terça-feira, 23 de setembro de 2014

O monstruoso crime que chocou Manaus: o Caso Delmo (I)

Cruz no local do crime. O Jornal, 6 de julho de 1952.

Manaus, 5 de fevereiro de 1952 - O assassinato com requintes de crueldade do jovem Delmo Campelo Pereira parou a cidade, e foi notícia nos rádios e revistas da época, como O Cruzeiro, que dedicou duas matérias sobre o fato. Nos dias de hoje, somos bombardeados por várias notícias de crimes insanos e cruéis, o que acaba se tornando parte do nosso "cotidiano". Mas, em uma cidade calma e tranquila como a Manaus do início da década de 1950, o "Caso Delmo", como ficou conhecido o delito, foi assustador, pois além da gravidade, o número de culpados também era algo jamais visto antes: 27 réus. 

Todo esse caos foi consequência de uma série de crimes cometidos por Delmo em 31 de janeiro de 1952. Para maior entendimento, serão reproduzidas abaixo matérias publicadas nos jornais O Jornal e Diário da Tarde, os de maior circulação na época. Esses jornais estão disponíveis no livro Caso Delmo: o crime mais famoso de Manaus, do escritor Durango Duarte. São muitos textos e , por isso, a postagem vai ficar dividida em diferentes partes.


DIÁRIO DA TARDE - 31 DE JANEIRO DE 1952 (QUINTA-FEIRA)

MONSTRUOSO CRIME

Manaus foi despertada, hoje, com a triste notícia do aparecimento, na estrada de Campos Sales, do cadáver de um homem, preso a uma cerca de arame farpado, varado de balas. Mais tarde, a população tomou conhecimento de uma agressão da qual foi vítima, na madrugada de hoje, o vigia da Serraria Pereira, situada no bairro da Colônia Oliveira Machado.

Ligando um crime ao outro, a Polícia entrou em ação, apurando que cerca de uma hora da madrugada bateram à porta do vigia. Ao abrir, surgiu-lhe pela frente o jovem Delmo Pereira, filho de Roberto Pereira, o qual se fazia acompanhar de mais dois companheiros. Os três, inexplicavelmente, passaram a agredi-lo, aplicando-lhe pancadas na cabeça. Perdendo os sentidos, caiu ao solo.


EM CAMPOS SALES AS AUTORIDADES POLICIAIS

Sabedora com detalhes da agressão ao vigia da Serraria Pereira, a Polícia dirigiu-se à estrada de Campos Sales em companhia do médico legista, Dr. Hosannah da Silva. Espetáculo impressionante deparou-se aos membros da diligência, à altura do km 9 da referida estrada, onde se encontrava, atirado a uma cerca de arame farpado, o corpo de um homem, o qual foi trazido imediatamente para o necrotério do Cemitério São João Batista, a fim de ser procedido o exame cadavérico.


APRESENTOU-SE UM DOS CRIMINOSOS

Perto das 10h, apresentou-se à Chefatura de Polícia o jovem Delmo, filho de Roberto Pereira, amazonense, o qual passou logo a ser interrogado na presença de José Milton Caminha, do delegado auxiliar Otoniel Maia, do delegado especial de Investigações e Capturas, do comissário Francisco Azevedo e do escrivão Adolfo Pires Neto.

A princípio, Delmo relutou em confessar o assassinato do chofer Honório, admitindo somente ter sido um dos autores da agressão do vigia da Serraria Pereira. Mais tarde, porém, perto das 13h30, Delmo confessou o crime, fazendo o seguinte relato:

Pela madrugada de hoje, quando se dirigia para o bairro da Colônia Oliveira Machado, Delmo encontrou-se no caminho com mais dois rapazes e a eles perguntou para onde se dirigiam. Os mesmos responderam que iam para a Serraria Pereira atrás de dinheiro, pois, precisavam se divertir e e estavam sem nenhum tostão.

Delmo, então, se prontificou a acompanhá-los, justificando o mesmo que era filho do dono da serraria e que, por isso, conhecia o vigia que se encontrava de serviço.  E lá chegando, o vigia, ao avistar Delmo, correu para abraçá-lo, tendo então os seus companheiros dado as primeiras pancadas na cabeça do vigia, que caiu ao solo em estado de choque.

Supondo terem morto a sua vítima, os três rumaram para a estrada de Flores, indo até o botequim "Ângelo", não se esquecendo, no entanto, de levar o revólver que portava o vigia agredido na hora que fora atacado. Chegando ao "Ângelo" e, como não encontrassem ambiente propício para a farra projetada, partiram em direção a Campos Sales, percurso esse todo feito no carro praça n. 279, guiado pelo profissional José Honório, da Garagem Avenida.


MOTIVOS DA AGRESSÃO DO CHOFER

Talvez, levados pelo temor de serem descobertos, pelo chofer, do ato que haviam praticado, pois que tomaram o carro logo após terem agredido o vigia, ao mesmo também resolveram liquidar, aplicando, logo de início, forte pancada na cabeça depois do que, já fora do carro o chofer, descarregaram por duas vezes o revólver, tendo uma das balas atingido a cabeça e a outra, penetrou na omaplata esquerda, saindo no peito.


QUEM SÃO AS VÍTIMAS?

O vigia da Serraria Pereira, agredido covardemente por Delmo Pereira e seus companheiros, é o cidadão Antônio Firmino da Silva, casado, amazonense, com 65 anos  de idade. O chofer assassinado chama-se José Honório, casado, amazonense, residente à avenida Floriano Peixoto. Até às 15h, o vigia Antônio Firmino da Silva encontrava-se em estado de choque.


DELMO PEREIRA ESCONDE ALGO

Delmo Pereira, malgrado os esforços das autoridades policiais, continua guardando sigilo absoluto em torno da identidade dos seus dois companheiros. Diz conhecer apenas um, de nome Raimundo. Quanto ao outro, afirma não conhecer. Ao que parece, todavia, tenebroso mistério envolve o depoimento de Delmo Pereira.


QUEM ENCONTROU O CADÁVER?

O cadáver de José Honório foi encontrado no km 9 da estrada de Campos Sales pelo chofer José Rodrigues da Rocha, do caminhão n. 885, o qual passou pelo local às primeiras horas da manhã de hoje, rumo ao km 40 da referida estrada.


OUTRA VERSÃO

Outra versão chegou ao conhecimento da reportagem do nosso Diário a respeito da presença de Delmo Pereira e seus companheiros na Serraria Pereira. Segundo essa versão, Delmo teria se dirigido à serraria com o propósito de roubar, sendo impedido pelo vigia Antônio Firmino da Silva. Delmo e seus dois cúmplices passaram, então, a agredi-lo. Informaram-nos, que a agressão foi presenciada pelo chofer José Honório, pelo que Delmo arquitetou matá-lo, já que era testemunha do fato.


A RECONSTITUIÇÃO DO CRIME

A hora em que estiver circulando a presente edição do Diário da Tarde, Delmo Pereira estará reconstituindo o bárbaro crime, na estrada de Campos Sales, para onde se dirigirão, às 15h30, as autoridades policiais.



CRÉDITO DA IMAGEM: http://catadordepapeis.blogspot.com.br/


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