sábado, 24 de outubro de 2015

Manaus nos anos 40 (I): A sociedade

Mais uma vez, em uma série de postagens sobre a História de Manaus, que comemora neste 24 de outubro 346 anos, o professor e historiador Aguinaldo Nascimento Figueiredo, “prata da casa”, nos brinda com mais um de seus artigos. Dessa vez, voltaremos aos anos 1940, quando Manaus, outra vez, sentiu o ânimo de um rápido crescimento econômico, entre 1942 e 1945, quando fez acordos com os Aliados durante a Segunda Grande Guerra. Este texto faz parte da obra inédita Manaus: História e Memória, que está com lançamento previsto para o final desse ano.

Por Aguinaldo Nascimento Figueiredo*


Vista aérea de Manaus em 1940. Acervo da revista americana LIFE.

Ao iniciar os anos 40, Manaus era um aglomerado urbano com uma população em torno de 100 mil habitantes, vivendo dias de desolado “Porto de Lenha”, segundo expressão popular da época, para se referir ao retrocesso que a cidade sofreu. A vida fluía sem muita pressa, num ritmo ditado pelas condições espaciais, econômicas e culturais de uma cidade do interior do Norte do país, com duas décadas de atraso e fortemente marcada por valores morais tradicionais católico-cristãos, forjados ao longo de sua mutante história.

Os limites territoriais da cidade alcançavam a Leste, os bairros de Educandos e Cachoeirinha, ao Norte a Vila Municipal (hoje Adrianópolis) e a Oeste o bairro de São Raimundo e Glória, considerados os subúrbios mais afastados. A rigor, a fronteira urbana compreendia o espaço delimitado entre esses bairros e o Centro histórico da cidade.

De acordo com dados colhidos no livro -“Evocação de Manaus: como eu a vi ou sonhei, do senador Jefferson Péres, publicado pela Editora Valer em 2002, o que era considerado Centro de Manaus se constituía pelo entorno compreendido entre a orla fluvial, a Rua Joaquim Nabuco, os igarapés da Cachoeirinha, do São Raimundo e o de Manaus, indo, no máximo, ao Boulevard Amazonas, onde se concentrava o coração e vida nervosa da cidade. Eram nesses espaços que funcionavam o comércio, as repartições públicas, os centros culturais, as diversões profanas, bem como era local de residência da maior parte da classe média, ocupando seus bangalôs, sobrados, alguns palacetes remanescentes da era da borracha e poucos prédios de apartamentos construídos no final dos anos 40.


O tradicional Colégio Santa Dorotéia, na Av. Joaquim Nabuco, em 1940. Acervo Manaus Sorriso.

Manaus era dividida em duas classes sociais bem distintas em relações aos seus interesses e propósitos - a classe dos pequeno-burgueses e a dos trabalhadores. O que poderia se chamar de burguesia em Manaus era um seleto grupo de comerciantes, geralmente lojistas, de origem árabe, judia, síria, libanesa e portuguesa, bem como dos herdeiros da “era do fausto”, a maioria dedicados ao comércio de armarinhos, tecidos importados, material de construções, móveis e secos e molhados, agrupados em torno da Associação Comercial do Amazonas, longe de se constituírem como uma classe social abastada, cuja convivência existencial e moral se confundiam com a própria classe média, por adotarem estilo de vida e valores semelhantes.

Com a decadência do látex, os grandes proprietários rurais não tinham maior expressão social, somente exercendo alguma influência na política local, graças à herança do mandonismo dos tempos áureos da borracha e pelo controle de uns poucos currais eleitorais no interior, poder esse, exercido em razão do peso do chicote dos seus obedientes capatazes administradores dos seringais sobreviventes e das fazendas extrativistas.

Quanto ao proletariado, este era um conjunto disperso de trabalhadores formais e informais labutando em fábricas e oficinas ou vivendo do subemprego nas mais diversas atividades fabris e de prestação de serviços. Longe de qualquer possibilidade de “consciência de classe”, esse proletariado não passava de uma massa amorfa, sem organização sindical.

A vida política, administrativa e cultural da cidade era comandada por indivíduos oriundos da classe média, constituída, essencialmente, por profissionais liberais, funcionários públicos, políticos e comerciantes que acabavam por se tornarem governadores, prefeitos, secretários de Estado, senadores, deputados, vereadores, dirigentes de órgãos de imprensa, de entidades literárias e de clubes importantes, por representarem a sociedade civil organizada e pelo papel que exerciam nela, carreando alguma influência pessoal ou ocupando postos de expressão na comunidade.


Parque Dez de Novembro, 1950. Bazarfoto.

Governava Manaus nesse momento o superintendente Antônio Maia, irmão do governador Álvaro Maia que se desdobrou no cargo para poder honrar os compromissos oficiais da pasta, tendo mérito de ter brindado a cidade com o complexo esportivo do Parque Dez de Novembro, uma belíssima paisagem recreativa e bucólica da cidade, que serviu de espaço de distração por décadas a população manauara e que foi destruída pelo desleixo e incompetência da ação pública e privada.





*Aguinaldo Nascimento Figueiredo é professor, escritor e historiador, autor dos livros História Geral do Amazonas (7 edições), Santa Luzia - História e Memória do povo do Emboca (2008) e Os Samurais das Selvas - A presença japonesa no Amazonas (2012).

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