quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Antônio Flávio Pierucci e a religiosidade brasileira


O sociólogo brasileiro Flávio Pierucci (1945-2012), em entrevista concedida à Revista Ciência Hoje, fala sobre as mudanças do perfil religioso brasileiro e o aumento dos movimentos pentecostais e neopentecostais.De acordo com ele, o Brasil possui uma grande liberdade religiosa, mas o Cristianismo ainda é a principal religião adotada pelos brasileiros, o que acaba sufocando outras crenças.

"Pelos dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] para o ano 2000, a população brasileira é 74% católica e 15,5% evangélica. Somando esses valores, chega-se a 89,5%, de onde se conclui que nove entre 10 brasileiros são declaradamente cristãos. Ou seja, somos realmente ‘o país do Cristo Redentor’. Agora, se você observar o percentual da categoria ‘outras religiões’ apurado a cada 20 anos desde 1940, vai observar que ele é sempre baixo. E seu crescimento é muito suave: sai de 1,9% em 1940, chega a 2,3% em 1960, a 2,5% em 1980 e finalmente a 3,5% no ano 2000."

"Que bela diversidade religiosa é essa nossa, na qual as religiões não-cristãs não somam mais do que 3,5% da população? É uma auto-ilusão que alimentamos. Podemos de fato ter gente de todas as cores e etnias, mas temos que calibrar melhor, diante do espelho censitário, essa auto-imagem de uma formidável diversidade religiosa (...) O brasileiro olha para si com olhos de multiculturalismo imaginado, irreal, exagerado."

"Quando a mídia exibe muito um determinado fenômeno, como recentemente fez a TV Globo com o rodeio, começa-se a pensar que qualquer cidade do Brasil tem seus rodeios, que a juventude usa aquele tipo de roupa, chapéu e bota de cowboy etc .Cria-se o chamado ‘efeito demonstração’. É um efeito hiper-real: aquilo não é a realidade, mas uma realidade criada com toda a aparência de ser real. Algo parecido com isso acontece hoje com as igrejas. Algumas igrejas neopentecostais, que utilizam intensamente a mídia televisiva, passam a imagem de serem igrejas enormes, com centenas de milhares de seguidores, quando, na realidade, medido pelo censo, seu tamanho é bem menor. A mesma coisa se passa com a diversidade religiosa: na realidade ela é bem menor do que aparenta. "

Pierucci também aborda a queda do número de seguidores do catolicismo, iniciada a partir da década de 1980. Existem uma série de fatores que explicam esse fato, como uso de meios de comunicação em massa pelas novas religiões.

"Primeiro foi o surgimento, no final dos anos 70, das chamadas igrejas neopentecostais: a Igreja Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça Divina e a Renascer, entre outras. Elas foram criadas aqui no Brasil com o uso inteligente da mídia eletrônica e mais eventos de massa: reuniões em estádios de futebol, compra de grandes salões etc. (...), segundo historiadores, a Igreja Católica, quando pensou nas comunidades eclesiais de base nos anos 1960, espelhou-se no modelo dos pentecostais, que faziam pequenas igrejas, muito mais comunitárias e mais aconchegantes, devido ao pequeno número de pessoas que elas congregavam. As neopentecostais vieram mudar isso."
 
"O neopentecostalismo trouxe várias mudanças: o grande número de seguidores insistentemente mostrado na televisão é uma delas (...) Ele trouxe também um espírito de empreendedorismo para a atividade dos pastores, e com isso aumentou sua racionalidade empresarial, o que também aumentou sua eficácia. Isso quer dizer que a Igreja Católica tem hoje, no Brasil, concorrentes religiosos muito mais aparelhados e preparados do que antes para converter católicos. As igrejas neopentecostais, nas quais há muito empenho dos pastores e trabalha-se muitas horas por dia, são mesmo ‘igrejas de resultados’.'



FONTE: PIERUCCI, Antônio Flávio. Revista Ciência Hoje. 01/12/2005.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://aliancacidada.wordpress.com/

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