segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Um breve relato sobre a Primeira Guerra Mundial (II)

Soldados mortos em uma trincheira, 1914.

Bravos foram os soldados que lutaram por seus países durante a Guerra, independente do lado em que estavam. Muitos desses soldados, a maioria deles jovens, sabiam que não iriam retornar vivos do conflito. O relato a seguir é de Walter Limmer, morador de Leipzig, estudante de Direito e integrante do Exército da Alemanha, que pediu para seus pais, por meio de uma carta, que não esperassem por sua volta.

Como é partir para a guerra sabendo que você pode nunca mais voltar? Escrevi numa carta aos meus pais: "Seria uma boa coisa se vocês se acostumassem à idéia de que nunca mais verão a mim e a meus irmãos". Assim, se a má notícia vier mesmo, eles serão capazes de recebê-la com muito mais tranquilidade. E, se voltarmos para casa, poderemos aceitar essa alegria como algo inesperado, como um gracioso presente de Deus.
Como você consegue lidar de forma tão objetiva com a possibilidade de morrer na guerra?Acredite, estou sendo sincero. O assunto é sagrado demais para mim para que eu seja capaz de simplesmente inventar algumas frases sobre esse assunto.
Os outros soldados também pensam dessa forma? Essa é simplesmente a missão de cada um de nós. E esse sentimento é universal entre os soldados, especialmente desde a noite em que a declaração de guerra da Grã-Bretanha foi lida no quartel. Ninguém conseguiu dormir até as 3 horas da manhã. Estávamos tão cheios de animação, fúria e entusiasmo... É uma alegria partir para o front com esses camaradas. Nosso destino é a vitória!
E se a Alemanha perder? Nenhuma outra opção é possível diante de tamanha disposição para vencer. Devemos ter orgulho de viver nestes tempos e nesta nação. Para os alemães, mandar seus entes queridos para essa gloriosa luta é um privilégio.
Como estava o ânimo do pelotão na hora de embarcar? Nossa marcha à estação de trem foi uma experiência cativante e edificante. Uma marcha dessas costuma ser assombrada pelo peso de sua importância e perigo. Mas tanto os que estavam partindo como os que ficaram para trás estavam tomados pelos mesmos pensamentos e emoções. Havia tanto entusiasmo! O batalhão todo com capacetes e túnicas decorados com flores, lenços sendo agitados no ar, gritos e aplausos, e sempre a maravilhosa confiança dos soldados...
Muitos dos seus amigos não voltarão. É um preço justo a pagar por uma vitória militar? Este momento é tão único na vida de uma nação, é tão maravilhoso e emocionante, que oferece compensação suficiente para seus muitos sofrimentos e sacrifícios.
Pronto para morrer: O relato de um soldado alemão. Veja na História. Disponível em: http://veja.abril.com.br/historia/primeira-grande-guerra-mundial/1914-agosto-comeca-guerra/autorretrato-soldado-alemao-front.shtml. Acessado em 24 de novembro de 2014.

Walter Limmer nasceu em 22 de agosto de 1890. Sofreu um grave ferimento em 16 de setembro de 1914, em Chalons sur Marne, na França. Passou seus últimos dias em um hospital militar de Luxemburgo, vindo a falecer em 24 de setembro de 1914, aos 24 anos (WITKOP, Philipp. Kriegsbriefe deutscher Studenten, 1933).


CRÉDITO DA IMAGEM: http://historiaalternar.blogspot.com.br/

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O Rio de Janeiro continua lindo

Baía de Botafogo, 1822.

Depois da Abertura dos Portos às Nações, em 1808, a presença de estrangeiros se tornou frequente no país. Vários viajantes estrangeiros, das mais diversas formações e nacionalidades, produziram relatos sobre a fauna, a flora, os hábitos e costumes do Brasil oitocentista. Reproduzo aqui um breve relato do botânico e naturalista francês Auguste de Saint-Hilaìre sobre os arredores do Rio de Janeiro, que, na sua opinião, era o lugar mais belo do mundo. Um abraço aos amigos e leitores do Rio de Janeiro.


''Nada no mundo, talvez, haja tão belo quanto os arredores do Rio de Janeiro. Durante o verão, é o céu, ali, de um azul escuro que no inverno se suaviza para o desmaiado dos nossos mais belos dias de outono. Aqui, a vegetação nunca repousa, e em todos os meses do ano, bosques e campos estão ornados de flores.

Florestas virgens, tão antigas quanto o mundo, ostentam sua majestade às portas da capital brasileira a contrastarem com o trabalho humano.

As casas de campo, que se avistam em redor da cidade, não têm magnificência alguma; pouco obedecem às regras da arte, mas a originalidade da sua construção, contribui para tornar a paisagem mais pitoresca.

 Quem poderá pintar as belezas ostentadas pela baía do Rio de Janeiro, esta baía que, segundo o almirante Jacob, tem a capacidade de todos os portos europeus juntos? Quem poderá descrever aquelas ilhas de formas tão diversas que de seu seio surgem, essa multidão de enseadas a desenhar-lhes os contornos, as montanhas tão pitorescas que as emolduram, a vegetação tão variada que lhes embeleza as praias?!''


SAINT-HILAÌRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e São Paulo. 2° edição, São Paulo: Editora Companhia Nacional, 1938, p. 20.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.pinacoteca.org.br/

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Um breve relato sobre a Primeira Guerra Mundial (I)

Corpos de soldados britânicos mortos na Batalha do Somme.


A Primeira Guerra Mundial pôs fim ao período de paz e progresso material da Belle Époque, presente na Europa e em boa parte do mundo desde o final do século 19. Quando o conflito eclodiu, em 1914, o mundo viu-se mergulhado em um mar de destruição de vidas, crenças e valores. Um dos melhores relatos sobre essa guerra foi produzido por John Stanhope Walker, capelão do 21° Hospital de Evacuação na Batalha do Somme, travada em 1916 na França. Essa batalha é considerada uma das mais violentas do conflito, com cerca de 1.200.000 mortos e feridos.

Sábado, 1° de Julho - 7h30 da manhã, o céu e a Terra estão em polvorosa, a hora da insanidade chegou, cada arma que temos dispara mais forte do que nunca por mais de uma hora. [...] Aeroplanos cortam os céus, a neblina da manhã e a fumaça das armas obscurecem a visão. Logo os feridos por projéteis germânicos começam a chegar, e durante todo o dia carros com mortos e feridos, mas todos animados nos falam de um dia de sucesso glorioso. Eles estão literalmente empilhados – as camas já se foram, conseguir um espaço no chão sob a tenda ou barraca já é uma sorte, e apesar de todos os médicos trabalharem como troianos, muitos morrem por falta de operação. Todos os hospitais de evacuação estão superlotados.

[...]  Temos 1.500 no recinto e eles não param de chegar, 3.400 oficiais, que visão – camaradas com terríveis feridas deitados em agonia, a maioria paciente, outros fazem barulho, um vai para a maca, coloca a mão na testa, está fria, acende um fósforo, está morto – aqui uma comunhão, ali uma absolvição, ali uma bebida, ali um maluco, uma garrafa de água quente e por aí vai – um maluco estava xingando e chutando, eu dei a ele uma bebida, ele tentou morder minha mão e cuspiu a água em meu rosto – bem, é uma experiência que deixa para trás todas as anteriores. Estou cansado, chega de escrever.

Domingo, 2 de Julho - Que dia, não tinha nem um cantinho no hospital nem para a Sagrada Eucaristia, o coronel disse que nenhum ritual poderia ser secreto, por sorte pude montar meu altar portátil em um bosque atrás do acampamento das irmãs. [...]  Duas vezes eu fiz sepultamentos, claro que usamos a trincheira que preparamos em um campo adjacente. [...] Enterrei trinta e sete, mas ficaram alguns para amanhã. O lugar mais deprimente de todos é a ala dos moribundos, duas grandes barracas unidas lotadas de oficiais e homens prestes a morrer, simplesmente abandonados ali, considerados sem salvação, claro que eles não sabem disso. Não posso mais escrever, estou muito cansado e preciso escrever algumas cartas para os pacientes.

Segunda, 3 de Julho - Agora eu sei o que são os horrores da guerra. Dobramos o número de pessoas no atendimento, mas e daí, imagine 1.000 gravemente feridos chegando por dia. Os médicos estão começando a dormir, porque depois de trabalhar dia e noite, eles percebem que podemos ficar nessa toada durante meses, como em Verdun. Ouvimos falar de grandes sucessos, mas é claro que há derrotas e parece que há pilhas de ingleses e alemães mortos.

A Batalha do Somme - depoimento: o capelão na batalha. Veja na História. Disponível em: http://veja.abril.com.br/historia/primeira-grande-guerra-mundial/1916-julho-batalha-somme/relato-batalha-somme-reverendo britanico.shtml. Acessado em 21 de outubro de 2014.


CRÉDITO DA IMAGEM: molhoingles.com

domingo, 16 de novembro de 2014

Rio de Janeiro, a cidade da Corte

Rio de Janeiro em 1808.

A vinda da Família Real para o Brasil, em 1808, mudou completamente a vida dos habitantes do Rio de Janeiro, cidade escolhida para acolher a nobreza portuguesa e outras 15.000 pessoas afugentadas de Portugal pelas ameaças de Napoleão Bonaparte. O Rio de Janeiro, capital da colônia desde 1763, precisava ser reestruturado para sua nova função: Sede do Império Português.

Em Salvador, onde a esquadra da Família Real aportou antes de ir para o Rio, D. João VI decretou a Abertura dos Portos às Nações amigas, que autorizava o comércio com as nações amigas de Portugal. Esse decreto pôs fim ao sistema do pacto colonial, no qual a colônia negociava apenas com sua metrópole. 

O Alvará de 1785, que proibia a construção de indústrias e manufaturas na colônia, foi abolido. Em pouco tempo, o Brasil passou a ter fábricas de tecidos, cordas e barcos. D. João VI autorizou a abertura de estradas para interligar e melhorar a comunicação entre diferentes regiões.

Já no Rio de Janeiro, onde chegam em 07 de março na Baía da Guanabara e desembarcam no dia seguinte, são assinados os tratados de 1810 (Comércio e Navegação e Aliança e Amizade), que eram altamente favoráveis à Inglaterra, que ganhava privilégios comerciais e políticos. Nos primeiros anos da instalação da Família Real, são fundadas várias instituições culturais e econômicas: a Imprensa Régia (1808), Banco do Brasil (1808), a Biblioteca Real (1810), o Jardim Botânico (1810), a Academia Militar (1810), o Real Teatro de São João (1812), Museu Real (1818) e outras academias científicas.

Viajantes estrangeiros, das mais diferentes formações e nacionalidades, favorecidos pelo decreto das Nações Amigas, divulgavam, mesmo que de forma etnocêntrica, um país rico e exuberante, ainda em processo de ''descobrimento''. Nomes de peso como Auguste de Saint-Hilaire, Jean-Baptiste Debret e Henry Koster estiveram no Brasil, produzindo os mais diversos trabalhos científicos e artísticos, publicados na Europa.

A cultura europeia, sobretudo a francesa, passou a ser assimilada pelas camadas mais abastadas do Rio de Janeiro. Centenas de navios, a maioria deles vindos da Europa, aportavam na cidade abastecidos de produtos refinados como louças, tecidos, livros, queijos e vinhos, destinados à mais nova clientela de hábitos e gostos europeus. O Rio de Janeiro tornou-se referência cultural para as demais cidades do país.

Aclamação do rei D. João VI do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Em 1815, no Congresso de Viena, formado para restaurar as fronteiras da Europa após a queda de Napoleão,  o Brasil é elevado à categoria de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, ganhando mais autonomia e deixando oficialmente de ser colônia. A população do Rio de Janeiro dobrou de 50000 habitantes para 100000.

Chegou ao Brasil, em 1816, chefiada por Joachin Lebreton, a Missão Artística Francesa. Formada por Jean-Baptiste Debret, Nicolas-Antoine Taunay,  Auguste-Henri-Victor Grand-jean de Montigny e outros renomados pintores, escultores e arquitetos franceses, essa missão fundou a Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios, mais tarde transformada em Imperial Academia e Escola de Belas-Artes. A missão foi responsável pelo desenvolvimento artístico da colônia e o ensino acadêmico das artes. O Barroco deu lugar ao Neoclassicismo francês, visível nas pinturas, esculturas e construções da época.

A presença da Corte Portuguesa no Brasil provocou importantes mudanças políticas, econômicas e culturais, principalmente no Rio de Janeiro, cidade escolhida para ser sede da nobreza. Foram fundadas importantes instituições econômicas e culturais, muitas delas existentes até hoje; a cultura e as artes florescem a um nível nunca antes visto; a vida, mesmo que para uma pequena camada da sociedade, melhorou; e o país deixa de ser colônia e ganha autonomia política.


CRÉDITO DAS IMAGENS: 

http://imperiobrazil.blogspot.com.br/
commons.wikimedia.org

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Pétion-Ville: Lar da elite haitiana

Já faz tempo que estava curioso para saber como é um bairro nobre em um país tão pobre como o Haiti. Fazendo pesquisas descobri um, que na verdade é uma cidade: Pétion-Ville, que muitos pensam ser um bairro, é uma cidade do Haiti. Nela, a mais rica do país, ficam as embaixadas, as multi-nacionais, os grandes comércios, os cassinos, os clubes, os hotéis e várias mansões de alto padrão.

Em 2010, um terremoto de 7.0 na escala richter devastou o país. Porto Príncipe, a capital, ficou em ruínas. Algumas instalações de Petion-Ville, que sofreu pequenos danos se comparada com outras cidades, serviram de abrigo e hospitais improvisados para atender os feridos. 

Qual a origem do nome Petion - Ville? Quando a cidade foi fundada, em 1831, o então presidente Jean-Pierre Boyer homenageou Alexandre Sabes Pétion, o primeiro presidente do Haiti e um dos fundadores do país, juntamente com Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe. Em síntese, Pétion-Ville significa 'cidade de Pétion'.

O que mais me chamou atenção foi a localização da cidade. Diferente de tantas outras no mundo, a população mais rica não vive no centro ou no litoral. Pétion-Ville fica no alto de uma montanha, distante de Porto Príncipe, onde ficam os grandes bolsões de pobreza. Leia um trecho do livro A República Negra: histórias de um repórter sobre as tropas brasileiras no Haiti.

''Numa comparação um tanto grosseira, seria possível dizer que, em termos de localização geográfica do poder econômico, toda a região lembra o Rio de Janeiro às avessas - em Porto Príncipe, quem subiu o morro foi a parcela mais rica da população''.

Depois do terremoto, Pétion-Ville, assim como outras regiões do Caribe, se tornou destino dos desabrigados, que passaram a formar favelas. Pétion - Ville possui segurança, lazer, transporte e uma vida noturna agitada. Vejam fotos da cidade.

Pétion-Ville, a região mais rica do Haiti, distante da capital Porto Príncipe.


Algumas mansões.

GIANT, supermercado.



FONTE: KAWAGUTI, Luís. A República Negra: histórias de um repórter sobre as tropas brasileiras no Haiti. Globo Livros, 2006, p. 68.



CRÉDITO DAS IMAGENS: Skyscrapercity



terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sagres: A famosa escola náutica de Portugal

Vista aérea de Sagres, Portugal.

Nos livros de História vemos que Portugal foi pioneiro nas Grandes Navegações iniciadas no século 15. A localização geográfica, bem próxima do Oceano Atlântico; e a unificação do reino, o primeiro Estado da Europa, são alguns fatores que explicam esse pioneirismo. Merece destaque também a escola náutica de Sagres, a melhor da Europa, que reunia sábios das áreas de navegação, cartografia, astronomia, etc. Ainda que seja considerada um fator importante para as navegações portuguesas, não se sabe se ela realmente existiu.

A existência ou não da Escola de Sagres já foi amplamente debatida no panorama historiográfico português. Porém, desde o princípio do século XX que a ideia de uma escola náutica fundada pelo Infante D. Henrique [...] se encontra ultrapassada. Esta ideia é sobretudo uma lenda que carece de provas evidentes, devida principalmente a escritores e historiadores ingleses que procuraram promover a figura e a acção do Infante de Sagres.

O infante D. Henrique fundou de facto uma vila no Algarve. Em 1443 pediu a seu irmão, o regente D. Pedro, que lhe concedesse a região inóspita de Sagres, para aí fundar uma vila. [...] A vila foi fundada no lugar de Terçanabal. O infante deixou convenientemente explicitados os objectivos da fundação desta vila, numa carta testamentária datada de 19 de Setembro de 1460. Esta seria um ponto de assistência aos navegadores que aí passassem perto e precisassem de mantimentos ou de aguardar por boas condições de navegação.

Em toda a documentação do príncipe analisada até hoje, não encontramos qualquer tipo de referência a uma escola náutica em Sagres, nem sequer é uma ideia presente em nenhum escrito que seja seu contemporâneo. Gomes Eanes de Zurara apenas faz referência à vila em construção. Duarte Pacheco Pereira tal como João de Barros, apenas menciona uma vila fundada pelo Infante na Angra de Sagres. Só em 1567 na Crónica do Príncipe D. João, Damião de Góis começou a dar consistência à lenda da erudição do Infante, quando escreve que o príncipe era um homem muito dado ao estudo das letras, principalmente da Astrologia e Cosmografia. Para cultivar esses estudos e mandar navios para a Costa africana, D. Henrique teria fundado uma vila no sítio de Sagres.

Duarte Leite, num estudo sobre a Escola de Sagres, apresentou Samuel Purchas como o verdadeiro introdutor do tema em Portugal e no resto da Europa, corria o ano de 1625. Este afirmou que o Infante contratou o mestre catalão Jaime de Maiorca, para dirigir uma escola de marinha, e não apenas para ensinar os marinheiros portugueses a fazerem verdadeiras cartas de marear. O próprio João de Barros o afirma, mas Purchas entende que esta escola seria uma condição indispensável para a realização das viagens marítimas do período henriquino.

[...] Cerca de 100 anos depois, a ideia já começava a ficar enraizada, como é possível comprovar através da obra de Francisco José Freire Nobres Vida do Infante D. Henrique, escrita e dedicada à Majestade Fidelíssima de El-Rei D. Joseph I N.S. Pouco tempo depois, António Ribeiro dos Santos descreveu entusiasticamente a Escola onde se erguera um observatório astronómico, o primeiro que tinha existido em Portugal. [...] O Infante tinha transformado o seu paço real numa escola de estudos náuticos, com um seminário de geógrafos, matemáticos, astrónomos e náuticos.

Já no século XIX, o Cardeal Saraiva afirmou que os progressos da marinha portuguesa só tinham sido possíveis graças à escola fundada por D. Henrique, uma vez que tinha sido na escola que os vários instrumentos náuticos, utilizados nos descobrimentos, foram fabricados e aperfeiçoados. Segundo o Cardeal, também teriam sido estudados nesta escola métodos para a determinação de latitudes e longitudes marítimas.

Muitos historiadores estrangeiros também trabalharam sobre esta matéria, tentando procurar os alicerces científicos das navegações do século XV. O escritor Malte – Brun afirmou que no Portugal de quatrocentos proliferavam escolas para o estudo da navegação, acrescentado que Colombo tinha aprendido a sua «arte» numa dela.

A historiografia romântica deu o contributo final para o enraizamento da Escola de Sagres na memória colectiva dos portugueses. Oliveira Martins, na sua obra Os Filhos de D. João I¸ compilou uma suposta lista bibliográfica que teria sido utilizada pelo infante e pelos mestres da escola. [...] Tal tese foi refutada sucessivamente, uma vez que as obras que figuram nessa lista e nomeadamente as cartas de Gabriel de Valseca e os livros de Jorge Peurbach, nunca poderiam ter sido trazidas para Portugal por D. Pedro.

A descrença na questão surgiu ainda durante o século XIX, quando vários historiadores começaram a rever esta tese. Em 1877 o marquês de Sousa Holstein afirmou que não teria existido propriamente uma escola, mas sim uma academia científica [...] . Seguiram-se autores como Luciano Pereira da Silva ou Joaquim Bensaúde, os quais demonstraram que a náutica da época apenas criou regras e regimentos empíricos, logo os marinheiros não necessitariam de grandes conhecimentos astronómicos; e por certo o infante nunca chegou a ler obras de homens citados por Oliveira Martins, como Johannes de Monte Régio ou Jorge de Peurbach.

O último grande defensor de uma verdadeira escola náutica em Sagres foi Jaime Cortesão. O autor defende a imagem do infante e da sua escola daqueles que pretendem criar uma lenda anti-infantista, homens como Duarte Leite que afirmavam que o príncipe não se interessaria muito pela cultura geográfica e científica do seu tempo. É importante afirmar que o infante revelou ao longo da sua vida preocupações culturais, que estão bem presentes na protecção que deu à Universidade, embora nenhuma cadeira de ensino matemático tenha sido aí criada durante o seu tempo.

Durante o século XX desconstruiu-se a tese da escola científica, mas neste capítulo é importante perceber, tal como afirma Teixeira da Mota, que a lenda teve a sua grande expansão durante os séculos XVIII e XIX, ou seja, numa época em que as academias científicas proliferavam por todo o mundo. [...] A Escola de Sagres, mais do que uma instituição académica, transformou-se sobretudo num símbolo, símbolo do infante D. Henrique e de todas as actividades relacionadas com as navegações portuguesas do seu tempo. Símbolo da progressão das técnicas de navegação adquiridas empiricamente pelos navegadores que enfrentaram o Atlântico no século XV, e que criaram as bases da navegação astronómica, tal como veio a ser praticada nos séculos subsequentes - no que é aliás uma das consequências mais importantes dos Descobrimentos.

GAMA, Luísa. Escola de Sagres. Centro Virtual Camões. Disponível em: http://cvc.instituto-camoes.pt/navegaport/g19.html. Acesso em novembro de 2014.


CRÉDITO DA IMAGEM: www.sagres.net

domingo, 9 de novembro de 2014

O ônibus do barão: O Zepelin de Manaus

Ônibus Zepelin passando em frente ao Atlético Rio Negro Clube.

O ônibus Zepelin, semelhante ao balão dirigível inventado (ou patenteado) pelo barão Ferdinand von Zeppelin, que levava o mesmo nome, fez sucesso em Manaus nos anos 1940 e 1950. Existem controvérsias quanto a sua origem. Algumas fontes citam São Luís, outras Belém do Pará. O certo é que, realizando pesquisas, percebi que cada cidade tinha um diferencial em seus ônibus. Esse veículo foi inaugurado em Manaus em 1948, conforme consta em matéria do Jornal do Comércio do mesmo ano, cedida pelo pesquisador Ed Lincon. Os Zepelins pararam de circular pelas ruas de Manaus em 1957. Foram feitas na reprodução do texto apenas algumas modificações na grafia.

Surgirá nas ruas o ônibus "Zepelim"

Em construção, pelo sr. Joaquim Barata Júnior, o original veículo, que poderá transportar 64 passageiros sentados, estando seu custo em 200 mil cruzeiros


Vai Manaus contar, a partir de domingo vindouro, quando será inaugurado, de mais um confortável ônibus. 

O "Zepelin", como será chamado esse transporte de passageiros, não tem o que tirar, quanto à sua feição, do aparelho que lhe deu o nome.

A nossa reportagem, informada da existência desse ônibus, de forma sui-generis, aqui para nós, do Amazonas, esteve, ontem, nas oficinas do sr. Joaquim Barata Júnior, à avenida Sete de Setembro, o qual é seu proprietário, e ali pode constatar, realmente, que se está construindo um ônibus como nos haviam informado. Aliás, é de ressaltar que àquele local tem comparecido grande número de curiosos, que procuram se informar do bojudo "Zepelin", que dentro de poucos dias estará voando por toda Manaus.

Chegados ao local da construção, fomos recebidos pelo sr. Joaquim Júnior, que se colocou à nossa inteira disposição, tendo nos contado que se baseou na construção, em um ônibus com aquela forma, existente no vizinho Estado do Pará. Contou-nos aquele senhor ter sabido, de fonte não muito certa, que o proprietário do transporte "Zepelin", de Belém, havia feito o registro de patente, no Rio de Janeiro, o que não permite seja feito outro. Isto é, por outra pessoa, mesmo dentro daquele Estado, senão pelo dono do registro.

Agora mesmo, ao que consta, o proprietário dessa invenção receberá uma proposta de um industrial de São Paulo, para compra daquela patente, pela soma de Cr$ 300.000,000, no que não foi atendido.

E como foi que conseguiu permissão para aqui fazer a construção? Indagamos.

Ora, sr. Repórter, é muito simples. Eu também desejo ver o Amazonas orgulhoso, por este bonito feitoEntretanto, o meu “Zepelin” não está parecido, nem pouco, com o de Belém. Andei, para tanto, dando uns "driblings”, a fim de que, no caso de ser verdadeira essa versão do registro de patente, pelo comerciante paraense, eu poder provar que o "Zepelin” amazonense não é igual ao paraense. 

A construção do "Zepelin" dManaus já está por... Cr$ 200.000,00, podendo conduzir 64 passageiros' sentados. Possui chassis próprio para ônibus, com teto interno forrado a couro e poltronas estofadas, com molas no assento e no encosto. seu comprimento é de 12 metros, medindo 2 metros 80 centímetros de diâmetro circunferencial, na sua parte mais bojuda.

O "Zepelin" amazonense será inaugurado no próximo domingo, quando fará várias voltas pela cidade com as autoridades e imprensa, que serão convidadas para esse fim, pelo sr. Joaquim Barata Júnior. 

Surgirá nas ruas o ônibus "Zepelim". Jornal do Comércio, 29 de junho de 1948, p. 3 e 4.


Esta postagem não teria sido realizada se não fosse a cortesia do amigo e pesquisador Ed Lincon, que cedeu a matéria de jornal aqui reproduzida.

Ed Lincon, pesquisador sobre a Manaus antiga, com destaque para os cinemas.



CRÉDITO DA IMAGEM: IBGE

Envie uma foto do Centro Histórico da sua cidade



Boa tarde, amigos leitores do História Inteligente. Que tal ter uma foto de sua autoria publicada aqui no blog? Tire uma foto do Centro Histórico de sua cidade e envie com uma pequena descrição para historiadorcarvalho@gmail.com. Será elaborada uma postagem e os devidos créditos serão colocados. Não esqueça de colocar o seu nome. Vamos conhecer a História das cidades dos milhares de leitores do blog.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://croquisdearquitetura.blogspot.com.br/

Cai o maior símbolo da Guerra Fria

Multidão sobe no topo do Muro de Berlim, com o Portão de Brandemburgo ao fundo.

Foi há exatos 25 anos, em 09 de novembro de 1989, que o Muro de Berlim, maior símbolo da Guerra Fria, foi derrubado.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, o mundo entrou no confronto ideológico da Guerra Fria, entre Capitalismo e Socialismo. A Alemanha, derrotada, ficou dividida, conforme o Acordo de Potsdam, entre as quatro potências vencedoras do conflito: Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética. Berlim, a capital, teve o lado oriental dominado pela União Soviética, e a parte Ocidental dominada pelos Estados Unidos, França e Reino Unido.

Em 1949 são fundadas a República Federal da Alemanha (lado Ocidental) e a República Democrática Alemã (lado oriental).

O modelo econômico de desenvolvimento, as condições de trabalho e os constantes racionamentos de produtos de primeira necessidade fizeram milhares de habitantes da RDA fugirem para a RFA, que voltava a prosperar graças à reconstrução financiada pelos aliados. Em 1953, uma revolta contra as condições de trabalho foi duramente reprimida pelo Exército Vermelho, deixando centenas de vítimas.

Para acabar com as constantes fugas, o governo soviético, na madrugada de 13 de agosto de 1961, deu início à construção daquele que seria o maior símbolo da Guerra Fria: o Muro de Berlim. A construção do muro provocou reações em todo o mundo. Manifestações, embates entre tropas norte-americanas e soviéticas, etc. Ao longo de 28 anos de existência, várias pessoas foram mortas ao tentar pular o muro para o outro lado.

No final dos anos 1980, a situação econômica e política da Europa Socialista era alarmante. Mikhail Gorbachev, o último presidente da URSS, iniciou tardiamente reformas políticas (glasnost) e econômicas (perestroika). Gastos com armamentos foram cortados, importações de produtos estrangeiros autorizadas, etc. As políticas de Gorbachev deixaram o Partido Comunista dividido, contribuindo para o esfacelamento da URSS.

Um dos momentos mais marcantes, que contribuiu para a queda do muro, foi o discurso do presidente norte-americano Ronald Reagan, no Portão de Brandemburgo, em 1987.

''Damos as boas-vindas à mudança e à abertura, pois acreditamos que a liberdade e segurança caminham juntos, que o progresso da liberdade humana só pode reforçar a causa da paz no mundo. Há um sinal de que os soviéticos podem fazer que seria inconfundível, que faria avançar dramaticamente a causa da liberdade e da paz. Secretário Geral Gorbachev, se você procura a paz, se você procura prosperidade para a União Soviética e a Europa Oriental, se você procurar a liberalização, venha aqui para este portão. Sr. Gorbachev, abra o portão. Sr. Gorbachev, derrube esse muro.''

Em 09 de novembro de 1989, em meio à queda de governos socialistas em toda a Europa e manifestações contra a divisão da Alemanha, o Muro de Berlim, maior símbolo do mundo bipolar, foi derrubado por habitantes da RDA e RFA. Em 3 de outubro de 1990 a Alemanha foi reunificada. Após 25 anos de sua queda, o antigo lado socialista enfrenta problemas como altas taxas de desemprego, menores salários e inexpressividade política.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.ohistoriador.com.br/

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Palacete Miranda Corrêa



O belo palacete Miranda Corrêa, de propriedade de uma das famílias mais tradicionais de Manaus, foi o único da cidade construído no estilo do arquiteto francês Jules Hardouin-Mansart. Tinha porão alto, dois andares e sótão mansardo. Seu interior era ricamente ornamentado com móveis ingleses e franceses e sua sala de jantar era aberta para visitantes ilustres, intelectuais, músicos e políticos. Os pianistas que vieram ao Amazonas tiveram a oportunidade de tocar nos quatro famosos pianos de cauda importados da Alemanha e da Inglaterra, dois Blutner, um Beckstein e um CramerDemolido em 1970, Ficava localizado na esquina da Av.Eduardo Ribeiro com a rua Monsenhor Coutinho, na Praça do Congresso. Em seu lugar foi construído o edifício Maximino Corrêa. 


CRÉDITO DA IMAGEM: CPDOC - Fundação Getúlio Vargas

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Salvador, capital do Brasil colônia


O sistema de capitanias hereditárias fracassou no Brasil. Os altos custos de manutenção, a falta de interesse de alguns donatários e a inexistência de uma atividade econômica que fixasse o colono na terra contribuíram para que a maioria das capitanias fracassassem, com exceção das de São Vicente e Pernambuco, onde foi implantado o cultivo da cana de açúcar, atividade altamente rentável.

D. João III, em face desse fracasso, resolveu criar um novo sistema, o Governo Geral. Por meio do Governo Geral, o poder deixou de ficar centralizado na figura do donatário e passou para o governador, nomeado pelo rei. O primeiro governador-geral do Brasil foi Tomé de Sousa, que, em 29 de março de 1549, criou Salvador, a primeira capital do Brasil.

Tomé de Sousa trouxe arquitetos, soldados, engenheiros, carpinteiros, botânicos, médicos, jesuítas e vários colonos, a maioria deles degredados portugueses, para dar início à construção da capital daquela que seria em pouco tempo a colônia mais importante de Portugal. É também no seu governo que se desenvolve o cultivo da cana de açúcar baseado no trabalho escravo africano e é introduzido o gado no Brasil.

Até 1763 Salvador se desenvolveu intensamente. A produção de açúcar aumentava cada vez mais e a mão de obra escrava utilizada nas lavouras gerava lucros para o reino e para os comerciantes. A cidade detinha a maior empresa de construção naval do Império português. Em importância, Salvador perdia apenas para Lisboa. Igrejas, casarões, palácios e outros edifícios públicos foram erguidos no mais refinado estilo europeu.

Salvador, atual capital do estado da Bahia, foi o centro econômico, administrativo, político e militar do Brasil Colônia de 1549, ano de sua fundação, até 1763, quando o eixo econômico da colônia sai do Nordeste e vai para o Centro-Sul minerador, com o Rio de Janeiro como a nova capital.


CRÉDITO DA IMAGEM: ctn.org.br

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O que significa a terminação 'istão' de países como Afeganistão e Cazaquistão?



Na região desses países onde se fala hindi, persa e quirgiz, 'istão' significa 'lugar de morada' de um determinado povo ou etnia. Afeganistão, por exemplo, significa 'território dos afegãos'; e Cazaquistão, 'território dos cazaques'. Istão deriva de uma antiga raiz linguística indo-europeia, provavelmente sthã. Veja abaixo a origem de alguns dos principais prefixos:

1 - CAZAQUISTÃO
'Alguém independente e livre', usado também pelos russos (cossacos)

2 - UZBEQUISTÃO 
'Homens genuínos', do turco. Nome dado a tribos persas nômades

3 - TURCOMENISTÃO
Como o antigo povo da Ásia chamava a si mesmo

4 - QUIRGUISTÃO
Do turco antigo, significa '40 tribos'

5 - TADJIQUISTÃO
'Cabeça coroada', do persa

6 - AFEGANISTÃO
Referente ao nome de um imperador iraniano, Apakan

7 - PAQUISTÃO
Exceção à regra, 'pak' reúne as iniciais de Punjab, Afeganistão e Cachemira (Kashmir)

ARTONI, Camila. Por que o nome de certos países da Ásia terminam em 'istão'? Revista Galileu. s.d.


FONTES: MOTOMURA, Marina. Por que na Ásia o nome de vários países termina em ''istão''?. Revista Mundo Estranho, edição 16.

ARTONI, Camila. Por que o nome de certos países da Ásia terminam em 'istão'? Revista Galileu. s.d.

domingo, 2 de novembro de 2014

Pelourinho: a origem da palavra

Vista do Rossio, atual Praça Tiradentes no Rio de Janeiro, com o pelourinho. Pintura de Jean-Baptiste Debret, 1834.

Um leitor me perguntou qual a origem da palavra Pelourinho. Para responder essa pergunta, reproduzo aqui um pequeno texto de Sérgio Rodrigues, da coluna Sobre Palavras, da Revista Veja.

Antes de ser nome próprio, pelourinho era um substantivo comum com o sentido de “coluna de pedra ou de madeira, colocada em praça ou lugar central e público, onde eram exibidos e castigados os criminosos” (Houaiss). A palavra – assim como a coisa que designa – existe em português desde 1550, vinda provavelmente do francês pilori, um vocábulo do século 12 oriundo do latim.

Criminosos? Mas não era no pelourinho que se castigavam os escravos, como se vê na famosa ilustração do francês Jean-Baptiste Debret aí em cima? Bem, o pelourinho foi usado por séculos para humilhar e castigar condenados em geral, mas na história do Brasil acabou ligado de forma indissolúvel ao castigo de escravos.
A etimologia da palavra [...] tem alguns aspectos nebulosos: nem todos os estudiosos estão de acordo sobre os passos – e sua cronologia – da transição que levou do latim ao francês pilori, matriz de nosso pelourinho, inicialmente grafado pelovrinho.
No entanto, parece razoavelmente seguro afirmar, concordando com a maioria dos filólogos, quepilori – de sentido idêntico ao que geraria em português – derivou do latim medieval pillorium, ligado por sua vez ao substantivo pila, termo do latim clássico que veio a dar em nosso pilar, “coluna”.

Sérgio Rodrigues. Do pilar ao pelourinho. Coluna Sobre Palavras. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/do-pilar-ao-pelourinho/ acesso em outubro de 2014.


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A Santa Casa Pede Misericórdia: III passeando pela História de Manaus



Hoje pela manhã, a administradora da página Manaus de Antigamente, Gisela Vieira Braga, em parceria com os historiadores e pesquisadores Otoni Moreira de Mesquita, Ed Lincon, Eylan Lins e eu, que tive o prazer de ser convidado, realizou a III edição do Passeando pela História de Manaus, uma caminhada pelas áreas históricas da cidade. O evento cultural, sem fins lucrativos,  que contou com a participação de várias pessoas, é uma aula prática pública sobre a História do patrimônio da cidade, que infelizmente está bastante deteriorado.



O passeio começou pela Santa Casa de Misericórdia, uma instituição filantrópica de mais de 130 anos, afundada em dívidas e em completo abandono. Um governador, no final dos anos 90, prometeu reformar o prédio. Não deu em nada. Outro, reeleito esse ano, também prometeu reformar o prédio. Vamos fiscalizar e aguardar. Fui convidado para falar da história da instituição e do prédio. Uma epidemia de febre amarela no Amazonas, em 1872, fez surgir a necessidade de se construir um segundo hospital na cidade, já que o único existente na época, o Hospital Militar de São Vicente, não conseguia atender a demanda de pacientes. As obras da Santa Casa tiveram início em 1873 e foram concluídas em 1880. Os paredões do prédio, semelhantes aos do Teatro Amazonas, Palácio da Justiça e Reservatório do Mocó, foram construído nas administração de Eduardo Gonçalves Ribeiro, Fileto Pires e Ramalho Júnior.

Em 14 de janeiro de 1970, a caldeira da lavanderia da Santa Casa explodiu. O impacto foi sentido nas adjacências, e os destroços atingiram locais como o Colégio Militar. 3 pessoas morreram, 15 ficaram feridas. O bar Nossa Senhora dos Milagres, na esquina das ruas José Clemente e Lobo D´Almada, não sofreu nenhum dano. A partir dessa data, ele passou a se chamar bar Caldeira, em referência ao incidente.

Depois da Santa Casa, o grupo partiu para a Praça Dom Pedro II, a área mais antiga da cidade, localizada no antigo bairro de São Vicente. Lá, o historiador e artista plástico Otoni Moreira Mesquita explanou, com grande maestria, sobre a origem da cidade, na segunda metade do século 17, e sua evolução urbanística durante o período provincial e republicano. Ao longo de todo o percurso, Otoni explanou sobre a arquitetura e a História dos prédios da região.



Ed Lincon, pesquisador sobre a cidade, com destaque para os cinemas, e colecionador de imagens antigas, nos apresentou fotos da casa mais antiga de Manaus, da praça e arredores no final do século 19 e início do 20. Seguimos para a rua Bernardo Ramos, a mais antiga da cidade, e depois para o ''litoral'', onde se iniciam os 345 anos da eterna Manáos. Ali, a paisagem dos 3 bairros mais antigos, Centro, São Raimundo e Aparecida, deu uma sensação de viagem no tempo, quando Manaus foi fundada no remoto ano de 1669.

No final três livros foram sorteados, entre eles La Belle Vitrine: Manaus entre dois tempos 1890/1900, de Otoni Mesquita, que faz uma análise profunda e críticas à urbanização da cidade.

Qual a importância de eventos como esse?

''As relações entre passado e presente e as mudanças ocorridas em uma cidade ao longo do tempo, por exemplo, são representadas no centro histórico. Infelizmente o centro histórico de Manaus sofre com o abandono e por essa razão esses movimentos que atuam principalmente na Internet, realizam esses encontros. É uma maneira de sair do virtual e interagir com a realidade, despertando mais interesse, curiosidade e conscientização popular.'' - Gisela Vieira Braga