quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Um breve relato sobre a Primeira Guerra Mundial (I)

Corpos de soldados britânicos mortos na Batalha do Somme.


A Primeira Guerra Mundial pôs fim ao período de paz e progresso material da Belle Époque, presente na Europa e em boa parte do mundo desde o final do século 19. Quando o conflito eclodiu, em 1914, o mundo viu-se mergulhado em um mar de destruição de vidas, crenças e valores. Um dos melhores relatos sobre essa guerra foi produzido por John Stanhope Walker, capelão do 21° Hospital de Evacuação na Batalha do Somme, travada em 1916 na França. Essa batalha é considerada uma das mais violentas do conflito, com cerca de 1.200.000 mortos e feridos.

Sábado, 1° de Julho - 7h30 da manhã, o céu e a Terra estão em polvorosa, a hora da insanidade chegou, cada arma que temos dispara mais forte do que nunca por mais de uma hora. [...] Aeroplanos cortam os céus, a neblina da manhã e a fumaça das armas obscurecem a visão. Logo os feridos por projéteis germânicos começam a chegar, e durante todo o dia carros com mortos e feridos, mas todos animados nos falam de um dia de sucesso glorioso. Eles estão literalmente empilhados – as camas já se foram, conseguir um espaço no chão sob a tenda ou barraca já é uma sorte, e apesar de todos os médicos trabalharem como troianos, muitos morrem por falta de operação. Todos os hospitais de evacuação estão superlotados.

[...]  Temos 1.500 no recinto e eles não param de chegar, 3.400 oficiais, que visão – camaradas com terríveis feridas deitados em agonia, a maioria paciente, outros fazem barulho, um vai para a maca, coloca a mão na testa, está fria, acende um fósforo, está morto – aqui uma comunhão, ali uma absolvição, ali uma bebida, ali um maluco, uma garrafa de água quente e por aí vai – um maluco estava xingando e chutando, eu dei a ele uma bebida, ele tentou morder minha mão e cuspiu a água em meu rosto – bem, é uma experiência que deixa para trás todas as anteriores. Estou cansado, chega de escrever.

Domingo, 2 de Julho - Que dia, não tinha nem um cantinho no hospital nem para a Sagrada Eucaristia, o coronel disse que nenhum ritual poderia ser secreto, por sorte pude montar meu altar portátil em um bosque atrás do acampamento das irmãs. [...]  Duas vezes eu fiz sepultamentos, claro que usamos a trincheira que preparamos em um campo adjacente. [...] Enterrei trinta e sete, mas ficaram alguns para amanhã. O lugar mais deprimente de todos é a ala dos moribundos, duas grandes barracas unidas lotadas de oficiais e homens prestes a morrer, simplesmente abandonados ali, considerados sem salvação, claro que eles não sabem disso. Não posso mais escrever, estou muito cansado e preciso escrever algumas cartas para os pacientes.

Segunda, 3 de Julho - Agora eu sei o que são os horrores da guerra. Dobramos o número de pessoas no atendimento, mas e daí, imagine 1.000 gravemente feridos chegando por dia. Os médicos estão começando a dormir, porque depois de trabalhar dia e noite, eles percebem que podemos ficar nessa toada durante meses, como em Verdun. Ouvimos falar de grandes sucessos, mas é claro que há derrotas e parece que há pilhas de ingleses e alemães mortos.

A Batalha do Somme - depoimento: o capelão na batalha. Veja na História. Disponível em: http://veja.abril.com.br/historia/primeira-grande-guerra-mundial/1916-julho-batalha-somme/relato-batalha-somme-reverendo britanico.shtml. Acessado em 21 de outubro de 2014.


CRÉDITO DA IMAGEM: molhoingles.com

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