terça-feira, 26 de abril de 2016

As obras de Santo Agostinho

Santo Agostinho. Pintura de Philippe de Champaigne, 1645-50.

Santo Agostinho de Hipona (354-430) é considerado um dos principais nomes do pensamento Ocidental e o principal representante da Filosofia Patrística, criada nos primeiros séculos da Igreja Católica. O pensamento patrístico dominou parte da Antiguidade, do século I ao IV; e da Idade Média, entre os séculos V e VII, quando seus Patriarcas criaram os moldes do pensamento cristão: a liturgia, as defesas da fé, os costumes e o pensamento. Além de criar um "panorama" para os rumos da Igreja Católica, os Patrísticos também eram apologistas, isto é, defendiam a Sagrada Igreja Católica contra os pagãos e os hereges. Os patrísticos tentavam conciliar a fé cristã com razão, principalmente através da Filosofia Neoplatônica, na qual os homens, em uma crise existencial, buscavam um sentido para a vida.

Agostinho se converteu ao catolicismo em 386, e foi através dessa religião que produziu uma vasta obra filosófica, cujos conteúdos são até hoje objeto de admiração e de estudos das mais diversas áreas Humanas. As principais obras do bispo da cidade de Hipona e santo da Igreja são, em ordem cronológica: Contra os acadêmicos (386); Solilóquios (387); Do Livre-Arbítrio (388-395); De Magistro (389); De Trinitate (399-422); Confissões (400); A Cidade de Deus (413-426); e Retratações (413-426).

Contra os acadêmicos: Redigido em 386, Contra os acadêmicos é um diálogo dividido em 3 livros, no qual Santo Agostinho, recém-convertido ao catolicismo, refugia-se por seis meses com seus discípulos nos arredores de Milão, e com eles dá início a sua busca pela sabedoria, tema dominante da obra. Os acadêmicos afirmavam que encontrar a verdade era algo impossível. Agostinho, em contrapartida, afirmava que a busca pela verdade era necessária para ser feliz, mesmo que esta não fosse alcançada; e também que só seria possível encontrar a verdade se o destino, entendido por ele como um desígnio divino, permitisse. Os diálogos ocorriam entre Agostinho (professor) e seus discípulos, dentro de um sistema que se inicia com uma pergunta, logo depois o debate de opiniões e, por fim, as conclusões.

Solilóquios: Nessa obra, também escrita em forma de diálogos, nosso filósofo exprime um problema pessoal, que seria a dualidade de sua alma (uma voltada a eternidade e à figura de Deus; e outra pessoal, o ego). Devemos lembrar que fazia pouco tempo que este tinha se convertido ao Cristianismo, e as questões existenciais fervilhavam em sua vida. Cada ser humano, para Agostinho, possui em seu interior “dois homens” ou duas personalidades. A primeira personalidade seria o “Homem exterior”, do mundo mundano, com necessidades biológicas, instintivo e animal. O segundo, o “Homem interior”, está ligado aos sentimentos, ao plano metafísico e a sua ligação com a dividade. É no homem interior, ligado a Deus, que Agostinho busca a felicidade e um sentido para sua existência.

Do Livre-Arbítrio: Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, lhe deu o Livre-arbítrio, a liberdade de fazer suas próprias escolhas. O homem se comunica com as três pessoas da Trindade: a memória, registro de imagens produzidas pela percepção sensível, é a essência (Deus Pai), aquilo que é e nunca deixa de ser; a inteligência é o correlato do verbo, razão ou verdade (Filho); por último, a vontade humana é a expressão humana do amor (Espírito Santo), responsável pela criação do mundo (PESSANHA, 1999, p.20). É na vontade humana que Santo Agostinho vê a origem do pecado, tema desse livro, pois esta é livre e permite que o homem se afaste de Deus e se aproxime do mal. O pecado, para nosso autor uma violação da lei divina, faz com que o homem subordine sua alma ao corpo (a alma é criada para reger o corpo), caindo assim na ignorância e na vida errante. Portanto, Agostinho chega a conclusão de que a origem do pecado está no abuso que o homem faz da liberdade, algo bom criado por um Deus bom.

De Magistro: O Mestre é um livro de caráter filosófico-pedagógico, no qual Agostinho tem um diálogo com seu filho Adeodato, na época com 16 anos, sobre a linguagem. Dentro dessa questão ocorrem perguntas e respostas sobre retórica, ensino e aprendizagem. Agostinho, o mestre, e Adeodato, o aluno, mais uma vez se veem na busca pela verdade. Agostinho afirma que não são as palavras do mestre que conduzem à verdade, mas que esta está no interior do homem, e foi embutida por Deus. Mesmo que a verdade tenha sido dada por Deus, a razão é necessária no processo da fé religiosa: “é necessário compreender para crer e crer para compreender”.

De Trinitate: A Trindade é, ao lado de Confissões e A Cidade de Deus, um dos monumentos literários da Filosofia Cristã da Idade Média. Santo Agostinho, em três partes, aborda uma das questões mais essenciais para a construção da liturgia católica. A primeira parte começa com um sentido para a busca da trindade, dentro da eudaimonia (felicidade) da filosofia grega, incorporada ao pensamento cristão. Na segunda parte o filósofo nos apresenta a Trindade, Deus-Pai, Filho e Espírito Santo, mostrando suas singularidades. A última parte é uma pequena biografia de Agostinho no período em que produziu a obra.

Confissões: Dividida em 13 livros, Confissões é uma biografia sobre Santo Agostinho, abordando sua vida mundana, antes da conversão, e como esta se transformou após aceitar Deus. Cada livro leva o nome de uma parte de sua vida: I – A Infância; II – Os pecados da adolescência; III – Os Estudos; IV – O Professor; V – Em Roma e em Milão; VI – Entre amigos; VII – A caminho de Deus; VIII – A conversão; IX – O batismo; X – O encontro com Deus; XI – O homem e o tempo; XII – A criação; XIII – A paz. Através das Confissões, Agostinho nos mostra como o homem é capaz de evoluir, saindo de uma vida errante e conhecendo Deus. A obra é bastante utilizada para os que decidem galgar tanto a vida eclesiástica quanto apenas seguir a religião cristã. Nos livros finais o filósofo se aprofunda nos problemas da temporalidade humana, na linguagem e na criação divina.

A Cidade de Deus: A Cidade de Deus foi escrita durante o período de declínio do Império Romano, das invasões comandadas por Alarico em 410, e é um livro sobre religião, política, história e ética. Nesse contexto de esfacelamento do Império, os romanos pagãos atribuíram a ruína de sua civilização a aceitação do Cristianismo em detrimento do culto de outras divindades. Agostinho defende o Cristianismo, indo buscar na História as reais causas para a queda do Império, para ele causada pelo estilo de vida pecaminoso dos habitantes da cidade e pelo culto a deuses pagãos, e, claro, era a vontade divina. A sociedade é dividida em dois mundos: A Cidade de Deus e a Cidade Terrena. A primeira é formada pelas pessoas que buscam a graça de Deus e seguem suas leis; a segunda é formada pelas pessoas que se afastaram do criador, seguem a religião, respondem às leis civis do mundo temporal. É na História que nosso filósofo explica a existência dessas duas cidades, deixando claro a dualidade em que vivemos, entre eleitos e condenados, alma e corpo, bem e mal, espírito e matéria:

A História é vista pelo bispo de Hipona como resultado do pecado original de Adão e Eva, que se transferiu a todos os homens. Aqueles que nele persistem constroem a cidade humana, ou terrena, onde são permanentemente castigados. Os eleitos pela graça divina edificam a Cidade de Deus e vivem em bem-aventurança eterna. A construção progressiva da Cidade de Deus seria, pois, a grande obra começada depois da criação e incessantemente continuada. Ela daria sentido à história e todos os fatos ocorridos trariam a marca da providência divina. Caim, o dilúvio, a servidão dos hebreus aos egípcios, os impérios assírio e romano, são expressões da cidade terrena. Ao contrário, Abel, o episódio da arca de Noé, Abraão, Moisés, a época dos profetas e, sobretudo, a vinda de jesus, são manifestações da Cidade de Deus.” (PESSANHA, 1999, p.22).

Retratações: Esse livro foi escrito nos anos finais de Agostinho, ficando inacabado. Como o próprio título diz, o bispo de Hipona se retrata sobre os equívocos que cometeu no passado, a maioria destes no campo intelectual, como quando, em muitas vezes, este chegava a dar mais atenção aos exercícios da razão do que ao lado espiritual. Nas Retratações o nosso autor corrige algumas posições tomadas em obras anteriores.

“Ninguém pode, a partir de uma obra ou de um momento da caminhada, julgar-se possuidor do seu pensamento” (ROCHA, 1989, p. 242).


FONTES: 

SANTO AGOSTINHO. Coleção Os Pensadores. Editora Nova Cultural, São Paulo, 1999.

ROCHA, Frei Hylton Miranda. Pelos caminhos de Santo Agostinho. Edições Loyola, São Paulo, 1989.

CRÉDITO DA IMAGEM:

commons.wikimedia.org

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