sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Herdeiros de Clio: os primeiros mestres do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas

PPGH-UFAM.

A criação do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM

O Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM) completa 20 anos em 2026. Para comemorar essa data expressiva, marco de sua consolidação como um dos mais conceituados da região Norte, conceito 5 na última avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), escrevi o presente artigo, intitulado Os primeiros mestres do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)Como em Filhos de Clio: a primeira geração de historiadores da universidade federal do Amazonas (UFAM), apresentarei, primeiramente, um breve panorama do processo de criação do PPGH-UFAM. Posteriormente, traço um breve histórico da revista Canoa do Tempo. Por último, através da análise das dissertações produzidas pela primeira turma, os perfis históricos e práticas historiográficas dos primeiros mestres.

Na construção dessa pesquisa foi utilizado um conjunto variado de fontes, destacando-se o Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura Plena em História da Universidade Federal do Amazonas (2006); o Histórico do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (2019); o Catálogo de Pós-Graduação da UFAM (2019); o Jornal do Commercio; e a Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Deve-se destacar que, em relação a esta última fonte, a falta de atualização dos currículos, em alguns casos, pode causar pequenas imprecisões biográficas, mas sem comprometer a proposta e a qualidade do texto.

E em outra ocasião, refleti que escrever sobre a História do Curso de História é uma tarefa delicada, pois ao fazer recortes e enquadramentos, lidamos com a inclusão e exclusão, a lembrança e o esquecimento (Pedrosa, 2025). Dessa forma, faz-se necessário deixar bem explicitado quem são os primeiros mestres do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM: são homens e mulheres que, após concluírem a graduação em História e passarem por cursos de especialização Lato Sensu entre o final da década de 1990 e início da década de 2000, formaram a primeira turma de mestrandos em História em 2006, defendendo suas dissertações em 2008. São os Herdeiros de Clio, aqueles que colheram os frutos de uma árvore plantada através de lutas renhidas entre as décadas de 1980 e 1990.

A criação do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) está diretamente relacionada à consolidação do curso de graduação em História, que na década de 2000 apresentava um aumento na oferta no número de vagas e, consequentemente, de egressos. Surgia, dessa forma, a necessidade por cursos de pós-graduação em História (Curso, 2006, p. 68; Histórico, 2019). Essa alta procura fazia parte de um cenário maior a nível nacional, pois crescia de forma exponencial, na década de 2000, a demanda pela qualificação universitária, sendo criados novos programas e ofertadas milhares de vagas. Esse movimento não ficou restrito aos grandes centros, também alcançando a "periferia da produção científica brasileira". Na região Norte mais especificamente, e no âmbito da História, a década de 2000 foi marcada pela criação do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Pará (PPHIST-UFPA), em 2004, e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM), em 2006. Esses programas de pós-graduação foram um divisor de águas na qualificação de profissionais da área de História, atendendo a demanda local e atraindo pesquisadores de municípios do interior, de outros estados e países (Histórico, 2019).

Sobre nosso caso, é interessante refletir que, se as décadas de 1980 e 1990 foram marcadas pela formação e qualificação da primeira geração de historiadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com a institucionalização do curso, a produção de reflexões teóricas e o estabelecimento de marcos historiográficos na renovação da pesquisa acadêmica no Amazonas (Dantas, 2017; Pedrosa, 2025), na década de 2000 visualizamos esse grupo retornando de seus doutoramentos e se engajando no avanço do curso em direção à pós-graduação, importante etapa institucional do sistema universitário que objetiva a formação especializada e a excelência acadêmica.

De acordo com os professores responsáveis pela fundação do programa, a criação do PPGH-UFAM esbarrava em alguns problemas, como a "baixa titulação do corpo docente do Departamento de História", que impedia o oferecimento de vagas na pós-graduação. Aos poucos, essa questão foi sendo superada através de investimento institucional que possibilitou a qualificação do corpo docente, com a titulação de novos mestres e doutores em História por instituições de ponta como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e a Universidade do Porto (U. Porto) (Curso, 2006, p. 68; Histórico, 2019). Com um corpo docente mais qualificado, a ideia da criação de um programa de pós-graduação ganhou força, tendo sido ofertados, inicialmente, cursos de pós-graduação Lato Sensu. Os docentes registram que esses primeiros cursos, além de atenderem à demanda existente, serviram como uma espécie de treinamento para os professores do Departamento de História atuarem na pós-graduação Stricto Sensu (Curso, 2006, p. 68; Histórico, 2019).

Em 1997 foi ofertado o curso de Especialização em História Social da Amazônia, primeiro vinculado ao Departamento de História da UFAM, que "[...] formou duas dezenas de alunos, alguns dos quais ingressaram posteriormente em programas de Mestrado ou no próprio ensino superior" (Curso, 2006, p. 69). Posteriormente, através de convênio com a SEDUC, foi realizado em 2002 o curso de Especialização em Amazônia: Sociedade, Cultura e Poder, que formou uma turma em agosto daquele ano. Ainda sobre esse primeiro momento, em setembro de 2003 o Jornal do Commercio noticiou que o Departamento de História estava com inscrições abertas para a segunda turma da Especialização em História e Historiografia da Amazônia, com o curso sendo "[...] voltado principalmente a alunos que finalizaram história" (Jornal do Commercio, 17/09/2003, p. 24). Esse curso foi oferecido em 2003, 2004 e 2005.

Essas especializações, como dito anteriormente, atendiam à demanda por qualificação, que naquele período tinha duas frentes específicas: a educação básica e o ensino superior. Sobre a primeira, teve influência a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), promulgada em 1996 e que estabeleceu a formação continuada dos profissionais em educação como um direito que visava o aperfeiçoamento. No nível superior, cursos de Ciências Sociais e História criados em instituições como a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Centro Universitário do Norte (UNINORTE) demandavam profissionais com, no mínimo, cursos de especialização para atuarem em seus quadros docentes. 

Após o oferecimento desses cursos, "[...] o Departamento entende que já reúne condições institucionais e acadêmicas suficientes para trilhar seus próprios caminhos na pós-graduação", aprovando a criação, em outubro de 2002, "[...] de um Grupo de Trabalho encarregado de elaborar a proposta do Mestrado em História" (Curso, 2006, p. 69). O Jornal do Commercio, a par da elaboração da proposta, noticiou em 2003 que "O departamento de História da Ufam vem analisando a possibilidade de implantação de um inédito curso de mestrado em história. A idéia ainda está sendo avaliada pelos historiadores doutores que coordenam o departamento [...] Caso seja instituído o mestrado em história na Ufam, o curso será o primeiro na área em Manaus" (Jornal do Commercio, 17/09/2003, p. 24). As expectativas eram imensas. Toda a comunidade acadêmica, da educação às humanidades, aguardava ansiosamente a criação do PPGH-UFAM, que seria mais um importante centro de reflexão crítica e produção do conhecimento, estimulando o debate teórico, metodológico e historiográfico.

Em setembro de 2005 o Jornal do Commercio anunciou que "O curso de mestrado em história, do ICHL (Instituto de Ciências Humanas e Letras) da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), foi aprovado com conceito 3, pelo MEC/Capes. Ano que vem começam as inscrições" (Jornal do Commercio, 21/09/2005, p. 02). Estava criado o Mestrado em História da Universidade Federal do Amazonas, credenciado pela Portaria CAPES/MEC 696, de 16 de março de 2006, publicada no Diário Oficial da União em 17 de março daquele ano e contando com três linhas de pesquisas: Cultura e Representações, Migrações, Trabalho e Movimentos Sociais na Amazônia e Política, Instituições e Práticas Sociais. Suas atividades tiveram início em 2006, com os primeiros mestres defendendo seus trabalhos em 2008. De acordo com o Professor Dr. Auxiliomar Silva Ugarte, o quadro de professores do PPGH, no período de 2006-2008, era o seguinte:

"1. Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro (primeiro coordenador); 

2. Maria Luiza Ugarte Pinheiro; 

3. Hideraldo Lima da Costa (in memoriam); 

4. Antonio Emílio Morga; 

5. James Roberto Silva; 

6. Auxiliomar Silva Ugarte; 

7. Patrícia Maria Alves de Melo; 

8. Sínval Carlos Mello Gonçalves; 

9. Márcia Eliane Alves de Souza e Mello

10. Almir Diniz de Carvalho Júnior" (Ugarte, 2026).

Canoa do Tempo: revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM)

A Canoa do Tempo, revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM), foi lançada em 2007. Até 2020 era publicada semestralmente, adotando desde então o sistema de publicação em fluxo contínuo, sendo lançada uma edição anual do período entre janeiro e dezembro. Em cada edição anual são publicados dois dossiês, bem como artigos livres, resenhas e entrevistas. A revista "[...] publica trabalhos de história sob a forma de artigos, relatos de pesquisa, estudos teóricos, entrevista e resenha de livros dentro de uma ação integradora dos conhecimentos produzidos na Amazônia e no Brasil" (Curso, 2006, p. 73).

Sobre o nome da revista, o Professor Dr. Sínval Carlos Mello Gonçalves escreveu na apresentação de seu primeiro volume que "A imagem de nossos pequenos barcos, cruzando os longos rios de nossa Amazônia não poderia mesmo ser mais evocativa de uma jornada que pretende ancorar em vários portos e deixar-se levar ao infinito, sem jamais, no entanto, esquecer o lugar de onde partiu" (Gonçalves, 2007). A Canoa do Tempo, guiada pelos pesquisadores, trilha diferentes rotas para compreender as trajetórias e experiências de homens e mulheres em múltiplas temporalidades.

Seu primeiro volume tratou das Cidades (2007), contando com artigos de Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, abordando os mundos do trabalho amazonense entre 1920 e 1945; Leno José Barata Souza, tratando dos excluídos da Belle Époque manauara; Maria Luiza Ugarte Pinheiro, investigando o cotidiano e o trabalho em Manaus entre 1880 e 1920; Paulo Marreiro, escrevendo sobre moradia e ameaça urbana em Manaus durante a Belle Époque; Otoni Moreira de Mesquita, analisando as representações pictóricas da cidade; Almir Diniz de Carvalho Júnior, tratando dos líderes indígenas no mundo cristão colonial; Paulo Koguruma, desvendando a África no imaginário da Belle Époque paulistana; Sínval Carlos Mello Gonçalves, abordando o indivíduo na perspectiva dos estudos medievais; Davi Avelino Leal, apresentando os seringueiros na historiografia regional; e André Neves, Armstrong da Silva Santos e Márcio Roberto Vieira Cavalcante investigando o caminho da arquitetura ordinária à cultura ordinária.

O segundo volume, O Antigo Regime no Império Atlântico Português (2008), teve a participação de Antônio Manuel Espanha, que analisou a relação entre as Cortes e o Reino; Miguel Jasmins Rodrigues, que tratou da pequena nobreza nas Ilhas de Cabo Verde; Maria Lêda Oliveira, investigando a figura do Apóstolo São Tomé na América Portuguesa; Rafael Ruiz, analisando o Direito como instrumento de colonização; Maria de Fátima Silva Gouvêa, escrevendo sobre o Poder e a Burocracia nas Capitanias do Estado do Brasil; João Luis Ribeiro Fragoso, que investigou a reforma monetária e o rapto de noivas no século XVII; Anderson de Freitas Fonseca, autor de um estudo sobre os sertões de ouro e as estradas reais do Império luso-brasileiro; Rafael Chambouleyron, que abordou a Amazônia Colonial e as Ilhas Atlânticas; Fabiano Vilaça dos Santos, analisando a administração do governador Joaquim Tinoco Valente na Capitania de São José do Rio Negro; Mauro Cezar Coelho, esmiuçando a inserção indígena na sociedade colonial paraense do Diretório dos Índios; Otoni Mesquita, explorando acervos da Biblioteca Nacional (RJ); James Roberto Silva, que dedicou-se ao estudo dos museus históricos; e as resenhas de Mônica da Silva Ribeiro e David Salomão Feio, a primeira resenhando Process and form in social life: Selected essays of Fredrik Barth, e o segundo O Sol e a sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII, de Laura de Mello e Souza.

Na última avaliação quadrienal da Capes, a Canoa do Tempo foi classificada como A3, o que demonstra ser ela uma revista de qualidade ímpar e de grande impacto intelectual. De acordo com o PPGH, esse é um "reconhecimento que reafirma a qualidade editorial, a relevância científica e o compromisso com a produção historiográfica local" (PPGH-UFAM). 

Perfis históricos e práticas historiográficas dos primeiros mestres do PPGH-UFAM

Maria do Carmo Sena Teixeira, primeira mestre em História Social pelo PPGH-UFAM. Fonte: acervo do Departamento de História da UFAM.

Maria do Carmo Sena Teixeira é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Professora aposentada da Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED), se dedica à pesquisa da Igreja Católica na Amazônia e à Ação Indigenista.

Na dissertação Igreja Católica e ação indigenista na Amazônia contemporânea: o CIMI (1972-2000), investigou a ação pastoral do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgão ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre 1972 e 2000. Utilizando fontes bibliográficas e documentais como o Boletim do CIMI e o jornal Porantim, reconstituiu a criação, a institucionalização, a estrutura administrativa e o funcionamento do CIMI, criado em plena Ditadura Militar, sua relação com os povos indígenas do Amazonas e de Roraima e os conflitos ligados à terra envolvendo essas populações. 

Naquele período de exceção, a violência contra os povos indígenas ganhou nova dimensão dentro de um projeto político desenvolvimentista e de integração nacional da Amazônia. Como no período Colonial, eles continuavam sendo sistematicamente exterminados e destituídos de suas terras, agora destinadas à abertura de estradas, rodovias e à grilagem. A Igreja Católica, diante dessa situação, aparece dividida entre o paternalismo e a conformidade com as políticas adotadas pelo governo federal. A Declaração de Barbados, em 1971, assinada por 15 antropólogos, denunciou o genocídio dos povos originários da América Latina e a cumplicidade do estado e da Igreja Católica, defendendo a autodeterminação dos nativos e sendo o marco inicial para o desenvolvimento de novas políticas indigenistas. De acordo com Teixeira, a criação do CIMI em 1972 significou a "[...] revisão crítica da atuação das diversas ordens religiosas que atuavam nas áreas indígenas" (Teixeira, 2008, p. 47).

Nasthya Cristina Garcia Pereira possui graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutorado em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Professora efetiva de História na Secretaria Municipal de Educação (SEMED) há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da História e Natureza na Amazônia, História dos (as) Intelectuais e História das Ciências. É autora dos livros Civilizar homens e florestas: o discurso político sobre agricultura e extrativismo na Província do Amazonas (1852-1889), publicado em 2019, e A "Dona da Floresta": Uma paisagem intelectual de Clara Pandolfo e sua obra sobre a Amazônia (1955-1990), publicado em 2025.

Sua dissertação, Relações Homem-Natureza: O Discurso Político Sobre Agricultura e Extrativismo na Província do Amazonas (1852-1889), é um estudo sobre as representações da natureza e da sociedade expressas pelos presidentes da província do Amazonas em seus relatórios. Os discursos desses agentes do Império Brasileiro, responsáveis por executar o projeto civilizador nacional nessa distante província, retratam uma região vasta, rica em matérias-primas, mas com populações rarefeitas e ociosas que deveriam ser civilizadas para realizarem a plena exploração da natureza. Os homens amazônicos, naturais da terra ou oriundos de outras paragens e aqui integrados, como os nordestinos, deveriam superar a total dependência da natureza, que tudo dava, devendo praticar a agricultura, atividade que fixava o homem à terra.

Nasthya constatou que, para os presidentes da província, "A agricultura transformaria a relação perdulária dos habitantes com o meio natural em uma relação mais racional, além de mudar a paisagem deserta das exuberantes florestas quando estas fossem derrubadas para dar lugar aos campos cultivados com alguma espécie vegetal de grande valor comercial e até mesmo quando fossem utilizadas como campos de "criar"" (Pereira, 2008, p. 101). Se operariam, dessa forma, não apenas transformações econômicas, mas também sociais e culturais, com a transformação dos habitantes da região em braços uteis ao projeto civilizador do Império.

Simone Villanova é graduada em História pela Universidade Federal de Juiz e Fora (UFJF), especialista em Filosofia e Artes pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), especialista em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atuou como professora no Centro Universitário do Norte (UNINORTE), na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e professora substituta na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atualmente é docente da rede pública estadual de ensino (SEDUC). É especialista em História Moderna, História Contemporânea, História da América, História do Brasil, História da Arte e História Local, com pesquisas sobre Cultura, Manaus e Patrimônio Histórico. Em 2015 publicou o livro Sociabilidade e Cultura: A história dos "pequenos teatros" em Manaus (1859-1900).

A dissertação de Villanova, Sociabilidade e Cultura: A história dos "pequenos teatros" em Manaus (1859-1900), é uma das mais interessantes dessa primeira safra de trabalhos. Investigando os primeiros teatros de Manaus, o Teatro de Palha descrito pelo viajante alemão Robert Avé-Lallemant, o Teatro Variedade Cômica, do artista paraense Lima Penante, o Teatro Beneficente Portuguesa e o Éden Teatro, descortinou os primeiros momentos da europeização dos costumes da sociedade local, que antecedem o "boom" da economia gomífera, com essas casas de espetáculo sendo não apenas locais de entretenimento, mas instrumentos de civilização de hábitos e costumes de uma população majoritariamente indígena e mestiça, e por isso considerados ultrapassados e indesejados. 

A historiadora registra que "A busca pelas construções teatrais significava, no século XIX, muito mais do que uma "nova" forma de socialização e lazer nas cidades brasileiras. Representava a disciplinarização dos antigos costumes coloniais baseada na cultura negra, indígena, portuguesa, com seus hábitos peculiares no que se refere ao trabalho, à religiosidade, às formas de lazer, aos modos de assimilar o tempo e o espaço nas cidades" (Villanova, 2008, p. 27). Dessa forma, fica claro que a construção do Teatro Amazonas, em 1896, não deu início ao refinamento cultural na cidade, mas foi a nova fase de um processo que data de 1850.

Márcio Roberto Vieira Cavalcante (in memoriam) tinha graduação em História pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Era professor titular aposentado da Universidade Federal do Acre (UFAC), atuando nas áreas de Teoria e Filosofia da História, dedicando-se ao estudo de Geopolítica, Fronteira, Amazônia, História Cultural, Imaginário e Representação. 

Na dissertação Outras fronteiras na Amazônia Sul-Ocidental: uma análise das políticas de estruturação do território na fronteira Brasil-Peru-Bolívia, Márcio Roberto investiga as políticas de integração adotadas pelo poder público para as áreas de fronteira do estado do Acre (Brasil, Peru e Bolívia), analisando as transformações históricas, políticas e territoriais nessa região, enfocando as políticas de integração regional e desenvolvimento elaboradas pelo governo brasileiro/acreano em articulação com os mercados bolivianos e peruanos. Por ser a Amazônia uma região atravessada por múltiplas especificidades, a noção de fronteira, nesse estudo, não é a de uma região periférica, mas de um território marcado por conflitos e dinâmicas sociais e culturais complexas e articulado a processos globais.

Desse modo, as políticas de integração regional implementadas a partir das décadas de 1980 e 1990, marcadas por um processo de ambientalização, que é a incorporação de discussões sobre os usos dos recursos naturais da região pela iniciativa privada, são responsáveis por modificações profundas nos modos de vida das populações locais: "Tal processo promove mudanças e transformações nos modos de vida e nas relações sociais estabelecidas, redefinindo a configuração espacial, e em um processo conflituoso, reordenando os usos do espaço. As áreas acima referidas passam por um processo de especulação imobiliária, de reconcentração fundiária, e de uma intensa urbanização do campo e dos modos de vida engendrados naquele espaço" (Cavalcante, 2009, p. 115). Apesar de serem lidas como alternativas de desenvolvimento sustentável, essas políticas concorrem para a desestruturação cultural da fronteira amazônica.

Lígia Maria Ferreira Amazonas tem bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atuou como professora substituta na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e professora na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Atualmente é docente da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (SEDUC). Suas pesquisas tem ênfase em História Social.

A dissertação de Lígia Amazonas, Em busca de Omagua e Dorado: mito e rebelião na jornada de Pedro de Ursua/Lope de Aguirre segundo os cronistas Pedrarias de Almesto, Francisco Vásquez e Gonzalo de Zuniga (1560-1561), é um trabalho de História Cultural. A proposta do estudo é investigar, através das crônicas de Pedrarias de Almesto, Francisco Vásquez e Gonzalo Zuniga, o mito do El Dorado, um local de riquezas inesgotáveis que povoava a imaginação dos conquistadores ibéricos, e a representação do colérico Lope de Aguirre, soldado da expedição que se rebelou contra a Coroa Espanhola. Trabalhando o imaginário, penetra no cotidiano da conquista no século XVI, quando o dia a dia dos homens que se lançavam ao mar em direção ao Novo Mundo era povoado por mitos e lendas que geravam expectativas e traduziam aquela realidade específica, sendo as engrenagens que moviam o ímpeto desbravador e a empresa colonial.

Ao analisar as representações sobre Lope de Aguirre, os ditos e os não ditos sobre o soldado que tingiu essa expedição de sangue, Amazonas conclui que [...] em grande parte, suas ações, bem como as dos demais soldados da expedição refletem em boa parte o clima tenso geral que reinava na emergente sociedade hispanoperuana de então" (Amazonas, 2008, p. 34). A América era uma terra de oportunidades para aventureiros que, na metrópole, não teriam outras formas de ascensão social. Em terras americanas, esses conquistadores buscavam ter plenos poderes, o que esbarrava nas determinações da Coroa Espanhola, gerando atritos entre eles, os representantes da Monarquia e ela própria. A rebelião de Aguirre, para além da violência, é um desdobramento do descontentamento que se abatia sobre os conquistadores espanhóis.

Elisângela Socorro Maciel Soares é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutora em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Foi professora e coordenadora do curso de Licenciatura em História do Centro Universitário do Norte (UNINORTE), coordenadora do curso de especialização em Ensino e Pesquisa em História da UNINORTE e professora e coordenadora do curso de extensão em Ensino Religioso, pela CNBB - Regional Norte 1 em parceria com a Faculdade Salesiana Dom Bosco. Atua como professora e coordenadora de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação da Faculdade Católica do Amazonas (FCA). É autora de Igreja de Manaus, porção da Igreja Universal: a Diocese de Manaus vivenciando a romanização (2014), Nas Curvas do Tempo: história e historiografia da Amazônia em debate (2019), História, Cultura, Trabalho e Instituições na Amazônia (2021), Padre Sebastião Puga: a trajetória e o amor por uma paróquia (2022) e História da Igreja na Amazônia (2024).

Na dissertação "Igreja de Manaus, porção da Igreja Universal": A Diocese de Manaus vivenciando a romanização (1892-1896), Elisângela Maciel examina o processo de romanização da Igreja Católica na capital amazonense, isto é, a centralização do poder eclesiástico em Roma e na autoridade do Papa, com as práticas religiosas e doutrinas católicas uniformizadas de acordo com os desígnios da Santa Sé. Tendo como ponto de partida a criação da Diocese de Manaus, em 1892, analisa a administração dos seus três primeiros bispos: Dom Lourenço da Costa Aguiar (1894-1905), Dom Frederico Benício de Sousa Costa (1907-1914) e Dom João Irineu Joffily (1916-1924). A romanização surge como uma reação da Igreja Católica às transformações do século XIX, marcadamente o liberalismo, a presença de maçons no Clero e a laicização. A centralização em Roma era vista como a única forma de garantir a unidade da Igreja.

Para os agentes da romanização, era necessária uma reforma que combatesse o catolicismo tradicional brasileiro, tido como "[...] superficial e festeiro", extremamente sincrético com práticas de origem africana e indígena, com rituais que mais pareciam festas do que ofícios religiosos. A Diocese de Manaus já nasce romanizada, dando seus primeiros passos em um período onde a cidade, por conta a exportação da borracha, se expande como nunca em sua história, atraindo investimentos e milhares de imigrantes. Assim, "Foi em meio a esses estremecimentos e a essas novas perspectivas que se erigiu a Diocese de Manaus, que enfrentou inúmeros desafios para se erguer e realizar os serviços eclesiásticos de que necessitavam o Amazonas" (Soares, 2008, p. 125). Dessa forma, a romanização, em Manaus, passou pelos embates entre a Igreja e a modernidade, a elaboração de estratégias pela Igreja para a aplicação de suas reformas e, por último, a reaproximação entre Estado e Igreja na década de 1920.

Dorinethe dos Santos Bentes possui graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), graduação em Direito pela Universidade Paulista (UNIP), especialização em Direito Ambiental e Urbanístico pela Universidade Anhanguera - Uniderp, mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutorado em Direito e Justiça pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou como docente na Universidade Paulista (UNIP), na Faculdade La Salle (UNI LASALLE) e na Secretaria de Estado de Educação e Desporto (SEDUC). Atualmente é professora da graduação e do quadro permanente do mestrado em Direito da UFAM. É autora, entre outros, de História do Amazonas - Construindo Identidades (2000), O Amazonas no Brasil e no Mundo (2007), e Manaus: outras faces da história (1910-1940) (2012).

A dissertação de Dorinethe Bentes, Outras faces da história: Manaus de 1910-1940, é mais um destacado trabalho de História Cultural, inovador pela abordagem e metodologia empregadas. Enfocando Manaus entre 1910 e 1940, analisando suas formas, ruas, estradas, bairros, praças e outros aparelhos urbanos através de mensagens governamentais, exposições, relatórios da Intendência Municipal e mensagens municipais, recupera o cotidiano da cidade em um período pouco analisado pela historiografia até aquele momento, que o considerava mergulhado na letargia causada pela crise da economia gomífera e por isso supostamente sem maiores transformações na paisagem citadina, sendo tradicionalmente privilegiados os intervalos entre 1850 e 1900. Contrapondo a ideia corrente, mostra as outras faces, vívidas, da história de Manaus, em um período onde tradicionalmente só se enxergou estagnação.

Com base na documentação levantada, Bentes demonstrou que, por mais que a crise tivesse se instalado, abalando fortemente a economia local, Manaus continuava em movimento, "[...] e sua dinâmica foi redimensionada: da grandiosidade da "Paris dos trópicos" para a Manaus possível. Isso implicava dar continuidade ao sonho em suaves prestações, pois, este deveria ser o período das pequenas obras. Vale lembrar que as obras realizadas nesse período, apesar de estarem diretamente influenciadas pelo pensamento europeu de cidade, foram forçosamente voltadas para o interesse da população local, dado que a degradação de suas condições internas de existência não permitia a ampliação dos interesses do capital internacional" (Bentes, 2008, p. 85). A cidade, mesmo nos momentos mais agudos da crise, nunca parou. Sua população continuou a trabalhar, produzir, consumir, e seus administradores, agora com orçamentos mais restritos, garantiram a manutenção da estrutura urbana e a realização de obras essenciais.

Cybele Morais da Costa é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Na dissertação Socorros Públicos: as bases da Saúde Pública na Província do Amazonas (1852-1889), Cybele Morais da Costa investiga a montagem, a organização e os dilemas do sistema de saúde pública na província do Amazonas. O Amazonas, nesse período, é uma província que enfrentava inúmeras dificuldades, como orçamentos limitados, falta de profissionais especializados e de víveres básicos, estando subordinada política e economicamente ao poder central do Império. Sua população, composta majoritariamente por indígenas e mestiços, por conta dessas precárias condições materiais, enfrentava constantemente doenças como as febres palustres, anemia e verminoses, contando, para seu socorro, com as tradicionais práticas de cura de pajés, curandeiros e benzedeiras que tinham como base a flora amazônica.

As dificuldades econômicas e a dependência política, constata Cybele, foram responsáveis para que o sistema de saúde pública da província do Amazonas se caracterizasse pela carência de uma estrutura organizada, de materiais, profissionais e ações efetivas de combate às enfermidades: "A precariedade das ações de saúde pública tornava-se evidente principalmente em períodos de manifestações epidêmicas que, marcadas pela imprevisibilidade, pegavam o poder público desprovido de qualquer aparato de saúde pública" (Costa, 2008, p. 88). Assim, tudo concorria para que a saúde pública do Amazonas funcionasse apenas em caráter emergencial.

Carla de Oliveira Lima tem graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutorado em História das Ciências e da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). 

A dissertação Natureza, cultura e imaginário nos relatos de Alfred Russel Wallace, Louis Rodolph Agassiz e Elizabeth Cabot Cary Agassiz, propõe um novo olhar sobre os relatos de viagem do século XIX, compreendendo-os como construções culturais que articulam as dimensões do imaginário, da modernidade e das tensões entre ciência acadêmica e modos de vida tradicionais. Alfred Russel Wallace, autor de Viagens pelos rios Amazonas e Negro, e Louis e Elizabeth Agassiz, autores de Viagem ao Brasil, legaram importantes descrições sobre a Amazônia, registros que, de acordo com Carla Lima, refletem, para além dos objetivos científicos, a busca pelo distanciamento das rápidas transformações que se operavam na Europa e nos Estados Unidos com a Revolução Industrial, uma espécie de fuga das angústias geradas pela modernidade oitocentista. Assim, a Amazônia é por eles representada como um paraíso perdido, terra de oportunidades e grande laboratório a céu aberto.

Apesar de destacar que o olhar dos viajantes não é neutro, com boa parte de seus registros deslegitimando os modos de vida das populações locais, a autora não os reduz à mera condição de agentes do imperialismo, demonstrando que em algumas ocasiões eles buscaram compreender a realidade local através da perspectiva do outro. O século XIX, no Ocidente, é marcado por acentuado crescimento econômico, intensa urbanização, avanços científicos e conquista de novos territórios. Carla registra que "Foram esses aspectos conjugados que provavelmente promoveram outra consciência em relação à natureza, que tanto pode ser entendida como um movimento de reatualização dos mitos da natureza intocada, a busca do Éden perdido, como uma contestação radical contra as tendência dominantes da época (Lima, 2008, p. 72).

Ana Paula Rabelo Fernandes possui mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É doutoranda em Educação pela Academia Sul-Americana de Serviços Educacionais (UNITBRASIL). Atuou como Conservadora/Restauradora de bens culturais da Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas (SEC), foi professora nos cursos de Licenciatura em História e Arquitetura do Centro Universitário do Norte (UNINORTE) e docente de História no Ensino Fundamental II na SEDUC-AM. Atualmente é Coordenadora do Programa de Atendimento Pedagógico Diferenciado Hospitalar e Domiciliar da SEDUC-AM.

Do templo de taipa ao templo de pedra: a construção da Igreja Matriz de Manaus (1858-1878) é uma dissertação que trata sobre História da Arquitetura e História Urbana na cidade de Manaus no período provincial. Enfocando o longo processo de construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a tradicional Matriz da cidade, demonstra como sua realização expressa um ambicioso projeto civilizatório na construção da paisagem urbana da capital amazonense, expressando não apenas valores religiosos, como também estéticos e políticos. De um simples templo de taipa erguido no final do século XVII, torna-se um templo monumentalizado na segunda metade do século XIX, digno de uma cidade que começava a despontar como um importante centro econômico e administrativo da região. Igreja e Estado, mantendo relações imbricadas durante o Império, se articulam para implantar esse projeto, com a Matriz sendo, àquela altura, um dos seus marcos mais importantes.

No século XIX, construções como prédios administrativos e templos religiosos monumentais eram marcos de progresso e urbanização. Dessa forma, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição "[...] fazia parte de um conjunto de medidas urbanísticas que objetivavam disciplinar o cidadão e o espaço urbano. Pois, os administradores da cidade confiavam num futuro grandioso para a província e buscavam planejar a cidade, para que ela fosse digna do status de capital" (Rabelo, 2008, p. 118). Em uma sociedade constituída por indígenas, mestiços e um pequeno número de brancos, o antigo templo de taipa, agora construído em pedra, cumpria a função de promover a civilização e guiar em direção à modernidade.

Alexandre Nogueira Avelino é graduado em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas. Atua como professores nas redes estadual e municipal de ensino. Pesquisa temáticas relacionadas à História da cidade de Manaus e movimentos sociais. É autor de O Patronato Amazonense e o Mundo do Trabalho (1908-1919) (2019).

Em O Patronato Amazonense e o Mundo do Trabalho: A Revista da Associação Comercial e as representações acerca do trabalho no Amazonas (1908-1919), o historiador Alexandre Nogueira Avelino investiga o patronato amazonense reunido em torno da Associação Comercial do Amazonas (ACA), criada em 1871, e o discurso sobre o trabalho por ele veiculado através da Revista da Associação. No período em estudo, marcado pela crise da economia gomífera, a entidade, de acordo com o autor, buscou pressionar o Estado para atender seus interesses econômicos e legitimar seus projetos de desenvolvimento, que tinham como modelo de sucesso e trabalho a Europa. A Revista da ACA, dessa forma, funcionava como um poderoso mecanismo de autorrepresentação e legitimação social e política.

Tendo a Europa como modelo, o patronato construiu representações negativas sobre o mundo do trabalho amazonense, considerando os trabalhadores locais - em sua maioria imigrantes vindos de regiões empobrecidas como o Nordeste - preguiçosos, moralmente reprováveis, cheios de vícios e com baixo nível de capacitação. A elite do Amazonas, nas páginas da Revista, era representada de forma altiva e imbuída da missão de desenvolver a região. Os trabalhadores amazonenses, por outro lado, eram os indolentes. O tipo de trabalhador idealizado era o de origem europeia, visto como superior. Durante as greves e protestos operários, comuns naquele período de recessão, a ACA reprimia com violência esses movimentos. Avelino concluiu que "Em Manaus, o patronato atuou como forte agente disciplinador da classe trabalhadora, atribuindo-lhe toda carga de estereótipos depreciativos e exigências normativas no seu ambiente de trabalho" (Avelino, 2008, p. 70).

Agres Roberta Oliveira das Neves tem graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atuou como docente na Faculdade La Salle (UNI LASALLE) e na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Atualmente é professora de História e Assessora Administrativa da Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED).

A historiadora Agres Roberta, na dissertação Campanha de Saneamento e Profilaxia Rural no Amazonas (1920-1923), se propôs a investigar o desenvolvimento do Programa Social de Saneamento e Profilaxia Rural no Amazonas e suas Campanhas de Saneamento e Profilaxia Rural, ambos surgidos no período de criação do Departamento de Nacional de Saúde Pública, ao qual estavam vinculados. Na década de 1920, médicos sanitaristas constataram que a população rural brasileira vivia em péssimas condições, praticamente abandonada pelo poder público. Essa situação deveria ser contornada urgentemente, pois poderia concorrer para a perda da mão de obra e o baixo desenvolvimento social e econômico do país.

As Campanhas de Saneamento empreendidas entre 1920 e 1923, tinham como objetivos "[...] sanear o Amazonas e salvar a população refém da doença, do abandono e da falta de civilidade" (Neves, 2008, p. 65). Tal política fazia parte do modelo francês de medicina social, que previa, entre outras coisas, analisar o acúmulo de matérias que fossem causadoras de doenças, controlar a circulação da água e do ar e medicalizar os pobres, as conhecidas "classes perigosas", eliminando assim todos os perigos que ameaçavam a ordem social. Essas campanhas devem ser compreendidas através da articulação entre o local e nacional, pois elas faziam parte de um projeto mais amplo de modernização, higienização e controle social.

Incorporando marcos historiográficos clássicos em suas pesquisas, tais como A Ilusão do Fausto: Manaus, 1890-1920, de Edinea Mascarenhas Dias, A Cidade Sobre os Ombros: Trabalho e Conflito no Porto de Manaus (1899-1925), de Maria Luiza Ugarte Pinheiro, Quando Viver Ameaça a Ordem Urbana: Trabalhadores de Manaus (1890/1915), de Francisca Deusa Sena Costa, Manaus: História e Arquitetura, 1852-1910 e La Belle Vitrine: Manaus entre dois tempos (1890-1900), de Otoni Moreira de Mesquita, Os Fios de Ariadne: Tipologias de Fortunas e Hierarquias Sociais em Manaus (1840-1880), de Patrícia Maria Alves de Melo, e Cultura, Trabalho e Luta Social na Amazônia: discurso dos viajantes, séc. XIX, de Hideraldo Lima da Costa, "Pesquisas estas que, no atual momento", destaca o historiador Hélio Dantas, "servem como baliza para novos desdobramentos investigativos e também como balizas metodológicas" (Dantas, 2017, p. 194), produziram reflexões originais sobre imaginário, representações, mundos do trabalho, migrações, movimentos sociais, modernidade, políticas, instituições e práticas sociais, inaugurando uma nova fase da pesquisa histórica no Amazonas.

Além das temáticas variadas e do referencial teórico e metodológico, essas dissertações dos primeiros mestres do PPGH-UFAM dialogam bastante entre si no que diz respeito à trajetória dos pesquisadores. Boa parte tem em comum o fato de terem se originado de projetos de iniciação científica ou monografias dos cursos de especialização em História Social da Amazônia e História e Historiografia da Amazônia. Dessa forma, a pós-graduação Stricto Sensu colaborou para o amadurecimento dessas pesquisas, que ganharam, no mestrado, novos caminhos, recortes e dimensões, posteriormente aperfeiçoadas e incorporadas a projetos de doutorado.

Considerações finais

Como refletir sobre o Programa de Pós-Graduação em História da UFAM e seus primeiros mestres? Não é tarefa fácil, como transparece logo à primeira vista, dada a exiguidade de fontes institucionais sobre os mesmos. Analisando detalhadamente o Catálogo de Pós-Graduação da UFAM (s. d.), percebemos que o final da década de 1990 e o início da década de 2000 foi marcado, na UFAM, pela criação de vários programas de pós-graduação: Sociedade e Cultura na Amazônia (1998), Informática (2001), História (2006), Geografia (2007), Antropologia Social (2007), Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia (2007) e Psicologia (2009), apenas para ficarmos com alguns exemplos. Assim, a criação do PPGH está inserida em um grande movimento institucional de aperfeiçoamento e expansão da pós-graduação na UFAM.

20 anos não são 20 dias. De 2006 até o presente momento, foram ampliadas atividades de cooperação acadêmica, publicações de docentes e discentes em revistas especializadas, participações em eventos nacionais e internacionais, formadas redes de intercâmbio acadêmico, reorganizado e aprimorado o programa, o que possibilitou a elevação da nota 3 para 4 na avaliação da Capes, a abertura, em 2019, do doutorado em História, o maior recebimento de recursos das agências de fomento e a disponibilidade de bolsas para boa parte dos discentes ingressos (Histórico, 2019; Queirós, 2026). Tudo isso se refletiu na qualidade das pesquisas desenvolvidas, com o PPGH, na última avaliação quadrienal, tendo sua nota elevada de 4 para 5.

Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, Maria Luiza Ugarte Pinheiro, Hideraldo Lima da Costa (in memoriam), Antonio Emílio Morga, James Roberto Silva, Auxiliomar Silva Ugarte, Patrícia Maria Alves de Melo, Sínval Carlos Mello Gonçalves, Márcia Eliane Alves de Souza e Mello e Almir Diniz de Carvalho Júnior, docentes que realizaram seus doutorados entre 1998 e 2005, foram pioneiros na criação e institucionalização do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM), onde já foram defendidas mais de 180 dissertações de mestrado e 20 teses de doutorado. Esses números representam a consolidação do programa e o compromisso do Departamento de História com a formação continuada e a excelência acadêmica.

Fontes

Curso de Licenciatura Plena em História - Projeto Pedagógico. Universidade Federal do Amazonas, Instituto de Ciências Humanas e Letras, Departamento de História, 2006.

Catálogo de Pós-Graduação da Universidade Federal do Amazonas. Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFAM, Universidade Federal do Amazonas, 2019.

Histórico do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas, 2019. Disponível em: https://www.ppgh.ufam.edu.br/item-1-do-menu-1.html

Jornal do Commercio, 17/09/2003.

Jornal do Commercio, 21/09/2005.

Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Referências bibliográficas

AMAZONAS, Lígia Maria Ferreira. Em busca de Omagua e Dorado: mito e rebelião na jornada de Pedro de Ursua/Lope de Aguirre segundo os cronistas Pedrarias de Almesto, Francisco Vásquez e Gonzalo de Zuniga (1560-1561). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

AVELINO, Alexandre Nogueira. O Patronato Amazonense e o Mundo do Trabalho: a Revista da Associação Comercial e as representações acerca do trabalho no Amazonas (1908-1919). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

BENTES, Dorinethe dos Santos. Outras Faces da História: Manaus de 1910-1940. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

COSTA, Cybele Morais da. Socorros Públicos: as bases da saúde pública na Província do Amazonas (1852-1889). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

CAVALCANTE, Márcio Roberto Vieira. Outras fronteiras na Amazônia Sul-Ocidental: uma análise das políticas de estruturação do território na fronteira Brasil-Peru-Bolívia. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

DANTAS, Hélio da Costa. Pesquisa Histórica no Amazonas: Uma Breve Análise. Jamaxi, Ufac, v. 1, n. 1, 2017.

LIMA, Carla de Oliveira. Natureza, cultura e imaginário nos relatos de Alfred Russel Wallace, Louis Rodolph Agassiz e Elizabeth Cabot Cary Agassiz. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

NEVES, Agres Roberta Oliveira das. Campanha de Saneamento e Profilaxia Rural no Amazonas (1920-1923). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

PEREIRA, Nasthya Cristina Garcia. Relações Homem-Natureza: O Discurso Político Sobre Agricultura e Extrativismo na Província do Amazonas (1852-1889). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

PEDROSA, Fábio Augusto de Carvalho. Filhos de Clio: a primeira geração de historiadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Manduarisawa - Revista Eletrônica Discente do Curso de História da Universidade Federal do Amazonas, v. 9, p. 1-21, 2025.

QUEIRÓS, César Augusto Bubolz. Entrevista. Manaus, 05/02/2026.

RABELO, Ana Paula de Souza. Do templo de taipa ao templo de pedra: a construção da Igreja Matriz de Manaus (1858-1878). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

SOARES, Elisângela Socorro Maciel. "Igreja de Manaus, porção da Igreja Universal": A Diocese de Manaus vivenciando a romanização (1892-1926). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

TEIXEIRA, Maria do Carmo Sena. Igreja Católica e ação indigenista na Amazônia contemporânea: o CIMI (1972-2000). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

UGARTE, Auxiliomar Silva. Entrevista. Manaus, 02/02/2026.

VILLANOVA, Simone. Sociabilidade e Cultura: a história dos "pequenos teatros" na cidade de Manaus (1859-1900). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

História do cotidiano

O Violeiro, de José Ferraz de Almeida Júnior, 1899.

Os dicionários definem o cotidiano como o "conjunto das ações praticadas todos os dias e que constituem uma rotina" e algo "comum ou banal" que "ocorre com frequência". Levantar-se pela manhã, tomar café, frequentar espaços públicos, trabalhar, ir à igreja, se divertir, cozinhar e manter relações sociais são hábitos e costumes que compõe nosso dia a dia. A História do Cotidiano, Histoire du quotidien em francês e Alltagsgeschichte em alemão, busca historicizar essas práticas diárias.

De acordo com a historiadora Mary Del Priore, é do senso comum dividir a realidade em duas esferas: a da vida pública, dos grandes eventos políticos, militares, econômicos e sociais, que "transformam" a história; e a da vida cotidiana, privada, marcada pela repetição de práticas comuns. Dessa forma, os atores sociais da primeira esfera estariam imbuídos de protagonismo histórico, enquanto os da segunda seriam meros coadjuvantes nas transformações sociais.

Contrapondo a ideia corrente, a filósofa Agnes Heller, uma das principais teóricas do cotidiano e autora de O cotidiano e a história, registra que a vida cotidiana é comum a todo homem, independente de sua posição na sociedade, pois é impossível desligar-se da cotidianidade, onde deixamos impressos diferentes aspectos de nossa individualidade. Nesse sentido, o historiador Michel de Certeau destaca que o cotidiano não é mera repetição, mas um local de criatividade, resistência, reapropriação e ressignificação sobre as instituições de poder, como o estado, a igreja e o patronato, que buscam sempre controlar e normatizar a sociedade.

"Habitar, circular, falar, ler, ir às compras ou cozinhar, todas essas atividades parecem corresponder às características das astúcias e das surpresas táticas: gestos hábeis do "fraco" na ordem estabelecida pelo "forte", arte de dar golpes no campo do outro, astúcia de caçadores, mobilidades nas manobras, operações polimórficas, achados alegres, poéticos e bélicos". O cotidiano, na perspectiva de Certeau, é marcado pelas noções de estratégia, que são as ações dos grupos de poder, e tática, a "arte do fraco" que, através de falhas e brechas, opera novos usos na sociedade.

A invenção do cotidiano se deu no século XVIII, período em que a burguesia, em meio a transformações gestadas pelo capitalismo comercial, do qual era fruto e agente, operou uma divisão entre o local de produção econômica, público, e o local de reprodução dos modos de vida, privado. A casa, que no período medieval era habitação e unidade produtiva, era agora um ambiente apenas familiar, de descanso, afetos e intimidades privadas. No entanto, devemos ter em mente que, como afirma o historiador André Burguière, o interesse de escritores pela vida cotidiana existe desde a Antiguidade, com autores como Heródoto e Tucídides dedicando-se ao registro dos modos de vida dos povos dos lugares por onde passaram, com a separação entre público e privado sendo contemporânea.

Os primeiros estudos sobre o cotidiano tratavam essa dimensão da existência como um conjunto de curiosidades pitorescas, que serviam apenas para entreter os leitores, diferente dos estudos de História Política, Econômica e Militar, vistos como altamente instrutivos. Compunham essa literatura os relatos de viagens e ensaios filosóficos onde eram descritos os usos e costumes de povos estrangeiros. Essas obras abundam entre os séculos XVIII e XIX, período em que naturalistas, antropólogos, biólogos e artistas europeus e norte-americanos percorrem o mundo coletando, catalogando e registrando espécies e sociedades.

Existem, claro, algumas exceções de autores que buscaram compreender a vida cotidiana de seus próprios países, produzindo trabalhos densos sobre suas vidas materiais, como os franceses Pierre J.-B. d'Aussy, autor de Histoire de la vie privée des Français depuis l'origine de la nation jusqu'à nos jours (1783), e Alfred Franklin, autor de La vie privée d'autrefois: arts et métiers, modes, moeurs, usages des Parisiens, du XII au XVIII siècle (1887-1902). Em que pese a importância e pioneirismo dessas obras, elas não conseguiram ir além da mera descrição do cotidiano, situação que, conforme Mary De Priore, só será superada com a Escola dos Annales.

Em 1938 a editora francesa Hachette inicia a publicação da coleção La Vie Quotidienne, em português História da Vida Cotidiana. Contando com trabalhos de historiadores como Edmond Faral, Abel Lefranc, Jean Robiquet, Jérôme Carcopino e Frédéric Mauro, tornou-se um grande sucesso editorial, tendo sido publicados mais de duzentos títulos que abordam desde a vida cotidiana no tempo de São Luís ao cotidiano nos tempos de Dom Pedro II. Apesar do sucesso, também recebeu críticas por parte dos historiadores acadêmicos, que não deixaram de notar que, em meio a bons livros, existiam aqueles que eram simplesmente descrições da vida material, tentativas de reconstituir o cotidiano sem qualquer tipo de análise crítica.

Na década de 1960, o historiador Fernand Braudel foi um dos primeiros pesquisadores a destacar a importância do cotidiano na História, defendendo que o vestuário, os hábitos alimentares e outros aspectos da vida material eram tão importantes quanto as instituições políticas e administrativas na reconstituição da trajetória humana no tempo. Diferente dos precursores do gênero nos séculos XVIII, XIX e 1930, os historiadores da Escola dos Annales buscaram ir além do arrolamento e descrição da vida material e da dicotomização entre a vida privada e a história, mostrando como essas duas dimensões estavam intimamente imbricadas. 

Sobre essa perspectiva analisada no parágrafo acima, Braudel registra em Civilização Material, Economia e Capitalismo, séculos XV-XVII, que "A vida material, entre os séculos XV e XVIII, é o prolongamento de uma sociedade, de uma economia antiga que muito lentamente, muito imperceptivelmente se foram transformando e que, pouco a pouco, criaram acima de si, com os sucessos e as deficiências que se adivinham, uma sociedade cujo peso forçosamente suportam". 

A História do Cotidiano emerge como campo de investigação acadêmica na década de 1980, período em que o movimento historiográfico da Nova História, com suas novas preocupações teóricas e metodológicas, dialogando com outras áreas como a Antropologia, extremamente importante nos estudos da vida material, expandiu os objetos de estudo da pesquisa histórica. Os historiadores Georges Duby e Philippe Ariès publicam em 1985 a coleção Histoire de la vie privée. Composta por cinco volumes que vão do Império Romano à década de 1980, contou com a participação de renomados pesquisadores, como Paul Veyne, Roger Chartier, Michelle Perrot, Antoine Prost e Gérard Vincent, tornou-se um grande sucesso de vendas e a base de pesquisas sobre o cotidiano em outros países.

No caso do Brasil, podemos destacar o pioneirismo de autores como Alcântara Machado, autor de Vida e Morte do Bandeirante (1929), e de Gilberto Freyre, com Casa Grande & Senzala (1933). Em seus estudos, o primeiro sobre a sociedade paulista do período colonial e o segundo sobre a sociedade patriarcal brasileira, utilizaram como fontes diários, testamentos, livros de receitas, relatos de viajantes e a tradição oral. Para Machado e Freyre, esses elementos da vida cotidiana, ainda que vistos por uma ótica nostálgica e romantizada, são peças essenciais na construção da identidade brasileira. 

A historiadora Laura de Mello e Souza considera as obras de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936), Monções (1945), Caminhos e Fronteiras (1957) e Visão do Paraíso (1959) como as responsáveis pela ampliação do conceito de cultura, englobando as noções de vida material, cotidiano, mentalidades, práticas e usos populares. Suas pesquisas foram metodologicamente elaboradas com bases conceituais sociológicas e etnológicas, diferenciando-se das pesquisas ensaísticas anteriores.

O sucesso da Histoire de la vie privée serviu de inspiração para que obras de mesmo enfoque surgissem em outros países, não sendo diferente no Brasil, que em 1997 viu nascer a coleção História da Vida Privada no Brasil, coordenada pelo historiador Fernando Antônio Novais. A coleção brasileira é composta por quatro volumes: Cotidiano e vida privada na América Portuguesa, Império: a corte e a modernidade nacional, República: da Belle Époque à Era do Rádio e Contrastes da intimidade contemporânea. Cada um contou com a organização de historiadores brasileiros que desde a década de 1980 vinham se dedicando a estudos sobre cultura, cotidiano e vida privada: Laura de Mello e Souza, Luiz Felipe de Alencastro, Nicolau Sevcenko e Lilia Moritz Schwarcz.

No prefácio do primeiro volume de História da Vida Privada no Brasil, Fernando Novais destaca que a principal qualidade da Nova História, como mencionado anteriormente, foi a abertura temática, mas, em contrapartida, sua principal fragilidade reside na recusa de se elaborar um esquema conceitual para abordar tais temáticas, sendo priorizadas a narrativa e a descrição. Os autores da versão brasileira buscaram superar a descrição, realizando uma reconstituição mais detalhada do cotidiano na sociedade brasileira em suas especificidades. 

Interessante nesse caso é a discussão sobre a historicidade do conceito de privado, brevemente abordada no início do texto. Novais afirma que uma História da Vida Privada só poderia ser possível a partir do século XIX, quando têm fim as revoluções liberais. Mas quando o conceito é historicizado e alargadas as indagações, pode-se chegar à uma "pré-história" da vida privada, que seriam manifestações de intimidade ainda não plenamente definidas. Para o estudo da vida privada no Brasil, manteve-se a periodização tradicional de nossa história, não por praticidade, mas por se compreender a devida importância desses marcos nos estudos históricos.

Diante de tudo que foi exposto, como escrever a História do cotidiano? Com base nos trabalhos de Fernand Braudel, Mary Del Priore, Michel de Certeau e Agnes Heller, a História do Cotidiano deve ser escrita através da compreensão inicial de que não se trata simplesmente da narrativa do dia a dia, mas da investigação de uma dimensão da vida atravessada por relações de poder, valores e resistências e articulada às dimensões políticas, sociais, econômicas e culturais. A descrição da vida material, de hábitos e costumes é insuficiente, devendo o pesquisador buscar nelas continuidades, rupturas e releituras pelos agentes históricos.

Bibliografia consultada:

BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo, séculos XV-XVII. As estruturas do Quotidiano, Tomo I, Lisboa: Teorema, 1992.

BURGUIÈRE, André. Pierre J.-B. d'Aussy, historien du quotidien au siècle des Lumières. Communications, n° 112, p. 13-22, 2023.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: Artes de Fazer. 3° ed. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1998.

DEL PRIORE, Mary. História do Cotidiano e da Vida Privada. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. 5° ed. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. 4° ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

NOVAIS, Fernando A. Prefácio. In: História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 07-13.

SOUZA, Laura de Mello e. Aspectos da Historiografia da Cultura sobre o Brasil Colonial. In: FREITAS, Marcos Cezar de. Historiografia Brasileira em Perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998, p. 17-38.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A invasão de gafanhotos em Manaus (1917)

"Guerra aos gafanhotos". Fonte: Jornal do Commercio, maio de 1917.

Entre maio e novembro de 1917 Manaus foi invadida por gafanhotos, que deixaram um rastro de destruição por onde passaram. Tudo começou quando nuvens do inseto foram identificadas nas colônias agrícolas Campos Salles, João Alfredo e Oliveira Machado, localizadas nos arredores da cidade. Em pouco tempo, eles chegaram à área urbana. De início, não provocaram maiores transtornos, servindo de alimento para as criações de galinhas. No entanto, rapidamente começaram a destruir plantações, pomares, hortas, jardins e prejudicar a circulação dos bondes elétricos, sendo registrados, por conta do esmagamento dos insetos nos trilhos, descarrilhamentos e acidentes.

O governador da época, Pedro de Alcântara Bacellar, determinou que fossem pagos 5000 réis por quilo de gafanhotos capturados, com o Tesouro do Amazonas sendo autorizado a liberar 100 contos de réis para custear os pagamentos. Em uma época de acentuada crise econômica, a captura do animal tornou-se uma lucrativa fonte de renda. Em um único dia, de acordo com o Jornal do Commercio, foram incineradas quase 3 mil toneladas do inseto. Todos os dias, centenas de pessoas iam à Secretaria do Estado com sacos e mais sacos contendo milhares de gafanhotos.

O memorialista Mavignier de Castro relata que algumas famílias chegaram a ganhar 300 mil réis por dia. Para não onerar ainda mais o tesouro, o valor por quilo foi reduzido a 3000 réis. Apesar dos esforços, os ovos postos em junho começaram a eclodir no início de julho, elevando o número de insetos. Novenas foram organizadas pelo fim da praga, digna do Egito Antigo. A invasão foi tão marcante que chegou a inspirar a realização de espetáculos, como a aclamada peça cômica A Praga dos Gafanhotos, encenada por Grijalva Antony, Gaspar Coelho e Américo Antony no Cine Polytheama. A invasão teve fim com as chuvas de novembro, que impediram a eclosão de novos ovos.

Fontes:

Jornal do Commercio, maio-novembro de 1917.

Bibliografia consultada:

CASTRO, Mavignier de. Gafanhotos e “Lacerdinhas”. Jornal do Commercio, 23/04/1963.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Os cemitérios do Lugar da Barra

Vila de Manáos, 1847. Fonte: MARCOY, Paul. Voyage à travers l'Amérique du Sud, de l'Océan Pacifique à L'Océan Atlantique. Paris: Librairie de L. Hachette etc Co, 1869.

Os colonizadores, ao se estabelecerem no território brasileiro, introduziram instituições e práticas milenares de origem Medieval que passaram a ditar o cotidiano da população. A Igreja Católica, primeira delas, fundamental no processo de invasão e conquista, destribalizando os povos nativos, cuidava de seus fiéis em vida e na morte, acolhendo seus corpos.

Os enterros eram realizados dentro das Igrejas Católicas e em seus largos, tipo de sepultamento conhecido como "ad sanctos apud ecclesiam": dentro da igreja e perto dos santos e mártires. Acreditava-se que a proximidade com as relíquias sagradas garantia a salvação da alma, sendo também uma questão de status, pois apenas os mais ricos podiam pagar por uma sepultura próxima do altar.

No Lugar da Barra (Manaus), essa prática era corrente desde o final do século XVII, quando foi construída pelos carmelitas a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. No século XIX, verifica-se a construção de um novo templo, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, que também passou a receber os sepultamentos do povoado. Os conquistadores, em uma clara demonstração de poder e domínio simbólico, construíram seus templos e campos santos sobre antigos cemitérios indígenas.

As novas sensibilidades visuais e olfativas da segunda metade do século XIX descreveram os enterros nesses locais como espetáculos aterradores, onde misturavam-se lama, carne e ossos. Nos largos da Matriz e dos Remédios os cadáveres eram enterrados em covas rasas, com braços e pernas muitas vezes ficando expostos, sendo profanados por cães, porcos e onças.

Os enterros nas igrejas e em seus largos foram proibidos pelo governo da província em 1854, ano em que foi aberto, em caráter provisório, o primeiro cemitério público de Manaus, conhecido como Cemitério dos Remédios ou Cemitério da Cruz. Nada restou dos cemitérios do Lugar da Barra. O do Largo da Matriz foi transformado na Praça IX de Novembro, atualmente convertida em estacionamento. O dos Remédios corresponde atualmente às ruas dos Andradas e Leovigildo Coelho, onde ficava seu cruzeiro.

Bibliografia consultada:

PEDROSA, Fábio Augusto de Carvalho. Laborum Meta: Sociedade e Arte nos Cemitérios de Manaus (1860-1930). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2024.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

O aniversário de Manaus e a invenção das tradições

Foto: Jornal do Commercio.

Manaus, 356 ou 177 anos? Esse é um dos debates mais interessantes do mês de outubro. As discussões sobre a fundação da cidade remetem às reflexões teóricas sobre a construção das nações e seus mitos fundadores, muito bem analisados por Eric Hobsbawm e Terence Ranger no clássico "A Invenção das Tradições" (1984).

Tradicionalmente, desde o século XIX, autores como Lourenço da Silva Araújo Amazonas (1852), Aprígio Martins de Menezes (1884), Bertino de Miranda Lima (1908) e Agnello Bittencourt (1925) afirmam que Manaus surgiu ao redor da Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro, erguida/concluída em 1669. Destaco que, apesar das referências, não vieram à luz, até hoje, documentos que comprovem a construção/conclusão da fortificação em 1669. Vejamos brevemente (ou não) as transformações operadas entre os séculos XVII e XIX.

O povoado, denominado Lugar da Barra, era composto por indígenas descidos de diferentes nações, destinados ao mercado de escravizados em Belém, e soldados portugueses, com sua economia centrada na captura de nativos e na extração das Drogas do Sertão. Nos dão nota sobre esse período Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio (1775), Alexandre Rodrigues Ferreira (1787), Martius e Spix (1819), entre outros. Ferreira computa nessa altura uma população estimada em 301 pessoas.

Entre 1791 e 1799 foi capital da Capitania de São José do Rio Negro, embrião do atual estado do Amazonas e subordinada ao Grão-Pará, retornando de forma definitiva em 1808. Em 1833, em meio a mudanças administrativas operadas pela Regência, ocorre a elevação do Lugar da Barra à categoria de Vila de Manáos, capital da Comarca do Alto Amazonas. Nessa época a vila contava, de acordo com Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (1897), com 11 ruas e uma praça com pelourinho. Existia uma pequena lavoura e a manufatura de produtos como a tartaruga e o pirarucu.

A Assembleia Provincial do Grão-Pará, após estudos, decidiu que a então Vila de Manáos, capital da Comarca do Alto Amazonas, já possuía as devidas condições de ser elevada à categoria de cidade. A elevação foi levada a efeito através da Lei N° 145 de 24 de outubro de 1848. A Vila de Manáos passou a se chamar Cidade de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro, homenageando a geografia e a padroeira do Amazonas.

A partir do exposto, fica evidente que Manaus não foi fundada como cidade, não sendo expedida pela Coroa Portuguesa qualquer ordem para tal, tendo surgido de forma improvisada como um povoado que só ganhou o status oficial de cidade em 24 de outubro de 1848.

Em 1969 foi efusivamente comemorado o Tricentenário de Manaus, com direito a cunhagem de moedas, medalhas e publicações especializadas de historiadores e memorialistas em jornais, revistas e livros. Dúvidas sobre a data já pairavam naquela ocasião. O professor Mário Ypiranga Monteiro (1969) e o Padre Raimundo Nonato Pinheiro (1969) digladiaram-se pelas páginas dos jornais em torno das "dúvidas e vacilações" sobre as comemorações. No entanto, para o espanto dos que comemoraram os 300 anos em 1969, em 1998 foram comemorados no dia 24 de outubro os 150 anos da cidade. Estávamos diante, como registra o historiador Francisco Jorge dos Santos (2005), de um imbróglio sobre o aniversário de Manaus. Como proceder?

Buscando solucionar a questão, um grupo de historiadores do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) criou a seguinte data: uniram o provável ano de construção/conclusão da Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro, 1669, um fato sem documentação comprobatória, ao dia 24 de outubro, dia em que a Vila de Manáos foi elevada à categoria de cidade, fato amplamente documentado, criando a data de 24 de outubro de 1669. Nesse sentido, conforme Hobsbawm e Ranger (1984), o aniversário de Manaus é uma tradição inventada, uma criação que visa criar uma continuidade com um passado remoto, nobre e heroico.

Manaus é oficialmente cidade desde 1848, não restam dúvidas. Isso posto, devemos desconsiderar tudo que é anterior a essa data? De forma alguma. Apesar do status de cidade datar da segunda metade do século XIX, os fundamentos de Manaus estão no século XVII: a Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e seu cemitério, os primitivos largos do Lugar da Barra, suas primeiras ruas e duas das residências mais antigas, datadas de 1819 e até hoje existentes. Some-se a isso o vasto acervo arqueológico composto por louças, garrafas e imagens sacras que atestam a antiguidade Colonial de Manaus.

E se mudarmos a abordagem, deixando de lado o viés eurocêntrico e adotando uma perspectiva decolonial, recuamos ainda mais no tempo, para mais ou menos cerca de 1.500 a 2000 anos antes de Cristo, quando a região era habitada por milhares de indígenas que utilizavam de forma sustentável a natureza e que sepultavam e cultuavam seus mortos em cemitérios onde foram, mais tarde, erguidas praças e monumentos em homenagem aos colonizadores.

O povoado que deu origem a Manaus foi fundado no século XVII. Virou lugar, vila e, finalmente, cidade em 24 de outubro de 1848. Desconsiderar o que veio antes desse ato oficial é uma decisão precipitada que desconsidera múltiplas abordagens. Como toda urbe, é um tecido vivo que carrega em suas origens dúvidas, contradições e mitos.

Feliz Aniversário, Manaus. 

terça-feira, 18 de março de 2025

A fofoca na sociedade manauara

Cartão postal da rua Henrique Martins, no Centro de Manaus (detalhe). Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

Certa vez, de passagem por Manaus em 1849, o naturalista britânico Alfred Russel Wallace (1823-1913) registrou que a fofoca era um dos passatempos preferidos de seus habitantes. Depois das obrigações religiosas nos domingos, escreve, “[…] conforme é moda ali, é a ocasião própria para fazer visitas, indo uns às casas dos outros, para palestrar, tendo como assunto principal da conversação os escândalos, que se acumularam durante a semana”. Ninguém estava imune aos mexericos, que atingiam dos mais humildes às famílias mais benquistas, o que fez Wallace afirmar que “Os sentimentos morais em Barra estão reduzidos ao mais baixo grau de decadência possível, mais do que em qualquer outra comunidade civilizada” (Wallace, Alfred Russel. Viagens pelo Amazonas e Rio Negro, 2004, p. 215-216).

O discurso dos viajantes, esses agentes da modernidade no século XIX, lido de forma pormenorizada, revela tensões socioculturais entre o velho e o "novo". Conseguimos visualizar, nas falas eurocêntricas, práticas culturais arraigadas e formas de sociabilidade características de sociedades - no nosso caso, indígenas - onde a oralidade era a principal forma de comunicação, sendo vista, junto de outros elementos como a mestiçagem, como um entrave no desenvolvimento socioeconômico (Costa, Hideraldo Lima da. Tensões socio-culturais na Manaus de meados do século XIX - discurso dos viajantes. Amazônia em Cadernos, 1998). Ao descrever pejorativamente o passatempo dos manauaras, Wallace nos legou a imagem de uma sociedade em que a língua portuguesa não estava plenamente consolidada, predominando, mesmo após a introdução da imprensa, a tradição oral.

Fofoca, substantivo feminino, de acordo com o Dicionário Priberam, é o “Ato de querer saber para ir contar a outrem e fato ou coisa contada em segredo, sem conhecimento do (s) visado (s) ou sem conhecimento real ou efetivo” (Dicionário Priberam, s. d.). O disse me disse, o mexerico, o boato, a futrica, o falatório e a difamação fazem parte da história da humanidade desde que o homem desenvolveu a capacidade de se comunicar foneticamente. Fofocas as mais variadas movimentaram povoados, vilas, reinos e impérios. A importância dessa prática foi muito bem avaliada pelos sociólogos Norbert Elias e John L. Scotson no livro Os Estabelecidos e os Outsiders, para quem "A fofoca, em outras palavras, não é um fenômeno independente. O que é digno dele depende das normas e crenças coletivas e das relações comunitárias" (Elias, Norbert; Scotson, John L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Trad. Vera Ribeiro. 2000, p. 121).

Gilberto de Mello Freyre, em seu clássico estudo sobre a sociedade patriarcal brasileira, cita a existência, nos séculos XVIII e XIX, dos recolhedores de fatos, conhecidos por “emporcalhar brasões ou nomes respeitáveis”, pois anotavam e divulgavam “[…] os preconceitos de branquitude e de sangue nobre; desencavava-se alguma remota avó escrava ou mina; ou tio que cumpria sentença; avô que aqui chegara de sambenito. Registravam-se irregularidades sexuais e morais de antepassados. Até mesmo de senhoras” (Freyre, Gilberto de Mello. Casa Grande & Senzala, 2003, p. 23).

Algo parecido existiu na Manaus de 1800. O historiador Mário Ypiranga Monteiro faz referência, na obra Fundação de Manaus, ao homem da matraca, tipo popular dos tempos do Lugar da Barra que ganhava a vida anunciando leis e decretos da câmara municipal e do reino, festas religiosas e profanas e qualquer acontecimento cuja divulgação fosse do interesse dos contratantes. Ele, descreve Ypiranga, “Deveria ser um patusco, falastrão a valer, expedito no verbo, desembaraçado e cínico, bom trotador”. Em uma comunidade pequena, de pouco mais de cinco mil habitantes, “ia pelas ruas da vila barulhando a matraca, alertando ouvidos para algum escândalo, convidando as gentes a reunir-se” (Monteiro, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus, 1994, p. 149).

Era assim que as notícias corriam pela cidade, pois ainda não existiam jornais. A imprensa só vai chegar ao Amazonas em 1851, logo após a elevação da comarca à categoria de província. Coube a Manoel de Azevedo da Silva Ramos a montagem do primeiro jornal, o Cinco de Setembro. A partir daí nstalou-se nestas paragens uma revolução impressa. “Raro era o ano”, escreveu Mavignier de Castro, “em que não surgisse novo órgão defensivo dos interesses do povo” (Castro, Mavignier de. Síntese Histórica da Evolução de Manaus, 2° ed, 1967, p. 108). Surgiram jornais oficiais, partidários, literários, esportivos, comerciais e, fazendo grande sucesso, os críticos e humorísticos, que nada mais eram do que folhas especializadas em fofocas.

Eles proliferaram entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, período em que a circulação de capitais propiciada pela economia gomífera possibilitou a importação de máquinas e materiais de impressão, dinamizando a imprensa amazonense. A imprensa especializada, com suas redações bem montadas, passou a conviver com jornais de feitura artesanal, do qual fazem parte os humorísticos, que em sua grande maioria tiveram vida efêmera, com alguns tendo uma única edição publicada (Pinheiro, Maria Luiza Ugarte. Folhas do Norte: Letramento e Periodismo no Amazonas (1880-1920). 3° ed. 2015).

Deve-se destacar que esse não era um caso específico de Manaus. Jornais dessa natureza existiram em todo o Brasil e em outras partes do mundo. No entanto, aqui eles ganharam outra importância. Em uma cidade de pequenas dimensões, por séculos privada de maiores divertimentos, a fofoca tornava-se uma importante forma de entretenimento. Os periódicos críticos e humorísticos editados a partir o final do século XIX amplificaram esse aspecto da vida cotidiana.

Um dos mais antigos disponíveis para consulta na Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional é A Mutuca, fundado em 1893. Em seu texto de apresentação alertava os leitores: “Aguente-se quem pouder: o meu aguilhão estará rijo, ponteagudo e venenoso”. Distribuía picadas, como as que foram endereçadas a um certo cidadão de nome Carlos “por ter desprezado a V… por cauza da G… da rua Tarumã” e ao Agnello, “porque está feito ama secca de uma quarentona (A Mutuca, 17/11/1893, p. 01). A Marreta, de 1912, distribuía marretadas a torto e a direito. As chicotadas de O Chicote, de 1913, eram fortemente aplicadas, como aquelas que atingiram um “portuguez demasiadamente ratuíno”, enamorado de uma empregada da rua José Clemente, ameaçado de ter seu nome publicado em “letra redonda” (O Chicote, 16/08/1913, p. 02).

Em 1913 A Marreta noticiou que um aluno da Escola Universitária Livre de Manáos estava conquistando uma senhora casada, moradora do Boulevard Amazonas, enquanto seu marido se encontrava no interior (A Marreta, 12/01/1913, p. 04). Alguns anos mais tarde, em 1915, A Lanceta publicou que uma senhorinha da rua Mundurucus tinha dois namorados. “Um só não chega?”, questionou o jornal (A Lanceta, 22/05/1915, p. 03). Escandaloso mesmo foi um namoro descoberto pelo A Encrenca na rua Municipal, pois os dois se beijavam pela janela. Um afronte às famílias tradicionais. O casal foi ameaçado de ter os nomes publicados (A Encrenca, 20/08/1916, p. 02). Com uma certa dose de exagero, A Lanceta afirmava que uma senhorita da rua Major Gabriel tinha uma “lista demonstrativa de 80 namorados” (A Lanceta, 01/05/1914, p. 03).

Por volta de 1916, na rua João Coelho, dois namorados foram ameaçados de terem seus nomes publicados no jornal A Encrenca, pois costumavam andar abraçados (A Encrenca, 11/06/1916, p. 02). Em um baile realizado no bairro dos Tócos (Aparecida) em 1913, o português Pedro Baptista engatou um namoro com uma moça. A Marreta a alertou, afirmando que “[…] elle é um pouco enxerido e tem mais de 60 noivas” (A Marreta, 16/02/1913, p. 04). No ano seguinte o jornal lançou um serviço voltado às senhoritas que tinham dúvidas sobre a situação conjugal de seus pretendentes: “Avisamos as incautas demoiselles que, quando tenham dúvida sobre o estado civil de qualquer malandro, isto é, se elle é solteiro ou casado, que nos peçam informações, porque temo-las de todos os casados Dons Juans de Manáos, vindos de outros Estados” (A Lanceta, 17/06/1914, p. 02). Um serviço essencial em uma cidade que, desde 1890, passou a receber milhares de forasteiros de diferentes paragens.

A Lanceta, em 1912, divulgou “que um velho que faz 69… anos por esses dias, está preto de paixão por uma jovem de 12 anos, lá pelos Educandos” (A Lanceta, 21/09/1912). Essa nota é um exemplo dos valores morais de uma sociedade patriarcal. Os redatores se espantaram apenas com a idade avançada do "velho" e o fato de ser “preto”, e não com a idade da jovem, de apenas 12 anos, demonstrando “normalidade” diante do fato, tratado como mais uma fofoca. Os namoros e casamentos entre homens mais velhos e mulheres muito jovens, na transição entre infância e adolescência, eram comuns. As leis contra essa antiga prática estavam dando seus primeiros passos no Brasil. A palavra pedófilo, apesar de existir desde fins do século XIX, sequer era mencionada.

As imagens da Belle Époque manauara que nos foram transmitidas apresentam senhoras altivas, ricamente trajadas, guardiãs do lar e fiscais da moral e dos bons costumes. No entanto, em 1912 A Marreta revelou os nomes de “[…] algumas marafonas (prostitutas) que se pavoneiam de grandes senhoras” (A Marreta, 22/09/1912, p. 03). Se manifestando contra os homossexuais, o jornal afirmou que, para expurgá-los, era necessário “[…] começar pelos grandes, que occupam logares importantes em nossa sociedade”, sugerindo que certos políticos e membros da elite, aparentemente impolutos, eram, na verdade, invertidos (A Marreta, 03/11/1912, p. 01).

Em mais de uma ocasião O Chicote denunciou Chico Traíra, famoso pajé que atuava no bairro Cachoeirinha, onde realizava orações, defumações e banhos curativos. "Toma cuidado com a polícia, pajé", dizia o jornal (O Chicote, 19/07/1913). Para A Marreta, os praticantes da pajelança eram "em geral os homens que vivem na malandragem" [...] e tambem as mulheres de vida facil que já não prestam mais para coisa alguma" (A Marreta, 17/11/1912). As práticas médico-religiosas eram combatidas pelo poder público e pela imprensa, sendo vistas como formas de superstição e de charlatanismo.

A circulação dos mexericos era facilitada pela configuração do espaço urbano. A maior parte dos bairros de Manaus - e algumas áreas do Centro - é constituída, desde priscas eras, por becos, vielas e travessas estreitas, com as casas coladas umas nas outras. As comadres e os compadres falavam da vida alheia pela janela, na calçada, nas visitas regadas a café, nos almoços domingueiros. Quantas fofocas não passaram pelos becos Carolina das Neves e da Indústria, em Aparecida, e no beco José Casimiro, no Centro? Não é de se estranhar o fato de que, como cita o professor José Ribamar Bessa Freire, alguns desses jornais fossem sediados nesses bairros (Freire, José Ribamar Bessa. Jornais do Amazonas: em busca do Vicente. In: Pinheiro, Maria Luiza Ugarte. Folhas do Norte: letramento e periodismo no Amazonas (1880-1920). 3° ed. 2015).

Através da leitura dessas fofocas podemos compreender diferentes aspectos da sociedade manauara da virada do século XIX para o XX. Elas revelam modos de vida, códigos de conduta, práticas amorosas, religiosas e culturais, transgressões e embates entre a cidade real e a idealizada pelas camadas dirigentes e pelas elites. Em outras palavras, um cotidiano totalmente diferente daquele que foi registrado e transmitido pela historiografia oficial.

Historiograficamente falando, André Vidal de Araújo, comentando sobre a imprensa manauara das primeiras décadas do século XX, lembra, sem maiores detalhes, de “[…] certos jornais de moços indiscretos que atacavam os namorados como o “Monóculo”, o “Chicote”, a “Pimenta”, etc” (Araújo, André Vidal de. Sociologia de Manaus. 1974, p. 305). 

Alguns anos mais tarde, o professor José Ribamar Bessa Freire, no livro Cem Anos de Imprensa no Amazonas (1851-1950), destaca O Beijo, de 1896; O Namoro, de 1902; O Nu, de 1903; O Bohemio, de 1906; O Bentevi, de 1910; O Pau, de 1912; e o Pun, de 1916. Essas folhas, de acordo com o pesquisador, utilizavam linguagem coloquial, escrachada, e expunham a vida privada das famílias amazonenses, ameaçando divulgar os nomes daqueles que eram flagrados em condutas consideradas imorais e exercendo “controle social” sobre a população. Estavam, àquela altura, "[...] à espera de pesquisadores que analisem o seu papel" (Freire, José Ribamar Bessa et al. Cem Anos de Imprensa no Amazonas (1851-1950). 2° ed, 1990, p. 20).

A historiadora Maria Luiza Ugarte Pinheiro, autora de livro Folhas do Norte: Letramento e Periodismo no Amazonas (1880-1920), dedicou um precioso capítulo a essas folhas. Ela identificou três tipos de jornais humorísticos que circularam no Amazonas: os de entretenimento, que teciam críticas ao cotidiano; os de humor político, voltados para as críticas à política local e nacional; e os moralizadores e segregadores, que diariamente atacavam homossexuais, prostitutas, negros e imigrantes nordestinos. Analisando esses periódicos, concluiu que “O jornal de humor, a propor o entretenimento, desafia e afronta o instituído, o consagrado e, ao fazê-lo, atrai a atenção de um conjunto de leitores que não só demandam atitudes de independência e de liberdade de pensamento e expressão, mas também desejam ver esgarçadas as contradições de uma sociedade que lhes parecia putrefata” (Pinheiro, Maria Luiza Ugarte. Folhas do Norte: Letramento e Periodismo no Amazonas (1880-1920). 3° ed. 2015, p. 234).

Esses jornais atendiam os anseios populares, bem como faziam parte de uma esfera burguesa que através do chiste atacava camadas populares da sociedade consideradas atrasadas e indesejadas no espaço urbano que se queria moderno e civilizado. A fofoca, como repreensão e divertimento, estava por todos os lados. Nos palacetes, cortiços, cafés da avenida Eduardo Ribeiro, becos, vielas e travessas dos Tócos, São Raimundo e Centro, mercados, igrejas, escolas e até cemitérios. Hoje circula na redes sociais, nos blogs, portais e sites, rendendo lucros astronômicos a jornalistas. Ela é parte intrínseca da História de Manaus.