domingo, 21 de setembro de 2014

Os aldeamentos da América colonial

Redução guarani na segunda metade do século 18. Desenho de Florian Paucke.

Os aldeamentos eram agrupamentos indígenas organizados e chefiados por jesuítas que visavam facilitar o processo de catequização dos nativos. Essas reuniões eram conhecidas como missões, na América portuguesa, ou reduções, na América espanhola. No texto abaixo, ficam explicitados os mecanismos de propagação da religião católica, o funcionamento dos aldeamentos, os funcionários e a localização das reuniões de Norte a Sul do país.

" Para efetivar o seu trabalho de catequese, os jesuítas reuniam indígenas em aldeamentos conhecidos como missões (na América portuguesa) ou reduções (na América espanhola).

A conversão seguia um plano bastante simples: primeiro, o padre ingressava na aldeia indígena, aprendia sua língua e os costumes, falava de Cristo e iniciava a educação católica, principalmente por intermédio das crianças, com cânticos, missas, teatros e jogos (agindo assim, criava no catequizado a impressão de que não havia diferença entre os seus deuses e o deus dos europeus); depois, quando os indígenas já estavam convertidos, eram afastados dos demais e levados para os aldeamentos.

Ali, as regras eram bastante rígidas. Todos estavam subordinados ao cura ou reitor, um jesuíta que administrava toda a comunidade. Além de os índios terem de abandonar muitos de seus costumes, deveriam andar vestidos, não fazer mais festas pagãs, deixar de ser polígamos e aprender música, canto e ofícios característicos das civilizações europeias. A vida num aldeamento era (...) mais que uma catequese; era a passagem de uma cultura para a outra.

A estrutura de uma missão incluía um corregedor (que exercia as funções de juiz), dois alcaides (governadores), um alcaide-de-campo (administrador dos campos, quatro regedores (administradores), um aguazil-mor (oficial de diligências, um procurador (advogado) e um secretário (encarregado dos livros).

As missões eram fechadas aos estrangeiros, e as famílias indígenas ficavam sujeitas ao direito de vassalagem. Cada chefe de família era senhor de um lote de terra de onde tirava seu sustento. Cada aldeamento possuía dois lotes maiores de terra cultivados por todos - em épocas preestabelecidas - em benefício da comunidade. Os produtos desses lotes eram recolhidos  ao celeiro comum para sustento dos inválidos, enfermos, viúvas, órfãos e abandonados. O excedente da produção era vendido para o sustento do próprio aldeamento, mas o comércio acabou por quebrar a rigidez do isolamento.

Os castigos, aplicados em quem descumprisse as leis, variavam desde o açoite à prisão, podendo ainda o infrator ser banido do aldeamento.

(...) o regime era similar entre os jesuítas espanhóis e os portugueses.

O grande número de aldeamentos espanhóis e portugueses no interior do continente, em especial nas regiões do Tape (Rio Grande do Sul), Itatim (Mato Grosso) e Guairá (Paraná), mereceu (...) atenção dos habitantes das antigas capitanias de São Vicente e Santo André, que se sentiram ameaçados política e economicamente com o crescente poderio dos jesuítas, além de estarem interessados na captura de índios já aculturados - e (...) mais dóceis - para servirem como escravos. Houve também aldeamentos no Norte do Brasil, nos quais os indígenas catequizados dedicaram-se à lucrativa extração de frutos da floresta conhecidos como "drogas do sertão". (...) aquele empreendimento era tão bem administrado que vencia a concorrência da Companhia de Comércio portuguesa local.

No Brasil do século XVII, os aldeamentos foram destruídos pela ação dos bandeirantes; no século seguinte, a destruição aconteceu por ordens do governo de Portugal.


FONTE: RIBEIRO, Regina Helena de Araújo; LOCONTE, Wanderley. Bandeirantes: buscando riquezas, desbravando o sertão. São Paulo: Saraiva, 2004. - (Coleção Por Dentro da História).


CRÉDITO DA IMAGEM: commons.wikimedia.org




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