segunda-feira, 30 de maio de 2016

A Economia Gomífera na Amazônia I: Dos primórdios aos componentes humanos

Versão resumida do texto Ciclo da Borracha (dos primórdios até 1920), publicado em 24 de junho de 2013. Nessa primeira parte, apresento aos leitores como ocorreu o contato com o látex, com registros datados de antes de Cristo, até a vinda de aventureiros para a Amazônia entre os séculos XIX e XX. A segunda postagem englobará as transformações políticas, econômicas e culturais. A terceira e última parte será dedicada ao lado pregresso dessa economia e a sua decadência.

A ambição que gerou a conquista. A conquista que gerou o extrativismo onde os caudilhos fixaram suas leis homicidas. O extrativismo que gerou a súbitas fortunas de aventureiros dos quatro cantos. Era o Eldorado, o esplendor de uma selvagem nobreza dos trópicos cujos cenários e costumes foram importados de Inglaterra, França e Itália (Amazonas, Amazonas. Glauber Rocha, 1966). É com essa passagem marcante do documentário Amazonas, Amazonas, que dou início a esse texto. A economia gomífera na Amazônia, que dominou a região entre 1880 e 1929, com uma sobrevida até 1945, se constituiu em um dos principais ciclos econômicos do Brasil contemporâneo. Movimentou somas que iam da Amazônia à Europa; garantiu a construção de estruturas industriais com utilidade até os dias de hoje; e alterou para sempre a fisionomia social e econômica da região Norte do país. 

À esquerda, a "trave" do jogo praticado pelos nativos pré-colombianos. À direita, um jogador atual no estado de Sinaloa, no México.

Os povos nativos da América pré-colombiana já utilizavam a borracha no seu dia a dia. Um dos usos mais comuns, entre os Teotihuacan do México (300 a.C. - 600 d.C.), era o de confeccionar uma bola utilizada em um jogo ritualístico, difundido entre outros povos, no qual os vencedores eram sacrificados em honra ao Sol. Ao chegar no continente entre os séculos XVI e XVII, cronistas, clérigos e viajantes europeus tiveram contato com essa substância, a qual passaram a observar e descrever suas propriedades.

A primeira descrição detalhada sobre a borracha foi produzida no século XVIII pelo sábio francês Charles Marie de La Condamine, que esteve na Amazônia em 1736, descrevendo seus usos pelos omáguas, que fabricavam bolas, garras e revestimentos para tecidos. Também notou que os portugueses aprenderam com os cambebas o processo de fabricação da borracha, e passaram a fazer fazer seringas, sapatos e galochas. De sua experiência surgiu, em 1745, a obra Relato abreviado de uma viagem feita ao interior da América Meridional.

No início do século XIX, os arredores de Belém e as ilhas de Marajó, no Pará, começaram a exportar para os Estados Unidos e Europa milhares de sapatos impermeabilizados e galochas. Seriam necessárias mais de 2 décadas de pesquisas para que a borracha amazônica ganhasse uma utilização industrial, pois esse produto sofre alterações com a temperatura: no calor, torna-se pegajosa; com o frio, quebradiça. O inventor estadunidense Charles Goodyear criou o processo de vulcanização (1839), no qual o uso de calor e enxofre aumenta a durabilidade da borracha. Luvas, preservativos e outros produtos feitos a partir dessa matéria ganharam os mercados europeus e norte americanos com uma velocidade tão grande que, na Amazônia, já começava a movimentação de braços para atender a crescente demanda internacional.

À esquerda, Charles Goodyear, 1891. Ilustração póstuma da Scientific American. À direita, índio omágua defumando borracha, 1876. Gravura de Franz Keller-Leuzinger.

A mão de obra destinada à extração do látex, num primeiro momento, trouxe alguns problemas para os governos locais. O governador do Pará, e mais tarde o da Província do Amazonas, se queixava que a atividade gomífera estava absorvendo trabalhadores da área de produção de bens de consumo (cacau, café, anil, arroz, guaraná), que começavam a ser importados, e das indústrias locais (cordoarias, olarias, algodoaria e estalagens). Para suprir a demanda de mão de obra, motivados por fatores naturais e econômicos, migraram para a Amazônia milhares de nordestinos entre 1877 e 1879.

Nesse final de século XIX, saíram do Ceará em direção à Amazônia cerca de 65.000 flagelos das secas e do péssimo resultado da produção agrícola causado por estas. Este contingente de pessoas avançou pelo rio Purus, atingindo, em terras estrangeiras, áreas ricas em seringueiras. A presença de brasileiros na região que viria a ser o futuro estado do Acre criaria querelas diplomáticas entre Brasil e Bolívia.

Com a rápida penetração de brasileiros nessa região, a Bolívia se alia ao capital estrangeiro de grupos europeus e norte-americanos, fundando o Bolivian Syndicate, sindicato altamente capitalizado que asseguraria o domínio boliviano e, por dez anos, exploraria os recursos da região. Em 1899, sem autorização e de madrugada, um navio de guerra norte-americano navega ilegalmente o rio Amazonas em direção ao Acre. O navio é interceptado nos arredores de Manaus, causando protestos do governo brasileiro contra os Estados Unidos.

À esquerda, as comitivas do Brasil e da Bolívia que participaram das negociações, com o Barão do Rio Branco ao centro. À direita, um mapa mostrando como ficou a geografia política após os acordos.

No mesmo ano, financiado por políticos e empresários amazonenses, o aventureiro espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Aria, com um pequeno exército improvisado, ocupa o território reivindicado pela Bolívia e funda o Estado Independente do Acre, desfeito no final do mesmo ano pelo governo brasileiro. Em 06 de agosto de 1902, o jovem Plácido de Castro, gaúcho de São Gabriel, com um exército improvisado, composto de seringueiros, entra na cidade de Xapuri, prende o intendente boliviano e proclama o Estado Independente do Acre, entrando em guerra com o exército da Bolívia. Com mais uma intervenção do governo federal brasileiro, é cessada a batalha armada em nome da batalha diplomática. O diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, já famoso por ter atuado nos impasses territoriais entre Brasil e Argentina (Questão de Palmas, 1890-1895); e Amapá (1900), propõe um acordo entre Brasil e Bolívia: O Tratado de Petrópolis. Concretizado em 1903, nele ficou estabelecido que a Bolívia venderia para o Brasil o território do Estado do Acre por 2 milhões de libras esterlinas; e o Brasil indenizaria o Bolivian Syndicate em 110 mil libras esterlinas e se comprometeria a construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, para escoar a produção boliviana pelo rio Amazonas.

Na segunda metade do século XIX, a tranquilidade da região amazônica seria alterada por dois acontecimentos: A criação da Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas, em 1852; e a Abertura dos Portos do Rio Amazonas às Nações Amigas, em 1866. A Companhia foi criada pelo empresário Irineu Evangelista, o  Barão de Mauá, e começou a operar na região com três pequenos vapores, intensificando o comércio e a comunicação da Província do Amazonas com outras províncias brasileiras e o Peru. Em 1866, pressionado por europeus, norte-americanos e membros das elites do Pará e Amazonas, ávidas por mudança, o Império do Brasil decreta, em 7 de setembro, a abertura dos rios Amazonas, Tocantins, Tapajós e Madeira à navegação estrangeira. Com esses dois acontecimentos é facilitada a escoação de matérias-primas regionais, principalmente a borracha, e a entrada de capital e manufaturados estrangeiros.

À esquerda, seringueiro extraindo látex. Gravura de Percy Lau. À direita, seringueiro defumando a borracha no tapiri, em 1900.

O novo panorama que começava a se configurar nessa parte afastada dos principais centros econômicos do Brasil atraiu pessoas das mas variadas classes sociais: Aqueles que não tinham nada a perder e buscavam um recomeço; os aventureiros, ávidos por novos experiências; e até pessoas nobres. No primeiro grupo vamos ter os nordestinos, em grande parte vindos do Ceará, mas também de Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Atraídos para uma região tão vasta, em busca de um refúgio contra as secas que assolavam seus estados de origem, logo se viram frente a uma das piores faces da economia gomífera na Amazônia: o regime de semi-servidão. Em teoria, o seringueiro era um trabalhador livre, mas trazia, desde sua viagem para a região, uma dívida com o dono do seringal. Chegando ao local de trabalho, extraía o látex até pagar o que devia ao seringalista. Só que isso raramente acontecia, pois todos os utensílios para o trabalho e bens de consumo deveriam ser comprados no barracão, também de propriedade do seringalista. Assim, esse trabalhador, explorado em um regime de trabalho que começava entre 4:00-5:00 horas, percorrendo vários quilômetros para encontrar seringueiras, ficava em um ciclo eterno de fazer e pagar dívidas. Se tentasse comprar em outro lugar, falsificar o peso das pélas de borracha ou fugir do seringal, era eliminado pelo patrão, que controlava o lugar com mãos de ferro.

Entre os aventureiros podemos citar Plácido de Castro, ex-militar, combatente da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, que em 1902 proclamou o Estado Independente do Acre, enfrentando, com um exército improvisado de seringueiros, as forças militares bolivianas. Pensava em uma economia gomífera mais humanizada e eficiente, indo contra o pensamento dos seringalistas. Pagou com a própria vida, em 1908, ao ser morto em uma emboscada no Seringal Benfica, no Acre. Abandonando a comuna italiana de Borgo Val di Taro, o conde Ermanno Stradelli, etnólogo e poeta autodidata, nutriu grande fascinação pela Amazônia, colhendo e publicando, de 1880 até sua morte, em 1926, informações riquíssimas sobre os hábitos e costumes dos nativos da região.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

football-origins.com
commons.wikimedia.org
Acervo Sergio Figueiredo/Povos da Amazônia
vfco.brazilia.jor.br
arquivohistory.blogspot.com










sábado, 28 de maio de 2016

Prefácio dos Estudos Históricos de René Chateaubriand (II)


Segunda parte do texto Prefácio dos Estudos Históricos de René Chateaubriand, agora focado nos escritores da história geral e história crítica da França, antes da Revolução de 1789; e a Escola Histórica moderna da França.


ESCRITORES DA HISTÓRIA GERAL E HISTÓRIA CRÍTICA DA FRANÇA, ANTES DA REVOLUÇÃO

Os julgamentos são muito duros hoje sobre os escritores que trabalharam em nossos anais antes da revolução. Suponhamos que nossa história geral estivesse para ser composta; que fosse preciso tirá-la de manuscritos ou mesmo de documentos impressos; que fosse preciso desenrolar a cronologia, discutir os fatos, estabelecer os reinos; eu sustento que, apesar de nossa ciência inata e todo nosso saber adquirido, não colocaríamos três volumes em pé. Quantos entre nós poderiam decifrar uma linha das cartas originais, quantos poderiam lê-las, mesmo com a ajuda dos alfabetos, dos specimen e fac-simile inseridos na Re diplomatica de Mabillon¹ e em outras obras? Somos muito impacientes de exibir nossos pensamentos; desdenhamos demais nossos antecessores para nos conformar com o modesto papel de leitores de cartulários. Se lêssemos, teríamos menos tempo para escrever, e que furto feito à posteridade! Qualquer que seja nosso justo orgulho, ousaria eu suplicar a nossa superioridade que não quebre muito depressa as muletas sobre as quais ela se arrasta de asas dobradas? Quando, com datas bem corretas, fatos bem exatos, impressos em belo francês num caractere bem legível, nós compomos à vontade histórias novas, saibamos ser gratos a esses espíritos obscuros, a esses trabalhos aos quais nos basta capturar os farrapos de nosso gênio para pasmar o universo maravilhado. [...]

A respeito das liberdades, uma observação análoga se apresenta. Os historiadores do século XVIII não podiam compreendê-la como nós; não lhes faltava nem imparcialidade, nem independência, nem coragem. Mas eles não tinham essas noções gerais das coisas que o tempo e a revolução desenvolveram. A história faz progressos dos quais são privadas algumas outras partes da inteligência letrada. A língua, quando atinge sua maturidade, permanece nesse estado ou se deteriora. Podem-se fazer versos diferentes dos de Racine, nunca melhores: a poesia tem suas fronteiras nos limites do idioma em que é escrita e cantada. Mas a história, sem se corromper, muda de caráter com os tempos, porque se compõe de fatos adquiridos e verdades encontradas, porque refaz seus julgamentos por suas experiências, porque, sendo o reflexo dos costumes e das opiniões do homem, é suscetível do aperfeiçoamento da espécie humana. Do ponto de vista físico, a sociedade, com as descobertas modernas, não é mais a sociedade sem essas descobertas; para a moral, esta sociedade, com as ideias engrandecidas tais como estão nos dias atuais, não é mais a sociedade sem estas ideias: o Nilo em sua nascente não é o Nilo de sua embocadura. Em uma palavra, os historiadores do século XIX nada criaram; somente têm um mundo novo sob os olhos, e esse mundo novo lhes serve de escala retificada para mensurar o antigo mundo.

Feita toda justiça aos homens de mérito que trataram de nossa história geral antes da revolução, eu diria com a mesma imparcialidade que não precisamos tomá-los por guias. Não podemos nos dispensar de recorrer aos originais, pois esses escritores os liam de modo diferente do nosso e com um outro espírito: eles não procuravam ali as coisas que nós procuramos, eles nem sequer as viam; rejeitavam precisamente o que recolhemos. Não escolhiam, por exemplo, nas obras dos padres da igreja senão o que concerne ao dogma e à doutrina do cristianismo: os costumes, os usos, as ideias não lhes pareciam ter nenhuma importância. Toda uma história nova está escondida nos escritos dos padres; esses estudos indicarão o caminho para ela. Não sabemos nada sobre a civilização grega e romana dos séculos V, VI e VII, nem sobre a barbárie dos destruidores do mundo romano, senão pelos escritores eclesiásticos dessa época.

Sobre nossos próprios monumentos, descobertas da mesma natureza estão por ser feitas. Antes da revolução, não se interrogavam os manuscritos apenas no tocante ao clero, aos nobres e aos reis. Nós não nos interrogamos senão sobre o que diz respeito aos povos e às transformações sociais/ ora, isto ficou sepultado nas cartas.

Os escritores pré-revolucionários da história crítica da França são tão numerosos que é impossível indicá-los todos: alguns somente devem ser assinalados como chefes de escola.

A Histoire de l' établissement de la monarchie française dans les Gaules é uma obra sólida, com frequência atacada, nunca derrubada, mesmo por Montesquieu, que aliás sabia poucas coisas sobre os francos. Rouba-se o abade Dubos sem admitir o pequeno furto: seria mais leal reconhecê-lo.

O mesmo ocorre com o abade de Gourcy: sua pequena Dissertation sur l' état des personnes en France sous la première et la seconde race, coroada pela Académie des Inscriptions, é de um método, de uma clareza e de um saber raros. O que se escreve hoje sobre o mesmo tema em parte é furtado do excelente trabalho de Gourcy: é acertado não refazer um trabalho árduo tão bem feito, mas seria necessário avisar, para deixar o elogio a quem direito. Existem, pois, homens que estão consagrados a servir de monitores a outros [...].

Desses detalhes resulta que duas escolas históricas se distinguem antes da época da revolução: a escola do século XVIII e a escola do século XIX; uma erudita e religiosa, a outra crítica e filosófica: na primeira, os beneditinos ajuntavam os fatos, e Bossuet os proclamava na Terra; na segunda, os enciclopedistas criticavam os fatos, e Voltaire os entregava aos debates da multidão. A Inglaterra fundou perto de nós sua escola exata, mais desembaraçada que a nossa dos preconceitos antirreligiosos. Nossa escola moderna do século XIX pode ser chamada de escola política: ela é filosófica também, mas de modo diferente que a do século XVIII. Falemos disso.

¹ Jean Mabillon (1632-1707), monge beneditino e historiador francês a quem se atribui o estatuto de fundador da paleografia e da diplomática como auxiliares importantes da pesquisa histórica, na medida em que pretendia construir instrumentos para discernir os documentos verdadeiros dos falsos (N. do T.)


ESCOLA HISTÓRICA MODERNA DA FRANÇA

A escola moderna se divide em dois sistemas principais: no primeiro, a história deve ser escrita sem reflexões; deve consistir na simples narrativa dos eventos, e na pintura dos costumes; deve apresentar um quadro ingênuo, variado, pleno dos episódios, deixando cada leitor, segundo a natureza de seu espírito, livre para tirar as consequências dos princípios e extrair as verdades gerais das verdades particulares. É o que se chama de história descritiva, por oposição à história filosófica do século passado.

No segundo sistema, é preciso narrar os fatos gerais, suprimindo neles uma parte dos detalhes; substituir a história da espécie pela do indivíduo; permanecer impassível diante do vício e da virtude assim como diante das catástrofes mais trágicas. É a história fatalista ou o fatalismo aplicado à história.

Vou expor minhas dúvidas sobre esses dois sistemas.

A história descritiva, levada a seus últimos limites, não entraria demais na natureza da memória? O pensamento filosófico, empregado com sobriedade, não seria necessário para dar à história sua gravidade, para fazê-la pronunciar sentenças que são da alçada de seu último e supremo tribunal? No grau de civilização a que chegamos, poderia a história da espécie desaparecer inteiramente da história do indivíduo? Deveriam as verdades eternas, bases da sociedade humana, se perder nos quadros que não representam senão costumes privados?

Existem no homem dois homens: o homem de seu século e o homem de todos os séculos: o grande pintor deve acima de tudo se fixar na semelhança deste último. Talvez hoje se valorizem demais a semelhança, e, pode-se dizer, a cópia da fisionomia de cada época. É possível que, na história como nas artes, representemos melhor do que faziam antigamente os costumes, os interiores, todo o material da sociedade; mas uma figura de Rafael, com o fundo negligenciado e flagrantes anacronismos, não apagaria as perfeições da segunda ordem? Quando se representavam os personagens de Racine com as perucas à moda de Luís XIV, os espectadores não ficavam nem menos maravilhados nem menos comovidos. Por quê? porque se via o homem no lugar de homens. [...]

Eis o que me parece verdadeiro no sistema da história descritiva: a história nunca é uma obra de filosofia; ela é um quadro; é preciso juntar à narração a representação do objeto, ou seja, é preciso ao mesmo tempo desenhar e pintar; é preciso dar aos personagens a linguagem e os sentimentos de seu tempo, não olhá-los através de nossas próprias opiniões, principal causa da alteração dos fatos. Se, tomando por regra aquilo que acreditamos da liberdade, da igualdade, da religião, de todos os princípios políticos, aplicamos essa regra à antiga ordem das coisas, nós falseamos a verdade, exigimos dos homens que vivem nessa ordem coisas das quais eles nem mesmo tinham ideia. Nada estava tão mal quanto pensávamos; o padre, o nobre, o burguês, o vassalo possuíam noções do justo e do injusto diferentes das nossas: era um outro mundo, um mundo sem dúvida menos próximo dos princípios gerais naturais do que o mundo presente, mas ao qual não faltavam nem grandeza, nem força, como testemunham seus atos e sua duração. Não nos apressemos em nos pronunciar muito desdenhosamente sobre o passado: quem sabe se a sociedade desse momento, que nos parecia superior (e que foi de fato em muitos pontos) à antiga sociedade, não parecerá a nossos sobrinhos, dentro de dois ou três séculos, aquilo que nos parece a sociedade de dois ou três séculos anteriores ao nosso? Nos alegraríamos no túmulo de sermos julgados pelas gerações futuras com o mesmo rigor com que julgamos nossos ancestrais? O que há de bom, de sincero na história descritiva é que ela narra os tempos tais como eles foram.

O outro sistema histórico moderno, o sistema fatalista, tem, acredito, inconvenientes bem menos graves, porque ele separa a moral da ação humana; sob esse aspecto terei daqui a pouco ocasião de combatê-lo, falando dos escritores de talento que o adotaram. Aqui direi somente que o sistema que baniu o indivíduo para se ocupar apenas da espécie caiu no excesso oposto ao sistema da história descritiva. Anular totalmente o indivíduo, não lhe dar senão a posição de uma cifra, a qual vem numa série de um número, é contestar-lhe o valor absoluto que ele possui, independentemente de seu valor relativo. Assim como um século influi sobre um homem, um homem influi sobre um século; e se um homem é o representante das ideias do tempo, muito mais ainda o tempo é o representante das ideias do homem.

O segundo sistema da história moderna tem seu lado verdadeiro, tal como o primeiro. É certo que não se pode hoje omitir a história da espécie; que há realmente revoluções inevitáveis porque elas não são realizadas nos espíritos antes de serem realizadas no exterior; que a história da humanidade, da sociedade geral, da civilização universal, não deve ser mascarada pela história da individualidade social, pelos eventos particulares a um século e a um país. A perfeição seria o manejo dos três sistemas: a história filosófica, a história particular, a história geral; admitir as reflexões, os quadros, os grandes resultados da civilização, rejeitando dos três sistemas aquilo que possuem de exclusivo e de sofístico.

Ademais, se é bom possuir alguns princípios fixados ao tomar da pena, é, parece-me, uma questão ociosa perguntar como a história deve ser escrita: cada historiador a escreve segundo seu próprio gênio; um a conta bem, outro a pinta melhor; este aqui é sentencioso, aquele outro, indiferente ou patético, incrédulo ou religioso: toda matéria é boa, desde que verdadeira. Juntar a gravidade da história ao interesse da memória, ser ao mesmo tempo Tucídides e Plutarco, Tácito e Suetônio, Bossuet e Froissard, e assentar os fundamentos de seu trabalho sobre os princípios gerais da escola moderna, que maravilha! Mas e aqueles aos quais o céu não atribuiu esse conjunto de talentos, dos quais um apenas serie suficiente para a glória de muitos homens? Cada um escreverá como vê, como sente; não se pode exigir do historiador senão o conhecimento dos fatos, a imparcialidade do julgamento e o estilo, se puder.


CRÉDITO DA IMAGEM:

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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Bairro: o fragmento de uma cidade

Vista parcial do bairro de São Vicente. Manaus, 1953.

Texto sobre o bairro como elemento social e histórico de uma cidade, produzido através de extratos do prefácio do meu futuro livro, Barro Vermelho: História e Memória do bairro São Lázaro.

Bairro, na definição do mais simples dicionário, é cada uma das partes que formam uma cidade. É em cada uma dessas partes, seja em qual zona for, que surge a memória coletiva, passada de geração em geração através da vida pública, representada pela convivência em templos religiosos, estabelecimentos comerciais e repartições públicas; e da vida privada, por meio de ensinamentos e práticas familiares. Essas memórias, quando evocadas e transmitidas de forma oral, constituem-se de matéria essencial para a construção da História desses bairros. Soma-se à memória as fontes documentais, encontrada em paróquias, prefeituras e acervos particulares.

Essa divisão administrativa e geográfica de uma urbe, a menor hierarquicamente, se faz presente desde as civilizações da Antiguidade, com diferentes funções em determinados locais e épocas: Nas cidades da América pré-colombiana, por exemplo, estavam acima dos núcleos familiares e tinham mais liberdade em relação ao estado; e na China da Dinastia Tang, surgiram para facilitar o registro civil e a cobrança de impostos.

Um bairro não é igual ao outro. Cada um possui particularidades distintas e bem visíveis. Na Roma Clássica, Subura era conhecido como lugar dos prazeres mundanos e da libertinagem, e Cerâmico, por abrigar os oleiros da capital. Alfama, bairro português do século XV, era conhecido por seus banhos públicos desde os tempos clássicos. Vila Nova Conceição, em São Paulo, é considerado o mais caro da capital. Essas diferenças, com o passar do tempo e aceitação dos moradores, se tornam referência para a comunidade.

Em Manaus, São Vicente de Fora, núcleo inicial de povoação do Centro, é considerado o mais antigo da cidade, com relatos desde o século XVIII. Compreendia as ruas 5 de Setembro, Bernardo Ramos, Frei José dos Inocentes, Visconde de Mauá, Monteiro de Souza, Tamandaré e Itamaracá. Mais tarde surgiram Remédios, Espírito Santo, Campina, República e Nazaré, todos amalgamados e transformados no que hoje é o Centro.

Esses locais, no decorrer da História de Manaus, foram surgindo de diferentes formas: alguns, raros, tem início de forma planejada, com projetos registrados em plantas e traçados feitos por engenheiros, como foi o caso dos bairros Cachoeirinha e Adrianópolis. A maioria esmagadora foi surgindo por meio de invasões em momentos críticos como o fim da economia gomífera; a grande cheia de 1953; a destruição da Cidade Flutuante, grande favela fluvial erguida em 1920 em frente ao Centro (destruída em 1967); e o boom provocado pela instalação da Zona Franca (1967-1990). Estes se encontram em peso nas zonas Leste e Norte, e também estão nas zonas Sul e Oeste.

São Lázaro, na zona Sul, foi um desses bairros que surgiu em meio a invasões, durante os anos 1950, quando a cidade ainda sofria os reflexos da decadência da economia da borracha e passava a receber um número crescente de pessoas vindas do interior do estado, que estava com seus seringais falidos e abandonados. Nele se amalgamaram os saberes populares, as tradições culturais e os dramas anônimos daqueles que tentavam se fixar e iniciar uma nova vida na capital. A Paróquia improvisada, construída de madeira e palha; as casas humildes, feitas do mesmo material; e as ruas, irregulares, abertas sem ordenamento e nomeadas conforme a topografia, o nome de um morador ilustre ou nome religioso, são elementos de um cenário bucólico presente nos primeiros tempos de existência da comunidade.

Uma parte, um pedaço, uma divisão, um fragmento. Da Roma Clássica à Manaus, guardadas as devidas diferenças, o bairro é o elemento que catalisa a vida em comunidade, o social em confluência ao histórico, os saberes populares e culturais. Quando se juntam esses “fragmentos”, todos com as características anteriormente citadas, se forma o espírito de uma cidade. Que num futuro não tão distante se produza uma grandiosa História Geral dos bairros e comunidades de Manaus, com foco nas zonas Leste e Norte, carentes de uma narrativa que dê luz às suas identidades históricas.


CRÉDITO DA IMAGEM:

Biblioteca IBGE

sábado, 21 de maio de 2016

Prefácio dos Estudos Históricos de René Chateaubriand (I)



François-René Auguste, visconde de Chateaubriand (1768-1848) foi escritor, ensaísta, diplomata, político e historiador francês, considerado um dos principais nomes do pré-romantismo. De família nobre, caracterizou-se pela defesa da religião católica e da Monarquia francesa, em obras como Ensaio histórico, político e moral sobre as revoluções antigas e modernas (1794-1797) e O gênio do Cristianismo (1802). Não via com bons olhos Napoleão Bonaparte, para ele um estrangeiro (Napoleão nascera na Itália) que usurpou o trono francês. Isso lhe rendeu perseguições e censura. Com o fim da Era Napoleônica, em 1815, voltou ao prestígio e liberdade de produção literária. Como pré-romântico, valorizava as emoções, a imaginação e a religiosidade na história, em oposição a super valorização da razão e do anticlericalismo que dominara a Europa durante a Revolução de 1789. Também escreveu os romances AtalaOs natchesesRené e o relato Viagem à América

No prefácio de seus Estudos Históricos, Chateaubriand empreende um trabalho metódico sobre a História, pautado pela erudição documental de decretos reais, leis, cartas e dicionários. Essas fontes passavam por uma análise minuciosa, estabelecida no século XVII por Jean Mabillon, em De re diplomatica (1681), a fim de garantir uma narrativa segura. Da escola histórica alemã, a qual tinha um conhecimento escasso, valorizava os contos populares, as lendas, as poesias medievais e gestas escandinavas como fontes históricas, não se limitando à história política. Também expressa suas dúvidas sobre os rumos da História em seu tempo; discorre sobre os historiadores franceses e a história crítica da França antes da revolução; analisa a escola histórica moderna da França, a escola história da Alemanha, a Filosofia da História e a história na Inglaterra e na Itália. Por ser um prefácio extenso, irei dividir o texto em três partes.


ÉTUDES HISTORIQUES (1843)

Heródoto começou sua história declarando os motivos que o fizeram empreendê-la; Tácito explicou as razões que lhe colocaram a pena na mão. Sem ter os talentos desses historiadores, posso imitar seu exemplo; posso dizer, como Heródoto, que escrevo para a glória de minha pátria, e porque vi os males dos homens. Mais livre que Tácito, não amo nem temo os tiranos. Agora isolado sobre a Terra, não esperando nada de meus trabalhos, encontro-me na posição mais favorável para a independência do escritor, pois já convivo com as gerações das quais evoquei as sombras.

As sociedades antigas perecem; de suas ruínas saem sociedades novas: leis, costumes, usos, hábitos, opiniões, princípios mesmo, tudo mudou. Uma grande revolução aconteceu, uma grande revolução se prepara: a França deve recompor seus anais, para colocá-los em contato com os progressos da inteligência. Nessa necessidade de uma reconstrução sobre um novo, onde buscar materiais? Quais foram os trabalhos executados antes do nosso tempo? Que existe a louvar ou a lamentar nos escritores da antiga escola histórica? Deve a nova escola ser inteiramente seguida, quais são os autores mais notáveis dessa escola? Seria tudo verdadeiro nas teorias religiosas, filosóficas e políticas do momento? Eis o que me proponho examinar neste prefácio. Eu trabalhava havia anos em uma história da França, da qual estes estudos não representam senão a exposição, as visões gerais e os destroços. Falta minha vida à minha obra: no caminho onde o tempo me retém, eu aponto com a mão aos jovens viajantes as pedras que eu havia acumulado, o solo e o lugar onde eu queria construir meu edifício.

Os antigos haviam concebido a história de modo muito diferente do nosso; eles a consideravam um simples ensinamento, e, sob esse aspecto, Aristóteles a colocou num patamar inferior ao da poesia; eles concediam pouca importância à verdade material; e isso lhes bastava, ainda que houvesse nela um fato verdadeiro ou falso a relatar, que esse fato oferecesse um grande espetáculo ou uma lição de moral e de política. Liberados dessas imensas leituras sob as quais a imaginação e a memória são igualmente esmagadas, eles tinham poucos documentos para consultar; suas citações são quase nada, e quando eles remetem a uma autoridade, é quase sempre sem indicação precisa. Heródoto contentou-se em dizer em seu primeiro livro, Clio, que escrevia conforme os historiadores da Pérsia e da Fenícia; em seu segundo livro, Euterpe, ele falava conforme os sacerdotes egípcios que lhe leram seus anais. Ele reproduziu um verso da Ilíada, uma passagem da Odisseia, um fragmento de Ésquilo: não fizeram falta a Heródoto outras autoridades, nem aos seus ouvintes nos Jogos Olímpicos. Tucídides não fez uma única citação: mencionou somente alguns cantos populares.

Tito Lívio nunca se apoiou sobre um texto: autores, os historiadores relatam; é sua maneira de proceder. Em sua terceira Década, ele lembrou os dizeres de Cintius Alimentus, prisioneiro de Aníbal, e de Coelius e Valerius sobre a guerra púnica.

Em Tácito as autoridades são menos raras, ainda que bem pouco numerosas; não se podem contar senão 13 referências: são elas, no primeiro livro dos Annales, Plínio, historiador das guerras da Germânia; no quarto livro, as Memórias de Agripina, mãe de Nero, obra cuja perda nunca será suficientemente lamentada; no terceiro livro, Fábio Rústico, o historiador Plínio e Cluvius; no 14° livro, Cluvius; no 15°, Plínio. No terceiro livro de Histórias, Tácito mencionou Massala e Plínio, e remeteu às Memórias que tinha em mãos; no quarto livro, ele se referiu aos sacerdotes egípcios; nos Costumes dos germânicos, escreveu um verso de Virgílio modificado. Com frequência ele dizia: "os historiadores destes tempos relatam": temporum illorum scriptores prodiderint; ele explicou seu sistema declarando que não mencionava os nomes dos autores a não ser quando divergiam entre si. Assim, duas citações vagas em Heródoto, nenhuma em Tucídides, duas ou três em Tito Lívio e 13 em Tácito formam todo o corpo de autoridades desses historiadores. Alguns biógrafos como Suetônio e Plutarco, sobretudo, leram um pouco mais das Memórias; mas as numerosas citações são deixadas aos compiladores, como Plínio, o naturalista, Ateneu, Macróbio e São Clemente de Alexandria, em seus Stromateis.

Os analistas da Antiguidade não faziam entrar em seus relatos o quadro dos diferentes ramos da administração; as ciências, as artes, a educação pública eram rejeitas do domínio da história; Clio caminhava agilmente, desembaraçada da bagagem pesada que arrasta hoje atrás de si. Com frequência o historiador era apenas um viajante relatando o que havia visto. Agora a história é uma enciclopédia; é preciso tudo incluir nela, da astronomia à química; da arte das finanças à da manufatura; do conhecimento do pintor, do escultor e do arquiteto até a ciência do economista; do estudo das leis eclesiásticas, civis e criminais até o das leis políticas. O historiador moderno abandona-se ao relato de uma cena de costumes e de paixões, a gabela sucede o belo ambiente; um outro imposto exige; a guerra, a navegação, o comércio acorrem. Como as armas era feitas então? De onde se tirava a madeira de construção? Quanto valia a libra de pimenta? Tudo estará perdido se o autor não observar que o ano começava na Páscoa e ele o datou do 1° de janeiro. Como pretender que sua palavra seja confiável, se ele se enganou sobre a página de uma citação, ou se ele referiu mal a edição? A sociedade permanece desconhecida, se forem ignorados a cor dos calções do rei e o preço do marco de prata. Esse historiador deve saber não apenas o que se passou em sua pátria, mas também nas terras vizinhas; e entre esses detalhes é preciso que uma ideia filosófica esteja presente em seu pensamento e lhe sirva de guia. Eis os inconvenientes da história moderna: eles são tais que nos impediram talvez de ter um dia historiadores como Tucídides, Tito Lívio e Tácito; mas não se pode evitar esses inconvenientes é preciso submeter-se a eles.

O escritor chamado a pintar um dia um grande quadro de nossa história não se limitará à procura das fontes de onde saíram imediatamente os francos e os franceses; ele estudará os primeiros séculos das sociedades vizinhas da França, porque os jovens povos de diversos lugares, como as crianças de diversos países, possuem entre si a semelhança comum que lhes dá a natureza, e porque esses povos, nascidos de um pequeno número de famílias aliadas, conservam em sua adolescência a marca dos cuidados maternos.

Quatro espécies de documentos contêm a história inteira das nações na ordem sucessiva de sua idade: as poesias, as leis, as crônicas de fatos gerais, as memórias que pintam os costumes e a vida privada. Primeiro os homens cantam; depois escrevem.

Nós não temos mais os bardits¹ que Carlos Magno fez recolher; não nos resta senão uma onde em honra da vitória que Luís, filho de Luís, o Gago, alcançou em 881 sobre os normandos; mas o monge de Saint-Gall e Ermold, o Negro, escreveram inteiramente ao gosto da canção germânica.

A mitologia e as poesias escandinavas; os edda² e as sagas; os cantos dos scaldes, que Snorron, Saxão, o Gramático, Adam de Bremen e as crônicas anglo-saxônicas nos conservaram; os nibelungos, ainda que de data mais recente, suprem nossas perdas: veremos o uso que faço deles procurando a história dos costumes bárbaros. Quanto ao que concerne às línguas, os evangelhos godos de Ulfilas são um tesouro.

Para o sul da França, Raynouard reabilitou a antiga língua românica e, publicando as poesias escritas ou cantadas nessa língua, prestou um importante serviço.

Fauriel, a quem devemos a bela tradução de cantos populares da Grécia, deve mostrar, na formação da língua românica, os traços de línguas antigas da Gália ainda faladas hoje: uma na Escócia, outra no país de Gales e na Baixa Bretanha, a terceira entre os bascos. Ele anotou um poema sobre as guerras dos árabes da Espanha e dos cristãos da Occitânia, cujo herói é um príncipe aquitano chamado Walther: não seria ele Waiffre? Muitos cantos rememoram as rebeliões de diversos chefes do sul da França contra os monarcas carolíngios: isto serve cada vez mais para provar que as hostilidades de Carlos Martel, Pepino e Carlos Magno, contra os príncipes da Aquitânia, tiveram por causa uma inimizade de raça, os descendentes dos merovíngios reinando do outro lado do Loire. Fizeram-nos esperar que Fauriel se ocupasse de uma história dos bárbaros nas províncias meridionais da França: o objeto seria digno de seu raro saber e de seus talentos.

Não é preciso se ater às leis sálica, ripuária e burgúndia para o estudo das leis bárbaras; devem-se considerar como capítulos de um mesmo código nacional as leis lombardas, alemãs, bávaras, russas (estas não senão o direito sueco), algo-saxãs e gálicas; com as últimas pode-se reconstruir muitas partes do primitivo edifício gaulês. Todas essas leis foram impressas separadamente ou em diferentes coletâneas dos historiadores da França, da Itália, da Alemanha e da Inglaterra. [...]

Entretanto, não abusemos, como estamos demasiado inclinados a fazer, das origens escandinavas, eslavas e tudescas. Parece hoje que toda nossa história esteja na Alemanha, que não se encontram senão lá nossas antiguidades e os homens que as conheceram. Os 40 anos de nossa revolução interromperam os estudos na França, enquanto eles continuaram nas universidades germânicas. Os alemães conquistaram sobre nós uma parte do tempo que havíamos ganhado deles. Mas se, pelo direito, pela filologia e pela filosofia, eles nos superam atualmente, eles estão ainda longe de chegar em história ao ponto em que estávamos quando nossos tumultos explodiram.

Rendamos justiça aos sábios da Alemanha, mas saibamos que os povos setentrionais são, como povos, muitos séculos mais jovens do que nós; que nossas cartas remontam muito mais no tempo que as deles; que os imensos trabalhos beneditinos de Saint-Maur e Saint-Vannes começaram bem antes que os trabalhos históricos dos professores de Gottinguer, Iena, Bonn, Dresden, Weimar, Brunswick, Berlim, Viena, Bresgurg etc.; que os eruditos franceses, superiores pela clareza e precisão aos eruditos de além-Reno, os ultrapassam ainda pela solidez e universalidade das pesquisas. Os alemães não nos superam verdadeiramente senão na codificação; ainda os grandes legistas, Cujas, Domat, Dumoulin, Pothier, sejam franceses. Nossos vizinhos têm sobre as origens das nações bárbaras algumas noções particulares, que eles devem às línguas faladas na Dalmácia, Hungria, Sérvia, Boêmia, Polônia etc.; mas um espírito sadio não deve dar muita importância a tais estudos que terminam por degenerar em uma metafísica da gramática, que parece tanto mais maravilhosa quanto está afogada na obscuridade.[...] Falemos do que nos pertence e indiquemos nossas próprias riquezas. Rendamos de início uma brilhante homenagem a essa escola dos beneditinos que nada jamais substituirá. Se eu não fosse agora um estrangeiro no solo que me viu nascer; se eu tivesse o direito de propor alguma coisa, eu ousaria solicitar o restabelecimento de uma ordem que tem tantos méritos nas letras. Eu queria ver reviver a congregação de Saint-Maur e Saint-Vannes na abadia de Saint-Denis, à sombra da igreja de Dagoberto, junto desses túmulos cujas cinzas foram jogadas ao vento no momento em que se dispersava a poeira do Trésor de Chartes: não eram necessárias às crianças³ de uma liberdade sem lei e, consequentemente, se mãe senão bibliotecas e sepulcros vazios. [...]

E, no entanto, posto que não somos tocados senão pelos fatos, nós deveríamos reconhecer que o passado é um fato, um fato que nada pode destruir, enquanto o futuro, tão caro a nós, não existe. Existem para um povo milhões de milhões de futuros possíveis. De todos esses futuros um só acontecerá, e talvez o menos previsto. Se o passado não é nada, que é o futuro senão uma sombra à beira do Letes, que não aparecerá talvez nunca neste mundo? Nós vivemos entre um nada e uma quimera [...].


¹Canto dos bardos. (N. do T.)
²Coleção de poemas escritos em norueguês antigo e recolhidos no manuscrito islandês Codex Regius. Constitui a principal fonte sobre a mitologia nórdica e os heróis lendários germânicos. (N. do T.)
³No original, enfants de la liberté, referência ao verso da Marselha. (N. do T.)


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Editora Bartillat






quarta-feira, 18 de maio de 2016

A Historiografia Norte-Americana: da Colonização à Independência

Os passageiros do Mayflower assinam o "Pacto de Mayflower", 1620. Jean Leon Jerome Ferris, século XIX.

Quando os primeiros colonizadores chegaram à América do Norte, vindos da Inglaterra e da França (século XVII), se depararam com povos nativos que se distinguiam por suas práticas religiosas, línguas, formas de subsistência e de se vestir. O continente e seus habitantes trouxeram grande impacto para esses europeus, que primeiramente passaram a estudá-los como um ramo da história natural, filosófica e conjectural. Já vimos como se desenvolveu a escrita da História na América Espanhola (ver A Historiografia da Conquista I), com um pano de fundo clerical, ligado ao catolicismo. Agora, vamos ter a influência religiosa protestante na América do Norte; e, mais tarde, a construção de uma história secular.

Os escritos do espanhol José de Acosta influenciaram a produção historiográfica na América do Norte. Sua concepção de que os nativos não poderiam ter uma “história oficial” fez com que os americanos estudassem esses povos como um ramo da História Natural, Filosófica e Conjectural. Bebendo direto de fontes clássicas como Tácito, Heródoto, César, Plínio e Estrabão, o jesuíta francês Jean-François Lafitau (1681-1746), que viveu na Nova França e entrou em contato com os iroqueses, escreveu Costumes dos selvagens americanos comparados aos costumes dos primeiros tempos (1724), onde os nativos americanos eram comparados a tribos da Antiguidade. Lafitau, jesuíta, via nos nativos exemplos de combate ao ateísmo, mostrando que até os “selvagens” acreditavam no divino. Em sua obra também são abordadas guerras, instrumentos musicais, práticas religiosas e linguagem. Costumes dos selvagens é uma mistura de tradição medieval e clássica; relatos de viagens do século XVI; e comparativismo iluminista. Lafitau via nos indígenas costumes asiáticos e uma influência destes, o que, atualmente, é uma das teorias de povoação da América:

“Como era o costume entre os antigos comer deitado sobre sofás, o mesmo é ainda o costume entre os índios sul-americanos que, embora tenham pequenos assentos com três pés como bancos de sapateiros sobre os quais eles comem ordinariamente, com muita frequência também fazem seus repastos deitados em redes como o fazem os índios norte-americanos que comem sentados nas mesmas esteiras em que dormem”.1

O período colonial foi marcado por conflitos internos entre ingleses e franceses, que aliavam-se, cada um, a tribos antagônicas. A Guerra do Rei Felipe (1675-1678); a Guerra dos Sete Anos (1756-1763); e outros conflitos serviram de tema para a história militar em obras como História de New Hampshire (1784), de Jeremy Belknap, crítico da escravidão e da ação dos colonizadores contra os índios. Cadwallader Colden descreveu os iroqueses em História das cinco nações indígenas dependentes da Província de Nova York na América, e defendia a tese de que os eles deveriam ser guardados como aliados contra a investida francesa a partir do Canadá. O que se escrevia na América anglo-saxônica sobre história era mais um relato sobre a flora, a fauna e os costumes dos nativos do que uma narrativa do passado propriamente dita. O primeiro historiador a escrever realmente uma narrativa sobre passado colonial foi o explorador John Smith (1579-1631) em Uma verdadeira relação (1608) e História geral da Virgínia, da Nova Inglaterra, e das Ilhas de Verão (1624).

O fervor religioso protestante dominará por muito tempo a historiografia dessa parte da América. Autores como John Foxe e Sir Walter Ralegh serão lidos e utilizados como base intelectual por diversos historiadores. A América era uma versão distante da terra prometida; os sobreviventes do naufrágio do Mayflower eram os escolhidos para assentar uma sociedade próspera; e a domesticação da natureza e do elemento nativo eram provas de que essa era a vontade de Deus. Existe uma lista extensa desses trabalhos históricos providencialistas, e dela podemos citar: A providência milagrosa do Salvador de Sion na Nova Inglaterra (1654), de Edward Johnson (1599-1672); História do assentamento de Plymouth (1856), de William Bradford (1590-1657); e História Geral da Nova Inglaterra até 1630 (1815), de William Hubbard (1621-1704). Increase Mather (1639-1723) escreveu Breve história da guerra com os índios da Nova Inglaterra, história de cunho militar e providencialista.

A região da Nova Inglaterra era o polo irradiador de obras históricas, com destaque para a Baía de Massachusetts, de onde saiam análises históricas a partir da perspectiva local, como em Visão sumária, histórica e política dos assentamentos na América do Norte (1747-1750), do médico bostoniano William Douglass (1691-1752). O filho de Increase, Cotton Mather, produziu uma grandiosa História eclesiástica da Nova Inglaterra (1693-1702), dividida em sete livros: No primeiro livro, são abordados os assentamentos coloniais da Nova Inglaterra; O segundo e terceiro livros são dedicados a biografias de figuras públicas importantes; o IV trata da história da Universidade de Harvard; e os três últimos são a história eclesiástica propriamente dita.

O último historiador do período colonial foi o governador civil de Massachusetts, Thomas Hutchinson (1711-1780), político moderado que tentou, em vão, conciliar os colonos revolucionários e o governo britânico. Publicou em 1764 o primeiro volume de História da Colônia da Baía de Massachusetts, produzido através de farta documentação da biblioteca de Samuel Mather, filho de Cotton. A narrativa abrange os primórdios de Massachusetts, como um simples assentamento puritano, até sua transformação em rica região comercial. Em 1765, durante os tumultos ocasionados pela Lei do Selo, Hutchinson teve sua biblioteca invadida e viu seus documentos serem destruídos, sendo assim interrompida a publicação de um novo volume. Conseguindo recuperar um rascunho do II volume, o governador o publica em 1767. Com o aumento das tensões entre colônia e metrópole, Hutchinson deixa a colônia e a América em 1774, terminando sua obra no exterior.

Declaração da Independência dos Estados Unidos, 1776. John Trumbull, 1819.

Entre tantos historiadores, uma mulher iria se destacar por produzir uma das principais e mais respeitadas obras sobre a Revolução Americana. Mercy Otis Warren (1728-1814), revolucionária da causa republicana, concluiu em 1791 e publicou em 1805 a História do surgimento, progresso e término da Revolução Americana. Em sua obra, Mercy combinou os testemunhos de figuras políticas com um rico material documental, coroados por sua narrativa vigorosa e bem estruturada. No extrato abaixo, vamos perceber que, para Warren, a História deve ser estudada através de um trabalho mútuo entre investigação, reflexão e precisão de linguagem:

A história, o depósito de crimes e o registro de tudo o que é infame ou honorífico à humanidade, requer um conhecimento justo do caráter, para investigar as fontes de ação; uma clara compreensão, para revisar a combinação de causas; e precisão de linguagem, para detalhar os eventos que produziram as mais notáveis revoluções.

Analisar as fontes secretas que efetuaram as mudanças progressivas na sociedade; para traçar a origem das várias formas de governo, as consequentes melhorias na ciência, na moralidade, ou a tintura nacional que marca a condução do povo sob formas despóticas ou mais liberais, é um trabalho audacioso e ousado…

O amor pela dominação e uma luxúria descontrolada de poder arbitrário prevaleceram entre todas as nações, e talvez proporcionalmente aos graus de civilização. Elas foram igualmente conspícuas no declínio da virtude romana, e nas páginas negras da história britânica. Foram esses princípios que arruinaram essa antiga república. Foram esses princípios que frequentemente envolveram a Inglaterra em conflitos civis. Foi a resistência a eles que levou um de seus monarcas à barricada e retirou outro de seu trono. Foi a prevalência deles que conduziu os primeiros colonizadores da América, de suas elegantes habitações e afluentes circunstâncias, a buscarem um asilo nas regiões frias e incultas do mundo ocidental. Oprimidos na Grã-Bretanha por reis despóticos, e perseguidos pela fúria do prelado, fugiram para um país distante, onde os desejos humanos fossem limitados pelas carências da natureza; onde a civilização não havia criado aqueles anseios artificiais que tão frequentemente rompem todo laço moral e religioso para sua gratificação2.

Terminada a revolução, a historiografia norte-americana seria orientada para a reflexão filosófica e política, em busca de respostas para questões como qual tipo de república estabelecer, quais posições tomar em relação a escravidão, como se daria a expansão rumo ao Oeste e como o elemento nativo deveria ser tratado de agora em diante. O médico David Ramsay sintetizou essas questões nas obras A História da Revolução da Carolina do Sul (1785); História da Revolução Americana (1789); e História dos Estados Unidos. Sua História da Revolução Americana começa com a história dos assentamentos coloniais, no século XVII, e passa para os conflitos entre colônia e metrópole, iniciados em 1764. Era um autor moderado, antiescravagista, primeiramente republicano e, mais tarde, federalista. Em 1817, dois anos após a morte de Ramsay, aparece História dos Estados Unidos, obra que marca sua transição de autor moderado para conservador. Sua visão mais amigável aos índios mudou para uma feroz defesa do expansionismo contra esse elemento; e suas críticas à escravidão praticamente desapareceram.

Neste último texto da série Historiografia da Conquista, podemos perceber como a escrita da História nos Estados Unidos, assim como na América Espanhola, passou por diferentes estágios de evolução: Num primeiro momento, vamos ter uma narrativa que foca mais na comparação cultural, na descrição da fauna e da flora do que no passado; depois, o protestantismo se tornaria o ponto de partida para uma história providencialista, na qual o novo continente seria uma versão da terra prometida; por último, no final do século XVIII, surgem narrativas sobre o passado americano, já com traços de uma identidade nacional que se estabeleceria após a Revolução, e histórias filosóficas sobre os novos rumos do país após a independência em relação à Grã-Bretanha.



1LAFITAU, J.F. Customs of the American Indians. Vol. I. Wisconsin, Champlain Society, 1974, p. 225.

2WARREN, M. O. “Introductory Observations”. In: COHEN, L. H. (org.). History of the Rise, Progress, and Termination of the American Revolution. 2Vols. Indianápolis: Liberty Classics, 1988, vol I. p. 3-5.


FONTES:

WOOLF, Daniel. Uma história global da história. Tradução de Caesar Souza. Petrópolis, RJ, Vozes, 2014.

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sexta-feira, 13 de maio de 2016

A relação entre Filosofia e História e a busca da construção do sentido

Por Wilton Abrahim


A filosofia é a mãe das ciências, e é tão antiga quanto a História. Ela é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos. Desde os seus primórdios com os pré-socráticos até os dias atuais, é uma conduta da vida humana e do comportamento do homem na sociedade, por isso está filiada à sabedoria, que permite adquirir a capacidade de pensar, de agir e de participar da sociedade, assim fazendo uma relação com a História, que é a ciência do homem no tempo. A História soma-se à filosofia para apresentar uma finalidade na busca pela sabedoria; e dar um sentido à vida do homem e em sua capacidade intelectual. No decorrer dos séculos, vamos ter inúmeros filósofos da história.
Segundo Olinto A. Pegoraro: “a maior dificuldade das teorias do destino é o confronto com a liberdade. Sempre a liberdade humana transcendeu as leis da física e da biologia; sempre tivemos a possibilidade de agir contra as leis, de decidir entre levar uma vida justa ou injusta, de viver bem ou distribuir-nos1
Para Ricardo Timm, devemos nos perguntar “Qual o sentido de fazer filosofia, hoje, aqui e agora?”. Inúmeros historiadores fizeram esse questionamento, tais como: Giambattista Vico (1668-1744) foi um filósofo, jurista, político, retórico e historiador italiano, vindo a ser reconhecido apenas no século XIX. Escreveu Ciência Nova, obra em que pretendia criar uma forma alternativa de estudar as ciências humanas, principalmente a história, forma diferente da aplicada às ciências naturais.
Vico põe a filosofia e filologia como duas disciplinas auxiliares da História. Em filosofia, aproveita-se a reflexão, as ideias e a sabedoria humana; e na filologia, o conhecimento da língua e das tradições dos povos. A filosofia oferece o arcabouço teórico, e a filologia o concreto, tangível, fragmentos das produções humanas. Vico, em oposição a Descartes, afirma que para verdadeiramente se conhecer algo é necessário que seu conhecedor o tenha criado. Vico afirma que o homem não caminha necessariamente para o progresso do pensamento racional.
Para Olinto A. Pegoraro: “O Cristianismo, que surgiu em plena expansão do estoicismo e neoplatonismo, aos poucos substitui o férreo determinismo da providência estoica pela providência totalmente transcendente e extracósmica2”. Vico confirma a Providência Divina para dar um sentido à História; e este afirma que essa ciência tem uma parte construída pelo homem e outra por Deus. Neste ponto Deus é o arquiteto, enquanto o homem seria o construtor.
Um outro historiador muito polêmico que podemos abordar é o francês François-Marie Arouet, mas conhecido como Voltaire (1694-1778). Seu lado historiador é pouco conhecido, pois o que vemos mais é o filosófico. Para Voltaire, a História é um conjunto dos desenvolvimentos produzidos pelo homem, nas artes, ciências e técnicas, através das transformações espirituais e morais. Sua obra filosófica-histórica foi A Filosofia da História.
Em Filosofia da História temos dois sentidos: o primeiro é uma forma de conceber o processo histórico; o segundo está em um modo de reconstituir esse processo para os leitores do presente. A obra filosofia da história é um ensaio sobre o mundo Antigo e sobre o que se produziu sobre ele. Diferente de Vico, Voltaire atacava as concepções religiosas que se fizeram da história das nações e também lendas, mitos e fábulas. A Historiografia de Voltaire é crítica, secularizada, cultural e filosófica.
Este dois grandes historiadores filósofos fizeram o uso do sentido da filosofia, que mudou a mentalidade e a forma de pensamento. Contudo, nós estudantes acadêmicos temos o dever de nos aprofundarmos nas questões filosóficas, criando assim, um sentido para nossos projetos de pesquisa, de pós-graduação e entre os iniciantes, pois o sentido somos nós que construímos.

1 PEGORARO, Olinto A. “concepções do mundo”. In--------------------------- SENTIDOS DA HISTÓRIA. P 18. Petrópolis, RJ:Vozes, 2011.
2 Ibidem, p.20.


Wilton Abrahim Gomes Garcez é acadêmico da Licenciatura em História na Universidade Federal do Amazonas (UFAM).











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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Viver à grega

Baco, de Caravaggio. 1593-1597.

Pargraecari é um termo de origem latina, que significa “viver à grega”. Era com este termo que alguns romanos, os mais conservadores, designavam o modo de vida de seus semelhantes. O modo de vida romano, entre os séculos III e II, recorte histórico feito pela autora, é marcado pela devassidão, pela ostentação, a vida galante e desregrada. Naquela época, a existência desses hábitos, que iam contra a moral estabelecida e defendida pelas elites, era atribuída à má influência grega. Mas como era esse estilo de vida grego? Uma fonte material pode ser utilizada como simples resposta: Vejam, abaixo. O mosaico da imagem, grego, data do século III a.C., e foi encontrado à duas semanas nas ruínas de Antioquia, na Turquia. Ele fazia parte de uma sala de jantar de uma residência, e nele se lê: “Seja alegre, viva sua vida”. Observem que, quem segura a tigela de bebida, ao lado da garrafa, é um esqueleto, lembrando da efemeridade da vida. Era assim que os gregos, e agora os romanos, em parte influenciados pelos vizinhos mediterrâneos e em outra, antigos praticantes, viviam.



As comédias de Plauto e Terêncio, as Sátiras de Petrônio Árbitro e os escritos de outros autores, legaram para nós as figuras das prostitutas que arruinavam famílias, os homens que, em avançada idade, ainda sentem os ardores do amor, e o militar fanfarrão. Plauto, em uma de suas comédias, exclama: “Bebam dia e noite, vivam à grega, comprem mulheres, libertem-nas, engordem os parasitas”. Por mais que se jogasse a culpa nos gregos, era difícil ocultar algo facilmente visível na sociedade romana muito antes do contato destes com seus vizinhos.

O contato entre romanos e gregos, citando Catherine Salles, e a introdução desses hábitos entre os latinos, se deu no século III a.C., quando as legiões romanas conquistam a Itália do Sul, e os habitantes do Lácio começam a se familiarizar com os hábitos desregrados dos habitantes da Campânia, na Magna Grécia. Francisco Oliveira e José Luís Brandão, em História de Roma Antiga. Vol I. - das origens à morte de César, citam que esse estilo de vida grego chegou à Roma de diferentes formas: “pela presença de gregos em Roma – reféns, escravos, imigrantes e embaixadores; a passagem de romanos pela Magna Grécia, pela Grécia e pelo mundo helenístico – militares, viajantes, comerciantes, embaixadores, jovens estudantes que aperfeiçoavam os seus estudos em grandes centros culturais, como Alexandria, Atenas, Nápoles, Pérgamo e Rodes. Nesta fase merece particular destaque a atração de intelectuais gregos por Roma: professores, médicos, retores, filósofos, geógrafos, historiadores e artistas”1.

Por mais que existissem tentativas, por parte das elites aristocráticas e burocráticas romanas, de esconder a realidade de devassidão dos habitantes da cidade, a vida dos prazeres à grega era indissociável para um romano do Aventino, dos lupanares e ruas do bairro Subura, das zonas do Grande Circo, povoadas por populações à margem da sociedade. Esses nomes de bairros, e a associação que carregam, revelam, nas palavras de Catherine, a existência de uma “geografia do prazer”. Os romanos, muito antes de terem contato com a “má influência” grega, já cultivavam hábitos considerados reprováveis pela moral citadina. “O mito do romano casto, corrompido por costumes estrangeiros, deve ser posto na lista dos acessórios de uma comédia que os partidários da castidade original do povo latino gostam de presentar”2

Jogar a culpa aos estrangeiros era um método não muito efetivo de diminuir a culpa pelo que se praticava na cidade, que era associada a todas as formas de prazer, principalmente os proibidos. Basta lembrar que, entre os antigos, Roma é o anagrama de Amor. A elite tentava omitir essas práticas, mas ela mesma os praticava. No Império, é bom enfatizar, existia uma relação intensa entre poder e sexo, a qual pode ser exemplificada com os altos impostos cobrados das lupas, prostitutas, bordéis e choupanas; e até em decisões políticas tomadas durante bebedeiras ou relações entre quatro paredes.


1OLIVEIRA, Francisco; BRANDÃO, José Luís. História de Roma Antiga: vol I: das origens à morte de César. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015, p. 270.

2SALLES, Catherine. Nos submundos da Antiguidade. 2° ed. São Paulo, Brasiliense, 1983. p. 171.


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Revista Aventuras na História