sábado, 22 de agosto de 2015

Educandos: 160 anos do Alto da Bela Vista

Estabelecimento dos Educandos Artífices, na antiga Olaria Provincial.

Neste dia 21 de agosto, o bairro de Educandos comemora 160 anos de fundação. Está Localizado na zona Sul de Manaus, em frente ao Rio Negro, limitado pelos bairros de Santa Luzia, Colônia Oliveira Machado, Cachoeirinha (através das pontes Ephigênio Salles e Juscelino Kubitschek) e Centro (ponte Pe. Antônio Plácido de Souza).

A origem desse bairro é ligada à criação do Estabelecimento dos Educandos Artífices, instituição educacional criada através da Lei N° 60, de 21 de agosto de 1856, onde eram ensinados os ofícios de tipografia, sapataria, carpintaria, alfaiataria etc. Estudavam nessa instituição jovens órfãos e de origem humilde. O nome pelo qual o bairro ficou conhecido é uma lembrança do antigo Estabelecimento dos "Educandos". Essa escola foi instalada no prédio da Olaria Provincial, no local conhecido como Barreira de Baixo.

De acordo com o Relatório da Comissão Organizadora do Tombo dos Próprios do Município, de 1927, as primeiras ruas do local foram abertas em 1901, num total de 6, sob as ordens do superintendente Dr. Arthur Cezar Moreira de Araujo. Por meio do decreto n° 67, de 22 de julho de 1907, do superintendente interino Coronel José da Costa Monteiro Tapajós, a localidade de Educandos é batizada com o nome de Constantinópolis (Cidade de Constantino), uma homenagem ao governador da época, Constantino Nery.

Ainda com base nesse documento e nas informações do historiador Cláudio Amazonas, em 1908 a Intendência Municipal, sob os comandos do superintendente Domingos José de Andrade, através das Leis N° 487 (29 de fevereiro), 491 (4 de março), 507 (29 de maio) e 538 (9 de dezembro), dá a denominação das primeiras seis ruas que foram abertas no bairro: 

A rua Norte/Sul n°1 passa a chamar-se Boulevard Sá Peixoto, "em homenagem ao sr. Senador Antonio Gonçalves de Sá Peixoto que tão relevantes serviços ha prestado ao Estado do Amazonas e especialmente à cidade de Manáos; As ruas Norte Sul n° 2 e 3 passam a chamar-se monsenhor Amâncio de Miranda e Innocêncio de Araújo; As ruas Leste/Oeste n° 1 e 2 passam a chamar-se Delcídio Amaral e Manuel Urbano; A que poderia ser a Norte/Sul n° 3, seria chamada pelo povo de Boulevard Rio Negro, pois se constitui a faixa marginal o bairro frente ao rio Negro. Quanto à praça, seria batizada de Dr. Tavares Bastos, advogado e político alagoano, morto no dia 3 de dezembro de 1875 em Nice, na França, que, dentre outros feitos importantes de sua vida, inclui-se a luta pela abertura dos portos do Amazonas ao comércio mundial e pela libertação dos escravos.

Após essas pequenas mudanças, Educandos necessitava integrar-se com o restante da cidade, localizada no Centro e na Cachoeirinha. Até então, o contato era feito através das catraias, com seus portos localizados nas ruas Delcídio Amaral e Manoel Urbano. O primeiro porto levava em direção à rua Lima Bacury; o segundo, rua dos Andradas.


Pontes


A integração do Educandos ao restante da cidade se deu por meio das pontes. Ao todo, em sua História, foram construídas três. A primeira começou a ser construída em 1927, no governo de Ephigênio Salles, sendo entregue à população dois anos depois, em 1929. Foi batizada com o nome do referido governador. Com isso, o Educandos estava conectado com o bairro da Cachoeirinha e, através desse, ao Centro.



Em 1° de maio de 1959, o então governador, Gilberto Mestrinho, inaugurava a Ponte Juscelino Kubitschek, que esteve em Manaus para a inauguração. Essa ponte também ligava o bairro à Cachoeirinha. Sua construção se deu pelo aumento da demanda do tráfego na cidade, da ligação com a estrada do Paredão para o aeroporto de Ponta e Pelada e da Refinaria de Isaac Sabbá.




A terceira e última é a Ponte Pe. Antônio Plácido de Souza, que liga o Educandos, através da rua Delcídio Amaral, ao Centro, pela rua Quintino Bocaiuva. Começou a ser construída em 1972, na administração do prefeito Frank Lima, e foi concluída e inaugurada em 18 de outubro de 1975, na administração de Jorge Teixeira. Seu nome é uma homenagem ao primeiro vigário da paróquia de N. S. do Perpétuo Socorro.


Lugares Históricos

Com 159 anos de existência, o bairro possui lugares históricos que valem a pena conhecer.



Av. Leopoldo Péres - Com suas obras iniciadas em 1928 e concluídas em 1929, a "Estrada de Constantinópolis", como era conhecida na época, foi aberta pelos membros da Sociedade Sportiva e Beneficente de Constantinópolis, para facilitar o acesso dos moradores ao bairro da Cachoeirinha, através da ponte Ephigênio Salles. No final da Grande Guerra, com os Acordos de Washington encerrados e a nova queda dos preços da borracha, muitos nordestinos passaram a se alojar em subúrbios da cidade. A Estrada de Constantinópolis passou a ser habitada por essas pessoas, que passaram a instalar no local pequenos comércios. A presença dos nordestinos fez a estrada ficar conhecida como Estrada dos Arigós. Atualmente, a avenida mantém a tradição comercial, com inúmeras lojas de pequeno e médio porte.



Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro - Em 1928, durante as obras da Estrada, foi construída uma pequena capela em madeira, dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O Pe. Antônio Plácido de Souza assume o Curato Provisório de Constantinópolis, que se tornou, em 15 de dezembro de 1941, Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A estrutura atual, de alvenaria, começou a ser construída em 1946, sendo concluída anos mais tarde. Está localizada na rua Inocêncio de Araujo.


Vila Cavalcante - Uma das primeiras construções em alvenaria do bairro, a Vila Cavalcante, construída em 1912, é um dos últimos prédios históricos do bairro. O nome é de origem de uma rica família de seringalistas do Juruá. Foi adquirida por Manuel Figueiredo de Barros, regatão, que a vendeu em 1935 para o comerciante Joaquim Ferreira da Silva. Em 1924, em suas dependências, funcionou o Grupo Escolar Machado de Assis e, na década de 1930, o escritório dos Correios. Atualmente o prédio pertence à Fundação Santa Catarina, organização religiosa da Igreja Católica. Está localizado no Boulevard Sá Peixoto.


Orla do Amarelinho - O calçadão, de frente para o Rio Negro, é o principal cartão postal do Educandos. De noite, é o point certo dos que querem se divertir nos bares e casas de dança que ficam ao redor. Fato interessante e trágico é que, às 9 horas do dia 2 de abril de 1971, a área que atualmente compreende o Amarelinho desmoronou, consequência de forte tempestade ocorrida um dia antes. Nenhuma pessoa morreu, ocorrendo apenas a destruição das residências de madeira e palha que existiam no local. Está localizado no Boulevard Rio Negro.



Usina Labor - Em 1938, o empresário Isaac Sabbá adquire um grande terreno na Estrada de Constantinópolis, construindo nele a Usina Labor, destinada ao beneficiamento de sorva e borracha. A mão de obra empregada nessa indústria vinha do próprio bairro. Nos anos 1970 foi transformada em Fitejuta, agora funcionando como tecelagem de juta. O prédio é onde funcionou, até 2014, um dos supermercados DB. Fica na Avenida Leopoldo Péres.




FONTES: AMAZONAS, Cláudio. Memórias do Alto da Bela Vista: Roteiro Sentimental de Educandos. Manaus: Norma Propaganda e Marketing, 1996.

Relatório da Comissão Organizadora do Tombo dos Próprios do Município. 1927. Administração do prefeito Basílio Torreão Franco de Sá. Disponível em: http://catadordepapeis.blogspot.com.br/2015/08/livro-tombo-da-prefeitura-de-manaus-1.html. Acesso em 22/08/2015.

AMAZONAS, Cláudio. Constantinópolis: Origens e Tradições. Manaus: Edições Muiraquitã, 2008.


CRÉDITO DAS IMAGENS: Skyscrapercity
                                     Educandos, Cidade Alta
                                     Blog do Coronel Roberto
                                     Manaus de Antigamente



quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Historiadores Amazonenses

Ontem, 19 de agosto, comemorou-se o Dia do Historiador, data instituída em 2009, através da Lei N° 12. 130, de 17 de dezembro. O estado do Amazonas produziu e ainda produz grandes historiadores, que se debruçam sobre diferentes temas na História do Amazonas e da Amazônia. Escrevo um pequeno texto falando sobre alguns desses autores, suas carreiras e obras.

Arthur Cézar Ferreira Reis - foi professor, historiador e político. Nasceu em Manaus, em 08 de janeiro de 1906, falecendo no Rio de Janeiro em 07 de fevereiro de 1993. Começou o curso de Direito em Belém, concluindo-o no Rio de Janeiro, em 1927. Em 1928 retornou a Manaus, passando a lecionar História do Brasil no Colégio Dom Bosco e, em 1930, História Universal da Escola Normal. Também assumiu a função de Redator Chefe do Jornal do Comércio, dirigido por seu pai, Vicente Torres da Silva Reis. Em 1961, dirigiu o Departamento de História e Documentação do Estado da Guanabara e foi nomeado presidente do Conselho Federal de Cultura.Durante o Regime Militar foi nomeado pelo presidente Castelo Branco para assumir o governo do Amazonas, cargo que ocupou de 1964 até 1967. Principais obras: História do Amazonas, Manaus, 1931; Manaus e outras vilas, Manaus, 1934; A Política de Portugal no Vale Amazônico, Belém, 1939; Lobo D' Almada, um Estadista Colonial, Manaus, 1940; O Seringal e o Seringueiro, Tentativa de Interpretação, Rio de Janeiro, 1953. Esses são só alguns exemplos, pois Arthur Reis escreveu em toda a sua vida mais de 37 livros sobre História.



Agnello Bittencourt - foi geógrafo, jornalista, professor, político e historiador. Nasceu em Manaus em 14 de dezembro de 1876, falecendo no Rio de Janeiro em 19 de julho de 1975. Dedicou 52 anos de sua vida ao magistério, lecionando no Gymnásio Amazonense D. Pedro II e na Escola de Comércio Sólon de Lucena. Comandou a Prefeitura de Manaus entre os anos de 1909 e 1910. Foi um dos membros fundadores do IGHA, Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, em 1917; e membro da Academia Amazonense de Letras. Escreveu os seguintes livros: Corographia do Estado do Amazonas; Fundação de Manas: Pródromos e Sequências; Bacia Amazônica: Vias de Comunicação e Meios de Transporte; Navegação do Amazonas e Portos da Amazônia; Mosaicos do Amazonas - Fisiografia e Demografia da Região; O homem amazonense e o espaço; Plantas e animais bizarros do Amazonas; Reminiscências do Ayapuá; Dicionário Amazonense de Biografias - Vultos do Passado; e Pródromos educacionais do Amazonas.



Mário Ypiranga Monteiro - foi advogado, professor, escritor e historiador. Nasceu em Manaus, em 23 de janeiro de 1909, falecendo na mesma cidade em 08 de julho de 2004. É reconhecido nacional e internacionalmente como um dos historiadores que mais contribuiu para a divulgação da História do Amazonas. Foi professor titular de Geografia Geral no Gymnásio Amazonense, escola em que concluiu seu curso em 1930, e professor de Literatura Amazonense na Universidade do Amazonas. Em 1955 se torna pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), fazendo pesquisas históricas em Portugal. Foi membro de inúmeras entidades, dentre as quais o IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), a Ordem dos Advogados do Brasil, a Academia Amazonense de Letras e da National Geographic. É, até hoje, o autor que mais escreveu livros sobre História do Amazonas, com quase 50 títulos publicados. Os que mais se destacam tanto pela qualidade quanto pela raridade são: O Aguadeiro, 1947; Fundação de Manaus, 1948; O Espião do Rei, 1950; A Capitania de São José do Rio Negro, 1955; O Regatão, 1957; e Roteiro Histórico de Manaus, 1969.



Aguinaldo Nascimento Figueiredo - é professor e historiador. Nasceu em Manaus em 26 de fevereiro de 1958. Leciona História na rede pública há mais de 20 anos. É, atualmente, um dos historiadores que mais vende livros de história do Amazonas. Escreveu, durante três anos, as colunas de História do Amazonas e Museu do Conhecimento, publicações dominicais do jornal "O Estado do Amazonas", o que lhe valeu Votos de Aplausos, no Senado Federal em 2004. Aguinaldo possui mais de 500 artigos publicados em diversos jornais e revistas, como Folha Comercial do Amazonas, O Estado do Amazonas e Revista Big Amazonas. Escreveu História do Amazonas, Manaus, 2000; Santa Luzia, História e Memória do povo do Emboca, Manaus, 2008; e Os Samurais das Selvas - A Presença Japonesa no Amazonas. Manaus, 2012.




Raimundo Neves de Almeida - é escritor, cronista, poeta e historiador. Nasceu na comunidade de Uruapiára, na cidade de Humaitá, em 31 de agosto de 1943. Mudou-se em 1990 para a cidade Porto Velho, capital de Rondônia. Começou sua carreira literária em 1980. É Sócio Titular da Associação dos Escritores do Amazonas e sócio cultural da Associação Internacional dos Amigos de Ferreira de Castro, em Portugal; sócio fundador da União dos Artistas de Humaitá, sócio correspondente da Academia História do Amazonas e Membro correspondente do Instituto Cultural Vale Caririense de Juazeiro do Norte, Ceará. Suas principais obras são Retalhos Históricos e Geográficos de Humaitá, 1980; Dicionário Bibliográfico de Escritores Brasileiros Contemporâneos, 1998; Na Beira do Barranco - Estórias, crendices, sentimentos e humor de caboclos do Madeira, 2005; e Escritores e Poetas Humaitaenses - Dados biográficos, 2008.




Francisco Gomes da Silva - é Promotor de Justiça aposentado, político, professor, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Nasceu em Itacoatiara, em 24 de novembro de 1945. Há mais de 50 anos se dedica à pesquisa histórica sobre sua cidade natal, onde ajudou a fundar a Academia Itacoatiarense de Letras (2009). A maioria de suas obras abordam a História desse município. São elas: Itacoatiara. Roteiro de uma Cidade, 1965; Itacoatiara: Administrações municipais, realidade presente, 1970; Centenário de São José do Amatary, 1979; Cronografia de Itacoatiara (2 volumes, 1997 e 1998); Instituto Alfredo da Matta ontem e hoje: uma história de saúde pública (1955-1997), 1997; A Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Itacoatiara, 1999; Presença do Poder Judiciário no Município de Itacoatiara, 2004; Pedro Gomes meu pai (memorial de família), 2006; Câmara Municipal de Itacoatiara (sinopse histórica), 2010; Homens, mulheres e coisas de Itacoatiara, 2013; As Pedras do Rosário; e Fundação de Itacoatiara, 2013.


Antonio José Souto Loureiro - é escritor, médico reumatologista e historiador. Nasceu em Manaus, em 06 de junho de 1940. Formou-se em Medicina na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. É membro (Presidente) do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas (IGHA), da Maçonaria do Amazonas, da Academia Amazonense de Letras e da Academia Amazonense de Medicina. É autor de Amazônia 10.000 anos, 1972; Síntese da História do Amazonas, 1978; A Gazeta do Purus, 1981; A Grande Crise, 1986; O Amazonas na Época Imperial, 1989; Tempos de Esperança, 1994; Dados para uma História do Grande Oriente do Estado do Amazonas, 1999; História da Medicina e das Doenças no Amazonas, 2004; O Brasil Acreano, 2004; e o Toque de Shofar.



Antonio Pacífico Siqueira Saunier - foi antropólogo, poeta e historiador autodidata. Nasceu na localidade de Santa Marta, no município de Barreirinha, em 08 de julho de 1932, e faleceu em Parintins, a 16 de maio de 1999. Filho da cidade de Barreirinha, Tonzinho de Saunier adotou Parintins como sua casa e inspiração para o trabalho antropológico e histórico. Também produziu cerca de 300 crônicas e contos baseados em mitos e lendas amazônicos. Escreveu: O Magnífico Folclore de Parintins, 1989; Várzea e Terra Firme, 1990; Saudade da Saudade, 1990; e Parintins, Memória dos acontecimentos históricos, 2003, obra póstuma.


Esses são apenas alguns dos muitos historiadores, da antiga e da nova geração, que contribuem para a História do Amazonas. Até hoje, o estado produz incríveis profissionais nessa área, sejam eles formados ou autodidatas. Posso citar também o Coronel Roberto Mendonça (n. 1946) pesquisador e historiador da Polícia Militar do Amazonas; Eylan Lins (n. 1970), professor da rede pública em Manaus e historiador sobre a cidade de Fonte Boa; e Otoni Moreira Mesquita (n. 1953) professor da Universidade Federal do Amazonas e historiador da arquitetura da Belle Époque. Seus ricos acervos, como o de Arthur Reis, que reúne cerca de 21.000 mil exemplares de livros, manuscritos e jornais, podem ser consultados em centros culturais na capital e no interior e, para os sortudos, em sebos no Centro da cidade de Manaus.


IMAGENS E FONTES: 

Jornal Gazeta de Parintins - gazetaparintins.blogspot.com
Catador de Papéis - Blog do Coronel Roberto - catadordepapeis.blogspot.com.br
Humaitá - www.humaitaweb.com.br
Itacoatiara, história e cantigas. Blog do Francisco Gomes - franciscogomesdasilva.com.br
Blog do Rocha - jmartinsrocha.blogspot.com
                                          






sábado, 8 de agosto de 2015

O Mito Japonês da Criação

Izanagi e Izanami na Ponte Flutuante do Céu. Utagawa Hiroshige, 1859-860.

No princípio, o Caos era um mar de tudo. Sem forma, era o nada. Eis que nas águas de tudo nasceu a primeira divindade, ser vivo primordial, Senhor Kunitokotachi, eterno regente das terras, das águas e dos ares e de mais o que havia. Simples junco solitário, que, com o tempo, gerou os Espíritos dos Céus, que passaram a ordenar as mil tramoias do Caos.

Ordenaram o que seria a Terra e o firmamento, distribuindo as águas e distribuindo os ares. Criaram novos seis pares de Espíritos Celestiais, com a missão de governar o destino de tudo.

Eis que, então, se percebeu que a Terra não passava de um mar de óleo à deriva flutuando pelo ar. Era preciso seguir com a obra da criação.

Muitos desses Espíritos mantêm suas moradias nas Planícies do Céu. Outros se foram de lá, ninguém sabe para onde. Antes, todos ordenaram ao mais jovem desses pares de espíritos governantes, Izanagi e Izanami, que consolidasse a Terra (que se encontrava à deriva feito óleo flutuante) dando à luz todas as ilhas do Império do Japão.

Izanagi e Izanami, no centro de uma ponte suspensa no ar do Céu, com uma sagrada lança, tanto agitaram as águas do oceano salgado, que estas se adensaram.

Suspensa a lança no ar, eis que dela cai a gota, que gera a primeira ilha, de nome Ono-Goro-Jima. Onde começa a história.

Izanagi e Izanami construíram, nessa ilha, uma vasta habitação e, no centro desse lar, no rumo do vasto Céu, um grande pilar de pedra, que é o eixo do mundo.

No mesmo instante, uma ave, pássaro abençoado, senhor dos prazeres do amor, sobrevoou o casal.

Izanagi e Izanami, plenamente apaixonados, perceberam, em seus corpos, suas doces diferenças. Concluíram que teriam de juntá-los com fervor, tornando-se um corpo só, para prosseguir com a obra da sagrada criação.

Movidos por grande amor, os dois giraram em torno do vasto eixo do mundo. Da esquerda para a direita foi o rumo de Izanagi. Da direita para a esquerda, o rumo de Izanami. Assim, caso se encontrassem, juntariam os seus corpos no prazer de ser um corpo.

Quando os dois se encontraram, Izanami exclamou:

- Oh! Que belo e encantador é o jovem que vem a mim!

Surpreendido, Izanagi respondeu a Izanami:

- Ah! Que bela e encantadora é a donzela que vejo e vou ao encontro dela!

Intrigado, Izanagi percebeu algo de errado:

- Não é justo que a mulher fale primeiro que o homem!

Contudo, não se importaram e entraram em comunhão. Trouxeram à luz da vida o primeiro de seus filhos, conhecido por Hiruko, repelente sanguessuga.

Entristecido, o casal abandonou esse filho em um barco, no alto-mar. Só muito tempo mais tarde, noutra era, com certeza, é que, já purificado, Hiruko tornou-se Ebisu, o Senhor dos Pescadores.

Izanagi e Izanami tiveram mais outros filhos, todos também perdidos. Bastante desconsolado, o casal foi se entender com os Senhores do Céu.

- Isso só acontece, quando, em vez do homem, a mulher fala primeiro! - foi o que os dois ouviram.

E de novo os dois giraram junto do eixo do mundo.

Desta vez, foi Izanagi quem primeiro falou. Depois, ouviu Izanami. E seus corpos se juntaram. Izanami deu à luz as ilhas do Japão.

Também geraram espíritos. Do mar, dos rios, das terras, das árvores, das montanhas, dos ventos e das chuvas, das estações do ano e de tudo mais que há.

No sentido do destino, Izanami trouxe à luz o espírito do fogo, o feroz Kagutsuchi, que, ao nascer, queimou a mãe. Quando morreu Izanami.

Com dor, desespero e lágrimas, Izanagi sepultou Izanami aos pés de um monte. E, sozinha, Izanami foi para o Reino das Trevas, para a Terra da Tristeza, onde, em meio à noite eterna, vivem todos os mortos.

Solitário e conturbado, com sua espada afiada, Izanagi, num só golpe, decepou Kagutsuchi.

Esse sangue derramado do espírito do fogo gerou oito divindades. De seu corpo retalhado, nasceram outros espíritos, tornando-se os governantes dos vulcões e das colinas que existem no Japão.

Vivo, com sua saudade, procurando Izanami, Izanagi viajou para a Terra da Tristeza.

E, lá, no Reino das Trevas, com um dente de seu pente transformado em tocha viva, ele iluminou as trilhas, que, aos gritos, percorreu:

- Volta, logo, meu amor! O mundo que nós criamos permanece inacabado! Eu preciso de você!

Izanami, escondida, ouvindo a voz do amante, retrucou em altos brados:

- Oh! Meu amado! É tarde, muito tarde, com certeza! Não sei se é possível voltar, agora, contigo, ainda que mais quisesse. Vou consultar os mortos para saber o que pode e o que não pode ser. Aguarde por mim um tanto, sem procurar me ver. Não se aproxime de mim! E não tente me encontrar!

Sem sossego, Izanagi não atendeu à amada. Partiu em busca da voz. Ao deparar-se com a morta, viu se corpo inteiro entregue à putrefação, sendo comido por vermes.

Recuou, com medo e susto. Viu a vergonha estampada na face de Izanami, que tratou de ameaçá-lo:

- Oh! Meu amante infeliz! Oh! Maldito Izanagi! Já que me vê assim, não posso mais ir daqui, nem deixar você partir!

No desejo de escapar dessa perversa ameaça, pôs-se a correr Izanagi.

No mesmo instante, Izanami gerou oito divindades, os Senhores do Trovão. Ordenou a estes filhos que, sem qualquer piedade, capturassem Izanagi.

Usando de artifício, Izanagi atirou, contra seus perseguidores, sua bela tiara, que se transformou em uvas. Os Senhores do Trovão pararam para comê-las, dando algum tempo à fuga. Logo, porém, prosseguiram com a dura perseguição.

Desta vez, o deus lançou seu precioso pente de numerosos dentes. Todos se transformaram em mil brotos de bambu, suculentos, saborosos, detendo seus inimigos os Senhores do Trovão, que estão sempre esfomeados.

Movida por grande fúria, Izanami enviou, contra seu antigo amado, um exército de sombras.

Empunhando sua espada, Izanagi se empenhou nesse confronto com a morte. Já se sentindo cercado pelos macabros soldados, com três pêssegos maduros, amuletos valiosos contra espíritos malignos, os fez recuar às pressas.

Eis que a própria Izanami foi em busca de Izanagi. Quase conseguiu detê-lo na Terra da Noite Eterna.

Rápido feito um cisne que voa em migração, Izanagi alcançou e atravessou a fronteira que separa o triste Reino das Trevas da Eternidade dos vastos cantos da vida. E bloqueou a passagem com um rochedo colossal.

Presa na terra dos mortos, Izanami advertiu, gritando para Izanagi:

- Por tudo o que aconteceu, hei de estrangular por dia mil pessoas em seu reino!

Ele não se comoveu:

- De nada adiantará! Pois hei de fazer nascer mais de mil vivos por dia, enfrentando sua fome de assassina dos homens! - retrucou para Izanami.

Terminava a madrugada junto do amanhecer. Em fonte de água limpa, perto de uma laranjeira, pôs-se o deus a se lavar, purificando o corpo. Quando limpou o nariz, fez nascer Susanowo, o Senhor dos oceanos, Limpando o olho direito gerou Tsuki-Yomi, Senhor do Reino da Lua. Ao lavar o olho esquerdo, trouxe ao mundo Amaterasu, plena Senhora do Sol e governante do Céu, que tece a luz e a vida para os deuses e os homens, protetora do Japão e avó do Imperador, conforme as lendas confirmam.

Nessa hora desse dia, floresceu a primavera, a primeira primavera, quando também floresceu a primeira cerejeira, bem aos pés do Fuji-Yama, o monte da vida eterna, reino de Sengen-Sama, Senhora do Sol Nascente.


Texto extraído do livro Histórias do Japão (Editora Peirópolis, 2004), do professor, jornalista, tradutor e escritor capixaba José Arrabal. Páginas 9 - 15.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://ukiyo-e.org/



domingo, 2 de agosto de 2015

Os grupos políticos do Período Regencial

Dom Pedro II aos 4 anos de idade, em 1830. Quadro de Arnaud Pallière.

Como foi dito no texto anterior, depois da Abdicação de Dom Pedro I, diferentes grupos políticos passaram a se articular para chegar ao poder. Três grupos vão se destacar no cenário político do Período Regencial. São eles: Restauradores, Liberais Exaltados e Liberais Moderados. Esses três grupos, mesmo que formados por pessoas de posse da sociedade brasileira, tinham ideias bem divergentes.

Os Restauradores defendiam a volta de Dom Pedro I ao poder, que continuaria governando de forma absolutista e centralizadora. Era formado por comerciantes portugueses, militares conservadores de alta patente e funcionários ligados ao governo do monarca. Tinham como principal líder o político José Bonifácio de Andrada e Siva, crucial no processo que culminou na independência, em 1822. Suas ideias e manifestos eram difundidos através do jornal O Caramuru. Tinham também o apoio da Sociedade Conservadora e da Sociedade Militar. O grupo teve seu fim em 1834, quando Dom Pedro I morreu, em Portugal.

Os Liberais Exaltados eram formados por pequenos comerciantes, profissionais liberais, funcionários públicos de baixo escalão, militares de baixa patente e membros da Igreja. Esse grupo defendia o Federalismo, a autonomia das Províncias, o fim da vitaliciedade do Senado e a descentralização do poder Imperial. Alguns de seus membros defendiam o fim da Monarquia a instalação de uma República. Seus líderes eram Cipriano Barata, Borges da Fonseca, Miguel Frias, Augusto May e Rangel de Vasconcelos. Suas ideias eram transmitidas através dos jornais A Sentinela da Liberdade, O Repúblico, Trombeta dos Farroupilhas e O Bem - te - vi. Tinham o apoio da Sociedade Federalista.

Os Liberais Moderados, como o próprio nome diz, tinham propostas menos "ousadas" que os Exaltados. Defendiam a Monarquia, a manutenção da escravidão, o governo centralizado no Rio de Janeiro e a preservação da unidade territorial do Brasil. O grupo era formado por grandes proprietários rurais do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e de alguns estados do Nordeste. Divulgavam suas ideias através do jornal A Aurora Fluminense. Seus líderes eram o padre Diogo Antônio Feijó, Evaristo da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcelos.


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