quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2015: o Brasil, o Mundo e o Homem

Gravura de Flammarion (1888).

2015. Que ano estranho, puxado, de poucas risadas. Confesso que, desde 2012, não sinto mais uma "nostalgia" referente ao crescimento do país. Temos instalada uma crise política, que reflete de forma negativa em nossa economia. Aliás, percebemos aos poucos que, seja qual for a instituição, política ou religiosa, ela não é criada necessariamente para melhorar a vida das massas, mas sim para sustentar um número privilegiado de dirigentes, que as transformam em verdadeiras monarquias. Mas, claro, algumas pessoas se destacam na multidão e acabam fazendo a diferença.

Democracia ainda parece ser uma utopia, pois vemos diariamente como esse regime político é atacado. As disputas ideológicas entre esquerda e direita, que ganharam força neste ano, mostram como as pessoas não aceitam as diferenças de pensamento. Com um simples palavra, você se torna um "coxinha", como outra, um "comuna". “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la” - essa frase, erroneamente atribuída a Voltaire, não fez nenhum sentido esse ano.

“A História não é a mesma, mas temos a impressão de que, alguns eventos dela, se repetem”. Essa frase, do meu professor de Teoria da História, me fez pensar em alguns momentos trágicos que presenciamos no início e na metade de 2015. Grupos terroristas, em nome do Islã, promoveram inúmeros massacres no Oriente Médio e no Ocidente – e conseguiram dominar territórios em nome de uma nova unidade política. Parece que, assim como na Idade Média, o Islamismo está tentando novamente expandir suas fronteiras. Mas essa expansão não vai deixar um legado cultural como a do passado (língua, arquitetura, botânica, história e literatura), mas sim um rastro de ódio e medo.

Paz, um estado de espírito. O homem nunca esteve em paz com seu semelhante. Aliás, paz é uma fronteira fácil de se cruzar, e quando atravessada, chega à barbárie. Nem os deuses, nos tempos primordiais, viviam em harmonia. Resta a nós vigiar essa fronteira, tentar fortalecê-la a cada dia, não deixar os pilares de nossa civilização, erguidos sobre muitas vidas, sucumbirem por nossas próprias mãos.

Mesmo com todos os percalços, ainda somos seres incríveis. O hominídeo  que lascava pedras evoluiu, passou a polí-las, dominou os metais, criando instrumentos mais resistentes. Da observação das plantas, inventou a Agricultura. Dos excedentes de produção surgiu o escambo, antecessor do comércio. Do convívio com os animais, passou a domesticá-los. O nomadismo deu lugar ao sedentarismo, e as comunidades às cidades. Conquistamos territórios, descobrimos planetas, construímos tecnologias capazes de realizar tarefas inimagináveis. É a nossa essência inventiva, de quem luta diariamente pela sobrevivência.

Continuo aqui, de pé, esperando as horas para o adeus de 2015. O mundo não muda se seus habitantes não se candidatarem à mudança. Minhas crenças? Não são em um ou mais deuses. Vou seguir acreditando nas pessoas. Sonhador? Não, apenas mais um entre milhares que pensam da mesma forma, pois sabe que, no fundo, temos a capacidade de nos transformar para melhor. Que em 2016 aprendamos a conviver com diferentes formas de pensamento, sem delírios religiosos e que os dirigentes de fato passem a dirigir o nosso país para o futuro. Meus mais sinceros votos de paz e prosperidade para os leitores e leitoras do História Inteligente.




CRÉDITO DA IMAGEM:


http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Historiadores Muçulmanos (séculos IX-XV)

Intelectuais do mundo muçulmano no legaram grandes conhecimentos, seja em Linguística, Botânica, Geografia, Medicina, Comércio etc. No campo historiográfico também foram produzidos trabalhos de excepcional qualidade. Os primeiros historiadores muçulmanos foram pioneiros na busca do tempo histórico.

Inicialmente, a historiografia muçulmana era formada por genealogias, poesias e relatos de batalhas, registrados por escrito ou oralmente. Esses historiadores começaram a busca histórica a partir do momento em se fez necessária a compilação das palavras e feitos de Maomé, principal profeta do Islamismo. Essas informações eram utilizadas para incrementar os hadiths, leis, histórias e ensinamentos desse profeta. As informações dos hadiths eram analisadas de forma crítica através do isnad, isto é, a credibilidade da sucessão de autoridades que os escreveram. Neste texto, apoiado sobre o livro A História dos Homens (2004), do historiador espanhol Josep Fontana, veremos três grandes historiadores muçulmanos: al-Tabari, al-Masudi e Ibn Jaldun.


al-Tabari (839-923).

al-Tabari, exegeta do Alcorão (Tafsir), é considerado o primeiro grande historiador muçulmano. Além de seus estudos sobre os hadiths e Comentário, sobre o Alcorão, escreveu História de profetas e de reis, que cobre o período da fundação do mundo muçulmano até o ano de 915 da nossa era. Bem estruturada cronologicamente, essa obra traz, sem alterações ou pontos de vista do autor, os testemunhos das autoridades muçulmanas. al-Tabari utilizou fontes escritas e também informações transmitidas oralmente. As narrativas contidas em História de profetas e de reis eram bem detalhadas, com ilustrações sobre os acontecimentos memoráveis e histórias agradáveis e instrutivas. Dessas narrativas também eram retirados ensinamentos morais e religiosos.

al-Masudi (896-956).

A historiografia do xiita al-Masudi era mais elaborada. Considerado o Heródoto Árabe, por seu interesse em outras áreas do conhecimento, como botânica, geografia e etnologia, teve uma educação de qualidade e viajou por várias partes do mundo conhecido na época. Escreveu Anales históricos, obra não mais existente e, sua Magnum Opus, Los prados de oro, uma enciclopédia sobre História Universal, carregada de descrições geográficas e culturais dos povos por ele conhecidos durante suas viagens. Quando recebe informações de terceiros, afirma aqueles que conheceram e viram os locais pessoalmente, possuem mais autoridade do que aqueles que permaneciam em seus locais de origem. Reproduz em sua obra textos antigos de escritores locais e informações recolhidas pessoalmente durante suas viagens.

Ibn Jaldun (1332-1406).

Ibn Jaldun foi um historiador completo, nos lembrando, em alguns aspectos, dos historiadores do antigo mundo grego. Tinha suas origens em uma família de classe baixa, oriunda de Andaluzia. Ascendeu servindo em cortes do mundo muçulmano, como no reino de Granada, e exercendo a função de juiz, no Egito. No Egito escreveu sua principal obra, Livro dos acontecimentos que servem de exemplo, cujo primeiro volume era o Discurso sobre a história universal. Jaldun planejava escrever uma história do mundo islâmico da África do Norte, mas, assim como muitos historiadores do mundo Ocidental, como Eusébio ou Beda, dedicou uma parte à história universal. Jaldun inova ao analisar a história universal de diferentes pontos de vista: A organização a partir dos aspectos sociológicos, políticos, religiosos, geográficos e econômicos.



FONTES:

FONTANA, Josep. A História dos Homens. Bauru, SP, EDUSC. Tradução de Heloísa Jochims Reichel e Marcelo Fernando da Costa, 2004.


ZAIDAN, Assaad. Letras & História: mil palavras árabes na Língua Portuguesa. Belém, PA, SECULT, 2005.


CRÉDITO DAS IMAGENS:


www.wikiwand.com
arabsinamerica.unc.edu
centroibnjaldun.com






terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Semelhanças e diferenças entre Eusébio, Gregório e Beda


Eusébio de Cesareia (263 d.C.-339 d.C.); Gregório de Tours (538 d.C.-594 d.C.); Beda, o Venerável (672 d.C.-735 d.C.).

Eusébio inaugura a História da Igreja Cristã, analisa a História universal sob a perspectiva das Sagradas Escrituras e tece uma linha sucessória dos bispados das principais sedes episcopais desde os tempos apostólicos. Gregório de Tours e Beda, também cristãos, escreveram uma História episcopal e mais local, referente aos seus locais de atuação (Gália e Britânia, respectivamente).

Eusébio escreveu uma crônica na qual comparava a história hebreia com a de outros povos. Gregório não dava muita importância para aspectos étnicos da Gália, fazendo apenas algumas digressões necessárias sobre os francos, que governaram a região. Beda apresenta, dentre os três, um maior interesse pelo etnográfico, descrevendo os diferentes povos que habitavam a Britânia, suas línguas e costumes.

Eusébio defendia, de forma parcial, o estabelecimento da ortodoxia e a unidade da Igreja, atacando judeus, pagãos e hereges. Gregório de Tours, ideologicamente, atacava os seguidores da heresia Ariana. Beda criticava, além dos monges irlandeses, a forma como o Cristianismo era praticado em sua terra, sem uma unidade ou cronologia (data fixa para a comemoração da Páscoa).

Quanto à língua, Eusébio escreveu em grego koiné, que mais tarde foi traduzido para o latim. Gregório escreve em um latim simplório, sem estilo e regras gramaticais. Beda, que escreve sobre sua terra natal, também usa o latim.

Eusébio foi considerado um historiador erudito, pois como fonte tinha uma incrível biblioteca composta de escritos do mundo antigo. Gregório não era um grande conhecedor das obras clássicas, mas teve contato com os escritos de Orósio e Eusébio. Beda tinha acesso à biblioteca do mosteiro de Wearmouth-Jarrow, que reunia em sua época um bom número de livros. Teve contato com os escritos de Orósio, Eusébio, Constâncio, Gildas e Gregório de Tours.

Eusébio escreveu em outro gênero, o martirológio (relato sobre os mártires, em especial a perseguição ocorrida em Cesareia). Gregório de Tours escreveu martirológios, biografias dos Patriarcas da Igreja, de São Martinho de Tours, e uma coletânea de Milagres. Sua obra parece ser de caráter homilético, isto é, voltada para a pregação religiosa. Beda escreve gêneros diversos, como a martirologia, hagiografia (estudo da biografia dos santos), cronologia, hinologia (estudo dos cânticos) e poesia.

Eusébio reúne Igreja e Império Romano em um só, pondo fim à ideia de cidade eterna que, dentro de um plano divino, tem um início e um fim determinados. O status de religião oficial do Império permitiu que sua historiografia dominasse por longos séculos o mundo Ocidental. Gregório, na posição de bispo de Tours, reporta-sse à Roma apenas em épocas de conclaves. Beda não possuía grande relação com a cidade de Roma, mas acreditava que o povo inglês era um povo escolhido, pois aquela região era alvo constante de tentativas de cristianização.

Eusébio tentou usar uma cronologia que, de alguma forma, se relacionasse com o relato bíblico. Na Gália, Gregório funde história secular e eclesiástica e, em determinado momento do livro, o vemos utilizando o ano de coroação dos reis como marco cronológico. Ainda assim, este escreve os fatos em ordem embaralhada e confusa. Beda, focado na história eclesiástica, cria a notação cronológica datando os fatos entre antes e depois de Cristo.

No campo social, Eusébio permitia que as personagens de sua obra, fossem eles bons ou maus, se defendessem, ou que, pelo menos, existissem com um nome ou data. Gregório não privilegia fatos ou classes sociais, desde que estas passem ensinamentos morais ou espirituais. Fala sobre reis, bispos, padres, escravos, impostores etc. Beda registra os exemplos notáveis de bondade e maldade. Critica a covardia, a inércia e a delinquência moral dos bretões.

Eusébio tem uma visão providencialista da História, isto é, com Deus como personagem principal e o homem como instrumento do criador. Gregório cria uma história cheia de anedotas e marcada pela curiosidade do social, do vívido em diferentes estratos sociais. Beda conclui sua história com a ideia de povo escolhido: os pictos e os irlandeses se converteram ao Cristianismo, com exceção dos bretões, que preservaram seus hábitos.

Eusébio descreve de forma pitoresca a “vingança de Deus” contra seus perseguidores. Gregório é detalhista, descreve cada ação e sentimentos de suas personagens, como se quisesse se comunicar com os leitores. Beda é autoridade tanto na forma da escrita quanto na apresentação das fontes. Sua obra tem um tom dramático, exemplificado quando este relata vividamente os embates entre cristãos e pagãos.



CRÉDITO DA IMAGEM:


http://congregalupino.blogspot.com.br/

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Gregório de Tours (obra, metodologia e linguagem)

Gravura reproduzindo a aparência de Gregório de Tours, 1835.

A História de mais de um século depois de Eusébio já tinha passado por algumas mudanças significativas. Ela tinha tornado-se universal e, ao mesmo tempo, particular e local. As obras históricas medievais começavam com um esboço de História Universal, que misturava fatos bíblicos com história antiga, extraída de Orósio ou de Santo Isidoro de Sevilha, e das cronologias bíblico-seculares de Eusébio. Após essa breve história universal tinha início a crônica contemporânea, focada no local de origem do escritor.

Era frequente o uso das crônicas dos papas, que abordavam questões locais ligadas ao bispado de Roma. O mundo medieval “recém-nascido” era politicamente fragmentado, tendo como único elo os concílios instalados em diferentes cidades e as alianças entre dinastias, possuía uma história basicamente local. O principal registro de informações era feito através da sucessão de papas, bispos e abades, além do ano litúrgico baseado no calendário lunar, que poderia trazer, vez ou outra, narrativas de breves fatos contemporâneos.

A Magnum Opus de Gregório de Tours são as Histórias, ou História dos francos, constituída de 10 livros. Apresenta, logo no primeiro livro, uma história universal, passando rapidamente para assuntos gerais da Gália após as invasões francas no século V e a uma crônica contemporânea local nos seis últimos livros. A história universal é bem detalhada, a história contemporânea é marcada pela personalidade do autor. O autor escreve em latim simplório, sem regras gramaticais.

Gregório não ordena sua obra com uma cronologia essencialmente cristã, que só viria a ser criada na Britânia, pelo Venerável Beda, misturando, dessa forma, história secular com história eclesiástica. Ele próprio afirma que os fatos escritos em seu livro estão em ordem confusa e embaralhada.

Seu livro, nomeado erroneamente de História dos Francos, nos dá ideia de que ele aborda intensamente esse tema. Mas sobre esse povo, Gregório fazia apenas as digressões necessárias, quase inevitáveis, pois estes governaram a Gália. Os aspectos étnicos da Gália pouco importavam para Gregório. Ele, por exemplo, não cita o fato de que essa região da Europa possuía duas línguas: o latim e o franco. Gregório não era um grande conhecedor de obras clássicas, mas teve contato com os escritos de Orósio e Eusébio.

Acredita-se que a obra de Gregório seja homilética, isto é, voltada para a pregação religiosa, já que suas outras obras são martirológios, biografias dos patriarcas da Igreja, do santo protetor de Tours, São Martinho, e uma coletânea de milagres. A literatura sobre os santos, que vai povoar um bom tempo a Idade Média, relatava o nascimento desses personagens, suas mortes honradas e, rapidamente, passavam para os milagres a eles atribuídos.

Para Gregório, qualquer fato, desde que passasse para seus leitores algum ensinamento moral ou espiritual, merecia ser narrado, não importando se fazia parte da vida pública ou privada. Em seu livro, os homens, sejam eles grandes ou pequenos, exprimem seus sentimentos de raiva, estupidez, vingança e teimosia. Até os santos são passíveis de mostrar seus sentimentos, sejam eles bons ou maus.

O fato mais histórico da obra de Gregório é a conversão de Clóvis, rei dos francos, ao Catolicismo. Essa conversão é comparada ao que aconteceu com Constantino em 312. A conversão de Constantino se tornou uma analogia. Gregório descreve o temperamento forte e violento de Clóvis, que não tinha pena para com seus inimigos. Os reis francos e seus feitos tornaram-se tema recorrente em suas histórias. As ações de Clóvis são justificadas por Gregório como sendo bem vistas por Deus, que possibilitava que Clóvis as fizesse. Ideologicamente, em sua obra vinham críticas ao Arianismo.

Gregório é considerado um exímio contador de histórias, pois traz em sua obra diferentes classes sociais da Gália: escravos, domésticos, artesãos, freiras rebeldes, impostores, reis francos, bêbados e até mesmo alguns bispos e padres. Os milagres também são bastante utilizados em sua obra, e Gregório, mesmo reconhecendo seu caráter divino, algumas vezes não consegue entendê-los. Em sua obra, são contemplados personagens grandes e pequenos, ações boas e más.

Através de sua escrita, Gregório consegue interagir com o leitor, pois este detalha minuciosamente as ações e os sentimentos de suas personagens. As anedotas são bastante utilizadas, detalhes sobre o ambiente, a trama de um assassinato, tudo descrito, menos a aparência física. Gregório é episódico demais, pouco interessado em generalizações e contextos, mas sua História se destaca por sua curiosidade pelas pessoas, a inserção em suas análises de camadas diversas da sociedade da Gália, algo ainda não visto até aquele momento.


FONTES:


BURROW, John. Uma História das Histórias - de Heródoto e Tucídides ao século XX. Rio de Janeiro/São Paulo, Record. Tradução de Nana Vaz de Castro, 2013.


CRÉDITO DA IMAGEM:


www.gravuras-antigas.com




Eusébio de Cesaréia (obras, metodologia e linguagem)

História Eclesiástica, a Magnum Opus de Eusébio. Editora Novo Século, 1999.

Eusébio, bispo de Cesareia, cidade da Palestina, é conhecido por ser o primeiro historiador a discorrer sobre a História da Igreja Cristã. Presenciou boa parte das perseguições aos cristãos, bem como a conversão do imperador Constantino ao Cristianismo. Eusébio foi herdeiro dos ensinamentos de Orígines de Alexandria, apologista grego pioneiro nas leituras simbólicas e tipológicas da Bíblia.

A leitura que Eusébio faz da História é providencialista, isto é, com Deus sendo o protagonista e sujeito da história, sendo o homem apenas um instrumento da força criadora. Sua obra mais conhecida, História Eclesiástica, abrange o período que vai do nascimento de Cristo até a época em que escrevia (320 da nossa era), foi escrita em grego koiné e traduzida mais tarde para o latim. Também escreveu Crônica, um resumo sobre a história dos povos da Antiguidade e dos romanos, sob a cronologia pagã e a hebreia. A obra tem caráter apologético, pois tenta mostrar que a religião dos hebreus é mais antiga que a de outros povos.

Eusébio também escreveu martirológio cristão, gênero que ganharia bastante popularidade no decorrer da expansão do Cristianismo. Esse gênero é um relato da perseguição aos cristãos ocorrida em Cesareia. Os mártires triunfavam na morte, em morrer sem renunciar sua fé. Eusébio descreve com detalhe essas cenas, que em certos casos lembravam das ações de alguns heróis do mundo pagão.

A História de Eusébio era inédita e polêmica. Atacava judeus, pagãos e hereges. Diferente da historiografia clássica, na qual percebemos a imparcialidade em suas obras, Eusébio deixava evidentes seus objetivos: estabelecer e defender a ortodoxia da Igreja. Ao mesmo tempo em que se distancia de alguns aspectos do rigor histórico clássico, a obra de Eusébio, uma defesa religiosa, é produzida através de uma minuciosa escolha e análise das fontes. Sua biblioteca, repleta de clássicos do mundo antigo, possibilitou a escrita de seu livro. Menos historiador que os historiadores clássicos, Eusébio era mais erudito – e mais parcial.

Antes de começar a registrar os fatos de seu tempo contemporâneo, Eusébio tece uma lista sucessória de bispados das principais sedes episcopais dos tempos apostólicos. Esse objetivo é nitidamente apresentado na introdução da obra, e consiste no principal pilar da ortodoxia católica. Outro interesse do autor é o estabelecimento e a justificativa do cânone que compõe as Sagradas Escrituras. Entre a encarnação de Cristo e a conversão de Constantino, são apresentadas na obra apenas os martírios e as renúncias de fé durante as perseguições.

Além do assunto, a originalidade encontrada na obra de Eusébio se refere ao fato de que este registra o que é certo e errado, o aprovável e o e reprovável, deixando que os virtuosos ou errantes justifiquem seus atos, ou que existam como nomes e datas. Boa parte das obras se constitui de citações.

Nos três últimos livros, dedicados aos mártires da Igreja, percebemos a mudança na abordagem de Eusébio, que perde seu caráter complacente e, tomado por uma eloquência religiosa, utilizando citações e alusões, contempla os castigos divinos contra os infiéis e falsos cristãos e da vitória final da Igreja. Descreve também, de forma pitoresca e bem detalhada, as doenças que afligiam aqueles que no passado perseguiram os cristãos. Gibbon afirma que Eusébio faz isso com “uma acuidade singular e aparente prazer”. Constantino, que se converteu ao Cristianismo e tornou essa a religião oficial do Império, é visto por Eusébio como um representante de Deus na terra, e em sua obra é citado sempre em analogia com personagens ou passagens bíblicas. Eusébio combina a redenção da Igreja com unificação do Império. Igreja e Império começavam a tornar-se um só e começava o fim da ideia de Roma como uma cidade eterna, pois para os cristãos existia um fim vindouro.

A oficialização do Cristianismo como religião do Império permitiu que a visão de História providencialista de Eusébio, com centro em Roma, perdurasse por muito tempo. A expressão Sacro Império Romano evidenciava a supremacia da historiografia cristã.

Vamos sintetizar as ideias da obra de Eusébio: visão providencialista, com Deus sendo o principal personagem histórico e o homem um instrumento do criador; Foi escrita em grego koiné, mais tarde traduzida para o latim; possui o gênero martirológico, que trata sobre as perseguições aos cristãos ocorridas em Cesaréia; é apologética, com a defesa da religião cristã; defende o estabelecimento da ortodoxia cristã, sendo uma obra parcial; uso recorrente de analogias e citações bíblicas ou de autores antigos e detalha de forma pitoresca os males que afligem os “inimigos”.



FONTES:


Eusébio de Cesaréia. Veritatis Splendor: Memória e Ortodoxia Cristãs. In: http://www.veritatis.com.br/patristica/biografias/392-eusebio-de-cesareia. Acesso em 14/12/2015.


BURROW, John. Uma História das Histórias - de Heródoto e Tucídides ao século XX. Rio de Janeiro/São Paulo, Record. Tradução de Nana Vaz de Castro, 2013.


CRÉDITO DA IMAGEM:


pt.slideshare.net

domingo, 13 de dezembro de 2015

Algumas características da Historiografia Cristã Tardia

Eusébio, bispo de Cesareia, pioneiro na história da Igreja Cristã.

A Historiografia do Mundo Clássico, ou Historiografia Pagã, e a Historiografia Cristã, entram em ruptura, guardando-se, no entanto, o latim, já com algumas mudanças, como língua utilizada para a produção escrita. Desde a conversão do imperador Constantino ao Cristianismo, em 312, e ao consequente fim das perseguições a essa religião, uma nova historiografia viria para suplantar a do mundo clássico.

Os historiadores cristãos "ignoravam" os autores clássicos, com algumas exceções, como Salústio, que trazia em sua obra a retórica moralizante; e Suetônio, como modelo para a produção de biografias. Em síntese, as obras clássicas serviam como fonte de anedotas, utilizadas como exemplos morais, adaptadas para milagres cristãos, largamente utilizados nessa nova historiografia.

Para os historiadores cristãos, era necessário inserir a história universal na perspectiva religiosa, a cristã. Para isso foi criada uma cronologia capaz de englobar, sob o relato bíblico, a história dos povos do Oriente Próximo e greco-romanos, a relação dos soberanos assírios ou egípcios, a periodização grega por olimpíadas ou a série dos magistrados romanos. O pioneiro nessa tarefa foi Eusébio, bispo de Cesareia, grego da palestina, autor da História Eclesiástica, primeira sobre a Igreja Cristã, que cobre o período que vai de Jesus Cristo a Constantino.

A Historiografia Cristã não busca a explicações para os fenômenos históricos na sociedade, nas causas naturais ou nas ações do indivíduos, mas em um determinismo divino, que já possui planejado o curso da História. Essa concepção de busca histórica era baseada na História desenvolvida por Santo Agostinho, em A Cidade de Deus e Confissões, onde contrasta a eternidade de Deus com o tempo. As ideias de Santo Agostinho entrariam na historiografia através de seu discípulo, Orósio, autor de Histórias contra os pagãos, livro no qual argumentava que a história era a ação da vontade de Deus na terra, com a premiação das virtudes e o castigo aos vícios, e, finalmente, o Juízo Final.

A veracidade dos fatos relatados pelos autores cristãos era um tema secundário, importando, de fato, o discurso moral e religioso. A história, para eles, servia não para compreender o mundo, mas sim como um preparo para o futuro que, segundo os planos divinos, terminaria com o Juízo Final. É linearidade histórica, com um início e fim determinados.

Voltando à cronologia, temos uma preocupação com a prática litúrgica, principalmente no que diz respeito à fixação de uma data para a comemoração da Páscoa, que daria início a outras festividades religiosas. Isso era um problema, pois, como foi dito, ainda existiam no mundo cristão sistemas de computo temporais oriundos do paganismo. Uma nova datação foi feita pelo abade Dionísio, que, analisando algumas tabelas da Páscoa, fixou como origem da era cristã o ano de 754 da fundação de Roma.

Nas tabelas pascais dos mosteiros, os monges começaram a anotar os acontecimentos mais importantes do ano, como tempestades, colheitas, mortes de pessoas importantes, fenômenos astronômicos; e também foram responsáveis por uma marcação mais exata das horas do dia. Nos séculos VI e IX, surgiriam no mundo bárbaro alguns historiadores cristãos. Entre os bárbaros destaca-se, por exemplo, Beda, o Venerável, monge da Britânia que, diferente de outros autores da época, não realizou uma história universal, mas sim uma História Eclesiástica da Inglaterra.

Portanto, podemos destacar como principais pontos da historiografia cristã: Rejeição pelos autores clássicos, aproveitando-se apenas destes alguns ensinamentos morais ou estilo literário; a História universal era vista e estudada sob a perspectiva bíblica; História com início e fim divinamente determinados; preocupação com os ensinamentos morais e religiosos, estando a veracidade dos fatos em plano secundário; e Cronologia ligada à liturgia.


FONTES:


FONTANA, Josep. A História dos Homens. Bauru, SP, EDUSC. Tradução de Heloísa Jochims Reichel e Marcelo Fernando da Costa, 2004.


CRÉDITO DA IMAGEM:


commons.wikimedia.org




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A navegação na Amazônia antes do vapor

Porto de Itacoatiara, 1858. Desenho de C. Murand, do livro "Tipos e utilidades de veículos de transportes fluviais do Amazonas", de Moacir Andrade.

A navegação foi o único meio de transporte existente e indispensável à sobrevivência das populações instaladas, na Amazônia, mas bastante limitado, pelas gigantescas distâncias, dificílimas de serem vencidas à vela, remo ou sirga, até o advento do barco a vapor, que aqui teve o mesmo papel das locomotivas e das estradas de ferro, nos Estados Unidos, na anexação do oeste.

Em 1852, a principal rota comercial da região, ligando Belém a Manaus, rio Amazonas acima, era navegada por quarenta a cinquenta barcos a vela, que levavam de 60 A 90 dias, para vencerem este trajeto, sendo responsáveis pelo escoamento da produção extrativa e pelas importações dos gêneros e das manufaturas necessárias ao abastecimento das populações dos sítios e das cidades, ao longo daquele trajeto e acima dele.

Na navegação do rio Amazonas pode-se usar a vela durante as poucas horas em que o vento geral, o alísio de nordeste, sopra, das dez da manhã até as duas da tarde, daí a grande demora das viagens. Na dos seus afluentes, todos perpendiculares ao grande rio, esses ventos alísios só auxiliavam na travessia de uma margem para a outra, sendo todos os percursos feitos a remo ou à sirga. Por isso, o comércio de distribuição do interior das Províncias do Amazonas e de Mato Grosso possuía, neste trato, mais de 2000 canoas de diferentes tamanhos, pertencentes aos regatões, ocupados na compra dos produtos da terra, recolhidos às sedes municipais, para remessa à Belém, pois ainda não se instalara a hegemonia econômica de Manaus, sobre as demais localidades amazonenses, todas do mesmo tamanho. 

Expedição Smith & Love, 1836. Canoa coberta e índios remeiros, do livro "Narrativa de uma jornada de Lima ao Pará", de John Murray.

Nas equipagens desses barcos empregavam-se mais de 6000 pessoas: brancos e mamelucos, nas tarefas mais leves e de comando, índios civilizados e gentios, cafusos, negros e criminosos condenados às penas de galés perpétuas ou temporárias, como remeiros e tripulantes, em um trabalho estafante e insuportável, com freqüentes motins e fugas, e uma alimentação baseada no piraém, o pirarucu seco e salgado, e na farinha d`água, complementada pelo consumo do ipadu, ajudando a controlar a fome e a vencer o cansaço.

Este tipo de transporte ainda coexistiu por muito tempo com a navegação a vapor, devido aos altos preços das máquinas, pelas dificuldades de manutenção delas, pela inexistência de pontos de abastecimento de carvão de pedra ou lenha, em locais estratégicos, e pela falta de pessoal habilitado.

De janeiro a setembro de 1852, o tráfego, entre Belém e a Barra estava sendo feito por vinte e oito embarcações, com 228 tripulantes e 659 toneladas, saindo da Barra, e oito embarcações, com 58 tripulantes e 137 toneladas, saindo de Belém, com um movimento de mais de trinta e um contos de mercadorias nacionais e importadas. 

Em 1855, três anos depois do estabelecimento da navegação regular a vapor, ainda era grande o tráfego feito por este tipo de barcos, ainda existindo em toda a Província 100 grandes canoas de regatão, totalizando 405 toneladas e 258 tripulantes. 

Por isso, em 1856 e 1861, foi o seguinte o movimento das embarcações dos regatões, no porto de Manaus:

1856 1861
Entradas e saídas para o Pará 86 48
Entradas e saídas para o Interior 120 137
Tonelagem para o Pará 1810 1597
Tonelagem para o Interior 746 2702
Tripulantes 1117 433

As tripulações haviam diminuído, por existirem navios maiores, mas a tonelagem para o interior crescera, pela abertura dos novos seringais. Além dessas embarcações maiores, ainda existiam, em 1861, mais de 4.000 canoas de trânsito, em toda a Província.

Os fretes cobrados, em 1856, variavam com a mercadoria: 320 réis por arroba de cacau, ou por cada couro ou rede; 420 réis por arroba de breu, jutaicica, sebo, piassaba, pirarucu, peixe boi e puxuri; 500 réis por arroba de café, cumaru, cravo, borracha, grude de peixe, urucu, guaraná, salsa e tabaco; e, 640 réis por pote de óleo, manteiga de tartaruga e mixira, pacote de maqueiras, arroba de estopa e alqueire de castanha.


Antonio José Loureiro, 75, é escritor, médico reumatologista e historiador. Nasceu em Manaus, em 06 de junho de 1940. Formou-se em Medicina na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. É membro (Presidente) do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas (IGHA), da Maçonaria do Amazonas, da Academia Amazonense de Letras e da Academia Amazonense de Medicina. É autor de Amazônia 10.000 anos, 1972; Síntese da História do Amazonas, 1978; A Gazeta do Purus, 1981; A Grande Crise, 1986; O Amazonas na Época Imperial, 1989; Tempos de Esperança, 1994; Dados para uma História do Grande Oriente do Estado do Amazonas, 1999; História da Medicina e das Doenças no Amazonas, 2004; O Brasil Acreano, 2004; e o Toque de Shofar.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Uma análise dos principais conceitos do livro A Formação da Classe Operária Inglesa (Edward P. Thompson)

O presente texto tem por objetivo a análise das ideias centrais da obra A Formação da Classe Operária Inglesa (1963), do historiador marxista britânico Edward Palmer Thompson (1924-1993). Essa obra consagrou Thompson nos meios acadêmicos britânicos, bem como tornou-se centro de acalorados debates, por suas críticas ao Estruturalismo Marxista ortodoxo, formulado pelo filósofo francês Louis Althusser.

Publicada em 1963, em três volumes, A Formação da Classe Operária Inglesa é um resgate do papel das camadas populares da Inglaterra do século 18 no processo histórico. Para Thompson, o processo histórico é construído através das ações dos sujeitos, de suas experiências, e não apenas através de processos técnicos e econômicos, independentes das ações humanas, como pensavam os Estruturalistas.

Uma das principais críticas que ele faz ao marxismo estruturalista se refere ao fato de que os teóricos dessa macro-teoria dão mais atenção ao economicismo e não aos fatores humanos, culturais, como propulsores da luta de classes. Se para Marx a consciência levaria à revolução, à luta de classes, para Thompson a organização das camadas populares, como ele bem evidencia no combate dos trabalhadores ingleses frente a modernização (o maior exemplo é o movimento Ludista) levaria à consciência de classe.

Não seria a industrialização que se teria imposto a capitalistas e trabalhadores, com a força de uma lei que regeria suas relações: a busca da mais valia relativa, como lei da acumulação do capital. Ao contrário, a industrialização seria o resultado de um processo histórico real, como todo processo histórico, único, pouco importando o fato de que, depois, por sua importância e características, ele se tornaria um modelo universal. Para Thompson, a grande indústria moderna é um resultado da luta de classes […] o auto reconhecimento dos trabalhadores como classe, que conduz à formação das organizações operárias e ao estabelecimento, por meio da luta de classes, das novas relações entre capitalistas e operários, encontra-se na base da grande indústria moderna. Ao mesmo tempo em que submete a relação social ao processo histórico, ele apresenta a formação da classe operária como condição e não simplesmente resultado da industrialização (SILVA, 2012, p.64).

Para Thompson “Classe Operária” era um conceito passivo de múltiplas análises, produto de seu contexto histórico e social (no obra A Formação, a Inglaterra da Primeira Revolução Industrial). Não seria possível que a teoria Marxista Althusseriana conseguisse englobar esse conceito, devido ao seu caráter técnico economicista, que tratava o elemento social apenas como uma estatística, desconsiderando seu desenvolvimento empírico. Na concepção de Thompson, a classe se forma a partir do momento em que, um grupo de pessoas, através de suas experiências e costumes em comum, articulam a identidade de seus mesmos interesses contra os interesses de outros homens (operários e patrões, respectivamente).

Um ponto chave na obra de Thompson é o seu conceito de experiência. Thompson propõe dois tipos de experiência, a junção entre o ser social e a consciência social. A primeira seria a experiência vivida, fruto de ações concretas. A segunda seria a experiência percebida, feita através da observação. Segundo Thompson, esses dois tipos de experiência são inseparáveis, pois o concreto não vive sem o abstrato e vice-versa.

A categoria de experiência articulava-se, em suas análises, com diferentes perspectivas metodológicas, entre elas, ação política, ação social, educação, cultura, folclore e outras. O conceito de experiência histórica aparece diluído em todas as obras (PARADA, 2013, p. 309).

Existem mais três conceitos trabalhados por Thompson em A Formação. São eles consciência de classe, falsa consciência e consciência verdadeira. Esses conceitos são trabalhados sempre em contraposição ao Estruturalismo Marxista. Para os estruturalistas, a consciência de classe surge a partir da posição dos indivíduos em relação aos meios e relações de produção. Para Thompson, essa mesma consciência é resultado da junção entre experiência (vivida e percebida) e a cultura do grupo analisado. Ou seja, a consciência de classe é produzida pela classe a partir do processo histórico de autorreconhecimento como tal.

No Estruturalismo, a classe em si não conhece seus verdadeiros interesses, dependendo esse conhecimento principalmente das estruturas técnicas e econômicas. Para Thompson uma classe não existe sem que essa tenha consciência de si mesma, e que essa consciência não é verdadeira e nem falsa, apenas produto das relações culturais e sociais. A consciência de classe se forma através de etapas: primeiro, as pessoas percebem que estão em uma sociedade estruturada; são exploradas; identificam seus interesses e os interesses de grupos antagônicos (patrões ou Estado); discutem sobre esses interesses e descobrem sua consciência de classe. Classe e consciência de classe são sempre o último e não o primeiro degrau de um processo histórico real (THOMPSON, 2012, P. 74).

O livro A Formação da Classe Operária Inglesa reflete muito bem a vivência que Thompson teve com as camadas mais populares da sociedade inglesa, pois este ministrou por muitos anos aulas para trabalhadores. Polêmico, teceu críticas ao economicismo e ao estruturalismo marxista, que propositalmente excluía de suas análises as camadas mais baixas da sociedade, consideradas por Thompson componentes importantes na construção dos modos de produção. Essa talvez tenha sido a maior contribuição desse historiador, a inserção do empirismo e do culturalismo nas análises marxistas.


FONTES:


SILVA, S. Thompson, Marx, os marxistas e os outros. In: THOMPSON. E.P. As peculiaridades dos ingleses e outros ensaios. Campinas: Editora da Unicamp, 2012. Disponível em Classe e consciência na obra do historiador marxista E.P. Thompson (http://blogconvergencia.org/?p=5509).

MELO JR., João Alfredo Costa. “Edward Palmer Thompson (1924-1993)”. In: PARADA, Maurício (Org). Os Historiadores Clássicos da História. Vol. 2: De Tocqueville a Thompson. Petrópolis, RJ: Vozes / PUC-Rio, 2013.

THOMPSON. E. P. As peculiaridades dos ingleses e outros ensaios. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012. Disponível em Classe e consciência na obra do historiador marxista E.P. Thompson (http://blogconvergencia.org/?p=5509).


CRÉDITO DA IMAGEM:

livraria-popular.blogspot.com.br






segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Castas e Classes Sociais

Pirâmide do sistema capitalista.

Não existe, ao redor do mundo, uma sociedade sequer que não seja regida pelas classes sociais. Desde que passamos a nos organizar sob a tutela de membros mais fortes, intelectualmente superiores, individualizar-se e criar organismos políticos como o Estado, estamos dentro dessas estruturas. Nobres, camponeses, burgueses, proletários etc, são alguns exemplos que a História nos dá. As Classes sociais são estruturas não oficializadas ou registradas por escrito, mas que possuem peso considerável na vida em grupo. Outra estrutura, presente há milênios na vida dos indianos e de alguns povos da África e do Oriente Médio, são as Castas. Levando em conta aspectos religiosos e culturais, essa estrutura é oficializada e registrada por escrito. Utilizando o livro do especialista em lógica, sociólogo e filósofo francês Edmond Goblot (1858-1935), A barreira e o nível: retrato da burguesia francesa na passagem do século (Papirus, 1989) e outras fontes, irei tecer uma breve análise entre essas duas estruturas.

Apesar de não ser uma instituição, alguns países adotam divisões para incluir as pessoas em determinada camada da Classe Social: Classe Alta, Média e Baixa. Temos a classe A, formada por pessoas de alto poder aquisitivo, detentores de capital e dos modos de produção, e também de influência no cenário político. A classe B é um "meio termo", formada por pessoas de renda considerável, que permite a manutenção de um bom padrão de vida. A classe C, ou classe baixa, é formada por trabalhadores, dependentes de sua força de trabalho, que vendem em troca do salário. Os componentes desses estratos se diferenciam por sua renda, prestígio, profissão e costumes.

As Castas, mundialmente conhecidas por nós como a estrutura social da Índia, é uma instituição oficial, registrada com base em preceitos da religião Hinduísta. No hino religioso Rig Veda, as castas teriam surgido do corpo do deus Purusha: Brâmanes (cabeça); Xátrias (braços); Vaixás (pernas); e Sudras (pés). Na última escala, abaixo dos pés de Purusha, estão os Párias. Os Párias ou Intocáveis são considerados seres impuros, incumbidos da realização de trabalhos pesados e degradantes. Esses são os principais estratos da sociedade indiana que possui, ao todo, mais de 2 mil castas.


As quatro principais castas indianas em volta do deus Ganesha.

Segundo Goblot (p. 11), uma casta é algo fechado: nela se nasce, nela se morre; salvo raras exceções, nela ninguém entra, dela ninguém sai. Uma classe é algo aberto [...] No mundo Ocidental, o membro de uma classe baixa pode ascender para a classe média, assim como o membro da classe média pode passar a frequentar a classe baixa. Isso se chama mobilidade social. Digamos que, atualmente, eu seja parte integrante da classe baixa. Amanhã, ao ganhar na loteria, poderia ascender para a Classe Média ou Alta. Mas, em contrapartida, uma fortuna adquirida em pouco tempo provoca no homem o desejo de viver de forma burguesa, mas sua educação é um obstáculo: maneira "do povo", "vulgaridades" o traem; ele comete enganos e gafes, fala errado (p. 15).

Nas classes sociais temos liberdade na hora escolher nossas profissões, que são divididas entre trabalho intelectual e trabalho manual. Pessoas que trabalharam arduamente em trabalhos pesados, podem atingir os mais altos patamares de uma classe social, assim como os que desempenham um trabalho intelectual também. Ou a realidade pode ser outra, com a permanência em sua posição. A liberdade de escolha é uma marca da sociedade ocidental e de outros países. Nas castas, cada camada está relacionada à uma função dentro da sociedade: Brâmanes (sacerdotes e brâmanes); Xátrias (membros da elite militar); Vaixás (comerciantes e artesãos); e Sudras (trabalhadores servis). Por último, os Párias nascem para cuidar dos trabalhos considerados repugnantes, como a limpeza de ruas, esgotos, contato com cadáveres, etc. Por mais que se esforce, um membro de uma casta baixa jamais irá atingir outro patamar social, pois a institucionalização dessa estrutura impede que isso ocorra.

Em síntese, percebemos profundas diferenças entre as Classes Sociais e as Castas. As classes sociais são abertas, permitindo a transição de membros entre suas diferentes estruturas. Nas Castas, se nasce em uma posição e nela se permanece até morrer. Nossas classes não existem oficialmente, mas sim por meio dos costumes. As Castas, por meio da religião hindu, são registradas oficialmente, influenciando mais rigidamente a vida em sociedade que as classes ocidentais. Fruto de milênios de relações sociais, as duas estruturas sociais servem para fixar cada indivíduo em seu "papel", seja como detentor do capital, a pessoa que usufrui dessas rendas de forma intermediária ou como vendedor da força de trabalho.


FONTES: GOBLOT, Edmond. A barreira e o nível: retrato da burguesia francesa na passagem do século. Campinas, Papirus Editora, 1989.

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia. São Paulo, Editora Ática, 2011.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

As esculturas do Palacete Provincial

Há um ano, escrevi um breve texto sobre uma das esculturas que se localizam na entrada do Centro Cultural Palacete Provincial, localizado na Praça Heliodoro Balbi (Praça da Polícia), no Centro da cidade. Tratava-se da escultura do lado esquerdo, que representa um zuavo, soldado argelino a serviço do Exército da França. Quando da escrita desse texto, utilizei como base o livro Caminhando por Manaus – cinco roteiros históricos da cidade (1996), da pesquisadora francesa Thérèse Aubreton. No livro, Thérèse nos dá importantes informações sobre o Zuavo, já mencionado anteriormente. Mas fica um questionamento: e a segunda escultura? No livro, é apenas mencionado como um soldado do Exército Regular Francês. Não satisfeito, fui fazer novas pesquisas, e consegui informações valiosas, que serão aqui apresentadas aos leitores.

Ponte de L' Alma, em Paris, com o Zuavo em primeiro plano.

As duas esculturas que ornamentam a entrada do Palacete Provincial são réplicas construídas em tamanho natural, sendo o bronze o material empregado. A escultura do lado esquerdo representa um Zuavo, soldado argelino a serviço do Exército Francês. A segunda escultura, do lado direito, era até então considerada apenas um soldado do Exército Regular Francês. Mas, após pesquisas por mim feitas, descobri que trata-se de um Granadeiro, militar responsável, durante a guerra, pelo lançamento de granadas.

Essas duas figuras faziam parte de um conjunto, de quatro esculturas, localizadas na Ponte de L' Alma, em Paris, erguida sobre o rio Sena. A ponte recebe esse nome em homenagem à Batalha do rio Alma (1854), travada durante a Guerra da Crimea, envolvendo o Império Russo, França, Inglaterra e Império Otomano. A ponte foi inaugurada por Napoleão III em 1856. Para ornamentar as pilastras de sustentação, um total de 4, foram erguidas esculturas em homenagem aos quatro tipos de militares que participaram da Batalha do rio Alma: Zuavo; Granadeiros, Caçadores e Artilheiros. Georges Diebolt esculpiu o Zuavo e o Granadeiro, e Auguste Arnaud esculpiu o Caçador e o Artilheiro.

Retrato de Georges Diebolt.

Adolpho Lisboa, superintendente de Manaus entre 1902 e 1907, esteve em Paris, de onde encomendou as peças que atualmente ornamentam a Praça Heliodoro Balbi (Praça da Polícia): Cão e Javali em luta (Charles Theodore Perron); Diana Caçadora (Fundições de Val d' Osne); Hermes (Fundições Val d' Osne); Ninfa (Fundições Val d' Osne); Coreto em formato de pagode chinês e Coreto em formato de templo grego. Para Manaus, das quatro estátuas da Ponte de L' Alma, só vieram duas réplicas, o Zuavo e o Granadeiro. Vejam, abaixo, duas montagens entre as esculturas de Manaus e as da França. O Zuavo permanece na ponte, servindo de “régua” para a medição dos níveis do rio Sena. O Granadeiro foi parar na comuna francesa de Dijon, terra natal de Georges Diebolt (1816-1861), autor das esculturas.

À esquerda, o Zuavo de Manaus. À direita, o original, na Ponte de L' Alma, em Paris.

À esquerda, o Granadeiro de Manaus. À direita, o Granadeiro original.

O Caçador e o Artilheiro foram esculpidos por Auguste Arnaud (1825-1883). Quando as duas réplicas foram erguidas em Manaus, no início do século 20, o mundo ocidental tinha como parâmetro cultural Paris, capital moderna da Europa, que explodia em invenções e tecnologias de ponta para a época. Essa é apenas uma das várias curiosidades existentes em Manaus, que manteve e ainda mantem relações com diversos países.

À esquerda, o Artilheiro, no departamento de Aisne; À direita, o Caçador, na cidade francesa de Vincennes.


FONTES:  Geneviève Bresc-Bautier, Isabelle Leroy-Jay Lemaistre, Musée du Louvre. département des sculptures du Moyen Âge, de la Renaissance et des temps modernes. Sculpture française II. Renaissance et temps modernes. vol. 1 Adam - Gois, Réunion des musées nationaux editions, Paris, 1998.

CRÉDITO DAS IMAGENS: leguideparis.free.pt
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