-se ruídos de fuzilaria e alguns disparos de canhão em rumo do Quartel da Polícia".

Nesse ínterim, a população que residia próximo à área dos confrontos entrou em polvorosa, refugiando-se em suas casas ou aonde pudessem se proteger. A confusão era geral. Após escaramuças e muita fuzilaria entre tropas de rebeldes e legalistas da Polícia Militar, que duraram cerca de uma hora, o quartel dos milicianos estaduais é tomado pelos rebeldes, recebendo logo em seguida a sua rendição. No embate, o comandante da Polícia Militar, coronel Pedro de Souza, foi ferido gravemente.

Prosseguindo em suas ações, os insurretos subiram a avenida Sete de Setembro e tomaram de assalto o Palácio Rio Negro, bem como ocuparam as estações telegráficas e de telefonia da cidade, se apossaram do navio vapor Bahia, de propriedade do Lloyd brasileiro que se encontrava atracado no cais do porto de Manaus. Com os principais meios de comunicação da cidade sob seu domínio, os rebeldes passaram a difundir seus ideais da Revolução Tenentista por meio do "Jornal do Povo", ocasião em que tentavam explicar as razões do movimento e o que esperavam do sucesso dele.

Tenente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior.

Durante a invasão do Palácio, o governador Turiano Meira conseguiu escapar da prisão empreendendo fuga numa lancha previamente ancorada nos fundos do Palácio Rio Negro, supostamente trajando roupas femininas. Vários assessores de Rego Monteiro foram presos, inclusive seu irmão Mário Monteiro, acusado de ser o chefe do grupo criminoso que extorquia os funcionários públicos e promoviam os leilões escusos das casas confiscadas pela Fazenda Estadual.

O tenente Ribeiro Júnior ainda tentou negociar com representantes do poder judiciário local, a legitimidade de sua medida saneadora, pedindo-lhes o apoio necessário para dar encaminhamento de seus propósitos. Entretanto, a sua solicitação não foi acolhida por nenhum dos representantes dessa esfera pública, tendo ele mesmo que assumir a tarefa de governar o Estado extemporaneamente, até que o movimento ao nível nacional fosse vitorioso e a situação local se normalizasse.

O Estado do Amazonas foi governado pelo Tenente Ribeiro Júnior de 23 de julho a 28 de agosto de 1924. Neste período, Ribeiro Júnior instituiu o "Tributo da Redenção", ato que consistia no confisco e venda de bens roubados do Estado, que era revertido para o pagamento do salário atrasado do funcionalismo, desfez todos os atos arbitrários do governo anterior, prendendo e expulsando do serviço público os elementos envolvidos com o governo de César do Rego Monteiro.

O Governo Federal enviou uma força militar - o Destacamento do Norte, sob o comando do General João de Deus Mena Barreto, para debelar a rebelião. Em 28 de agosto de 1924, a força militar chegou a Manaus, depôs e prendeu Ribeiro Júnior junto com seus companheiros do movimento, alguns já haviam sido derrotados em breve combate na cidade de Óbidos, no Pará. Julgado no Rio de Janeiro pela Justiça Federal, Ribeiro Júnior é condenado a um ano e quatro meses de reclusão.

Depois de Restabelecida a ordem, o coronel Raimundo Barbosa assumiu o governo até a volta do governador deposto Turiano Meira, para que esse reassumisse suas funções sob garantias federais. Contudo, o governador recusou-se a voltar ao cargo renunciado em seguida. No seu lugar, o governo federal nomeou, dezembro de 1924, o chefe da polícia de Minas Gerais, o coronel Alfredo Sá, como interventor do Amazonas, que governou até 1925.


AGUINALDO NASCIMENTO FIGUEIREDO (56) é professor, escritor e historiador formado pela UFAM. Escreveu, durante três anos, as colunas de História do Amazonas e Museu do Conhecimento, publicações dominicais do jornal "O Estado do Amazonas", o que lhe valeu Votos de Aplausos, no Senado Federal em 2004. Aguinaldo possui mais de 500 artigos publicados em diversos jornais e revistas, como Folha Comercial do Amazonas, O Estado do Amazonas e Revista Big Amazonas. Suas principais obras são: História Geral do Amazonas (2000), 7.ed, trabalho que foi fruto de mais de 10 anos de pesquisas, Santa Luzia, História e memória do povo do Emboca (2008) e Os Samurais das Selvas, A presença japonesa no Amazonas (2012).




CRÉDITO DAS IMAGENS: http://www.manausonline.com/
                                   História do Amazonas - Aguinaldo Figueiredo
                                   http://catadordepapeis.blogspot.com.br/




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