sábado, 8 de agosto de 2015

O Mito Japonês da Criação

Izanagi e Izanami na Ponte Flutuante do Céu. Utagawa Hiroshige, 1859-860.

No princípio, o Caos era um mar de tudo. Sem forma, era o nada. Eis que nas águas de tudo nasceu a primeira divindade, ser vivo primordial, Senhor Kunitokotachi, eterno regente das terras, das águas e dos ares e de mais o que havia. Simples junco solitário, que, com o tempo, gerou os Espíritos dos Céus, que passaram a ordenar as mil tramoias do Caos.

Ordenaram o que seria a Terra e o firmamento, distribuindo as águas e distribuindo os ares. Criaram novos seis pares de Espíritos Celestiais, com a missão de governar o destino de tudo.

Eis que, então, se percebeu que a Terra não passava de um mar de óleo à deriva flutuando pelo ar. Era preciso seguir com a obra da criação.

Muitos desses Espíritos mantêm suas moradias nas Planícies do Céu. Outros se foram de lá, ninguém sabe para onde. Antes, todos ordenaram ao mais jovem desses pares de espíritos governantes, Izanagi e Izanami, que consolidasse a Terra (que se encontrava à deriva feito óleo flutuante) dando à luz todas as ilhas do Império do Japão.

Izanagi e Izanami, no centro de uma ponte suspensa no ar do Céu, com uma sagrada lança, tanto agitaram as águas do oceano salgado, que estas se adensaram.

Suspensa a lança no ar, eis que dela cai a gota, que gera a primeira ilha, de nome Ono-Goro-Jima. Onde começa a história.

Izanagi e Izanami construíram, nessa ilha, uma vasta habitação e, no centro desse lar, no rumo do vasto Céu, um grande pilar de pedra, que é o eixo do mundo.

No mesmo instante, uma ave, pássaro abençoado, senhor dos prazeres do amor, sobrevoou o casal.

Izanagi e Izanami, plenamente apaixonados, perceberam, em seus corpos, suas doces diferenças. Concluíram que teriam de juntá-los com fervor, tornando-se um corpo só, para prosseguir com a obra da sagrada criação.

Movidos por grande amor, os dois giraram em torno do vasto eixo do mundo. Da esquerda para a direita foi o rumo de Izanagi. Da direita para a esquerda, o rumo de Izanami. Assim, caso se encontrassem, juntariam os seus corpos no prazer de ser um corpo.

Quando os dois se encontraram, Izanami exclamou:

- Oh! Que belo e encantador é o jovem que vem a mim!

Surpreendido, Izanagi respondeu a Izanami:

- Ah! Que bela e encantadora é a donzela que vejo e vou ao encontro dela!

Intrigado, Izanagi percebeu algo de errado:

- Não é justo que a mulher fale primeiro que o homem!

Contudo, não se importaram e entraram em comunhão. Trouxeram à luz da vida o primeiro de seus filhos, conhecido por Hiruko, repelente sanguessuga.

Entristecido, o casal abandonou esse filho em um barco, no alto-mar. Só muito tempo mais tarde, noutra era, com certeza, é que, já purificado, Hiruko tornou-se Ebisu, o Senhor dos Pescadores.

Izanagi e Izanami tiveram mais outros filhos, todos também perdidos. Bastante desconsolado, o casal foi se entender com os Senhores do Céu.

- Isso só acontece, quando, em vez do homem, a mulher fala primeiro! - foi o que os dois ouviram.

E de novo os dois giraram junto do eixo do mundo.

Desta vez, foi Izanagi quem primeiro falou. Depois, ouviu Izanami. E seus corpos se juntaram. Izanami deu à luz as ilhas do Japão.

Também geraram espíritos. Do mar, dos rios, das terras, das árvores, das montanhas, dos ventos e das chuvas, das estações do ano e de tudo mais que há.

No sentido do destino, Izanami trouxe à luz o espírito do fogo, o feroz Kagutsuchi, que, ao nascer, queimou a mãe. Quando morreu Izanami.

Com dor, desespero e lágrimas, Izanagi sepultou Izanami aos pés de um monte. E, sozinha, Izanami foi para o Reino das Trevas, para a Terra da Tristeza, onde, em meio à noite eterna, vivem todos os mortos.

Solitário e conturbado, com sua espada afiada, Izanagi, num só golpe, decepou Kagutsuchi.

Esse sangue derramado do espírito do fogo gerou oito divindades. De seu corpo retalhado, nasceram outros espíritos, tornando-se os governantes dos vulcões e das colinas que existem no Japão.

Vivo, com sua saudade, procurando Izanami, Izanagi viajou para a Terra da Tristeza.

E, lá, no Reino das Trevas, com um dente de seu pente transformado em tocha viva, ele iluminou as trilhas, que, aos gritos, percorreu:

- Volta, logo, meu amor! O mundo que nós criamos permanece inacabado! Eu preciso de você!

Izanami, escondida, ouvindo a voz do amante, retrucou em altos brados:

- Oh! Meu amado! É tarde, muito tarde, com certeza! Não sei se é possível voltar, agora, contigo, ainda que mais quisesse. Vou consultar os mortos para saber o que pode e o que não pode ser. Aguarde por mim um tanto, sem procurar me ver. Não se aproxime de mim! E não tente me encontrar!

Sem sossego, Izanagi não atendeu à amada. Partiu em busca da voz. Ao deparar-se com a morta, viu se corpo inteiro entregue à putrefação, sendo comido por vermes.

Recuou, com medo e susto. Viu a vergonha estampada na face de Izanami, que tratou de ameaçá-lo:

- Oh! Meu amante infeliz! Oh! Maldito Izanagi! Já que me vê assim, não posso mais ir daqui, nem deixar você partir!

No desejo de escapar dessa perversa ameaça, pôs-se a correr Izanagi.

No mesmo instante, Izanami gerou oito divindades, os Senhores do Trovão. Ordenou a estes filhos que, sem qualquer piedade, capturassem Izanagi.

Usando de artifício, Izanagi atirou, contra seus perseguidores, sua bela tiara, que se transformou em uvas. Os Senhores do Trovão pararam para comê-las, dando algum tempo à fuga. Logo, porém, prosseguiram com a dura perseguição.

Desta vez, o deus lançou seu precioso pente de numerosos dentes. Todos se transformaram em mil brotos de bambu, suculentos, saborosos, detendo seus inimigos os Senhores do Trovão, que estão sempre esfomeados.

Movida por grande fúria, Izanami enviou, contra seu antigo amado, um exército de sombras.

Empunhando sua espada, Izanagi se empenhou nesse confronto com a morte. Já se sentindo cercado pelos macabros soldados, com três pêssegos maduros, amuletos valiosos contra espíritos malignos, os fez recuar às pressas.

Eis que a própria Izanami foi em busca de Izanagi. Quase conseguiu detê-lo na Terra da Noite Eterna.

Rápido feito um cisne que voa em migração, Izanagi alcançou e atravessou a fronteira que separa o triste Reino das Trevas da Eternidade dos vastos cantos da vida. E bloqueou a passagem com um rochedo colossal.

Presa na terra dos mortos, Izanami advertiu, gritando para Izanagi:

- Por tudo o que aconteceu, hei de estrangular por dia mil pessoas em seu reino!

Ele não se comoveu:

- De nada adiantará! Pois hei de fazer nascer mais de mil vivos por dia, enfrentando sua fome de assassina dos homens! - retrucou para Izanami.

Terminava a madrugada junto do amanhecer. Em fonte de água limpa, perto de uma laranjeira, pôs-se o deus a se lavar, purificando o corpo. Quando limpou o nariz, fez nascer Susanowo, o Senhor dos oceanos, Limpando o olho direito gerou Tsuki-Yomi, Senhor do Reino da Lua. Ao lavar o olho esquerdo, trouxe ao mundo Amaterasu, plena Senhora do Sol e governante do Céu, que tece a luz e a vida para os deuses e os homens, protetora do Japão e avó do Imperador, conforme as lendas confirmam.

Nessa hora desse dia, floresceu a primavera, a primeira primavera, quando também floresceu a primeira cerejeira, bem aos pés do Fuji-Yama, o monte da vida eterna, reino de Sengen-Sama, Senhora do Sol Nascente.


Texto extraído do livro Histórias do Japão (Editora Peirópolis, 2004), do professor, jornalista, tradutor e escritor capixaba José Arrabal. Páginas 9 - 15.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://ukiyo-e.org/



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