quarta-feira, 16 de março de 2016

Primeira Guerra Mundial I - A Europa e o Mundo antes do conflito

Mapa mostrando a Europa dividida entre a Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Áustria-Hungria) e a Tríplice Entente (França, Rússia e Grã-Bretanha). Em outras cores estão Sérvia e Montenegro como aliados da Rússia e os países que ficaram neutros.

Geralmente, nas aulas de História do ensino médio, aprendemos o desenrolar desse conflito a partir do recorte histórico de 1914 a 1918. Muito antes do assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, a Europa e suas colônias estavam a prestes a “explodir” por uma série de causas, que vão desde ressentimentos de guerras do século 19, acordos políticos e comerciais quebrados e alianças formadas na surdina.

A Europa, de 1830 a 1914, parece assegurar a sua posição de conquistadora do mundo, anexando territórios da África, Ásia, Oceania e dominando culturalmente ou politicamente a América Central e do Sul. Foram nesses dois primeiros continentes que as potências europeias encontraram suas principais fontes de riqueza. A Inglaterra inaugurou esse novo capítulo do neocolonialismo após iniciar a exploração e anexação de territórios na África e no Extremo Oriente. Logo mais vieram franceses, espanhóis, belgas, alemães, japoneses e norte-americanos ávidos por terras para expandir seus negócios.

Essas potências investiram pesado em suas novas possessões. Para facilitar a extração de ferro, carvão, petróleo e outras matérias-primas energéticas, foram construídas estradas e ferrovias. Nesses territórios também interessavam o número de mãos de obra e potenciais mercados consumidores dos produtos industrializados europeus. O pacto colonial, onde a colônia só comercializava com sua metrópole, dá lugar ao liberalismo econômico e a um intenso comércio entre esses locais.

O Império Francês e o Reino da Prússia travaram uma sangrenta batalha de 1870 a 1871, no que ficou conhecido como Guerra Franco-Prussiana. Inimigo histórico da França, o Reino da Prússia tinha pretensões de unificar seus territórios, e via a França como um obstáculo ao anexar o sul da Alemanha. A Espanha, após a Revolução de 1868, estava sem um monarca. A Prússia sugeriu que o trono espanhol fosse assumido por um príncipe alemão. As autoridades francesas tão rápido quanto a indicação mostraram sua indignação. Em 1870, após o chanceler alemão Otto von Bismarck manipular a correspondência de paz entre Napoleão III e Guilherme I da Prússia, insultando a nação francesa, tem início a guerra, que termina em 1871 com a vitória prussiana e a unificação da Alemanha. A França pagou uma grande indenização aos alemães e entregou as regiões de Alsácia e parte da Lorena.

Um dos mais emblemáticos momentos desses expansionismo europeu e norte-americano foi a Conferência de Berlim, convocada pelo chanceler Otto von Bismarck e realizada entre 1884 e 1885. Com quase todo o território africano conquistado, as potências viram que se fazia necessário um acordo para evitar atritos em relação as fronteiras. Além de repartir a África, também foram negociados entre os convidados as partes que mais valiam para seus países.

Convencionou-se chamar Belle Époque o período marcado pelo apogeu das indústrias e das artes na Europa, nos Estados Unidos e em outros países entre 1870 e 1914. Os burgueses, que apoiaram grandemente seus países nessas conquistas, agora desfrutavam dos lucros obtidos. O Brasil, por exemplo, que não participava dessas anexações, se valia da ascensão industrial exportando matérias-primas como o café, apreciado por ingleses e americanos, e a borracha, largamente utilizada nas indústrias europeias e americanas. O Japão, sob a administração de Mutsuhito Tenno, se modernizou em poucos anos, competindo industrialmente com qualquer outra nação do Velho Mundo ou da América do Norte.

Nas colônias e protetorados, a insatisfação dos povos nativos ou colonos de outras nações estabelecidos a séculos nesses locais se mostrou violenta. No território que futuramente seria a África do Sul, a descoberta de diamantes (1870) fez a Inglaterra anexar as regiões diamantíferas, boa parte delas em poder dos boers, descendentes de colonos holandeses, alemães e franceses. Em 1871 é anexado o distrito de Kimberley; e em 1877 a região do Transvaal. Em represália a anexação, os boers atacaram um comboio militar britânico em 1880. Os ingleses declararam guerra aos boers, e de forma impressionante, foram derrotados e se viram obrigados a reconhecer a independência do Transvaal e Orange. De 1899 a 1902, ingleses e boers se enfrentaram novamente, dessa vez os primeiros saindo vitoriosos e anexando por definitivo o Transvaal e Orange e criando a República Sul-Africana.

Outros países encontram resistência na África. A França suprimiu rebeliões na Argélia; e nem só contra os nativos as potências tinham desconfianças, a exemplo da Inglaterra que, desde 1869, com a abertura do Canal de Suez e o aumento da influência francesa no Egito, tentava se apoderar dessa parte do Norte da África; a Itália enfrenta a Etiópia de Menelik II, que com uma tropa mais de 100.000 homens derrota os italianos nas batalhas de Amba-Alaghi, em 1895 e Adwa, em 1896. Já do outro lado do mundo, a China, a Coréia e o Sudeste asiático eram disputados como um pedaço de carne por vários cães: russos, ingleses, franceses e japoneses disputavam o controle desses mercados, valiosos por seus produtos exóticos e mão de obra em abundância. O Japão realiza um feito incrível ao derrotar a Rússia em 1905 na guerra Russo-Japonesa, recebendo do país derrotado a península chinesa de Liaodong e parte da ilha de Sacalina.

A vitória japonesa foi um duro golpe no czarismo russo, que começava a se enfraquecer. Em uma manifestação na cidade de Petrogrado, durante a guerra com o Japão, o governo russo foi responsável pela morte de mais de 1000 operários. Governos revolucionários estavam sempre a espreita de qualquer sinal de crise para tentar implantar um novo regime.

As alianças que vemos com frequência já no clímax da guerra se formaram décadas antes do conflito: Em 1882, Itália, Alemanha e Áustria-Hungria formaram a Tríplice Aliança; e entre 1904 e 1907 é formada a Tríplice Entente, aliança entre França, Grã-Bretanha e Rússia. No caso da Aliança, a Alemanha, grande articuladora do projeto, tinha o plano de isolar politicamente a França. Os germânicos também interviram em possessões francesas na África, como foi o caso do Marrocos. Esses ataques visavam enfraquecer a aliança anglo-francesa, o que se concretizou, com o fim dela, sob a afirmação de que a Inglaterra não teria condições de proteger a França de um ataque alemão.

Por causa da derrota para o Japão e das revoluções internas o Império Russo estava enfraquecido. Aproveitando-se dessa situação, a Áustria-Hungria decide anexar a Bósnia Herzegovina ao seu império. A Sérvia e a Rússia protestam, mas com o apoio alemão aos austro-húngaros, decidem não intervir. Alemanha e Áustria Hungria se tornaram temidas pelas outras nações europeias, que deram início a famosa Corrida Armamentista. A Alemanha criou um programa de fundeamento de navios de guerra, chegando a ultrapassar a poderosa esquadra inglesa, que ficou temerosa frente ao aumento dos contingentes alemães. A Inglaterra tentou barrar a produção naval alemã, mas o país exigiu dos ingleses que, para isso ocorrer, eles tinham que assinar um tratado de não agressão e neutralidade. Os ingleses rejeitaram essa proposta e a Alemanha continuou fortalecendo sua força naval.

Os Bálcãs foi o palco dos principais confrontos que viriam concretizar a ideia de uma guerra cada vez mais impossível de ser evitada. O Império Otomano estava prestes a desabar, pois enfrentava a independência de suas possessões. A Rússia, vendo a possibilidade de restaurar seu prestígio político-militar na região. De 1912 a 1913, entraram em guerra a Sérvia, Montenegro, Grécia, Romênia e Bulgária(Liga Balcânica) contra a Turquia (Representante do Império Otomano). Descontente com os “ganhos” da primeira guerra Balcânica, a Bulgária ataca seus antigos aliados, dando início à Segunda Guerra dos Bálcãs. Terminado esse conflito em 1913, a Bulgária, que já estava insatisfeita, viu seu território e ganhos de guerra serem diminuídos. Com essa vitória, a Sérvia adquiriu a região Norte da Macedônia, ganhando status de potência regional.

Agora chegamos à faísca desse conflito mundial que consumiu um grande de vidas, somas de dinheiro e devastou cidades e economias, fazendo o mundo repensar a sua forma de agir. Em 28 de junho de 1914, um jovem sérvio chamado Gavrilo Princip, ligado ao grupo terrorista A Mão Negra, matou o Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro da Áustria-Hungria e sua esposa, Sofia Chotek. A Áustria-Hungria, com o apoio alemão, declarou guerra à Servia em 28 de julho. A Rússia, já recuperada dos problemas internos e externos, declarou apoio a Sérvia, entrando em choque com a Áustria-Hungria. Em 1° de outubro foi a vez da Alemanha declarar guerra à Rússia. No dia 4, a Inglaterra entra em apoio aos russos. Permaneceram neutros Itália, Espanha, Dinamarca, Suécia, Suíça, Holanda, Liechtenstein, Noruega e Luxemburgo.

Portanto, após esse breve panorama da Europa e do mundo desde a segunda metade do século XIX, podemos compreender como estava cada vez mais próxima uma guerra entre essas nações, que brigavam incessantemente para garantir sua hegemonia no cenário internacional. O Imperialismo na África e na Ásia; alianças formadas e desfeitas em questão de segundos, dependendo dos ganhos obtidos; e uma política armamentista são as principais causas apontadas por historiadores para a eclosão do conflito. A morte do Arquiduque apenas fez o copo “transbordar”.


CRÉDITO DA IMAGEM:

historiandonanet07.wordpress.com



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