quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Relatos dos viajantes que estiveram ou viveram no Brasil no século 19 (III)

Hábitos alimentares, mulheres, cidades e considerações finais



(Debret) ''Um Jantar brasileiro''.

Na região Nordeste, na Província da Bahia, Carl Seidler relata como as donas de casa preparavam o principal alimento, o feijão, e o tratamento que davam aos hóspedes.


''A delicada dona de casa não tem vergonha de se acocorar no chão para atirar boas porções do seu alimento preferido, o feijão-preto, e sua inocência primitiva chega ao ponto dela se servir de seus dedos delicados como se fossem faca e garfo e a mão como se fora colher. Na Bahia as senhoras […] tem a particular delicadeza de servir o honrado hóspede diretamente na boca, como se elas quisessem engordar gansos.'' (5)


As desigualdades foram bem retratadas pelos viajantes, só que menos criticadas que os hábitos e costumes. O pintor francês Jean-Baptiste Debret descreve o jantar na casa de um médio comerciante, composto


''[…] de uma sopa de pão e caldo gordo, chamado caldo de substância, porque é feita com um enorme pedaço de carne de vaca, salsichas, tomates, toucinho, couves, imensos rabanetes brancos com suas folhas, chamados impropriamente nabos etc., tudo bem cozido. […] Finalmente, o jantar se completa com uma salada inteiramente recoberta de enormes fatias de cebola crua e de azeitonas escuras e rançosas (tão apreciadas em Portugal, de onde vêm, assim como o azeite de tempero que tem o mesmo gosto detestável). A esses pratos, sucedem, como sobremesa, o doce-de-arroz frio, excessivamente salpicado de canela, o queijo de Minas, e mais recentemente, diversas espécies de queijos holandeses e ingleses; as laranjas tornam a aparecer com as outras frutas do país: ananases, maracujás, pitangas, melancias, jambos, jabuticabas, mangas, cajás, frutas do conde, etc.'' (6)


A refeição dos escravos, porém, consistia apenas de


''[...] dois punhados de farinha seca umedecidos na boca pelo suco de algumas bananas ou laranjas.'' (7)


As cidades brasileiras e seus habitantes também receberam a reprovação por parte dos viajantes, seja pela falta de planejamento, localização e economia. Sobre Manaus, na época conhecida como Vila da Barra do Rio Negro, Alfred Wallace Russel escreveu

''está localizada em um terreno desigual repleto de ondulações, cerca de trinta pés acima do nível das mais altas cheias, e é cortada por dois córregos, cujas águas, na estação chuvosa, atingem a considerável altura […]. As suas ruas são regularmente traçadas; não têm, no entanto, nenhum calçamento, sendo muito onduladas e cheias de buracos […]. A população da cidade é de cinco mil a seis mil habitantes, dos quais a maior parte é constituída de índios e mestiços. Na verdade, provavelmente, não há ali uma única pessoa, nascida no lugar, da qual se diga que seja de puro sangue europeu, tanto e tão completamente se teêm os portugueses amalgamado com os índios. A maior parte nunca abre um livro ou trata de empregar o seu tempo em qualquer outra ocupação intelectual. Os sentimentos morais em Barra estão reduzidos ao mais baixo grau de decadência possível, mais do que em qualquer outra comunidade civilizada.'' (8)


John Luccock relata um costume considerado nojento, conservado por todas as classes sociais do Rio de Janeiro


“homens e mulheres, crianças e servos entregam-se a um dos mais nojentos costumes portugueses: um descansa a cabeça no regaço do outro, para fim inominável; e até os macacos são ensinados a fazer a mesma tarefa, que executam com destreza e prazer” (9)


Uma visão predominante desde a colonização, era a de que a mulher brasileira era promíscua, mal-educada, diferentes das mulher europeia, mais discreta e reservada. Muitos senhores preferiam se relacionar com as mestiças para poderem “preservar” a pureza da mulher branca. Sobre a educação que recebiam, Henry Koster fala que


''As mulheres são comumente menos humanas...mas este fato procede, indubitavelmente, do estado de ignorância no qual elas vivem. Recebem escassamente educação e não têm a vantagem de poder obter instrução pela comunicabilidade das pessoas estranhas ao seu ambiente nem adquirem novas ideias na conversação geral.'' (10)


As mulheres de classe média, comandadas pelo modo de vida patriarcal, viviam dentro de casa, submissas à seus maridos, saindo apenas para realizar alguns passeios em família ou para assistir a missa


''Não se veem mulheres além das escravas negras, o que dá um aspecto sombrio às ruas. As mulheres portuguesas e as brasileiras, e mesmo as mulatas de classe média, não chegam à porta de casa durante todo o dia. Ouvem a missa pela madrugada, e não saem senão em palanquins, ou à tarde, a pé, quando, ocasionalmente, a família faz um passeio.'' (11)


O Brasil como um todo era visto como um país atrasado, com habitantes preguiçosos e acomodados. Os europeus, com sua ideia de superioridade cultural, acreditavam ser os “senhores da vantagem”, como escreveu Auguste Saint-Hilaire


''Num país cujos habitantes têm ideias pouco desenvolvidas e estão acostumados à preguiça, o europeu senhor da vantagem de ter muito maior descortino deve necessariamente ganhar alguma coisa, se trabalhar com perseverança e comportar-se bem.'' (12)


Alguns autores brasileiros, baseando-se nos relatos desses viajantes, consideravam que o elemento colonizador era o responsável pela falta de moralidade e civilidade do país. O português, diferente dos colonos que foram para a América do Norte, não trouxe em sua bagagem cultura e instrumentos de trabalho, necessários para o progresso social e econômico


''[…] O Brasil foi colonizado, na expressão de Gonçalves Dias, pelo rebute de Portugal. Nossos colonos eram, na sua quase totalidade, solteiros, indolentes e devassos. [...] Além de não trabalhar, nosso colono amancebou-se, a princípio, com a índia e, mais tarde, com a negra, constituindo-se a família, entre nós, sem base moral.'' (13)



Considerações finais


Os relatos dos viajantes estrangeiros que aqui estiveram ou viveram no século 19 estavam carregados de preconceitos, pois a cultura europeia era utilizada como ''parâmetro'' de qualidade, o que acabava gerando o Eurocentrismo. Esses relatos, de grande importância para pesquisas nas áreas de História, Geografia, Botânica etc, e que mais tarde foram transformados em livros, influenciaram na formação de uma imagem fortemente difundida no Brasil e no exterior: a de um país acolhedor, atrasado, com um povo preguiçoso e de moral duvidosa. 



FONTES: (5) SEIDLER, Carl. Dez anos no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1982, p. 73.

(6) A desigualdade expressa num simples jantar do Brasil colonial. Blog História por imagem. Disponível em: http://historiaporimagem.blogspot.com.br/2011/10/jean-baptiste-debret-um-jantar.html. Acesso em 30 de outubro de 2014

(7) A desigualdade expressa num simples jantar do Brasil colonial. Blog História por imagem. Disponível em: http://historiaporimagem.blogspot.com.br/2011/10/jean-baptiste-debret-um-jantar.html. Acesso em 30 de outubro de 2014

(8) WALLACE, Alfred Russel. Viagem pelo Amazonas e Rio Negro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939, p. 200, 201.

(9) LUCCOK, John, citado por Leitão, Cândido de Melo em O Brasil visto pelos ingleses. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937, p. 131.

(10) KOSTER, Henry. Viagem ao Nordeste do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942, p. 478.

(11) KOSTER, Henry. Viagem ao Nordeste do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942, p. 36.

(12) SAINT-HILAIRE, Auguste. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932, p. 196.

(13) ROMERO, Abelardo. Origem da imoralidade no Brasil. Rio de Janeiro: Conquista, 1967, p. 173.



CRÉDITO DA IMAGEM: outraspalavras.net

2 comentários:

  1. Adorei a postagem, parabéns. Infelizmente essa visão do brasileiro perdura ainda hoje, de um povo acolhedor, porém de moral duvidosa e ignorante. Mas, vamos considerar, não fazemos por onde mudar essa imagem.

    ResponderExcluir
  2. Muito obrigado. Infelizmente essa imagem se tornou parte do brasileiro, e parece que vai continuar sendo por muito tempo.

    ResponderExcluir