quarta-feira, 27 de abril de 2016

Quando o Império Romano se torna Cristão

Por Pierre Maraval, historiador das religiões, especialista em Cristianismo Antigo, Antiguidade Tardia e professor emérito da Université Paris-Sorbonne.

A Visão da Cruz. Afresco de Rafael Sanzio, 1520-1524.

De Constantino a Teodósio
Da conversão do Imperador
à conversão do Império

Como muitos outros não-cristãos da sua época, o imperador Constantino parece ter sido, a princípio, simplesmente monoteísta, crendo num Deus criador supremo, conhecido por diferentes nomes e adorado de diversas maneiras. Assim, o Sol invictus aparece nas moedas depois de 308; só progressivamente é que ele virá a formular de maneira explícita, em textos provenientes da sua pena, sua adesão ao cristianismo. Não há por que contestar sua sinceridade, como fizeram vários historiadores, ainda que essa adesão lhe permita identificar-se como um instrumento escolhido pessoalmente por Deus e que essa relação pessoal adquira um alcance político: estava-se então num mundo em que pagãos e cristãos consideravam o imperador um indivíduo religiosamente marcado. Não se deve, de resto, imaginar uma conversão súbita, mas antes uma evolução, um despertar gradual: o próprio Eusébio de Cesareia, seu biógrafo, diz que o imperador recebeu várias vezes sinais de Deus.

Resulta em todo caso que, quando volta a Roma após a batalha da ponte Mílvio (312), Constantino encontra o denominador comum que garantirá tanto a unidade do seu Império - o reconhecimento de um Deus único -, como sua própria legitimidade, que ele faz proceder de uma missão pessoal recebida de Deus. Isso não o leva a uma atitude intolerante em matéria de religião. O "edito de Milão", de 313, exprime ao mesmo tempo a ideia de que a segurança do Império é assegurada pelo Deus supremo (e não mais pelos deuses da tetrarquia, Júpiter e Hércules) e o reconhecimento oficial do fato de que a religião não pode ser forçada. Constantino dá testemunho de uma política de consenso à qual cristãos e pagãos podem aderir, de um fundamento comum unitário: o monoteísmo, um monoteísmo que tolera as diferenças religiosas e rejeita a coerção. Pondo fim à Grande Perseguição lançada em 303 por Diocleciano, que fracassou em sua tentativa de erradicar o Cristianismo, Constantino tem em vista, portanto, conquistar os cristãos, incorporá-los ao Império e à sua política tradicional.

O caso é que, bem cedo, ele vai favorecer de forma manifesta a Igreja: doações de dinheiro, de terrenos, de palácios, financiamento de basílicas em Roma e em Jerusalém. Com isso, os bispos requerem que ele se envolva em seus assuntos internos e se, num primeiro, procura resolver os conflitos entre eles de maneira consensual, as resistências encontradas logo o levam a tomar medidas severas contra os dissidentes: donatistas e, mais tarde, arianos. Em compensação, em relação à religião tradicional, conserva uma atitude de tolerância (conquanto um pouco desdenhosa), contentando-se em proibir algumas práticas já recusadas por um paganismo esclarecido (os sacrifícios sangrentos, a magia, a adivinhação privada). Se não pôde conter os bispos e suas ásperas desavenças teológicas, soube, porém, durante seu reinado, neutralizar um cristianismo militante antipagão.

Os sucessores cristãos de Constantino (em particular Constâncio II, Valêncio e Teodósio) continuam a intervir nos assuntos da Igreja. Para tanto, podem se apoiar na teologia política elaborada por Eusébio de Cesareia em seus derradeiros escritos, em particular no Discurso para os trinta anos de reinado e na Vida de Constantino: se autor apresenta, neles, o modelo de um basileus cristão, posto à frente de um Império também cristão. Isso implica que ele "submeta os inimigos da verdade", proclame "as leis da verdadeira piedade" para todos, cuide de assegura  a salvação de todos. Investidos dessa missão de proteção, se não de vigilância, os imperadores cristãos, ao longo de toda a crise ariana, sustentam ou impõem fórmulas de fé diversas, concedendo seus favores aos que as aceitam, mas perseguindo os que as rejeitam (os dissidentes, sobretudo bispos, são depostos e banidos - é o caso de Atanásio de Alexandria e de Hilário de Poitiers). Ao cabo de cinquenta anos de controvérsias, a ascensão ao poder de Teodósio I (379-395) assinala o retorno definitivo à "ortodoxia". Definida no Concílio de Niceia de 325 e reafirmada no Concílio de Constantinopla de 381, recebe o apoio do imperador, que faz dela uma lei válida para todos. Uma série de leis, cada vez mais repressivas, restringem a liberdade de expressão e de culto de todos os dissidentes da ortodoxia, tidos como heréticos e perseguidos como tais.

Mas, entre os deveres do imperador, Eusébio incluía também o de combater o "erro ateu", o paganismo. Por isso, paralelamente às medidas de repressão das dissidências cristãs, os sucessores de Constantino tomam outras que vão restringir, depois proibir, a liberdade do culto pagão. Os filhos de Constantino são os primeiros a atacá-lo. Uma lei de Constante, de 341, declara: "Cesse a superstição, seja abolida a loucura dos sacrifícios." Ainda não se trata, porém, ao que parece, de uma proibição absoluta de todos os cultos pagãos já autorizados, mas de uma simples renovação das restrições impostas por Constantino. De fato, uma lei sua proíbe que se destruam templos, tolerados, "embora toda superstição deva ser totalmente destruída". Constâncio II vai mais longe, por motivos entre os quais parece ter estado a política: no período que vai de 353 a 357, depois da derrota do usurpador Magnêncio, que havia autorizado novamente os sacrifícios noturnos, várias leis ordenam o fechamento dos templos e tentam proibir totalmente o culto pagão: quem ousar sacrificar é ameaçado de ser "golpeado por um gládio vingador" e de confisco dos bens; a adoração de estátuas é proibida sob pena de morte. No entanto, essas medidas só foram parcialmente aplicadas. A política religiosa dos dois irmãos não resulta portanto na repressão sistemática do paganismo, mas somente num acentuado desfavorecimento.

O imperador Juliano, que nascera cristão mas voltara à religião tradicional, abole aquelas medidas e tenta reavivar esta; todavia, seu curto reinado (361-363) não lhe permite levar a cabo essa empreitada. Sua lei escolar, logo abolida por seu sucessor Joviano, havia tentado proibir que os professores cristãos difundissem a herança da cultura clássica, tida como um bem do paganismo. A política dos sucessores de Valenciniano e Valêncio é, no entanto, relativamente tolerante com este. Uma das suas principais leis, renovada em 370, declara manter a liberdade de culto. Mas, no final do seu reinado, Valêncio proíbe de novo os sacrifícios sangrentos.

A política religiosa de Graciano e Teodósio I - depois, com a morte do seu associado, deste último somente - adotará medidas muito mais decisivas, que acabarão pondo o paganismo fora da lei. Quando da sua ascensão ao poder, Teodósio rejeita o título e o manto de Pontifex maximus, e logo em seguida Graciano renuncia a ele. Os cristãos que voltam ao paganismo são objeto de vários editos, perdendo desde 381 o direito de fazer testamentos. Essa lei é renovada em 383: aplicando-se estritamente aos cristãos batizados que abandonam sua fé, considerados "excluídos do direito romano", ela deixa aos que foram apenas catecúmenos o direito de testar em benefício da família. Será endurecida por Teodósio em 391, a pretexto de que o abandono da comunhão cristã equivale a "apartar-se do resto dos homens". Por outro lado, velhas interdições visando as práticas religiosas tradicionais são renovadas: em 381 e 382, os sacrifícios sangrentos são proscritos, sob pena de deportação; em 385, as práticas de adivinhação, sob pena de morte. Os dois imperadores também vão investir contra as próprias instituições do culto pagão. No outono de 382, Graciano manda tirar do Senado a estátua e o altar da Vitória, depois suprime as imunidades das Vestais e dos sacerdotes pagãos, confisca seus rendimentos e subvenções; Teodósio ordena o fechamento dos templos: só podem permanecer abertos, com fins unicamente culturais ou para a realização de assembleias públicas, os que contêm obras de arte. Vários templos, em 384, são fechados ou demolidos.

Mas é uma série de leis emitidas de 391 a 394 que culmina essa investida, vedando qualquer manifestação do culto pagão: a lei de 24 de fevereiro de 391, proíbe-a para Roma; a de 16 de junho, para o Egito; a de 8 de novembro de 392, para todo o Império. Todos os sacrifícios, inclusive os modestos sacrifícios do culto doméstico, são desautorizados, seja em público, seja em particular, seja qual for o nível social, sob pena de multas pesadíssimas e até de punições mais graves. Essa lei é que faz do cristianismo a religião do Império, já que a religião tradicional perdeu todo direito legal de se exprimir: com Teodósio (e não com Constantino, como às vezes se diz), o Império Romano tornou-se oficialmente cristão.

FONTE:

MARAVAL, Pierre. Quando o Império Romano se torna cristão. In: CORBIN, Alain - (org.). História do Cristianismo. São Paulo, Martins Fontes, 2012.


CRÉDITO DA IMAGEM:

cleofas.com.br

terça-feira, 26 de abril de 2016

As obras de Santo Agostinho

Santo Agostinho. Pintura de Philippe de Champaigne, 1645-50.

Santo Agostinho de Hipona (354-430) é considerado um dos principais nomes do pensamento Ocidental e o principal representante da Filosofia Patrística, criada nos primeiros séculos da Igreja Católica. O pensamento patrístico dominou parte da Antiguidade, do século I ao IV; e da Idade Média, entre os séculos V e VII, quando seus Patriarcas criaram os moldes do pensamento cristão: a liturgia, as defesas da fé, os costumes e o pensamento. Além de criar um "panorama" para os rumos da Igreja Católica, os Patrísticos também eram apologistas, isto é, defendiam a Sagrada Igreja Católica contra os pagãos e os hereges. Os patrísticos tentavam conciliar a fé cristã com razão, principalmente através da Filosofia Neoplatônica, na qual os homens, em uma crise existencial, buscavam um sentido para a vida.

Agostinho se converteu ao catolicismo em 386, e foi através dessa religião que produziu uma vasta obra filosófica, cujos conteúdos são até hoje objeto de admiração e de estudos das mais diversas áreas Humanas. As principais obras do bispo da cidade de Hipona e santo da Igreja são, em ordem cronológica: Contra os acadêmicos (386); Solilóquios (387); Do Livre-Arbítrio (388-395); De Magistro (389); De Trinitate (399-422); Confissões (400); A Cidade de Deus (413-426); e Retratações (413-426).

Contra os acadêmicos: Redigido em 386, Contra os acadêmicos é um diálogo dividido em 3 livros, no qual Santo Agostinho, recém-convertido ao catolicismo, refugia-se por seis meses com seus discípulos nos arredores de Milão, e com eles dá início a sua busca pela sabedoria, tema dominante da obra. Os acadêmicos afirmavam que encontrar a verdade era algo impossível. Agostinho, em contrapartida, afirmava que a busca pela verdade era necessária para ser feliz, mesmo que esta não fosse alcançada; e também que só seria possível encontrar a verdade se o destino, entendido por ele como um desígnio divino, permitisse. Os diálogos ocorriam entre Agostinho (professor) e seus discípulos, dentro de um sistema que se inicia com uma pergunta, logo depois o debate de opiniões e, por fim, as conclusões.

Solilóquios: Nessa obra, também escrita em forma de diálogos, nosso filósofo exprime um problema pessoal, que seria a dualidade de sua alma (uma voltada a eternidade e à figura de Deus; e outra pessoal, o ego). Devemos lembrar que fazia pouco tempo que este tinha se convertido ao Cristianismo, e as questões existenciais fervilhavam em sua vida. Cada ser humano, para Agostinho, possui em seu interior “dois homens” ou duas personalidades. A primeira personalidade seria o “Homem exterior”, do mundo mundano, com necessidades biológicas, instintivo e animal. O segundo, o “Homem interior”, está ligado aos sentimentos, ao plano metafísico e a sua ligação com a dividade. É no homem interior, ligado a Deus, que Agostinho busca a felicidade e um sentido para sua existência.

Do Livre-Arbítrio: Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, lhe deu o Livre-arbítrio, a liberdade de fazer suas próprias escolhas. O homem se comunica com as três pessoas da Trindade: a memória, registro de imagens produzidas pela percepção sensível, é a essência (Deus Pai), aquilo que é e nunca deixa de ser; a inteligência é o correlato do verbo, razão ou verdade (Filho); por último, a vontade humana é a expressão humana do amor (Espírito Santo), responsável pela criação do mundo (PESSANHA, 1999, p.20). É na vontade humana que Santo Agostinho vê a origem do pecado, tema desse livro, pois esta é livre e permite que o homem se afaste de Deus e se aproxime do mal. O pecado, para nosso autor uma violação da lei divina, faz com que o homem subordine sua alma ao corpo (a alma é criada para reger o corpo), caindo assim na ignorância e na vida errante. Portanto, Agostinho chega a conclusão de que a origem do pecado está no abuso que o homem faz da liberdade, algo bom criado por um Deus bom.

De Magistro: O Mestre é um livro de caráter filosófico-pedagógico, no qual Agostinho tem um diálogo com seu filho Adeodato, na época com 16 anos, sobre a linguagem. Dentro dessa questão ocorrem perguntas e respostas sobre retórica, ensino e aprendizagem. Agostinho, o mestre, e Adeodato, o aluno, mais uma vez se veem na busca pela verdade. Agostinho afirma que não são as palavras do mestre que conduzem à verdade, mas que esta está no interior do homem, e foi embutida por Deus. Mesmo que a verdade tenha sido dada por Deus, a razão é necessária no processo da fé religiosa: “é necessário compreender para crer e crer para compreender”.

De Trinitate: A Trindade é, ao lado de Confissões e A Cidade de Deus, um dos monumentos literários da Filosofia Cristã da Idade Média. Santo Agostinho, em três partes, aborda uma das questões mais essenciais para a construção da liturgia católica. A primeira parte começa com um sentido para a busca da trindade, dentro da eudaimonia (felicidade) da filosofia grega, incorporada ao pensamento cristão. Na segunda parte o filósofo nos apresenta a Trindade, Deus-Pai, Filho e Espírito Santo, mostrando suas singularidades. A última parte é uma pequena biografia de Agostinho no período em que produziu a obra.

Confissões: Dividida em 13 livros, Confissões é uma biografia sobre Santo Agostinho, abordando sua vida mundana, antes da conversão, e como esta se transformou após aceitar Deus. Cada livro leva o nome de uma parte de sua vida: I – A Infância; II – Os pecados da adolescência; III – Os Estudos; IV – O Professor; V – Em Roma e em Milão; VI – Entre amigos; VII – A caminho de Deus; VIII – A conversão; IX – O batismo; X – O encontro com Deus; XI – O homem e o tempo; XII – A criação; XIII – A paz. Através das Confissões, Agostinho nos mostra como o homem é capaz de evoluir, saindo de uma vida errante e conhecendo Deus. A obra é bastante utilizada para os que decidem galgar tanto a vida eclesiástica quanto apenas seguir a religião cristã. Nos livros finais o filósofo se aprofunda nos problemas da temporalidade humana, na linguagem e na criação divina.

A Cidade de Deus: A Cidade de Deus foi escrita durante o período de declínio do Império Romano, das invasões comandadas por Alarico em 410, e é um livro sobre religião, política, história e ética. Nesse contexto de esfacelamento do Império, os romanos pagãos atribuíram a ruína de sua civilização a aceitação do Cristianismo em detrimento do culto de outras divindades. Agostinho defende o Cristianismo, indo buscar na História as reais causas para a queda do Império, para ele causada pelo estilo de vida pecaminoso dos habitantes da cidade e pelo culto a deuses pagãos, e, claro, era a vontade divina. A sociedade é dividida em dois mundos: A Cidade de Deus e a Cidade Terrena. A primeira é formada pelas pessoas que buscam a graça de Deus e seguem suas leis; a segunda é formada pelas pessoas que se afastaram do criador, seguem a religião, respondem às leis civis do mundo temporal. É na História que nosso filósofo explica a existência dessas duas cidades, deixando claro a dualidade em que vivemos, entre eleitos e condenados, alma e corpo, bem e mal, espírito e matéria:

A História é vista pelo bispo de Hipona como resultado do pecado original de Adão e Eva, que se transferiu a todos os homens. Aqueles que nele persistem constroem a cidade humana, ou terrena, onde são permanentemente castigados. Os eleitos pela graça divina edificam a Cidade de Deus e vivem em bem-aventurança eterna. A construção progressiva da Cidade de Deus seria, pois, a grande obra começada depois da criação e incessantemente continuada. Ela daria sentido à história e todos os fatos ocorridos trariam a marca da providência divina. Caim, o dilúvio, a servidão dos hebreus aos egípcios, os impérios assírio e romano, são expressões da cidade terrena. Ao contrário, Abel, o episódio da arca de Noé, Abraão, Moisés, a época dos profetas e, sobretudo, a vinda de jesus, são manifestações da Cidade de Deus.” (PESSANHA, 1999, p.22).

Retratações: Esse livro foi escrito nos anos finais de Agostinho, ficando inacabado. Como o próprio título diz, o bispo de Hipona se retrata sobre os equívocos que cometeu no passado, a maioria destes no campo intelectual, como quando, em muitas vezes, este chegava a dar mais atenção aos exercícios da razão do que ao lado espiritual. Nas Retratações o nosso autor corrige algumas posições tomadas em obras anteriores.

“Ninguém pode, a partir de uma obra ou de um momento da caminhada, julgar-se possuidor do seu pensamento” (ROCHA, 1989, p. 242).


FONTES: 

SANTO AGOSTINHO. Coleção Os Pensadores. Editora Nova Cultural, São Paulo, 1999.

ROCHA, Frei Hylton Miranda. Pelos caminhos de Santo Agostinho. Edições Loyola, São Paulo, 1989.

CRÉDITO DA IMAGEM:

commons.wikimedia.org

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Antigos Cemitérios Cristãos de Roma

Orante. Pintura sobre reboco do século III em uma Catacumba Romana, representando uma mulher em súplica e oração no que seria o Paraíso. Sob a pintura, os túmulos.

Em Roma, os cemitérios se situavam fora dos portões da cidade. Os romanos tinham os corpos cremados, e suas cinzas guardadas em urnas junto das de outros parentes. Os judeus que viviam no Império enterravam seus mortos em cemitérios subterrâneos, administrados pelas sinagogas. Os cristãos seguiam a mesma prática dos judeus referentes ao sepultamento, e seus cemitérios ficaram conhecidos como ''catacumbas''.

As catacumbas estavam localizadas em propriedades de cristãos ou de ricos protetores pagãos. Os cristãos que tinham algumas terras as doavam à comunidade cristã para os sepultamentos que iam crescendo. As catacumbas possuíam uma estrutura bastante complexa, divididas em ambulacra (passagem subterrânea), loculi (túmulos escavados na parede), pilae (túmulos um sob do outro), arcosolium (túmulos decorados com um nicho em arco), cubicula (câmaras particulares para os túmulos de uma família) e as cryptae (capelas decoradas com afrescos de motivos religiosos, dedicadas geralmente a pessoas importantes e santos). Os túmulos eram abertos dos dois lados da catacumba, e quando não existia mais a possibilidade de novas escavações, o piso dos corredores era escavado e recebia novos túmulos (formae).

Os cemitérios cristãos eram protegidos contra sacrilégios pela Lei Romana, que os considerava invioláveis. Os romanos tinham medo de violar os túmulos cristãos, pois acreditavam que poderiam ser incomodados pelos espíritos dos mortos. Quanto a nomenclatura, as catacumbas eram reconhecidas pelo nome do antigo proprietário onde foram escavados os túmulos; pela topografia onde estavam assentadas; e pelo nome de algum mártir ou santo.

Enterros em catacumba foram práticas em alta durante a época do Cristianismo Primitivo (séculos I, II, III e parte do IV d.C.); que passaram a entrar em declínio após a transformação do Cristianismo em religião estatal do Império Romano, através do Édito de Tessalônica de 380 d.C., realizado durante o governo de Teodósio I. Os corpos passaram a ser sepultados em cemitérios localizados nos terrenos das igrejas.

O mapa abaixo, retirado do livro A Idade Antiga – Curso de História da Igreja I, de Franco Pierini (Paulus, 2013), nos dá a localização de 41 cemitérios cristãos ao redor da cidade de Roma, espalhados pelas inúmeras vias que ajudavam na comunicação entre as cidades italianas.

Esses cemitérios, além de representarem um dos aspectos culturais dos cristãos que viviam em Roma, são o testemunho da Arte Cristã Primitiva, representada nos inúmeros afrescos com motivos religiosos que decoravam os corredores de túmulos.




FONTES: JEFFERS, James S. Conflito em Roma: ordem social e hierarquia no Cristianismo Primitivo. São Paulo, Edições Loyola, s. d. Págs 73,74 e 75.

O mapa foi entregue pela professora de História Antiga II, Maria Eugênia Matos, aos alunos da graduação em História da UFAM (Universidade Federal do Amazonas).


CRÉDITO DAS IMAGENS:

historiasevariaveis.blogspot.com
A Idade Antiga - Curso de História da Igreja I




segunda-feira, 11 de abril de 2016

Glossário Histórico sobre o Império Romano

Ruínas romanas. Giovanni Paolo Panini, século XVIII.

Os termos abaixo são de essencial importância para a compreensão histórica e social do Império Romano. Eles foram retirados do livro O Império Romano (1993), do historiador e latinista francês Pierre Grimal. O glossário foi entregue aos alunos da graduação de História da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), sob o comando da professora de História Antiga II, Maria Eugênia Matos.

Academia: Jardim sagrado do herói Akadêmor, nos arredores de Atenas. Era ali que Platão, e depois os seus discípulos, ministravam o seu ensino.

Apocoloquintose: Esta palavra significa <<transformação em abóbora>>. Paródia da palavra (e da noção) de apoteose. Título de uma sátira redigida por Sêneca em 54, destinada a ridicularizar Cláudio, que acaba de morrer e é divinizado e, sobretudo, a prometer aos senadores que o jovem Nero não cometerá os excessos de que o Senado se queixara no reinado anterior.

Apoteose: Reconhecimento oficial, pelo Senado, da divinização de um imperador defunto. Origina, em cada caso, a organização de um culto, com um clero especial, e, muitas vezes, a construção de um templo consagrado ao novo deus.

Auctoritas: O fato de uma pessoa ou um grupo constituído possuir a eficácia necessária para assegurar o sucesso de uma empresa projetada. Assim, o Senado garante que determinada lei, apresentada ao povo, será boa. Autoridade moral.

Casa das Vestais: Edifício de peristilo existente no Fórum Romano, perto do Templo de Vesta. Ali se alojava o Colégio das Vestais (em número de sete durante o Império). Esta casa, muito aumentada com o decorrer dos séculos, remonta, no seu estado atual, ao reinado de Sétimo Severo.

Cicerianismo: Nome dado por S. Jerônimo à cultura pagã, simbolizada pela obra de Cícero, em que a preocupação com a forma literária prevalece sobre o conteúdo do pensamento.

Comícios curiata: A mais antiga assembleia, formada por membros das cúrias e representando o populus, fonte de poder, exatamente como o Senado. São estes comícios que conferem o imperium, primeiro aos reis, depois aos magistrados saídos da realeza, cônsules e pretores. Também tratam de casos de adoção. A sua natureza é de essência religiosa.

Congiário: Distribuição ao povo de vinho, trigo, azeite, etc. Por extensão, distribuição de dinheiro. Quando se trata de dinheiro dado aos soldados também se emprega o termo donativum.

Constituição serviana: Organização da cidade atribuída ao rei Sérvio Túlio, no século VI a.C. Divisão dos cidadãos em cinco classes censitárias, estas mesmas divididas em centúrias, em função do seu papel no exército.

Cônsul: Nome de dois magistrados supremos saídos do desmembramento do poder real, em 509 a.C. Estes magistrados ficaram inicialmente conhecidos por praetores (de prae-ire, ir à frente, preceder); a palavra cônsul realça a ideia de deliberação e também de previdência, de desígnio cuidadosamente premeditado. Os cônsules, primeiramente escolhidos pelos patrícios, possuem o imperium. Cada um deles tem o direito de se opor a uma decisão do outro.

Cúria: Na Roma arcaica, divisão do corpo dos cidadãos, espécie de <<paróquias>> que os reúnem. Havia dez cúrias por tribo. Por extensão, local onde se reúne uma cúria. Por fim, a cúria por excelência é o local onde se reúne o senado. É o sentido da palavra na época clássica e durante o Império.

Cursus honorum: Série de magistraturas que um Romano devia exercer no âmbito das instituições, antes de atingir o consulado. São a questura, a edilidade (patrícia ou plebeia), o tribunado da plebe (para os plebeus), a pretura, o consulado. Deve haver um intervalo de dois anos entre duas magistraturas consecutivas, de tal modo que, durante a República, não se podia ser cônsul antes dos quarenta e um anos. Durante o Império, o cursus devia ser precedido por um serviço militar e uma magistratura menor, seguindo-se a questura exercida aos vinte e cinco anos, dois anos mais tarde a pretura, e o consulado aos trinta e dois anos. A censura não está integrada no cursus.

Digesto: Coletânea de textos provenientes das obras dos jurisconsultos, criada em 533, por ordem de Justiniano.

Dioniso: Também chamado Baco (Bacchus em terras latinas). Assimilado ao itálico Liber Pater. Divindade grega da vegetação, em particular da vinha e, por conseguinte, do vinho. Preside ainda à fecundidade animal e humana. É apresentado rodeado de sátiros e de Bacantes (ou Ménades). O seu culto está na origem da tragédia. Uma lenda muito tardia apresentava-o como um triunfador vindo dos confins da Índia, onde teria sido educado pelas Ninfas, no monte Nisa. A sua presença na Grécia é muito remota, segundo a confirmação.

Donatismo: Cisma da Igreja Cristã de África, formada em redor do bispo de Cartago Donat (312). A questão estava em saber se seria necessário excluir aqueles que haviam traído a fé divulgando os livros sagrados durante a perseguição de Diocleciano. Donat e os seus partidários recusavam-se a admiti-los na Igreja. O donatismo foi por diversas vezes condenado, por um sínodo, depois por um concílio gaulês, finalmente por Constantino, mas os donatistas resistiram até ao fim da África Romana (invasão dos Vândalos, em 429).

Epicuristas: Discípulos do filósofo Epicuro (341-270). Nascido em Samos, ensinou em Atenas uma doutrina materialista, baseada numa física atomista. Mas a sua preocupação principal não consiste em fornecer uma explicação do mundo; é essencialmente moral. Trata-se de assegurar a felicidade dos homens. O Bem supremo é o prazer, menos o dos sentidos do que a tranquilidade da alma, isto é, a ausência de perturbações (ataraxia). Epicuro acredita que a alma humana é inteiramente material e que não contém nenhuma possibilidade de sobrevivência. Os relatos referentes ao além-túmulo não passam de fábulas ilusórias. Para ele, os deuses existem, mas só comunicam conosco através do sonho e não intervêm no comportamento do mundo nem nos assuntos humanos.

Filosofia do Jardim: Nome muitas vezes atribuído ao epicurismo, desde que o fundador da escola, Epicuro, se instalou num parque que comprara nos arredores de Atenas.

Gens: Grupo social que, na Roma arcaica, se considerava descendente de um antepassado comum. Com o decorrer do tempo, a gens dividiu-se em familiae, cada uma delas caracterizada por um cognomen (apelido) hereditário (por exemplo os Cornelli: além dos Cornelli Scipiones, existiam Cornelli Cethegi, Cornelli Lentuli, etc.). Mas entre os diferentes ramos subsistia um laço místico, o sentimento de um parentesco profundo.

Humanitas: Noção (a palavra deriva de homo, ser humano) que implica o reconhecimento das particularidades espirituais próprias do ser humano e, consequentemente, o respeito deste pelo outro. Esta noção parece ter existido, em Roma, antes da influência dos filósofos. Está implícita nas formas mais arcaicas do direito, em particular o ius gentium, que reconhecia direitos aos não-cidadãos.

Idos: Divisão do mês. O primeiro dia do mês tem o nome de calendas. Seguem-se as nonas, que são a 7 de Março, de Maio, de Julho e de Outubro, e a 5 nos restantes meses. Os idos, que são a 15 nos meses de Março, Maio, Julho e Outubro, e a 13 nos outros meses. As datas formulam-se em função dos dias que faltam para uma destas referências. Assim, diremos: o 5 antes das calendas (ou, mais frequentemente: o 5 das calendas), o 3 das nonas (o mesmo que o 5 ou o 3 consoante o mês).

Intercessio: Direito reconhecido aos tribunos da plebe que podem vetar as decisões de um magistrado, seja este quem for, e mesmo, eventualmente, de um senátus-consulto. Por este ato, o tribuno interpunha-se entre o magistrado e o cidadão em causa. O objetivo consistia em subtrair os cidadãos às arbitrariedades.

Ísis: Divindade egípcia, mulher de Osíris. Como este tivesse sido condenado à morte por Tifão (o deus das trevas) e o seu cadáver cortado em pedaços, Ísis tentou reconstituí-lo e restituiu-lhe a vida. Ísis é uma divindade do mar. Dedicaram-lhe um culto em todo o contorno do Mediterrâneo, em particular na Campânia, por onde penetrou no mundo itálico. Teve um templo no Campo de Marte. O seu culto é assegurado por um clero sujeito a obrigações muito precisas (vestes de linho, sem nenhuma matéria de natureza animal, alimentação, etc.), que cumprem cerimônias diárias. A religião isíaca parece ter exercido uma grande atração sobre as mulheres.

Ius Fetiale: Os Feciais eram um colégio de dois sacerdotes encarregados das relações, de ordem religiosa, com os povos estrangeiros. Estavam encarregados, em particular, de proceder às declarações de guerra, mas também da conclusão dos tratados de paz. O <<chefe>> dos Feciais usava o nome de Pater patratus. O conjunto das regras que presidia às suas atividades era o ius fetiale.

Jogos: Tradição itálica muito antiga, muito viva entre os Etruscos, em que dançarinos e mimos estão encarregados de evocar todo um mundo místico e, ao mesmo tempo, de provocar a alegria, o prazer de viver. Este cortejo forma-se para os funerais. Mas existem jogos em honra de todas as divindades (Flora, etc.). As divindades satisfeitas só podem ser favoráveis aos mortais. Havia jogos que consistiam em corridas de cavalos, de carros, que exaltavam uma religião da Vitória. Os Jogos da Vitória de César tinham por desígnio agradecer às divindades, saudar o novo deus e acompanhá-lo alegremente na subida ao céu.

Larário: Capela onde, em cada casa, se colocam as estatuetas representando as dividades que as protegem. Estas divindades começam por ser os Lares, antiga palavra etrusca que designava os <<Senhores>>, e depois todas aquelas por quem os habitantes da casa sentem uma devoção em particular. Esta capela encontrava-se, em geral, no tablinum (o compartimento que se abria ao fundo do atrium), e muitas vezes também na cozinha.

Legião: O termo significa um corpo de tropas formado entre os cidadãos (e só estes). Durante a República, compreende 4.200 homens; a partir de C. Mário (pelo ano 100. a.C.), é de 6.000 homens. A legião está dividida em centúrias reunidas duas a duas num manípulo. Desenvolve-se em três linhas: à frente, os hastati, seguem-se os príncipes, e, por fim, na terceira fila, os triarii. Importa acrescentar os vélites, mal armados e que combatem foram da legião assim formada, e uma cavalaria legionária de 600 homens.

Libertas: Palavra que designa a República, durante o Império.

Liceu: Pórtico consagrado a Apolo Liciano, em Atenas, e o ginásio contíguo, onde ensinaram Aristóteles e os discípulos. A doutrina do Liceu é o aristotelismo.

Liga Acaica: Confederação que compreende cidades do Peloponeso (na Acaia), depois da conquista macedônica, na segunda metade do século IV a.C. A capital é Corinto. As cidades acaicas eram hostis a Esparta, que favoreciam os Romanos. Mummius obteve uma vitória decisiva contra a Liga em Leucóptera, em 146. Corinto, capital da Liga, foi tomada e pilhada.

Limes: Literalmente <<passagem>> entre dois campos. Depois, zona defensiva estabelecida ao longo de uma fronteira em que consistia numa estrada paralela à linha de combates que ligava entre si fortalezas e campos. Base de partida para uma defesa efetiva. Existia um limes ao longo do Reno, outro na Síria, outro em África, etc.

Livros Sibilinos: Coletânea de receitas religiosas e mágicas encontrada, segundo constava, na sepultura do rei Numa, em Roma. Atribuída à Sibila de Cumes, personagem meio lendária. Conservada por um colégio de dez sacerdotes, era consultada em caso de crise ou quando se produzia algum prodígio. Augusto mandou encerrá-la no pedestal do Apolo Palatino.

Municípios: Cidades já existentes antes da conquista romana e que conservam as suas instituições tradicionais ou às quais foram atribuídos magistrados e assembleias análogas às de Roma. Na prática, designam-se por municípios as cidades de direito latino, que não possuem o direito de cidade romana, mas uma forma inferior. Só os magistrados destas cidades recebem o título de cidadão romano.

Olimpianos e Titãs: Antiga lenda, decerto vinda do Oriente, recolhida por Hesíodo na Teogonia. Os Titãs, nascidos da união do Céu (Urano) e da Terra (Gaia), personificam forças naturais. São em número de seis, com seis Titânides. O mais novo é Cronos, que será o pai de Zeus, origem dos Olimpianos. Os Titãs revoltar-se-ão contra Zeus, que os precipitará no Tártaro.

Ordo senatorius: Classe de cidadãos formada por pessoas que possuem o censo senatorial, isto é, a fortuna necessária para serem senadores; mas esta situação não dá lugar à entrada no Senado.

Otium: O fato de não sofrer nenhum constrangimento, nenhuma obrigação. Lazer (o contrário é negotium, <<negócio>>). Designa a paz no conjunto da cidade.

Poder tribunício: Conjunto dos poderes pertencentes aos tribunos da plebe, essencialmente a sacrossantidade e o direito de intercessio.

Pontifex Maximus: Sumo Pontífice, presidente do colégio dos pontífices, sacerdote de caráter arcaico, de origem e de funções obscuras. O Sumo Pontífice é eleito pelo povo, por toda a vida. Mora numa residência oficial, a Domus Publica, perto da Casa das Vestais. Controla o conjunto da religião, o que lhe confere um grande poder. Exerce uma autoridade absoluta no Colégio das Vestais.

Pretor: Magistratura desligada do consulado, a partir de 367 a.C., quando foi criado um pretor urbano, encarregado de <<dizer o direito>> na cidade (a urbs). Em 242 é criado um praetor peregrinus, cuja jurisdição se estende aos estrangeiros residentes em Roma (peregrini). Os pretores possuem o imperium, o que lhes confere o direito de promulgar editos (ius edicendi). A partir de 227, os pretores, eleitos para este fim, são encarregados de governar províncias recém-criadas. A partir de César, os pretores serão em número de dezesseis.

Procônsul: Cônsul prorrogado na sua magistratura e encarregado do governo de uma província.

Propretor: Pretor prorrogado, ao terminar o cargo, e a quem é confiado o governo de uma província.

Província: A palavra designa, em primeiro lugar, uma missão, de uma ordem qualquer, da qual é encarregado um magistrado, e depois, mais particularmente, o território no qual é exercida esta missão. Durante a República, um general vencedor tem como <<província>> o território que conquistou; com a ajuda de uma comissão senatorial, e sob o seu controlo, fica encarregado de estabelecer a lex provinciae, o estatuto jurídico da sua <<província>>.

Queruscos: Povo germano estabelecido na região do Hesse.

Quirites: Nome dado aos cidadãos romanos de condição privada. Opõe-se a milites (soldados). Segundo a tradição, foram primeiramente designados Sabinos, vindos da cidade de Cures e estabelecidos em Roma no tempo do rei Numa.

Res Gestae: Literalmente, <<ações cumpridas>>. Augusto estabelecera ele próprio o balanço da sua ação, capítulo por capítulo, e este texto foi afixado em frente do seu mausoléu, no Campo de Marte, por volta do ano I d.C. Contém uma justificação da sua política, desde a tomada do poder. A inscrição comportava uma versão em língua latina, outra em língua grega. Foi descoberto um exemplar em Ankara, a antiga Ancira. Tinham sido enviadas réplicas para todas as grandes cidades do Império.

Sacrossantidade: Caráter inviolável da pessoa de um magistrado, em princípio, durante a República, um tribuno da plebe. Qualquer tentativa de violência para com um tribuno coloca o culpado fora da lei.

Saepta: Conjunto de recintos ao ar livre, destinados a reunir, materialmente, por unidades de voto, os eleitores que, em seguida, passavam um a um sobre uma ponte para depor o seu boletim de voto. Dizia-se saepta ou, por vezes, ovilia, redis de carneiros.

Senátus-consulto: Decisão tomada oficialmente pelo Senado para resolver um problema particular como, por exemplo, tomar medidas policiais, cuja responsabilidade nenhum magistrado queria assumir. Estas medidas não podiam ser contestadas tão facilmente como o seria a decisão de um magistrado.

Sumo Pontífice: Ver Pontifex Maximus.

Tabularium: Grande monumento, ainda existente, destinado a guardar os arquivos oficiais (as tabulae, as tábulas), construído no tempo de Sila entre o Capitólio propriamente dito e o Arx, a Cidadela, fechando assim a depressão existente entre os dois cumes da colina.

Término: Divindade que assegura o caráter sagrado e inviolável dos limites legalmente estabelecidos: de uma propriedade privada, de uma fronteira, etc. O deus é figurado por uma pedra solidamente fixada ao solo.


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terça-feira, 5 de abril de 2016

Animais e Seres Fantásticos da Idade Média

Por Viviane Huchard (1946-2005), historiadora francesa


Desde a narrativa do Gênesis, homem e animal caminham juntos em aventuras pela Terra. Na Antiguidade, o tempo era ritmado pelo zodíaco, e os animais eram alegorias de poderes superiores. No século II, foi publicada a primeira coletânea consagrada à descrição de bichos: o Physiologus. A obra se tornou a principal fonte do bestiário medieval.

Com a grande enciclopédia Etymologiae, de Isidoro de Sevilha, no século VII, o bestiário tomou forma "moral" e passou a servir como suporte de ensino doutrinal ou religioso. A partir do século XII, as obras em prosa de Pierre de Beauvais e o trabalho em verso de Guillaume le Clerc aumentaram a facilidade de assimilação dos simbolismos dos bestiário. Essa tendência continuou com a interpretação de Richard de Fournival, autor de Bestiários de amores, no qual os animais são usados para descrever comportamentos amorosos.

As principais coletâneas foram conservadas em bibliotecas de mosteiros e constituem repertório para escritores, ilustradores, escultores e pintores. A imaginação do homem, contudo, não se contentou com os bichos reais. Inventou "novas naturezas" para explicar o que não entendia. Assim surgiram os monstros semi-humanos, como a harpia e a mantícora, e bestas fabulosas, como o unicórnio.

Misturadas às figuras da Bíblia e aos heróis da Antiguidade, as representações de animais são exibidas nas fachadas das igrejas romanas e góticas, enfeitando seus portais ou capitéis. São Bernardo de Claraval cansou de clamar contra essas "figuras monstruosamente belas" das galerias do claustro de Saint-Denis, que só faziam distrair o monge de sua oração essencial.

O Combate de Alexandre

Alexandre da Macedônia inspirou uma epopeia fabulosa, traduzida e repetida em toda a Europa medieval. A ilustração figura na História do Grande Alexandre, um manuscrito francês do século XV (Museu Petit Palais, em Paris) que narra as aventuras do herói antigo (356 a.C. - 323 a.C.) em países exóticos, nos quais enfrenta animais fantásticos, como unicórnios e dragões. Imagem do cavaleiro valoroso, de espada e armadura, Alexandre enfrenta o lendário animal, cercado de seus fiéis escudeiros e de seu exército. A iluminura coloca o episódio como um combate da Guerra dos Cem Anos.



A Caça ao Unicórnio

O unicórnio não teme homem nenhum, e só é possível capturá-lo por meio de artifícios traiçoeiros. O caçador, depois de ficar longo tempo à sua espreita, escolheu uma jovem para seduzi-lo e pôde então capturá-lo. Na verdade, o desconfiado unicórnio só sossega sob os encantos de uma virgem. Despreocupado com sua segurança, adormece em paz sobre seus joelhos. As teologias vêem aí a prefiguração do Cristo, encarnando-se no seio da Virgem Maria. No coração de um jardim fechado, imagem do paraíso. A virgem radiante e aureolada está cercada de uma corte de santos e anjos.




O Basilisco

"Trata-se de uma besta com cabeça, pescoço e peito de galo, e corpo de serpente", diz o bestiário de Brunetto Latini. O basilisco ocupa um papel de rei dos répteis, podendo provocar a morte com apenas um sopro.








São Jorge e Lancelote

O dragão representa Satã, caçador infernal, que persegue os pecadores e os arrasta para o inferno. Segundo a lenda, Jorge, um capadócio nobre e rico, abateu os ídolos e destruiu o monstro que desolava a Líbia. No Ocidente, ele se tornou o patrono da cavalaria e das armas. É claro que o modelo dos cavaleiros, o valente Lancelote do Lago, personagem das lendas do rei Arthur, também não poderia deixar de enfrentar um dragão.












A Viagem de Alexandre

Entre as aventuras romanescas que a literatura medieval empresta ao conquistador antigo, tem lugar uma viagem ao paraíso terrestre, em que ele enfrenta animais fabulosos. Em um Oriente misterioso, javalis dividem espaço com unicórnios e dragões, hipopótamos carnívoros, morcegos gigantes e até serpentes com rosto de mulher. Em seu fogoso cavalo Bucéfalo, o herói grego segue um percurso vitorioso que o conduz de Tiro a Jerusalém, depois à Pérsia de Dario e até às Índias.

A Áspide

É um pequeno dragão, coroado por um carbúnculo, cuja mordida é fatal. Simboliza a prudência: quando teme estar sendo vítima de sortilégios de encantadores, ele aperta uma das orelhas contra o solo e tampa a outra com a cauda.






O Dragão

Síntese das invenções do homem medieval, ele reúne os poderes da serpente e do leão. É um dos maiores monstros do universo fabuloso, com uma cauda particularmente temível.











O Grifo

Corpo de leão com cabeça e asas de águia, o grifo pertence ao bestiário egípcio e persa, e também ao mundo medieval. O grifo toma formas múltiplas e instáveis, próprias para aterrorizar os homens. Ora leão, ora águia, ele alia as qualidades do rei dos animais às da rainha dos ares. Vivendo em um deserto rico em ouro, o grifo usa esse metal para construir seu ninho, escapando assim de todas as tentativas de captura. Essa lenda poderia ter suas origens nas minas de ouro encontradas na Rússia, principalmente nos Urais.



O voo de Alexandre

Os grifos têm a força de oito leões e de cem águias reunidos. Eles servem para puxar a nacela de Alexandre quando ele sobe em direção ao Sol, atraídos pelos pedaços de carne que o herói lhes oferece, na ponta de um bastão. Na mitologia grega, os grifos guardam os tesouros de Apolo na região lendária dos hiperbóreos, na Cítia.













A Mantícora antropófaga

Monstro de rosto quase humano, corpo de leão de pele vermelha e cauda de escorpião, a mantícora alimenta-se de carne humana. É um animal de uma crueldade assustadora, cujo nome vem de uma palavra persa que significa "comedor de homens". [...] O monstro assume o semblante de Satã, caçador de almas humanas.









FONTE:

HUCHARD, Viviane. O Fabuloso bestiário medieval. In: História Viva, n° 63, São Paulo, Duetto, 2009.

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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Os 110 anos das Artes Marciais Japonesas no Amazonas

Por Aguinaldo Nascimento Figueiredo

O Conde Koma em uma demonstração de Jiu-Jitsu.

O Amazonas vem despontando nos últimos tempos como um grande centro de campeões de artes marciais, com destaque para o Jiu-Jitsu e o Judô. O talento de nossos jovens atletas surpreendem especialistas internacionais, em razão das premiações que alcançam, nas mais importantes modalidades, dessas competições. Mas esse cabedal de competência não é de agora não, ele vem sendo construído ao longo de uma história que poucos conhecem. Isso mesmo, para quem não sabe, o jiu-jitsu e o judô foram introduzidos, no Amazonas, pelos japoneses, no início do século 20, quando faziam turnês pelo mundo, para divulgar seus estilos na "arte suave" (significado da palavra jiu-jitsu em japonês). Por isso ela é uma história emocionante, marcada de conquistas e muito sacrifício que merece o reconhecimento de toda a sociedade amazonense.

De acordo com o professor Rildo Heros, pesquisador do assunto, os primeiros ases do jiu-jitsu a estarem, em Manaus, foram os mestres Sakamoto, Ynasake e Shimokawa, em 1906, quando apenas fizeram apresentações das técnicas dos seus estilos. Ainda, em 1906, aqui esteve o mestre Akishima Sadachi e o seu assistente Suiostos Ki, realizando em 18 de dezembro de 1906, no circo "Coliseu Metálico Brasileiro", armado na Praça da Saudade, a primeira luta de Jiu-Jitsu que se tem notícia no Brasil. Sadachi venceu todos os lutadores desafiantes. 

Em 18 de dezembro de 1915, um grupo de graduados do jiu-jitsu comandados por Mitsuo Mayeda, o conde Koma, chegou a Manaus, para fazer lutas marciais.

Mayeda era mestre da Kodocan, do mestre Jigoro Kano, o criador do judô. Além de Koma, vieram os mestres Shimizu Takaji, Noboshiru Satake, Okura e Sadakazu Uyenishi (Raku). Eles realizaram duas lutas na cidade.

A primeira, no dia 23 de dezembro de 1915, com o conde Koma enfrentando o boxer barbadiano Adolfo Corbiniano, em combate livre. O conde sagrou-se vencedor. A segunda deu-se, a 28 de dezembro, contra o campeão de luta romana Nagib Assef, em que o conde Koma derrotou o gigante turco, numa luta espetacular.

Depois, os japoneses deste grupo passaram a proferir palestras sobre artes marciais e a cultura física japonesa, na sede do Manáos Sporting Club, ganhando a simpatia popular.

Com o sucesso das lutas eles mobilizaram os setores esportivos da cidade, organizando o primeiro campeonato amazonense de Jiu-Jitsu, coordenado pela Liga Amazonense de Esportes Atléticos. O evento aconteceu em 30 de dezembro de 1915, no cineteatro Polyteama, com o lutador Nobushiro Satake vencendo todas as lutas. Minguados os eventos, os japoneses deixaram a cidade, com Okura e Shimizu retornando ao Japão e o conde Koma fixando sua residência, em Belém, com o nome de Otávio Maeda, construindo, a partir de então, outra página na história do jiu-jitsu e dos japoneses no Brasil. Maeda faleceu em Belém, em 1941.

Nobushiro Satake.

Nobushiro Satake fixou residência, em Manaus, e passou a ensinar Jiu-jitsu, no Instituto Universitário Amazonense, por que esse esporte fazia parte do currículo dessa instituição, que foi a primeira, no Brasil, a adotar esse gênero de esporte como disciplina curricular formal. Satake fundou também uma academia de Jiu-jitsu, no Atlético Rio Negro Clube, e foi responsável pela introdução do Basebol e do ensino de Técnicas de Massagem e Medicinal Oriental, no Amazonas. Em 1932, Sanshiro "Barriga Preta" Satake, apelido adquirido em razão da sua ligação com o clube rionegrino, partiu do Amazonas, deixando uma grande obra e uma legião de campeões, retornando ao Japão, não se sabendo qual foi o desfecho de sua vida, após essa data. Sabe-se que ele morreu em sua terra natal.

Sadakazu Oyenishi (Raku) instalou sua academia no prédio do Banco do Brasil, localizado na Praça XV de Novembro, que funcionou até 1920. Nesse mesmo ano ele deixou Manaus, realizando um périplo por várias cidades da Europa, retornando ao Japão em 1939. Morreu em Tóquio em 1956.

Em junho de 1932, chegou a Manaus, vindo de Parintins, Takeo Yano, faixa preta de jiu-jitsu. Era kotakussei e foi convidado para ensinar defesa pessoal à Polícia Militar e ao Exército Brasileiro, na capital amazonense. Nesse mesmo ano ele instalou um tatami, na sede do Nacional Futebol Clube, à rua Saldanha Marinho, ensinando aos jovens amazonenses os esportes marciais e promovendo duelos entre desafiantes. Dentre os seus alunos estava Guilherme Pinto Nery, que havia sido aluno do mestre Satake. Depois de preparado pelo mestre Yano, Guilherme Nery fez a sua primeira luta, a 7 de junho de 1933, contra o campeão peruano Jorge Ribas, no cineteatro Alcazar, depois cinema Guarany, sendo o vencedor.

Essa é considerada a primeira luta de jiu-jitsu onde houve um participante amazonense. Guilherme Nery, que fundou, em 1937, a sua academia de jiu-jitsu, em um prédio da Rua Luiz Antony, ensinando ao longo de sua existência o nobre esporte japonês, tendo como alunos personalidades da elite amazonense como Antônio Leão, Mário Verçosa, os irmãos Jorge e Jaime Tribuzzi, Osvaldo Mendes, Sílvio Tapajós, Ary Navarro, Jary Botelho, Oton Mendes, Osvaldo Zagury e Arthur Virgílio Neto.

O karatê foi introduzido, em Vila Amazônia (Parintins), em 1933, por mestre Saburo Ono, que era kotakussei. Ono veio para Manaus, em 1946, passando a ensinar karatê, no Olímpico Clube, até o fim do ano de 1946.

A primeira mulher de origem japonesa a praticar judô, no Amazonas, foi Edite Shirano, falecida em 2006. Edite era filha do professor Jiroso Shirano, kotakussei, que fundou a Academia Shirano, no bairro da Cachoeirinha, na antiga residência do professor Satake.

Em 1958, vieram apara o Amazonas os mestres Shoiti Sato e Toshio Yamagushi. Mestre Sato, que era faixa vermelha, com grau de sexto Dan em judô, era conhecido como Kimura ou "Mão de Banana", foi o instrutor da guarda pessoal do governador Plínio Coelho. Depois do golpe militar Sato se tornou taxista, em Manaus. Mestre Toshio Yamagushi, quarto Dan de judô, fundou, em 1960, uma academia, nas dependências da Associação dos Sargentos do Amazonas, e teve como discípulos Murilo Rayol, José Mário Frota, Ivan Tribuzzi, Tales e Taner Freire de Verçosa e Roberto Caminha. Infelizmente, o mestre Yamagushi teve morte trágica ao ser assassinado violentamente no bairro de São Raimundo, em meados dos anos 70, ao reagir a um assalto.

No ano de 1967, os estudantes universitários Gilberto Marques Meneses, Paulo Bernardes e Nilson Pascoal da Silva, fundaram, na "Casa do Estudante", à rua Barroso, a Academia Samurai. No ano de 1969, o advogado, jornalista e "faixa preta" de jiu-jitsu, Armando Jimenez, fundou, à rua Belém, a Academia Jimenez, congregando profissionais liberais, políticos de renome, intelectuais e jovens estudantes de famílias abastadas da cidade como os Valois, os Benchimol, os Lucena, os Areosa, os Xavier de Albuquerque e os Takeda, entre tantos.

Os primeiros campeões de judô do Amazonas foram Nilson Paschoal da Silva, Ângelus Figueiras, Paulo Nasser, Remédio Leocádio e Raimundo Nonato Gouveia.

A Federação de Judô do Amazonas foi fundada em 12 de julho de 1973, tendo como membros fundadores o atleta Nilson Pascoal da Silva, os srs. Luís Carlos Mestrinho Melo, o "Tical", Almério Botelho Maia, Flávio Cordeiro Antony, Valter Caldas, Iran de Carvalho e o poeta Enson Farias.

O primeiro Campeonato Amazonense de Judô ocorreu em março de 1974, no Colégio Militar de Manaus.

A primeira academia a ser instalada oficialmente no Amazonas foi fundada por Nilson Pascoal da Silva, em outubro de 1974, com a denominação de Judô Clube Manauara. No mesmo ano de 1975, a direção da Academia Samurai passa para o comando de Dorgival Francisco das Chagas, que foi aluno de jiu-jitsu e judô do professor José Maria (ex-aluno de Takeo Yano). Com um trabalho brilhante em prol dos esportes marciais no Amazonas, esse profissional morreu em 1998, e como reconhecimento o ginásio do Colégio Dom Bosco leva seu nome.

De seus alunos, foi destaque a atleta Rosemarina da Silva, medalha de ouro no Campeonato Brasileiro Norte-Nordeste, em São Luís do Maranhão, em 1982, e Jovandeci de Souza, medalha de ouro nesse mesmo campeonato, sendo o primeiro amazonense a integrar uma seleção brasileira e único atleta do Norte a participar da Copa Jigoro Kano, realizada em comemoração ao centenário de criação do judô, em São Paulo, em 1982.

Em 1974, o campeão brasileiro de judô e peso médio Tetsuo Fujisaka, instalou sua academia no Boulevard Amazonas, onde instruiu milhares de jovens amazonenses, tendo como alunos homens ilustres como os irmãos Monteiro de Paula e Jéferson Praia. Outra academia que foi destaque no Amazonas, foi a Associação Bushidokan de Judô, fundada nos anos 80 e localizada à rua Itamaracá, pelo médico ortopedista Tikara Hajiwara, faixa preta, formado pelo mestre japonês Kokitani.

Nesse mesmo contexto do pioneirismo foi muito importante a atuação da Associação Shogun, fundada em 22 de setembro de 1986, pelos professores Aldemir Duarte e Edval Lago, que foram alunos do professor Dorgival Francisco das Chagas. Por ela passaram milhares de praticantes de judô, principalmente trabalhadores do Distrito Industrial e jovens carentes que não podiam, muitas das vezes, arcar com as despesas e com o rígido treinamento. Outros jovens abnegados deram continuidade ao trabalho desenvolvido pela Shogun, fundando suas respectivas academias, destacando-se entre eles o professor David Azevedo (Associação Glória), o professor Luciano Dias (Associação Kodokan), o professor Lúcio Gláucio Mendonça e o professor Rildo Heros. A célebre Academia Shogun teve também como professor o nissei João Eonezawa, faixa preta segundo Dan, aluno do grande mestre japonês Massao Shinohara, que muito colaborou para o desenvolvimento técnico dos alunos dessa academia.

Em relação ao karatê, outro grande desportista a se destacar nessa arte foi o mestre Kasuteru Noguchi, que chegou ao Amazonas, em 1969, fundando a Academia Oyama de Karatê e Luta de Contato Kyokushin, que funcionou na União Esportiva Portuguesa, à Avenida Joaquim Nabuco, que depois passou para a rua Tarumã. Noguchi é dos fundadores da Federação Amazonense de Karatê e treinou tropas do Exército, da Aeronáutica e da Polícia Militar do Amazonas, do mesmo modo, realizando várias competições na cidade para promover e valorizar esse esporte. Paralelamente a esses eventos, o professor Noguchi também lotava os ginásios esportivos do Olímpico, o Renné Monteiro e o da Escola Técnica, realizando campeonatos que garantiam grandes lutas entre os seus praticantes. Muitos atletas foram destaque nesse período de ouro do karatê, entre eles destacaram-se Takuya Kawada e Zander Sassaki.

Uma modalidade esportiva ligada às artes marciais nipônicas que teve passagem efêmera em Manaus, no início dos anos oitenta, foi o Aikidô, ensinado pelo mestre Fugi. As aulas desse esporte eram realizadas na academia da Portobrás, localizada no centro da cidade. Entretanto, talvez, em razão da sua inexpressiva divulgação, poucas pessoas tiveram acesso à sua prática ou mesmo tendo a oportunidade de conhecer mais profundamente seus enigmas. Dos seus raros alunos, restou apenas a figura solitária do terapeuta, massagista e bancário Alfredo Peroba Jatobá, que montou seu dojô à rua Ramos Ferreira, no centro de Manaus.

Sem dúvida esses abnegados cidadãos deixaram sua indelével contribuição em forma de conhecimentos, inovações e a consolidação da prática de esportes de alto impacto, dois deles, inclusive, são os mais praticados pela juventude amazonense, pois, de acordo com os números de suas respectivas federações, até o ano de 2014, sabia-se da existência de mais de 2.000 academias e de mais de 50.000 praticantes de jiu-jitsu e de judô, no Estado do Amazonas.

Desde 2015, quando a semente foi lançada, quando se está próximo a se comemorar o centenário da primeira luta de jiu-jitsu no Amazonas, os frutos não pararam de se reproduzir. Uma safra de campeões de alto nível nesses esportes surgiu e brilhou nos tatames do mundo todo, engrandecendo o Estado nesse segmento que se tornou uma vasta atividade econômica, movimentando cifras bilionárias pelo mundo todo que é o "bug" desportivo do momento. Personagens como Ajuricaba de Menezes, Osvaldo Alves, Xande Ribeiro, Omar Salum, Ronaldo Jacaré, Bibiano, Paulo Coelho, Fredson Paixão e José Aldo conquistaram o mundo e passaram a chamar a atenção para essa história até então incógnita. E, complementando, segundo palavras do professor Rildo Heros, pesquisador do tema - "Da história, ainda pouco conhecida de Satake e sua escolinha no Rio Negro, às conquistas de amazonenses nos octógonos, Manaus, graças aos viajantes da terra do sol nascente, hoje se confunde com o jiu-jitsu. E o jiu-jitsu com Manaus".


Aguinaldo Nascimento Figueiredo é professor, historiador, escritor e membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), autor dos livros História do Amazonas (2000); Santa Luzia: História e Memória do povo do Emboca (2008); e os Samurais das Selvas: A presença Japonesa no Amazonas (2012).









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