terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Fotografias Post Mortem em Manaus

A morte nos assusta ao mesmo tempo que fascina. É o cessar do corpo biológico e, para a maior parte da população mundial, o início de uma caminhada em direção ao plano espiritual. Tenta-se fazer com que ela demore a chegar. No mínimo, se retarda. Mas que chega, chega. Surgem temores, devoções. Nós, do século XXI, estamos sem tempo até para ficar de luto. Exige-se rapidez nesse momento da vida. No entanto, nossos antepassados, além de guardar luto por meses e até anos, em sinal de respeito, encaravam esse processo como algo natural, o tornando às vezes em uma ocasião especial onde se reuniam na casa do falecido amigos e familiares. A morte virou objeto de pesquisas: Utilizando inventários e testamentos, José de Alcântara Machado de Oliveira publicou em 1929 Vida e morte do bandeirante, mostrando o peso da morte nos tempos coloniais. Jefferson Péres, em sua Evocação de Manaus – como eu a vi ou sonhei, nos dá algumas informações sobre luto na sociedade manauara.

Após a invenção do Daguerreótipo, precursor das câmeras fotográficas, as formas de guardar lembranças de entes queridos mudaram. A fotografia era mais acessível e passava uma sensação de realidade maior que as pinturas, comuns por muitos séculos, executadas por artistas renomados e muito caras. Da segunda metade do século XIX até a década de 80 do XXI, predominaram no Brasil as fotopinturas, pinturas feitas a partir de fotos em baixa resolução, populares em diferentes camadas da sociedade. Mas, além dessa técnica, existiu uma outra, ainda não abordada de forma satisfatória do ponto de vista histórico: a fotografia post mortem.

Essa técnica, a fotografia pós-morte, surgiu na Inglaterra durante a Era Vitoriana (1837-1901). Até o momento, acredita-se que ela teve início após a morte de um membro da família real, o qual a Rainha Vitória teria pedido para fotografar para guardar como recordação. Nesse período, final do século XIX e início do XX, a taxa de mortalidade infantil era bastante alta. Muitas famílias passaram a contratar fotógrafos para fazer o registro de seus filhos já mortos, talvez a única imagem que se teria dessa criança. Aos poucos essa prática se estendeu para todas as idades. Eram outros tempos, de conflitos violentos. Vivia-se menos. Sabe-se que essa prática chegou em outros países como Estados Unidos, França, Alemanha e Brasil.

Julieta Bosco e Idalina Tozzi ao lado do bebê em um caixão. Vila de São João Velho, São Paulo, 1930.

Não se sabe quando as fotografias post mortem começaram a ser produzidas no Brasil. Ao realizar pesquisas, encontrei um registro feito em 1930 na Vila de São João Velho, ao lado de São João Novo, em São Paulo. A legenda nos informa que, ao lado do bebê, estão Julieta Bosco e Idalina Tozzi. Apesar desta foto ser bastante popular, encontrei uma muito mais antiga, aqui de Manaus, possivelmente do final do século XIX. Nela temos uma criança em um caixão, como se estivesse acordado. Na legenda é identificada apenas a cidade do registro e o estúdio responsável, no caso, a “Photo Castro”. Não encontrei, em jornais, revistas e livros antigos qualquer menção a essa empresa. Talvez seja de outro estado ou país. O formato, um carte cabinet, espécie de cartão de visita, indica que foram feitas cópias da original, possivelmente entregues a parentes e conhecidos. Apenas famílias abastadas tinham acesso ao trabalho de estúdios fotográficos profissionais e à aquisição de cartões de visita.

Carte Cabinet de uma criança "dormindo". Manaus, século XIX. Photo Castro

Mais recentes são as fotografias da família de Eros Augusto da Silva, que conservou o costume da fotografia pós-morte dos anos 30 até os dias de hoje. Na primeira imagem temos o seu avô Carlos Pereira da Silva (1894-1931), fotografado em caixão aberto, pratica comum quando o serviço não era feito por um estúdio. A seguir, registro do cortejo fúnebre de sua bisavó Januária Lago (1862-1964) e de seu corpo. Acompanham o ato, além de outros familiares, o Dr. Eros Pereira da Silva, famoso advogado da capital. Notem a tranquilidade das pessoas presentes. A morte, no passado, era um processo pelo qual se passava lentamente, no particular da família. Existia tempo para chorar os mortos. As pessoas geralmente terminavam seus dias em família, em paz com o Deus de sua religião. O ato era puramente feito por respeito à sua memória. As duas últimas fotografias são do seu tio-avô Wild Lago, filho de Januária (1909-1992). Em 2008 fizeram o registro do Dr. Eros Pereira da Silva; e, em 2014, o de uma prima de Eros Augusto da Silva.

Carlos Pereira da Silva, 1931.

Cortejo fúnebre de Januária Lago, 1964.

Januária Lago, 1964.

Dr. Eros Pereira da Silva acompanhando o cortejo de Januária, 1964.

Dr. Eros Pereira da Silva ao lado do corpo de Wild Lago, 1992.

Wild Lago, 1992.

As fotografias post mortem que vimos estão divididas da seguinte forma: A primeira, mais antiga, mostra a criança como se estivesse acordada, uma forma simbólica de desafiar a morte. As outras, ao lado do caixão, representam sua aceitação. Quando esse tipo de fotografia chegou à Manaus? Seria uma herança dos ingleses que para cá vieram durante o ciclo econômico da borracha? São perguntas cujas respostas serão encontradas em pesquisas futuras. Mas sabe-se, agora, que esse é um novo capítulo da micro-história da cidade.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

www.alemdaimaginacao.com.br
M. Duarte
Acervo Eros Augusto Pereira da Silva

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