sábado, 16 de janeiro de 2016

A Filosofia Medieval e o Cristianismo - Patrística e Escolástica

Santo Agostinho de Hipona e Santo Tomás de Aquino, as duas principais figuras do pensamento medieval.

A Igreja Católica, desde suas origens mais remotas, sobreviveu à eventos como invasões bárbaras e a queda do Império Romano, em 476 d. C.  Esta conseguiu. em meio às incursões estrangeiras, manter sua unidade política e religiosa, só que agora transformada na instituição mais importante de uma nova era que começara a surgir: a Idade Média (476-1453). O poder da Igreja era tanto que esta, só para termos uma noção, conseguia acabar com discussões entre dinastias de diferentes reinos.

Além de ser uma poderosa instituição política e religiosa, a ICAR também dominava o panorama cultural do medievo. Foram nas Igrejas e mosteiros, graças aos copistas, que obras da antiguidade greco-romana chegaram até nós: Heródoto, Tucídides, Platão e Aristóteles. Além de possuir o conhecimento clássico, a Igreja, obviamente, influenciava a produção cultural através das revelações divinas, expressas nas Sagradas Escrituras.

O pensamento medieval, dominado fortemente pelo Cristianismo, este difundido pela autoridade que emanava dos Estados Papais, estabelecia que a fé era a fonte essencial de verdades para o homem. As produções científicas e filosóficas, em hipótese alguma, poderiam questionar as revelações baseadas na doutrina cristã. A busca pela verdade parecia ter acabada, pois o plano divino seria algo óbvio, restando assim apenas a demonstração racional das verdades da fé. Alguns pensadores da época ignoravam os ensinamentos da filosofia greco-romana, vista por eles como uma fonte de paganismo. Outros, no entanto, conciliavam esse conhecimento com a fé cristã.

A Filosofia da Idade Média pode ser dividida em quatros fases: Primeiro, é necessária uma inspiração. Esta veio através dos escritos dos Apóstolos, difusores dos ensinamentos de Jesus Cristo. As Epístolas de São Paulo, cartas destinadas às comunidades cristãs, e os Evangelhos, escritos sobre a vida de Jesus, seriam a base do início dos questionamentos cristãos dos séculos seguintes; Estando o Cristianismo em processo de reconhecimento como religião oficial do Império Romano, surgem os Apologistas, defensores da doutrina cristã. Entre eles destacam-se Orígenes de Alexandria, Justino, Tertuliano e Atanásio de Alexandria; as duas últimas fases são a Patrística e a Escolástica. A Patrística, que recebe esse nome por ter se originado através dos escritos dos Patriarcas da Igreja, tenta conciliar a fé cristã com a filosofia neoplatônica. O nome mais destacado desse pensamento é Santo Agostinho de Hipona. A Escolástica, representada pela figura de Santo Tomás de Aquino, interpreta o pensamento cristão sob a ótica da filosofia de Aristóteles.

O pensamento patrístico domina a Idade Média entre os séculos I e VII, quando seus Patriarcas criam os moldes do pensamento cristão: liturgia, defesas da fé, costumes e pensamento. Além de criar um "panorama" para os rumos da Igreja Católica, os Patrísticos também eram apologistas, isto é, defendiam a Sagrada Igreja Católica contra os pagãos e os hereges. Os patrísticos tentavam conciliar a fé cristã com razão, principalmente através da Filosofia Neoplatônica, na qual os homens, em uma crise existencial, buscavam um sentido para a vida. Da obra de Santo Agostinho (354-430) retiramos conceitos como a supremacia do espírito sobre o corpo, onde a alma, segundo Agostinho, teria sido criada por Deus para reinar sobre o corpo; predestinação, conceito famoso mais tarde entre os protestantes, segundo o qual a graça divina é destinada à um certo número de pessoas; e a liberdade humana, fruto de nossa vontade, algo que vem antes da razão e que determina a vida.

A Filosofia Escolástica surge no seio das escolas e universidades católicas erguidas durante o reinado de Carlos Magno. Nessas instituições, que ensinavam as artes técnicas e liberais, que podem ser vistas no texto As Universidades Ocidentais, os conhecimentos do mundo greco-romano, guardados por séculos em mosteiros, passaram a ser divulgados, causando uma grande revolução cultural. Vale lembrar que todos os outros conhecimentos, o Direito, as Artes, a Retórica e a História, estavam subordinados à Teologia. Inicialmente, a Filosofia Escolástica trará os ideais do pensamento Neoplatônico, recebendo, no século XIII, influências do pensamento de Aristóteles. Santo Agostinho tinha uma maior predileção pela fé em detrimento da razão, enquanto Santo Tomás de Aquino, principal nome da Escolástica, acredita que a razão é um meio para se explicar as revelações divinas. Da obra de Tomás de Aquino retiramos os princípios básicos, que são: 

-Princípio de contradição: o ser é e não é. Não existe nada que possa ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista.

-Princípio da substância: na existência dos seres podemos distinguir a substância ( a essência propriamente dita) e o acidente (a qualidade não-essencial, acessória do ser).

-Princípio da causa eficiente: todos os seres que captamos pelos sentidos são seres contingentes, isto é, não possuem, em si próprios, a causa eficiente. Portanto, para existir, o ser contingente depende de um outro ser que representa a sua causa eficiente: este outro ser é chamado de ser necessário.

-Princípio da finalidade: todo ser contingente existe em função de uma finalidade, de um objetivo, de uma razão de ser. Enfim, todo ser contingente possui uma causa final.

-Princípio do ato e da potência: todo ser contingente possui duas dimensões – o ato e a potência. O ato representa a existência atual do ser, aquilo que está realizado e determinado. A potência representa a capacidade real do ser, aquilo que não se realizou mas pode realizar-se. É a passagem da potência para o ato que explica toda e qualquer mudança (COTRIM, GILBERTO. Fundamentos da Filosofia - História e grandes temas. São Paulo, Saraiva, 2006. p - 117-118).


A existência de Deus, um dos maiores problemas existências dos pensadores cristãos da época, fora debatida por Aquino, que apresentou em sua extensa obra Suma Teológica (1265, 1273) provas da existência dessa divindade. Vou tentar aqui sintetizar os argumentos desse autor: tudo que existe é movido por um ser anterior, e esse ser anterior é movido por outro. Para não ficarmos preso nessa "causa e ação" é necessário admitir que sempre existiu um primeiro ser movente (Deus). Todas as coisas que existem precisam de uma causa, e essas são causas de outras. Uma causa primordial é necessária para a existência das outras. O que existe pode deixar de existir e, um dia, nada existiu. Mas se nada existiu, o agora também não o seria. É preciso que exista algo atemporal, nesse caso, Deus. Colocamos graus de beleza, bondade e poder nas coisas. Um é mais, outro é menos. Se existem graus, existe um perfeito, que o divino. Na natureza existem organismos desprovidos de inteligência, mas que possuem funções cruciais para o ordenamento das coisas. Por trás disso existe um arquiteto, que estabelece suas funções. Esse arquiteto é Deus.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

cultura.culturamix.com
cleofas.com.br

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