segunda-feira, 29 de setembro de 2014

As Religiões no Rio: uma pesquisa pioneira

As Religiões no Rio. Versão da Editora Nova Aguillar, 1976.

Rio de Janeiro, início do século 20. A então capital federal, com pouco mais de 811 mil habitantes, surpreende-se com a publicação de uma série de reportagens intitulada As Religiões no Rio, do jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio.  Mas porque o espanto? Vamos por partes. O Estado estava separado da Igreja desde 1891, mas, tradicionalmente, a religião dominante era o catolicismo, que tinha a preferência da população.

"O Rio, como todas as cidades nestes tempos de irreverência, tem em cada rua um templo e em cada homem uma crença diversa" (As Religiões no Rio, João do Rio).

Percorrendo várias ruas da cidade, colhendo os mais variados relatos e usando uma pitada de ironia, João produziu um dos mais completos relatórios sobre a pluralidade religiosa do Brasil. João era o tipo de autor que estava à frente de seu tempo, mostrando a realidade e as transformações pela qual passava a sociedade. O número de religiões espantou as autoridades e a população da época, que acreditavam na hegemonia católica.

"Ao ler os grandes diários, imagina a gente que está num pais essencialmente católico, onde alguns matemáticos são positivistas. Entretanto, a cidade pulula de religiões" (As Religiões no Rio, João do Rio).

Logo na introdução das reportagens, que são de 1904 (publicadas na Gazeta de Notícias) e que foram transformadas em livro em 1906, o autor nos diz, em síntese, que basta interrogar uma pessoa na esquina para saber a sua crença, e que a revelação é impressionante.

"A diversidade dos cultos espantar-vos-á. São swendeborgeanos, pagãos literários, fisiólatras, defensores de dogmas exóticos, autores de reformas da Vida, reveladores do Futuro, amantes do Diabo, bebedores de sangue, descendentes da rainha de Sabá, judeus, cismáticos, espíritas, babalaôs de Lagos, mulheres que respeitam o oceano, todos os cultos, todas as crenças, todas as forças do Susto" (As Religiões no Rio, João do Rio).

Entrevistando protestantes, cartomantes, espíritas, exorcistas, judeus e pais de santo, João do Rio tornou-se um dos pioneiros na pesquisa sobre as religiões do Rio de Janeiro. De 1906 a 1910, foram vendidos 8 mil exemplares do livro que, sem dúvida, foi um dos marcos para o reconhecimento da diversidade religiosa brasileira. Os primeiro resultado surgiu mais de 30 anos depois da publicação da obra: em 1940, foi realizado o primeiro censo sobre as religiões brasileiras.

O livro está disponível no Domínio Público: http://www.dominiopublico.gov.br/



CRÉDITO DA IMAGEM: www.bn.br

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