sexta-feira, 25 de julho de 2014

Um Campo de Concentração no Brasil: o Hospício de Barbacena

Os internos viviam em condições degradantes.

A nossa história tem episódios vergonhosos que, infelizmente, caem no esquecimento. Esses momentos devem permanecer na memória coletiva para que nunca mais se repitam. O episódio aqui escrito trata-se das milhares de mortes que ocorreram por quase um século no Hospício de Barbacena, em Minas Gerais. Esse Hospício foi fundado em 1903, numa época em que Ordem e Progresso eram para poucos. Lendo sua história, chegasse a conclusão de que ele não foi construído para melhorar a vida de pessoas com problemas, mas sim de esconder o que os políticos e os poderosos da época achavam "feio". Abaixo, a transcrição de partes do prefácio do livro Holocausto Brasileiro - vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil, da escritora Daniela Arbex, publicado em 2013.

"Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do Colônia. Tinham sido, a maioria, enfiadas nos vagões de um trem, internadas à força. Quando elas chegaram ao Colônia, suas cabeças foram raspadas, e as roupas, arrancadas. Perderam o nome, foram rebatizadas pelos funcionários, começaram e terminaram ali.

Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas, violentadas por seus patrões, eram esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, eram filhas de fazendeiros as quais perderam a virgindade antes do casamento. Eram homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram tímidos. Pelo menos trinta e três eram crianças.

Homens, mulheres e crianças, às vezes, comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Instintivamente faziam um círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e no de dentro, na tentativa de sobreviver. Alguns não alcançavam as manhãs.

Os pacientes morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias, os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, dezesseis pessoas morriam a cada dia. Morriam de tudo - e também de invisibilidade. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para dezessete faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, na frente dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.

Pelo menos trinta bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados.

Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios, esteve no Brasil e conheceu o Colônia. Em seguida, chamou uma coletiva de imprensa, na qual afirmou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta”. "




CRÉDITO DA IMAGEM: http://psicologianicsaude.wordpress.com/





2 comentários:

  1. Gostaria de conhecer outras matérias sobre isso.

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  2. Existe um documentário da Globo News "Holocausto Brasileiro - Manicômio de Barbacena" disponível no youtube. Também tem um texto da autora do livro, publicado na Tribuna de Minas. Aqui vai o link: http://www.tribunademinas.com.br/cidade/holocausto-brasileiro-50-anos-sem-punic-o-1.989343

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