quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Terrorismo - dos primórdios aos dias de hoje

Mapa dos principais grupos terroristas e seus locais de origem.

Quando se fala em terrorismo, a primeira coisa que vem à nossa mente são os atentados de 11 de setembro e as organizações extremistas fundamentalistas islâmicas Al-Qaeda, ISIS (Estado Islâmico), Hamas e Boko Haram. Além de promoverem barbáries em nome de uma religião, esses grupos terroristas acabam reforçando uma ideia errada que gera preconceito: todo praticante do islamismo é terrorista.

Porém, Terrorismo, palavra derivada do latim terror, ''medo, terror'', e de terrere, ''causar medo'', que significa a imposição de algo por meio do medo (1), não é algo exclusivo dos fundamentalistas islâmicos. Ao longo da História, o terrorismo foi utilizado por diferentes povos para a imposição política, psicológica, religiosa e econômica. No decorrer desse texto, vamos ver exemplos de Terrorismo de Estado, Terrorismo Religioso, Terrorismo Étnico etc. Para não se estender muito, optei por utilizar, para cada período histórico, o exemplo de um ato ou grupo terrorista. 

O Terrorismo foi largamente utilizado pelas civilizações do Mundo Antigo, principalmente em grandes campanhas militares. O Império Romano, por exemplo, praticou o terrorismo na destruição da cidade africana de Cartago, sua principal inimiga nos conflitos que ficaram conhecidos como Guerras Púnicas:

A implacável destruição de Cartago pelos romanos, que não poupou mulheres, velhos e crianças, foi uma forma de utilização da tática de terror com o objetivo de apagar qualquer resquício do inimigo”(2)

Um dos primeiros grupos terroristas de que se tem registro são os Sicarii, extremistas zelotes (hebreus) que utilizavam de violência contra a dominação romana, cometendo seus crimes na cidade de Jerusalém. Sicarii vem do latim sica, uma pequena adaga curva utilizada para cometer assassinatos sorrateiros. Sobre eles, o historiador romano Flávio Josefo (37 d. C. - 100 d.C.) escreveu:

à luz do dia e no centro da cidade, eles assassinavam pessoas; durante as festas, sobretudo, eles se misturavam com a multidão e esfaqueavam seus inimigos usando pequenos punhais que levavam ocultos sob suas vestes” (3)

Na Idade Média, a Igreja Católica, a mais poderosa instituição da época, perpetrou ações terroristas para manter sua hegemonia e impor seus dogmas religiosos. Eram as conhecidas guerras santas, que visavam expandir o Cristianismo para outras regiões. Em 1208, o Vaticano deu início a uma guerra contra o grupo herético dos Cátaros, que atuava na França, Alemanha, Inglaterra e Itália. Esse conflito culminou na morte de milhares de pessoas.

Em 1208, o representante eclesiástico Pierre de Castelnau excomungou um nobre de Toulouse, maior região de Languedoc, onde se concentravam os líderes cátaros. Como vingança, Castelnau foi assassinado. No mesmo ano, o Vaticano deu início a uma guerra santa contra os cátaros e, um ano depois, mais de 7.000 foram mortos” (4)

Saindo da Idade Média, vamos para a Idade Contemporânea. Após a Revolução Francesa (1789), o conceito de Terrorismo é criado, aparecendo pela primeira vez em 1798, no Suplemento do Dicionário da Academia Francesa. Os Jacobinos, grupo mais à esquerda na República francesa, conseguiram, por meio de uma aliança com a facção La Montagne e os Sans-cullotes, eliminar os Girondinos, opositores favoráveis a Monarquia Constitucional, em perseguições e execuções que ficaram conhecidas como Período do Terror (1793-1794). Vale lembrar que até alguns dos antigos líderes da revolução foram executados pelos Jacobinos. Danton foi um deles.

Em pouco tempo, a Revolução Francesa abandonou suas belas palavras de ordem e entrou no período chamado de Terror, em que qualquer suspeito de se opor ao regime podia acabar sem cabeça. No início de 1794, apenas em Paris, cerca de 20 mil condenados foram decapitados – entre eles estava Georges Danton, que havia sido um dos líderes da Revolução”. (5)

O Terrorismo do século 19, principalmente da segunda metade, estava ligado ao Anarquismo, ideologia política que prega a eliminação de qualquer forma de governo. Os ataques dos terroristas anarquistas eram seletivos, dirigidos contra reis, militares de alta patente e políticos. Ou seja, qualquer pessoa ligada a um governo. Assim como outras ideologias, o Anarquismo está dividido em vertentes, com algumas que não toleram a violência e outras que a utilizam como um meio para alcançar seus objetivos. Entre 1878 e 1879, o rei da Espanha Alfonso XII escapou duas vezes de ser morto em atentados.

25 de octubre de 1878: un tonelero, el anarquista Juan Oliva Moncasí dispara hasta tres veces contra el Rey Alfonso XII ,a la altura del nº 93 de la calle Mayor, cuando el monarca iba montando a caballo al frente de un sequito militar . El atentado no tuvo efectos sobre el rey.

30 de diciembre de 1879: Francisco Otero,un panadero anarquista, atenta contra Alfonso XII y su esposa cuando regresaban a palacio después de un paseo por el Retiro. El monarca tuvo mucha suerte, la bala no le alcanzó de milagro en la cabeza”. (6)

O conturbado século 20 foi marcado por duas grandes guerras mundiais*, polarização ideológica**, desenvolvimento tecnológico e, principalmente, pelo surgimento de vários grupos terroristas na Europa, África, Oriente Médio, Ásia e América Latina. O tipo de Terrorismo praticado nessa época é Étnico-Separatista, que tem por objetivo conquistar a independência de uma região sujeita a um país; e Religioso, com a imposição de uma religião e leis consideradas sagradas.

Na Europa surgiram grupos separatistas como a Mão Negra*** (Reino da Sérvia – 1910-1917); IRA (Exército Republicano Irlandês – Irlanda do Norte – 1919-2005); e o ETA, (Pátria Basca e Liberdade – País Basco – 1959). Na África, surgiram grupos islâmicos como o Al Jihad (Jihad Islâmica Egípcia – Egito – final dos anos 1970); a Ansar Dine (Adeptos da Religião – Mali – 1990); e o GIA (Grupo Islâmico Armado – Argélia – 1992). No Oriente Médio surgiram os principais grupos terroristas ligados ao Islamismo, que atualmente aterrorizam a comunidade internacional. São eles: Hezbollah (Líbano – fundado entre 1982 e 1985); Al-Qaeda (Afeganistão – 1988); Talebã (Afeganistão – 1994); e outros grupos menores. Na Ásia surgem grupos islâmicos como Lashkar-e-Taiba (Exército de Deus – Afeganistão – 1990); separatistas, como os Uigures, povo que pede a independência da região de Xinjiang, região da China; de Esquerda, com a atuação do Exército Vermelho Japonês (Nihon Sekigun - Japão – 1969); e Seita Religiosa, sendo o Ensino da Verdade Suprema (Japão - Aum Shinrikyo - 1984) a mais conhecida. Na América Latina surgiram grupos terroristas de Esquerda que lutavam para implantar uma sociedade Socialista em seus países de origem: FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Colômbia – 1964); Túpac Amaru (Movimento Revolucionário Tupac Amaru – Peru – 1984); ELN (Exército de Libertação Nacional da Colômbia – Colômbia – 1965); e Sendero Luminoso (Caminho Iluminado – Peru – década de 1960). O Espiritualista, escritor e Mestre em Ciências Roberto C. P. Júnior, em seu texto intitulado Terrorismo, faz um preciso levantamento sobre as ações terroristas desencadeadas desde o final da década de 1970 até 1998.

Nos Estados Unidos, um terrorista desconhecido enviou cartas-bombas pelo correio desde 1978, na tentativa de combater a "revolução industrial". Até agosto de 1995 ele já havia matado 3 pessoas e ferido outras 23;

Em 15 anos de atividades, o grupo terrorista peruano "Sendero Luminoso" provocou 25 mil mortes e danos de mais de 22 bilhões de dólares;

Em 1986, um terrorista árabe explodiu o Boeing em que viajava, matando 166 pessoas;

Em dezembro de 1988, uma bomba fez um avião explodir sobre a cidade escocesa de Lockerbie, matando 270 pessoas. O atentado foi atribuído a terroristas líbios;

Em julho de 1994, um carro-bomba destruiu o prédio de uma entidade israelita na Argentina, matando 98 pessoas;

Nos Estados Unidos, no ano de 1994, a Ku Klux Klan, uma das 17 mil organizações racistas atuantes no país, cometeu 18 assassinatos, 146 agressões, 228 atos de vandalismo e provocou 12 incêndios;

Em março de 1995, uma seita apocalíptica japonesa, intitulada "Ensino da Verdade Suprema" cometeu um atentado com gás venenoso no metrô de Tóquio, matando 12 pessoas e intoxicando cerca de cinco mil;

Em abril de 1995, um grupo terrorista americano de extrema direita destruiu com um carro-bomba um prédio federal na cidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, matando 168 pessoas e ferindo 460 […];

Em setembro de 1995, as "Forças de Libertação do Calistão" explodiram duas bombas na Índia, ferindo 50 pessoas, com o objetivo manifesto de "por um fim às atrocidades cometidas pelas autoridades contra a minoria sikh;

De janeiro a julho de 1995 a Colômbia registrou 592 seqüestros, repartidos entre quatro organizações terroristas que atuam no país. Em dezembro de 1996, 600 municípios do país, de um total de 1024, haviam registrados ações terroristas, contra 173 municípios nesta situação em 1985;

Nos meses de setembro e outubro de 1995 a França sofreu seis atentados terroristas, um por semana;

Em janeiro de 1996, a explosão de uma bomba no prédio do Banco Central do Sri Lanka matou cem pessoas;

Em março de 1997, dois terroristas suicidas, cada qual transportando 10 quilos de TNT misturados com pregos, explodiram seus corpos num mercado de Jerusalém, matando 13 pessoas e ferindo 170 […];

Em abril de 1997, num massacre de 31 civis na Argélia, três mulheres grávidas tiveram o ventre aberto e os fetos arrancados;

Em agosto de 1997, na Argélia, entre 100 e 300 pessoas foram degoladas ou queimadas vivas pelo GIA;

Em setembro de 1997, um atentado suicida triplo matou quatro pessoas e feriu 192 em Jerusalém [...]
Em outubro de 1997, uma bomba matou 15 pessoas no Sri Lanka e feriu pelo menos 110 […];

Em novembro de 1997, um ataque de integristas islâmicos a um grupo de turistas no Egito deixou um saldo de 57 mortos […];

O ano de 1998 começou com algumas centenas de argelinos queimados vivos e 117 degolados em mais dois ataques do GIA em janeiro” (7)

Século 21: Em 11 de setembro de 2001, aconteceu o maior atentado terrorista da História. Nessa data, dois aviões foram lançados por terroristas islâmicos nas duas torres do World Trade Center; um terceiro avião no Pentágono; e um quarto no Estado da Pensilvânia. Morreram cerca de 2977 pessoas, entre funcionários do WTC, passageiros dos aviões sequestrados, funcionários do Pentágono e bombeiros que socorriam as vítimas. A série de ataques foi planejada e executada pela rede terrorista Al-Qaeda. Esse foi o estopim para a Guerra ao Terror, confronto que estende até hoje entre a aliança militar intergovernamental OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e vários grupos terroristas islâmicos.

Ao longo dos anos ocorreram atentados no Reino Unido, Espanha, Escócia, Filipinas, Índia etc. O ano de 2015 teve seu início marcado por uma série de atentados terroristas na Europa, na África e na Oceania. Na França, dois terroristas mataram 12 pessoas do jornal satírico Charlie Hebdo; na Nigéria, o grupo terrorista Boko Haram massacrou milhares de pessoas na vila de Baga, no Estado de Borno; em Copenhage, na Dinamarca, um atirador filiado ao Estado Islâmico matou o realizador de uma palestra sobre liberdade de expressão e um civil em uma sinagoga, além de ferir outras 5 pessoas; e em Sidney, na Austrália, um iraniano, que se autoproclamava clérigo islâmico, manteve 17 pessoas reféns em um café, matando 3 e ferindo 3 no processo.

(Atualizando). Ontem, 13 de novembro, uma série de ataques (com homens bombas e fuzilamentos), hoje reivindicados pelo grupo terrorista Estado Islâmico, culminaram na morte de 129 pessoas. Toda essa barbárie 10 meses após os ataques do Charlie Hebdo.

O Terrorismo não é uma prática exclusiva de um povo. Afirmar isso é falta de conhecimento. Terroristas Gregos, árabes, cristãos, judeus, budistas, ateus, norte-americanos, latino-americanos, asiáticos, europeus, africanos etc, já o praticaram e continuam praticando. Espalhar o medo para alcançar objetivos econômicos, políticos, culturais e religiosos é uma das práticas humanas mais deploráveis que existe, que atinge milhares de inocentes e marginaliza sociedades. Irracionalmente, pegar em armas parece ser mais fácil do que buscar soluções que conciliem de forma pacífica as diferenças que existem entre os povos.

* O massacre nazista cometido contra judeus, negros, ciganos, homossexuais e outras minorias; e o lançamento das bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki podem ser considerados atos terroristas.

** Durante a Guerra Fria, os governos dos Estados Unidos e Reino Unido financiaram rebeldes para lutar contra a expansão soviética na Ásia e no Oriente Médio. Mais tarde, esses mesmos rebeldes deram origem a poderosos grupos terroristas.

*** O membro mais “ilustre” da extinta organização Mão Negra é Gavrilo Princip, o jovem anarquista sérvio que assassinou o Arquiduque do Império Austro-Húngaro Francisco Ferdinando e sua esposa, no ataque que ficou conhecido como Atentado de Sarajevo, em 1914, e que deu início a Primeira Guerra Mundial.


NOTAS


(1) Etimologia de terrorismo – disponível em: www.origemdapalavra.com.br
(2) MAZETTO, Francisco de Assis Penteado. O Terrorismo na História. UFJF. s.d.
(3) STEGEMANN, W. Ekkehard; STEGEMANN, Wolfgang. História Social do Protocristianismo: Os primórdios do Judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. p. 208. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2004, p. 208.
(4) OPPERMANN, Álvaro. Cátaros: Hereges, graças a Deus. Revista Superinteressante, 2008.
(5) EICHENBERG, Fernando. Joseph-Ignace Guillotin: Doutor Guilhotina. Revista Aventuras na História, 01/07/2007.
(6) Atentados Anarquistas en La España Del Siglo XIX. Disponível em: http://www.pronunciamientos.rizoazul.com/anarquismo.html. Acesso em 25/02/2015.
(7) JÚNIOR. Roberto C. P. Terrorismo. Disponível em: http://www.library.com.br/Filosofia/terroris.htm. Acesso em 26/02/2015.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.geografiaparatodos.com.br/

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