domingo, 13 de dezembro de 2015

Algumas características da Historiografia Cristã Tardia

Eusébio, bispo de Cesareia, pioneiro na história da Igreja Cristã.

A Historiografia do Mundo Clássico, ou Historiografia Pagã, e a Historiografia Cristã, entram em ruptura, guardando-se, no entanto, o latim, já com algumas mudanças, como língua utilizada para a produção escrita. Desde a conversão do imperador Constantino ao Cristianismo, em 312, e ao consequente fim das perseguições a essa religião, uma nova historiografia viria para suplantar a do mundo clássico.

Os historiadores cristãos "ignoravam" os autores clássicos, com algumas exceções, como Salústio, que trazia em sua obra a retórica moralizante; e Suetônio, como modelo para a produção de biografias. Em síntese, as obras clássicas serviam como fonte de anedotas, utilizadas como exemplos morais, adaptadas para milagres cristãos, largamente utilizados nessa nova historiografia.

Para os historiadores cristãos, era necessário inserir a história universal na perspectiva religiosa, a cristã. Para isso foi criada uma cronologia capaz de englobar, sob o relato bíblico, a história dos povos do Oriente Próximo e greco-romanos, a relação dos soberanos assírios ou egípcios, a periodização grega por olimpíadas ou a série dos magistrados romanos. O pioneiro nessa tarefa foi Eusébio, bispo de Cesareia, grego da palestina, autor da História Eclesiástica, primeira sobre a Igreja Cristã, que cobre o período que vai de Jesus Cristo a Constantino.

A Historiografia Cristã não busca a explicações para os fenômenos históricos na sociedade, nas causas naturais ou nas ações do indivíduos, mas em um determinismo divino, que já possui planejado o curso da História. Essa concepção de busca histórica era baseada na História desenvolvida por Santo Agostinho, em A Cidade de Deus e Confissões, onde contrasta a eternidade de Deus com o tempo. As ideias de Santo Agostinho entrariam na historiografia através de seu discípulo, Orósio, autor de Histórias contra os pagãos, livro no qual argumentava que a história era a ação da vontade de Deus na terra, com a premiação das virtudes e o castigo aos vícios, e, finalmente, o Juízo Final.

A veracidade dos fatos relatados pelos autores cristãos era um tema secundário, importando, de fato, o discurso moral e religioso. A história, para eles, servia não para compreender o mundo, mas sim como um preparo para o futuro que, segundo os planos divinos, terminaria com o Juízo Final. É linearidade histórica, com um início e fim determinados.

Voltando à cronologia, temos uma preocupação com a prática litúrgica, principalmente no que diz respeito à fixação de uma data para a comemoração da Páscoa, que daria início a outras festividades religiosas. Isso era um problema, pois, como foi dito, ainda existiam no mundo cristão sistemas de computo temporais oriundos do paganismo. Uma nova datação foi feita pelo abade Dionísio, que, analisando algumas tabelas da Páscoa, fixou como origem da era cristã o ano de 754 da fundação de Roma.

Nas tabelas pascais dos mosteiros, os monges começaram a anotar os acontecimentos mais importantes do ano, como tempestades, colheitas, mortes de pessoas importantes, fenômenos astronômicos; e também foram responsáveis por uma marcação mais exata das horas do dia. Nos séculos VI e IX, surgiriam no mundo bárbaro alguns historiadores cristãos. Entre os bárbaros destaca-se, por exemplo, Beda, o Venerável, monge da Britânia que, diferente de outros autores da época, não realizou uma história universal, mas sim uma História Eclesiástica da Inglaterra.

Portanto, podemos destacar como principais pontos da historiografia cristã: Rejeição pelos autores clássicos, aproveitando-se apenas destes alguns ensinamentos morais ou estilo literário; a História universal era vista e estudada sob a perspectiva bíblica; História com início e fim divinamente determinados; preocupação com os ensinamentos morais e religiosos, estando a veracidade dos fatos em plano secundário; e Cronologia ligada à liturgia.


FONTES:


FONTANA, Josep. A História dos Homens. Bauru, SP, EDUSC. Tradução de Heloísa Jochims Reichel e Marcelo Fernando da Costa, 2004.


CRÉDITO DA IMAGEM:


commons.wikimedia.org




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