segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Castas e Classes Sociais

Pirâmide do sistema capitalista.

Não existe, ao redor do mundo, uma sociedade sequer que não seja regida pelas classes sociais. Desde que passamos a nos organizar sob a tutela de membros mais fortes, intelectualmente superiores, individualizar-se e criar organismos políticos como o Estado, estamos dentro dessas estruturas. Nobres, camponeses, burgueses, proletários etc, são alguns exemplos que a História nos dá. As Classes sociais são estruturas não oficializadas ou registradas por escrito, mas que possuem peso considerável na vida em grupo. Outra estrutura, presente há milênios na vida dos indianos e de alguns povos da África e do Oriente Médio, são as Castas. Levando em conta aspectos religiosos e culturais, essa estrutura é oficializada e registrada por escrito. Utilizando o livro do especialista em lógica, sociólogo e filósofo francês Edmond Goblot (1858-1935), A barreira e o nível: retrato da burguesia francesa na passagem do século (Papirus, 1989) e outras fontes, irei tecer uma breve análise entre essas duas estruturas.

Apesar de não ser uma instituição, alguns países adotam divisões para incluir as pessoas em determinada camada da Classe Social: Classe Alta, Média e Baixa. Temos a classe A, formada por pessoas de alto poder aquisitivo, detentores de capital e dos modos de produção, e também de influência no cenário político. A classe B é um "meio termo", formada por pessoas de renda considerável, que permite a manutenção de um bom padrão de vida. A classe C, ou classe baixa, é formada por trabalhadores, dependentes de sua força de trabalho, que vendem em troca do salário. Os componentes desses estratos se diferenciam por sua renda, prestígio, profissão e costumes.

As Castas, mundialmente conhecidas por nós como a estrutura social da Índia, é uma instituição oficial, registrada com base em preceitos da religião Hinduísta. No hino religioso Rig Veda, as castas teriam surgido do corpo do deus Purusha: Brâmanes (cabeça); Xátrias (braços); Vaixás (pernas); e Sudras (pés). Na última escala, abaixo dos pés de Purusha, estão os Párias. Os Párias ou Intocáveis são considerados seres impuros, incumbidos da realização de trabalhos pesados e degradantes. Esses são os principais estratos da sociedade indiana que possui, ao todo, mais de 2 mil castas.


As quatro principais castas indianas em volta do deus Ganesha.

Segundo Goblot (p. 11), uma casta é algo fechado: nela se nasce, nela se morre; salvo raras exceções, nela ninguém entra, dela ninguém sai. Uma classe é algo aberto [...] No mundo Ocidental, o membro de uma classe baixa pode ascender para a classe média, assim como o membro da classe média pode passar a frequentar a classe baixa. Isso se chama mobilidade social. Digamos que, atualmente, eu seja parte integrante da classe baixa. Amanhã, ao ganhar na loteria, poderia ascender para a Classe Média ou Alta. Mas, em contrapartida, uma fortuna adquirida em pouco tempo provoca no homem o desejo de viver de forma burguesa, mas sua educação é um obstáculo: maneira "do povo", "vulgaridades" o traem; ele comete enganos e gafes, fala errado (p. 15).

Nas classes sociais temos liberdade na hora escolher nossas profissões, que são divididas entre trabalho intelectual e trabalho manual. Pessoas que trabalharam arduamente em trabalhos pesados, podem atingir os mais altos patamares de uma classe social, assim como os que desempenham um trabalho intelectual também. Ou a realidade pode ser outra, com a permanência em sua posição. A liberdade de escolha é uma marca da sociedade ocidental e de outros países. Nas castas, cada camada está relacionada à uma função dentro da sociedade: Brâmanes (sacerdotes e brâmanes); Xátrias (membros da elite militar); Vaixás (comerciantes e artesãos); e Sudras (trabalhadores servis). Por último, os Párias nascem para cuidar dos trabalhos considerados repugnantes, como a limpeza de ruas, esgotos, contato com cadáveres, etc. Por mais que se esforce, um membro de uma casta baixa jamais irá atingir outro patamar social, pois a institucionalização dessa estrutura impede que isso ocorra.

Em síntese, percebemos profundas diferenças entre as Classes Sociais e as Castas. As classes sociais são abertas, permitindo a transição de membros entre suas diferentes estruturas. Nas Castas, se nasce em uma posição e nela se permanece até morrer. Nossas classes não existem oficialmente, mas sim por meio dos costumes. As Castas, por meio da religião hindu, são registradas oficialmente, influenciando mais rigidamente a vida em sociedade que as classes ocidentais. Fruto de milênios de relações sociais, as duas estruturas sociais servem para fixar cada indivíduo em seu "papel", seja como detentor do capital, a pessoa que usufrui dessas rendas de forma intermediária ou como vendedor da força de trabalho.


FONTES: GOBLOT, Edmond. A barreira e o nível: retrato da burguesia francesa na passagem do século. Campinas, Papirus Editora, 1989.

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia. São Paulo, Editora Ática, 2011.


CRÉDITO DAS IMAGENS: commons.wikimedia.org
                                     mktfocus.blogspot.com





2 comentários:

  1. Embora o sistema de castas não seja permeável eles nada têm a ver com status econômico. Pode-se ser rico, pobre ou remediado, em qualquer casta pois elas estão mais relacionadas com herança profissional ou se os seus ancestrais venceram ou foram derrotados em uma guerra.As classes da península Ibérica após a derrocada do Império Romano foram: nobreza e cavaleiros, composta pelos chefes germânicos, cavaleiros vilões, pela decaída nobreza romana, que permaneceu dona de terras, mas sem direito a títulos de nobreza, o clero e os servos da gleba,os primitivos habitantes das terras conquistadas (celtíberos;mouros) e burgueses, os profissionais liberais formados pelas universidades e judeus. Loureiro

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  2. Muito bem lembrado, dr. Loureiro. Existem na Índia Brâmanes que não vivem muito bem, assim como alguns casos raros de Párias que conseguiram enriquecer.

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