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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Herdeiros de Clio: os primeiros mestres do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas

PPGH-UFAM.

A criação do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM

O Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM) completa 20 anos em 2026. Para comemorar essa data expressiva, marco de sua consolidação como um dos mais conceituados da região Norte, conceito 5 na última avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), escrevi o presente artigo, intitulado Os primeiros mestres do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)Como em Filhos de Clio: a primeira geração de historiadores da universidade federal do Amazonas (UFAM), apresentarei, primeiramente, um breve panorama do processo de criação do PPGH-UFAM. Posteriormente, traço um breve histórico da revista Canoa do Tempo. Por último, através da análise das dissertações produzidas pela primeira turma, os perfis históricos e práticas historiográficas dos primeiros mestres.

Na construção dessa pesquisa foi utilizado um conjunto variado de fontes, destacando-se o Projeto Pedagógico do Curso de Licenciatura Plena em História da Universidade Federal do Amazonas (2006); o Histórico do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (2019); o Catálogo de Pós-Graduação da UFAM (2019); o Jornal do Commercio; e a Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Deve-se destacar que, em relação a esta última fonte, a falta de atualização dos currículos, em alguns casos, pode causar pequenas imprecisões biográficas, mas sem comprometer a proposta e a qualidade do texto.

E em outra ocasião, refleti que escrever sobre a História do Curso de História é uma tarefa delicada, pois ao fazer recortes e enquadramentos, lidamos com a inclusão e exclusão, a lembrança e o esquecimento (Pedrosa, 2025). Dessa forma, faz-se necessário deixar bem explicitado quem são os primeiros mestres do Programa de Pós-Graduação em História da UFAM: são homens e mulheres que, após concluírem a graduação em História e passarem por cursos de especialização Lato Sensu entre o final da década de 1990 e início da década de 2000, formaram a primeira turma de mestrandos em História em 2006, defendendo suas dissertações em 2008. São os Herdeiros de Clio, aqueles que colheram os frutos de uma árvore plantada através de lutas renhidas entre as décadas de 1980 e 1990.

A criação do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) está diretamente relacionada à consolidação do curso de graduação em História, que na década de 2000 apresentava um aumento na oferta no número de vagas e, consequentemente, de egressos. Surgia, dessa forma, a necessidade por cursos de pós-graduação em História (Curso, 2006, p. 68; Histórico, 2019). Essa alta procura fazia parte de um cenário maior a nível nacional, pois crescia de forma exponencial, na década de 2000, a demanda pela qualificação universitária, sendo criados novos programas e ofertadas milhares de vagas. Esse movimento não ficou restrito aos grandes centros, também alcançando a "periferia da produção científica brasileira". Na região Norte mais especificamente, e no âmbito da História, a década de 2000 foi marcada pela criação do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Pará (PPHIST-UFPA), em 2004, e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM), em 2006. Esses programas de pós-graduação foram um divisor de águas na qualificação de profissionais da área de História, atendendo a demanda local e atraindo pesquisadores de municípios do interior, de outros estados e países (Histórico, 2019).

Sobre nosso caso, é interessante refletir que, se as décadas de 1980 e 1990 foram marcadas pela formação e qualificação da primeira geração de historiadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com a institucionalização do curso, a produção de reflexões teóricas e o estabelecimento de marcos historiográficos na renovação da pesquisa acadêmica no Amazonas (Dantas, 2017; Pedrosa, 2025), na década de 2000 visualizamos esse grupo retornando de seus doutoramentos e se engajando no avanço do curso em direção à pós-graduação, importante etapa institucional do sistema universitário que objetiva a formação especializada e a excelência acadêmica.

De acordo com os professores responsáveis pela fundação do programa, a criação do PPGH-UFAM esbarrava em alguns problemas, como a "baixa titulação do corpo docente do Departamento de História", que impedia o oferecimento de vagas na pós-graduação. Aos poucos, essa questão foi sendo superada através de investimento institucional que possibilitou a qualificação do corpo docente, com a titulação de novos mestres e doutores em História por instituições de ponta como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e a Universidade do Porto (U. Porto) (Curso, 2006, p. 68; Histórico, 2019). Com um corpo docente mais qualificado, a ideia da criação de um programa de pós-graduação ganhou força, tendo sido ofertados, inicialmente, cursos de pós-graduação Lato Sensu. Os docentes registram que esses primeiros cursos, além de atenderem à demanda existente, serviram como uma espécie de treinamento para os professores do Departamento de História atuarem na pós-graduação Stricto Sensu (Curso, 2006, p. 68; Histórico, 2019).

Em 1997 foi ofertado o curso de Especialização em História Social da Amazônia, primeiro vinculado ao Departamento de História da UFAM, que "[...] formou duas dezenas de alunos, alguns dos quais ingressaram posteriormente em programas de Mestrado ou no próprio ensino superior" (Curso, 2006, p. 69). Posteriormente, através de convênio com a SEDUC, foi realizado em 2002 o curso de Especialização em Amazônia: Sociedade, Cultura e Poder, que formou uma turma em agosto daquele ano. Ainda sobre esse primeiro momento, em setembro de 2003 o Jornal do Commercio noticiou que o Departamento de História estava com inscrições abertas para a segunda turma da Especialização em História e Historiografia da Amazônia, com o curso sendo "[...] voltado principalmente a alunos que finalizaram história" (Jornal do Commercio, 17/09/2003, p. 24). Esse curso foi oferecido em 2003, 2004 e 2005.

Essas especializações, como dito anteriormente, atendiam à demanda por qualificação, que naquele período tinha duas frentes específicas: a educação básica e o ensino superior. Sobre a primeira, teve influência a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), promulgada em 1996 e que estabeleceu a formação continuada dos profissionais em educação como um direito que visava o aperfeiçoamento. No nível superior, cursos de Ciências Sociais e História criados em instituições como a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Centro Universitário do Norte (UNINORTE) demandavam profissionais com, no mínimo, cursos de especialização para atuarem em seus quadros docentes. 

Após o oferecimento desses cursos, "[...] o Departamento entende que já reúne condições institucionais e acadêmicas suficientes para trilhar seus próprios caminhos na pós-graduação", aprovando a criação, em outubro de 2002, "[...] de um Grupo de Trabalho encarregado de elaborar a proposta do Mestrado em História" (Curso, 2006, p. 69). O Jornal do Commercio, a par da elaboração da proposta, noticiou em 2003 que "O departamento de História da Ufam vem analisando a possibilidade de implantação de um inédito curso de mestrado em história. A idéia ainda está sendo avaliada pelos historiadores doutores que coordenam o departamento [...] Caso seja instituído o mestrado em história na Ufam, o curso será o primeiro na área em Manaus" (Jornal do Commercio, 17/09/2003, p. 24). As expectativas eram imensas. Toda a comunidade acadêmica, da educação às humanidades, aguardava ansiosamente a criação do PPGH-UFAM, que seria mais um importante centro de reflexão crítica e produção do conhecimento, estimulando o debate teórico, metodológico e historiográfico.

Em setembro de 2005 o Jornal do Commercio anunciou que "O curso de mestrado em história, do ICHL (Instituto de Ciências Humanas e Letras) da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), foi aprovado com conceito 3, pelo MEC/Capes. Ano que vem começam as inscrições" (Jornal do Commercio, 21/09/2005, p. 02). Estava criado o Mestrado em História da Universidade Federal do Amazonas, credenciado pela Portaria CAPES/MEC 696, de 16 de março de 2006, publicada no Diário Oficial da União em 17 de março daquele ano e contando com três linhas de pesquisas: Cultura e Representações, Migrações, Trabalho e Movimentos Sociais na Amazônia e Política, Instituições e Práticas Sociais. Suas atividades tiveram início em 2006, com os primeiros mestres defendendo seus trabalhos em 2008. De acordo com o Professor Dr. Auxiliomar Silva Ugarte, o quadro de professores do PPGH, no período de 2006-2008, era o seguinte:

"1. Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro (primeiro coordenador); 

2. Maria Luiza Ugarte Pinheiro; 

3. Hideraldo Lima da Costa (in memoriam); 

4. Antonio Emílio Morga; 

5. James Roberto Silva; 

6. Auxiliomar Silva Ugarte; 

7. Patrícia Maria Alves de Melo; 

8. Sínval Carlos Mello Gonçalves; 

9. Márcia Eliane Alves de Souza e Mello

10. Almir Diniz de Carvalho Júnior" (Ugarte, 2026).

Canoa do Tempo: revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM)

A Canoa do Tempo, revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM), foi lançada em 2007. Até 2020 era publicada semestralmente, adotando desde então o sistema de publicação em fluxo contínuo, sendo lançada uma edição anual do período entre janeiro e dezembro. Em cada edição anual são publicados dois dossiês, bem como artigos livres, resenhas e entrevistas. A revista "[...] publica trabalhos de história sob a forma de artigos, relatos de pesquisa, estudos teóricos, entrevista e resenha de livros dentro de uma ação integradora dos conhecimentos produzidos na Amazônia e no Brasil" (Curso, 2006, p. 73).

Sobre o nome da revista, o Professor Dr. Sínval Carlos Mello Gonçalves escreveu na apresentação de seu primeiro volume que "A imagem de nossos pequenos barcos, cruzando os longos rios de nossa Amazônia não poderia mesmo ser mais evocativa de uma jornada que pretende ancorar em vários portos e deixar-se levar ao infinito, sem jamais, no entanto, esquecer o lugar de onde partiu" (Gonçalves, 2007). A Canoa do Tempo, guiada pelos pesquisadores, trilha diferentes rotas para compreender as trajetórias e experiências de homens e mulheres em múltiplas temporalidades.

Seu primeiro volume tratou das Cidades (2007), contando com artigos de Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, abordando os mundos do trabalho amazonense entre 1920 e 1945; Leno José Barata Souza, tratando dos excluídos da Belle Époque manauara; Maria Luiza Ugarte Pinheiro, investigando o cotidiano e o trabalho em Manaus entre 1880 e 1920; Paulo Marreiro, escrevendo sobre moradia e ameaça urbana em Manaus durante a Belle Époque; Otoni Moreira de Mesquita, analisando as representações pictóricas da cidade; Almir Diniz de Carvalho Júnior, tratando dos líderes indígenas no mundo cristão colonial; Paulo Koguruma, desvendando a África no imaginário da Belle Époque paulistana; Sínval Carlos Mello Gonçalves, abordando o indivíduo na perspectiva dos estudos medievais; Davi Avelino Leal, apresentando os seringueiros na historiografia regional; e André Neves, Armstrong da Silva Santos e Márcio Roberto Vieira Cavalcante investigando o caminho da arquitetura ordinária à cultura ordinária.

O segundo volume, O Antigo Regime no Império Atlântico Português (2008), teve a participação de Antônio Manuel Espanha, que analisou a relação entre as Cortes e o Reino; Miguel Jasmins Rodrigues, que tratou da pequena nobreza nas Ilhas de Cabo Verde; Maria Lêda Oliveira, investigando a figura do Apóstolo São Tomé na América Portuguesa; Rafael Ruiz, analisando o Direito como instrumento de colonização; Maria de Fátima Silva Gouvêa, escrevendo sobre o Poder e a Burocracia nas Capitanias do Estado do Brasil; João Luis Ribeiro Fragoso, que investigou a reforma monetária e o rapto de noivas no século XVII; Anderson de Freitas Fonseca, autor de um estudo sobre os sertões de ouro e as estradas reais do Império luso-brasileiro; Rafael Chambouleyron, que abordou a Amazônia Colonial e as Ilhas Atlânticas; Fabiano Vilaça dos Santos, analisando a administração do governador Joaquim Tinoco Valente na Capitania de São José do Rio Negro; Mauro Cezar Coelho, esmiuçando a inserção indígena na sociedade colonial paraense do Diretório dos Índios; Otoni Mesquita, explorando acervos da Biblioteca Nacional (RJ); James Roberto Silva, que dedicou-se ao estudo dos museus históricos; e as resenhas de Mônica da Silva Ribeiro e David Salomão Feio, a primeira resenhando Process and form in social life: Selected essays of Fredrik Barth, e o segundo O Sol e a sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII, de Laura de Mello e Souza.

Na última avaliação quadrienal da Capes, a Canoa do Tempo foi classificada como A3, o que demonstra ser ela uma revista de qualidade ímpar e de grande impacto intelectual. De acordo com o PPGH, esse é um "reconhecimento que reafirma a qualidade editorial, a relevância científica e o compromisso com a produção historiográfica local" (PPGH-UFAM). 

Perfis históricos e práticas historiográficas dos primeiros mestres do PPGH-UFAM

Maria do Carmo Sena Teixeira, primeira mestre em História Social pelo PPGH-UFAM. Fonte: acervo do Departamento de História da UFAM.

Maria do Carmo Sena Teixeira é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Professora aposentada da Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED), se dedica à pesquisa da Igreja Católica na Amazônia e à Ação Indigenista.

Na dissertação Igreja Católica e ação indigenista na Amazônia contemporânea: o CIMI (1972-2000), investigou a ação pastoral do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgão ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre 1972 e 2000. Utilizando fontes bibliográficas e documentais como o Boletim do CIMI e o jornal Porantim, reconstituiu a criação, a institucionalização, a estrutura administrativa e o funcionamento do CIMI, criado em plena Ditadura Militar, sua relação com os povos indígenas do Amazonas e de Roraima e os conflitos ligados à terra envolvendo essas populações. 

Naquele período de exceção, a violência contra os povos indígenas ganhou nova dimensão dentro de um projeto político desenvolvimentista e de integração nacional da Amazônia. Como no período Colonial, eles continuavam sendo sistematicamente exterminados e destituídos de suas terras, agora destinadas à abertura de estradas, rodovias e à grilagem. A Igreja Católica, diante dessa situação, aparece dividida entre o paternalismo e a conformidade com as políticas adotadas pelo governo federal. A Declaração de Barbados, em 1971, assinada por 15 antropólogos, denunciou o genocídio dos povos originários da América Latina e a cumplicidade do estado e da Igreja Católica, defendendo a autodeterminação dos nativos e sendo o marco inicial para o desenvolvimento de novas políticas indigenistas. De acordo com Teixeira, a criação do CIMI em 1972 significou a "[...] revisão crítica da atuação das diversas ordens religiosas que atuavam nas áreas indígenas" (Teixeira, 2008, p. 47).

Nasthya Cristina Garcia Pereira possui graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutorado em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Professora efetiva de História na Secretaria Municipal de Educação (SEMED) há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da História e Natureza na Amazônia, História dos (as) Intelectuais e História das Ciências. É autora dos livros Civilizar homens e florestas: o discurso político sobre agricultura e extrativismo na Província do Amazonas (1852-1889), publicado em 2019, e A "Dona da Floresta": Uma paisagem intelectual de Clara Pandolfo e sua obra sobre a Amazônia (1955-1990), publicado em 2025.

Sua dissertação, Relações Homem-Natureza: O Discurso Político Sobre Agricultura e Extrativismo na Província do Amazonas (1852-1889), é um estudo sobre as representações da natureza e da sociedade expressas pelos presidentes da província do Amazonas em seus relatórios. Os discursos desses agentes do Império Brasileiro, responsáveis por executar o projeto civilizador nacional nessa distante província, retratam uma região vasta, rica em matérias-primas, mas com populações rarefeitas e ociosas que deveriam ser civilizadas para realizarem a plena exploração da natureza. Os homens amazônicos, naturais da terra ou oriundos de outras paragens e aqui integrados, como os nordestinos, deveriam superar a total dependência da natureza, que tudo dava, devendo praticar a agricultura, atividade que fixava o homem à terra.

Nasthya constatou que, para os presidentes da província, "A agricultura transformaria a relação perdulária dos habitantes com o meio natural em uma relação mais racional, além de mudar a paisagem deserta das exuberantes florestas quando estas fossem derrubadas para dar lugar aos campos cultivados com alguma espécie vegetal de grande valor comercial e até mesmo quando fossem utilizadas como campos de "criar"" (Pereira, 2008, p. 101). Se operariam, dessa forma, não apenas transformações econômicas, mas também sociais e culturais, com a transformação dos habitantes da região em braços uteis ao projeto civilizador do Império.

Simone Villanova é graduada em História pela Universidade Federal de Juiz e Fora (UFJF), especialista em Filosofia e Artes pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), especialista em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atuou como professora no Centro Universitário do Norte (UNINORTE), na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e professora substituta na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atualmente é docente da rede pública estadual de ensino (SEDUC). É especialista em História Moderna, História Contemporânea, História da América, História do Brasil, História da Arte e História Local, com pesquisas sobre Cultura, Manaus e Patrimônio Histórico. Em 2015 publicou o livro Sociabilidade e Cultura: A história dos "pequenos teatros" em Manaus (1859-1900).

A dissertação de Villanova, Sociabilidade e Cultura: A história dos "pequenos teatros" em Manaus (1859-1900), é uma das mais interessantes dessa primeira safra de trabalhos. Investigando os primeiros teatros de Manaus, o Teatro de Palha descrito pelo viajante alemão Robert Avé-Lallemant, o Teatro Variedade Cômica, do artista paraense Lima Penante, o Teatro Beneficente Portuguesa e o Éden Teatro, descortinou os primeiros momentos da europeização dos costumes da sociedade local, que antecedem o "boom" da economia gomífera, com essas casas de espetáculo sendo não apenas locais de entretenimento, mas instrumentos de civilização de hábitos e costumes de uma população majoritariamente indígena e mestiça, e por isso considerados ultrapassados e indesejados. 

A historiadora registra que "A busca pelas construções teatrais significava, no século XIX, muito mais do que uma "nova" forma de socialização e lazer nas cidades brasileiras. Representava a disciplinarização dos antigos costumes coloniais baseada na cultura negra, indígena, portuguesa, com seus hábitos peculiares no que se refere ao trabalho, à religiosidade, às formas de lazer, aos modos de assimilar o tempo e o espaço nas cidades" (Villanova, 2008, p. 27). Dessa forma, fica claro que a construção do Teatro Amazonas, em 1896, não deu início ao refinamento cultural na cidade, mas foi a nova fase de um processo que data de 1850.

Márcio Roberto Vieira Cavalcante (in memoriam) tinha graduação em História pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Era professor titular aposentado da Universidade Federal do Acre (UFAC), atuando nas áreas de Teoria e Filosofia da História, dedicando-se ao estudo de Geopolítica, Fronteira, Amazônia, História Cultural, Imaginário e Representação. 

Na dissertação Outras fronteiras na Amazônia Sul-Ocidental: uma análise das políticas de estruturação do território na fronteira Brasil-Peru-Bolívia, Márcio Roberto investiga as políticas de integração adotadas pelo poder público para as áreas de fronteira do estado do Acre (Brasil, Peru e Bolívia), analisando as transformações históricas, políticas e territoriais nessa região, enfocando as políticas de integração regional e desenvolvimento elaboradas pelo governo brasileiro/acreano em articulação com os mercados bolivianos e peruanos. Por ser a Amazônia uma região atravessada por múltiplas especificidades, a noção de fronteira, nesse estudo, não é a de uma região periférica, mas de um território marcado por conflitos e dinâmicas sociais e culturais complexas e articulado a processos globais.

Desse modo, as políticas de integração regional implementadas a partir das décadas de 1980 e 1990, marcadas por um processo de ambientalização, que é a incorporação de discussões sobre os usos dos recursos naturais da região pela iniciativa privada, são responsáveis por modificações profundas nos modos de vida das populações locais: "Tal processo promove mudanças e transformações nos modos de vida e nas relações sociais estabelecidas, redefinindo a configuração espacial, e em um processo conflituoso, reordenando os usos do espaço. As áreas acima referidas passam por um processo de especulação imobiliária, de reconcentração fundiária, e de uma intensa urbanização do campo e dos modos de vida engendrados naquele espaço" (Cavalcante, 2009, p. 115). Apesar de serem lidas como alternativas de desenvolvimento sustentável, essas políticas concorrem para a desestruturação cultural da fronteira amazônica.

Lígia Maria Ferreira Amazonas tem bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atuou como professora substituta na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e professora na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Atualmente é docente da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (SEDUC). Suas pesquisas tem ênfase em História Social.

A dissertação de Lígia Amazonas, Em busca de Omagua e Dorado: mito e rebelião na jornada de Pedro de Ursua/Lope de Aguirre segundo os cronistas Pedrarias de Almesto, Francisco Vásquez e Gonzalo de Zuniga (1560-1561), é um trabalho de História Cultural. A proposta do estudo é investigar, através das crônicas de Pedrarias de Almesto, Francisco Vásquez e Gonzalo Zuniga, o mito do El Dorado, um local de riquezas inesgotáveis que povoava a imaginação dos conquistadores ibéricos, e a representação do colérico Lope de Aguirre, soldado da expedição que se rebelou contra a Coroa Espanhola. Trabalhando o imaginário, penetra no cotidiano da conquista no século XVI, quando o dia a dia dos homens que se lançavam ao mar em direção ao Novo Mundo era povoado por mitos e lendas que geravam expectativas e traduziam aquela realidade específica, sendo as engrenagens que moviam o ímpeto desbravador e a empresa colonial.

Ao analisar as representações sobre Lope de Aguirre, os ditos e os não ditos sobre o soldado que tingiu essa expedição de sangue, Amazonas conclui que [...] em grande parte, suas ações, bem como as dos demais soldados da expedição refletem em boa parte o clima tenso geral que reinava na emergente sociedade hispanoperuana de então" (Amazonas, 2008, p. 34). A América era uma terra de oportunidades para aventureiros que, na metrópole, não teriam outras formas de ascensão social. Em terras americanas, esses conquistadores buscavam ter plenos poderes, o que esbarrava nas determinações da Coroa Espanhola, gerando atritos entre eles, os representantes da Monarquia e ela própria. A rebelião de Aguirre, para além da violência, é um desdobramento do descontentamento que se abatia sobre os conquistadores espanhóis.

Elisângela Socorro Maciel Soares é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutora em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Foi professora e coordenadora do curso de Licenciatura em História do Centro Universitário do Norte (UNINORTE), coordenadora do curso de especialização em Ensino e Pesquisa em História da UNINORTE e professora e coordenadora do curso de extensão em Ensino Religioso, pela CNBB - Regional Norte 1 em parceria com a Faculdade Salesiana Dom Bosco. Atua como professora e coordenadora de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação da Faculdade Católica do Amazonas (FCA). É autora de Igreja de Manaus, porção da Igreja Universal: a Diocese de Manaus vivenciando a romanização (2014), Nas Curvas do Tempo: história e historiografia da Amazônia em debate (2019), História, Cultura, Trabalho e Instituições na Amazônia (2021), Padre Sebastião Puga: a trajetória e o amor por uma paróquia (2022) e História da Igreja na Amazônia (2024).

Na dissertação "Igreja de Manaus, porção da Igreja Universal": A Diocese de Manaus vivenciando a romanização (1892-1896), Elisângela Maciel examina o processo de romanização da Igreja Católica na capital amazonense, isto é, a centralização do poder eclesiástico em Roma e na autoridade do Papa, com as práticas religiosas e doutrinas católicas uniformizadas de acordo com os desígnios da Santa Sé. Tendo como ponto de partida a criação da Diocese de Manaus, em 1892, analisa a administração dos seus três primeiros bispos: Dom Lourenço da Costa Aguiar (1894-1905), Dom Frederico Benício de Sousa Costa (1907-1914) e Dom João Irineu Joffily (1916-1924). A romanização surge como uma reação da Igreja Católica às transformações do século XIX, marcadamente o liberalismo, a presença de maçons no Clero e a laicização. A centralização em Roma era vista como a única forma de garantir a unidade da Igreja.

Para os agentes da romanização, era necessária uma reforma que combatesse o catolicismo tradicional brasileiro, tido como "[...] superficial e festeiro", extremamente sincrético com práticas de origem africana e indígena, com rituais que mais pareciam festas do que ofícios religiosos. A Diocese de Manaus já nasce romanizada, dando seus primeiros passos em um período onde a cidade, por conta a exportação da borracha, se expande como nunca em sua história, atraindo investimentos e milhares de imigrantes. Assim, "Foi em meio a esses estremecimentos e a essas novas perspectivas que se erigiu a Diocese de Manaus, que enfrentou inúmeros desafios para se erguer e realizar os serviços eclesiásticos de que necessitavam o Amazonas" (Soares, 2008, p. 125). Dessa forma, a romanização, em Manaus, passou pelos embates entre a Igreja e a modernidade, a elaboração de estratégias pela Igreja para a aplicação de suas reformas e, por último, a reaproximação entre Estado e Igreja na década de 1920.

Dorinethe dos Santos Bentes possui graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), graduação em Direito pela Universidade Paulista (UNIP), especialização em Direito Ambiental e Urbanístico pela Universidade Anhanguera - Uniderp, mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutorado em Direito e Justiça pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou como docente na Universidade Paulista (UNIP), na Faculdade La Salle (UNI LASALLE) e na Secretaria de Estado de Educação e Desporto (SEDUC). Atualmente é professora da graduação e do quadro permanente do mestrado em Direito da UFAM. É autora, entre outros, de História do Amazonas - Construindo Identidades (2000), O Amazonas no Brasil e no Mundo (2007), e Manaus: outras faces da história (1910-1940) (2012).

A dissertação de Dorinethe Bentes, Outras faces da história: Manaus de 1910-1940, é mais um destacado trabalho de História Cultural, inovador pela abordagem e metodologia empregadas. Enfocando Manaus entre 1910 e 1940, analisando suas formas, ruas, estradas, bairros, praças e outros aparelhos urbanos através de mensagens governamentais, exposições, relatórios da Intendência Municipal e mensagens municipais, recupera o cotidiano da cidade em um período pouco analisado pela historiografia até aquele momento, que o considerava mergulhado na letargia causada pela crise da economia gomífera e por isso supostamente sem maiores transformações na paisagem citadina, sendo tradicionalmente privilegiados os intervalos entre 1850 e 1900. Contrapondo a ideia corrente, mostra as outras faces, vívidas, da história de Manaus, em um período onde tradicionalmente só se enxergou estagnação.

Com base na documentação levantada, Bentes demonstrou que, por mais que a crise tivesse se instalado, abalando fortemente a economia local, Manaus continuava em movimento, "[...] e sua dinâmica foi redimensionada: da grandiosidade da "Paris dos trópicos" para a Manaus possível. Isso implicava dar continuidade ao sonho em suaves prestações, pois, este deveria ser o período das pequenas obras. Vale lembrar que as obras realizadas nesse período, apesar de estarem diretamente influenciadas pelo pensamento europeu de cidade, foram forçosamente voltadas para o interesse da população local, dado que a degradação de suas condições internas de existência não permitia a ampliação dos interesses do capital internacional" (Bentes, 2008, p. 85). A cidade, mesmo nos momentos mais agudos da crise, nunca parou. Sua população continuou a trabalhar, produzir, consumir, e seus administradores, agora com orçamentos mais restritos, garantiram a manutenção da estrutura urbana e a realização de obras essenciais.

Cybele Morais da Costa é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Na dissertação Socorros Públicos: as bases da Saúde Pública na Província do Amazonas (1852-1889), Cybele Morais da Costa investiga a montagem, a organização e os dilemas do sistema de saúde pública na província do Amazonas. O Amazonas, nesse período, é uma província que enfrentava inúmeras dificuldades, como orçamentos limitados, falta de profissionais especializados e de víveres básicos, estando subordinada política e economicamente ao poder central do Império. Sua população, composta majoritariamente por indígenas e mestiços, por conta dessas precárias condições materiais, enfrentava constantemente doenças como as febres palustres, anemia e verminoses, contando, para seu socorro, com as tradicionais práticas de cura de pajés, curandeiros e benzedeiras que tinham como base a flora amazônica.

As dificuldades econômicas e a dependência política, constata Cybele, foram responsáveis para que o sistema de saúde pública da província do Amazonas se caracterizasse pela carência de uma estrutura organizada, de materiais, profissionais e ações efetivas de combate às enfermidades: "A precariedade das ações de saúde pública tornava-se evidente principalmente em períodos de manifestações epidêmicas que, marcadas pela imprevisibilidade, pegavam o poder público desprovido de qualquer aparato de saúde pública" (Costa, 2008, p. 88). Assim, tudo concorria para que a saúde pública do Amazonas funcionasse apenas em caráter emergencial.

Carla de Oliveira Lima tem graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutorado em História das Ciências e da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). 

A dissertação Natureza, cultura e imaginário nos relatos de Alfred Russel Wallace, Louis Rodolph Agassiz e Elizabeth Cabot Cary Agassiz, propõe um novo olhar sobre os relatos de viagem do século XIX, compreendendo-os como construções culturais que articulam as dimensões do imaginário, da modernidade e das tensões entre ciência acadêmica e modos de vida tradicionais. Alfred Russel Wallace, autor de Viagens pelos rios Amazonas e Negro, e Louis e Elizabeth Agassiz, autores de Viagem ao Brasil, legaram importantes descrições sobre a Amazônia, registros que, de acordo com Carla Lima, refletem, para além dos objetivos científicos, a busca pelo distanciamento das rápidas transformações que se operavam na Europa e nos Estados Unidos com a Revolução Industrial, uma espécie de fuga das angústias geradas pela modernidade oitocentista. Assim, a Amazônia é por eles representada como um paraíso perdido, terra de oportunidades e grande laboratório a céu aberto.

Apesar de destacar que o olhar dos viajantes não é neutro, com boa parte de seus registros deslegitimando os modos de vida das populações locais, a autora não os reduz à mera condição de agentes do imperialismo, demonstrando que em algumas ocasiões eles buscaram compreender a realidade local através da perspectiva do outro. O século XIX, no Ocidente, é marcado por acentuado crescimento econômico, intensa urbanização, avanços científicos e conquista de novos territórios. Carla registra que "Foram esses aspectos conjugados que provavelmente promoveram outra consciência em relação à natureza, que tanto pode ser entendida como um movimento de reatualização dos mitos da natureza intocada, a busca do Éden perdido, como uma contestação radical contra as tendência dominantes da época (Lima, 2008, p. 72).

Ana Paula Rabelo Fernandes possui mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É doutoranda em Educação pela Academia Sul-Americana de Serviços Educacionais (UNITBRASIL). Atuou como Conservadora/Restauradora de bens culturais da Secretaria de Estado da Cultura do Amazonas (SEC), foi professora nos cursos de Licenciatura em História e Arquitetura do Centro Universitário do Norte (UNINORTE) e docente de História no Ensino Fundamental II na SEDUC-AM. Atualmente é Coordenadora do Programa de Atendimento Pedagógico Diferenciado Hospitalar e Domiciliar da SEDUC-AM.

Do templo de taipa ao templo de pedra: a construção da Igreja Matriz de Manaus (1858-1878) é uma dissertação que trata sobre História da Arquitetura e História Urbana na cidade de Manaus no período provincial. Enfocando o longo processo de construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a tradicional Matriz da cidade, demonstra como sua realização expressa um ambicioso projeto civilizatório na construção da paisagem urbana da capital amazonense, expressando não apenas valores religiosos, como também estéticos e políticos. De um simples templo de taipa erguido no final do século XVII, torna-se um templo monumentalizado na segunda metade do século XIX, digno de uma cidade que começava a despontar como um importante centro econômico e administrativo da região. Igreja e Estado, mantendo relações imbricadas durante o Império, se articulam para implantar esse projeto, com a Matriz sendo, àquela altura, um dos seus marcos mais importantes.

No século XIX, construções como prédios administrativos e templos religiosos monumentais eram marcos de progresso e urbanização. Dessa forma, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição "[...] fazia parte de um conjunto de medidas urbanísticas que objetivavam disciplinar o cidadão e o espaço urbano. Pois, os administradores da cidade confiavam num futuro grandioso para a província e buscavam planejar a cidade, para que ela fosse digna do status de capital" (Rabelo, 2008, p. 118). Em uma sociedade constituída por indígenas, mestiços e um pequeno número de brancos, o antigo templo de taipa, agora construído em pedra, cumpria a função de promover a civilização e guiar em direção à modernidade.

Alexandre Nogueira Avelino é graduado em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em História e Historiografia da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas. Atua como professores nas redes estadual e municipal de ensino. Pesquisa temáticas relacionadas à História da cidade de Manaus e movimentos sociais. É autor de O Patronato Amazonense e o Mundo do Trabalho (1908-1919) (2019).

Em O Patronato Amazonense e o Mundo do Trabalho: A Revista da Associação Comercial e as representações acerca do trabalho no Amazonas (1908-1919), o historiador Alexandre Nogueira Avelino investiga o patronato amazonense reunido em torno da Associação Comercial do Amazonas (ACA), criada em 1871, e o discurso sobre o trabalho por ele veiculado através da Revista da Associação. No período em estudo, marcado pela crise da economia gomífera, a entidade, de acordo com o autor, buscou pressionar o Estado para atender seus interesses econômicos e legitimar seus projetos de desenvolvimento, que tinham como modelo de sucesso e trabalho a Europa. A Revista da ACA, dessa forma, funcionava como um poderoso mecanismo de autorrepresentação e legitimação social e política.

Tendo a Europa como modelo, o patronato construiu representações negativas sobre o mundo do trabalho amazonense, considerando os trabalhadores locais - em sua maioria imigrantes vindos de regiões empobrecidas como o Nordeste - preguiçosos, moralmente reprováveis, cheios de vícios e com baixo nível de capacitação. A elite do Amazonas, nas páginas da Revista, era representada de forma altiva e imbuída da missão de desenvolver a região. Os trabalhadores amazonenses, por outro lado, eram os indolentes. O tipo de trabalhador idealizado era o de origem europeia, visto como superior. Durante as greves e protestos operários, comuns naquele período de recessão, a ACA reprimia com violência esses movimentos. Avelino concluiu que "Em Manaus, o patronato atuou como forte agente disciplinador da classe trabalhadora, atribuindo-lhe toda carga de estereótipos depreciativos e exigências normativas no seu ambiente de trabalho" (Avelino, 2008, p. 70).

Agres Roberta Oliveira das Neves tem graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestrado em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atuou como docente na Faculdade La Salle (UNI LASALLE) e na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Atualmente é professora de História e Assessora Administrativa da Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED).

A historiadora Agres Roberta, na dissertação Campanha de Saneamento e Profilaxia Rural no Amazonas (1920-1923), se propôs a investigar o desenvolvimento do Programa Social de Saneamento e Profilaxia Rural no Amazonas e suas Campanhas de Saneamento e Profilaxia Rural, ambos surgidos no período de criação do Departamento de Nacional de Saúde Pública, ao qual estavam vinculados. Na década de 1920, médicos sanitaristas constataram que a população rural brasileira vivia em péssimas condições, praticamente abandonada pelo poder público. Essa situação deveria ser contornada urgentemente, pois poderia concorrer para a perda da mão de obra e o baixo desenvolvimento social e econômico do país.

As Campanhas de Saneamento empreendidas entre 1920 e 1923, tinham como objetivos "[...] sanear o Amazonas e salvar a população refém da doença, do abandono e da falta de civilidade" (Neves, 2008, p. 65). Tal política fazia parte do modelo francês de medicina social, que previa, entre outras coisas, analisar o acúmulo de matérias que fossem causadoras de doenças, controlar a circulação da água e do ar e medicalizar os pobres, as conhecidas "classes perigosas", eliminando assim todos os perigos que ameaçavam a ordem social. Essas campanhas devem ser compreendidas através da articulação entre o local e nacional, pois elas faziam parte de um projeto mais amplo de modernização, higienização e controle social.

Incorporando marcos historiográficos clássicos em suas pesquisas, tais como A Ilusão do Fausto: Manaus, 1890-1920, de Edinea Mascarenhas Dias, A Cidade Sobre os Ombros: Trabalho e Conflito no Porto de Manaus (1899-1925), de Maria Luiza Ugarte Pinheiro, Quando Viver Ameaça a Ordem Urbana: Trabalhadores de Manaus (1890/1915), de Francisca Deusa Sena Costa, Manaus: História e Arquitetura, 1852-1910 e La Belle Vitrine: Manaus entre dois tempos (1890-1900), de Otoni Moreira de Mesquita, Os Fios de Ariadne: Tipologias de Fortunas e Hierarquias Sociais em Manaus (1840-1880), de Patrícia Maria Alves de Melo, e Cultura, Trabalho e Luta Social na Amazônia: discurso dos viajantes, séc. XIX, de Hideraldo Lima da Costa, "Pesquisas estas que, no atual momento", destaca o historiador Hélio Dantas, "servem como baliza para novos desdobramentos investigativos e também como balizas metodológicas" (Dantas, 2017, p. 194), produziram reflexões originais sobre imaginário, representações, mundos do trabalho, migrações, movimentos sociais, modernidade, políticas, instituições e práticas sociais, inaugurando uma nova fase da pesquisa histórica no Amazonas.

Além das temáticas variadas e do referencial teórico e metodológico, essas dissertações dos primeiros mestres do PPGH-UFAM dialogam bastante entre si no que diz respeito à trajetória dos pesquisadores. Boa parte tem em comum o fato de terem se originado de projetos de iniciação científica ou monografias dos cursos de especialização em História Social da Amazônia e História e Historiografia da Amazônia. Dessa forma, a pós-graduação Stricto Sensu colaborou para o amadurecimento dessas pesquisas, que ganharam, no mestrado, novos caminhos, recortes e dimensões, posteriormente aperfeiçoadas e incorporadas a projetos de doutorado.

Considerações finais

Como refletir sobre o Programa de Pós-Graduação em História da UFAM e seus primeiros mestres? Não é tarefa fácil, como transparece logo à primeira vista, dada a exiguidade de fontes institucionais sobre os mesmos. Analisando detalhadamente o Catálogo de Pós-Graduação da UFAM (s. d.), percebemos que o final da década de 1990 e o início da década de 2000 foi marcado, na UFAM, pela criação de vários programas de pós-graduação: Sociedade e Cultura na Amazônia (1998), Informática (2001), História (2006), Geografia (2007), Antropologia Social (2007), Serviço Social e Sustentabilidade na Amazônia (2007) e Psicologia (2009), apenas para ficarmos com alguns exemplos. Assim, a criação do PPGH está inserida em um grande movimento institucional de aperfeiçoamento e expansão da pós-graduação na UFAM.

20 anos não são 20 dias. De 2006 até o presente momento, foram ampliadas atividades de cooperação acadêmica, publicações de docentes e discentes em revistas especializadas, participações em eventos nacionais e internacionais, formadas redes de intercâmbio acadêmico, reorganizado e aprimorado o programa, o que possibilitou a elevação da nota 3 para 4 na avaliação da Capes, a abertura, em 2019, do doutorado em História, o maior recebimento de recursos das agências de fomento e a disponibilidade de bolsas para boa parte dos discentes ingressos (Histórico, 2019; Queirós, 2026). Tudo isso se refletiu na qualidade das pesquisas desenvolvidas, com o PPGH, na última avaliação quadrienal, tendo sua nota elevada de 4 para 5.

Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, Maria Luiza Ugarte Pinheiro, Hideraldo Lima da Costa (in memoriam), Antonio Emílio Morga, James Roberto Silva, Auxiliomar Silva Ugarte, Patrícia Maria Alves de Melo, Sínval Carlos Mello Gonçalves, Márcia Eliane Alves de Souza e Mello e Almir Diniz de Carvalho Júnior, docentes que realizaram seus doutorados entre 1998 e 2005, foram pioneiros na criação e institucionalização do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM), onde já foram defendidas mais de 180 dissertações de mestrado e 20 teses de doutorado. Esses números representam a consolidação do programa e o compromisso do Departamento de História com a formação continuada e a excelência acadêmica.

Fontes

Curso de Licenciatura Plena em História - Projeto Pedagógico. Universidade Federal do Amazonas, Instituto de Ciências Humanas e Letras, Departamento de História, 2006.

Catálogo de Pós-Graduação da Universidade Federal do Amazonas. Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFAM, Universidade Federal do Amazonas, 2019.

Histórico do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas, 2019. Disponível em: https://www.ppgh.ufam.edu.br/item-1-do-menu-1.html

Jornal do Commercio, 17/09/2003.

Jornal do Commercio, 21/09/2005.

Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Referências bibliográficas

AMAZONAS, Lígia Maria Ferreira. Em busca de Omagua e Dorado: mito e rebelião na jornada de Pedro de Ursua/Lope de Aguirre segundo os cronistas Pedrarias de Almesto, Francisco Vásquez e Gonzalo de Zuniga (1560-1561). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

AVELINO, Alexandre Nogueira. O Patronato Amazonense e o Mundo do Trabalho: a Revista da Associação Comercial e as representações acerca do trabalho no Amazonas (1908-1919). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

BENTES, Dorinethe dos Santos. Outras Faces da História: Manaus de 1910-1940. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

COSTA, Cybele Morais da. Socorros Públicos: as bases da saúde pública na Província do Amazonas (1852-1889). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

CAVALCANTE, Márcio Roberto Vieira. Outras fronteiras na Amazônia Sul-Ocidental: uma análise das políticas de estruturação do território na fronteira Brasil-Peru-Bolívia. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

DANTAS, Hélio da Costa. Pesquisa Histórica no Amazonas: Uma Breve Análise. Jamaxi, Ufac, v. 1, n. 1, 2017.

LIMA, Carla de Oliveira. Natureza, cultura e imaginário nos relatos de Alfred Russel Wallace, Louis Rodolph Agassiz e Elizabeth Cabot Cary Agassiz. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

NEVES, Agres Roberta Oliveira das. Campanha de Saneamento e Profilaxia Rural no Amazonas (1920-1923). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

PEREIRA, Nasthya Cristina Garcia. Relações Homem-Natureza: O Discurso Político Sobre Agricultura e Extrativismo na Província do Amazonas (1852-1889). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

PEDROSA, Fábio Augusto de Carvalho. Filhos de Clio: a primeira geração de historiadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Manduarisawa - Revista Eletrônica Discente do Curso de História da Universidade Federal do Amazonas, v. 9, p. 1-21, 2025.

QUEIRÓS, César Augusto Bubolz. Entrevista. Manaus, 05/02/2026.

RABELO, Ana Paula de Souza. Do templo de taipa ao templo de pedra: a construção da Igreja Matriz de Manaus (1858-1878). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

SOARES, Elisângela Socorro Maciel. "Igreja de Manaus, porção da Igreja Universal": A Diocese de Manaus vivenciando a romanização (1892-1926). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

TEIXEIRA, Maria do Carmo Sena. Igreja Católica e ação indigenista na Amazônia contemporânea: o CIMI (1972-2000). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

UGARTE, Auxiliomar Silva. Entrevista. Manaus, 02/02/2026.

VILLANOVA, Simone. Sociabilidade e Cultura: a história dos "pequenos teatros" na cidade de Manaus (1859-1900). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2008.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Filhos de Clio: a primeira geração de historiadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Luiz Bitton Telles da Rocha, Vânia Novoa Tadros, Francisco Jorge dos Santos e Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro. Foto de 1990. Fonte: Acervo do Departamento de História da UFAM.

O curso de História da UFAM

Começo este artigo citando uma deliciosa crônica do professor José Ribamar Bessa Freire, publicada em 2021 durante as comemorações dos 40 anos do curso de História da UFAM, com o sugestivo título Cadê os historiadores do Amazonas? Corria o ano de 1977 quando a historiadora Maria Yedda Linhares, ao dirigir o Projeto de Levantamento das Fontes para a História da Agricultura do Norte-Nordeste (PLEFANN), soube que, no Amazonas, não poderia contar com uma equipe de acadêmicos de História dada a inexistência de um curso. "Não tem historiadores no Amazonas?", indagou a professora. O professor Bessa, coordenador do projeto em nosso Estado, solucionou o problema reunindo pesquisadores dos cursos de Comunicação Social e Estudos Sociais (Freire, 2021).

A indagação e surpresa da professora Yedda não eram de se estranhar. Os primeiros cursos superiores de História, no Brasil, criados na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade do Distrito Federal (UDF, atual UERJ), foram institucionalizados entre 1934 e 1935, respectivamente. Na região Norte, a Universidade Federal do Pará (UFPA) foi pioneira, criando seu curso de História em 1954. O Amazonas não possuía, de fato, historiadores de formação acadêmica, mas sim pesquisadores heurísticos formados em outras áreas e reunidos em torno do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA).

O projeto dirigido nacionalmente pela professora Maria Yedda Linhares e coordenado regionalmente pelo professor Ribamar Bessa Freire com o título História Político Administrativa da Agricultura no Estado do Amazonas, foi realizado entre 1977 e 1979. Sem historiadores. No entanto, no início de 1980, mais especificamente a partir de agosto, a História, no Amazonas, ganhou um novo capítulo.

O curso de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) foi criado por meio da Resolução n° 003/80 de 14 de agosto de 1980, integrado ao Departamento de Ciências Sociais, sendo autorizado a funcionar a partir do primeiro semestre de 1981, com o oferecimento de 30 vagas por ano. Sua criação se deu pela acertada justificativa de que existia, no Amazonas, uma carência de professores de História na educação básica, suprida por profissionais de outras áreas correlatas (Curso, 2006, p. 07). A primeira turma teve trinta alunos, dos quais se formaram apenas quatro em 1984: Francisco Jorge dos Santos, Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, Luís Antônio Lima Guedes e Olívia Gomes Osias.

Em 13 de dezembro de 1985, a Resolução n° 013/85 do CONSUNI - Conselho Universitário, possibilitou a separação do curso de História do Departamento de Ciências Sociais e a criação do Departamento de História, incorporado ao Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), atual Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS). A criação do departamento teve como objetivos a "[...] melhoria do ensino, da pesquisa histórica, da extensão e para a formação de um corpo docente capacitado em seus diferentes níveis" (Curso, 2006, p. 07). Uma nova grade curricular foi estabelecida em 18 de dezembro de 1985 pela Resolução n° 050/85 do CONSEPE - Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão.

As turmas seguintes se formaram entre 1985 e 1986: Clélia Brasília Morais Fontes, Jézia Maria Raiker Alves, Maria Suely Buriti de Moura, Maristela Libório de Lima, Patrícia Maria Alves de Melo, Sínval Carlos Mello Gonçalves, Vânia Maria Tereza Novoa Tadros, Luiz Francisco Rodrigues Barreiro Bitton Telles da Rocha e Hideraldo Lima da Costa.

Das primeiras turmas, se tornaram professores do departamento, ainda na década de 1980, Francisco Jorge dos Santos, Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro, Vânia Maria Tereza Novoa Tadros, Patrícia Maria Alves de Melo, Sínval Carlos Mello Gonçalves, Hideraldo Lima da Costa e Luiz Francisco Rodrigues Barreiro Bitton Telles da Rocha. O curso foi reconhecido pelo CNE-MEC - Conselho Nacional de Educação/Ministério da Educação através da Portaria n° 058 de 20 de fevereiro de 1989.

À época do reconhecimento as disciplinas ministradas e seus respectivos professores eram as seguintes: Aloysio Nogueira de Mello - História do Brasil IV; Eloína Monteiro dos Santos - Metodologia da História I e Teoria da História; Ana Amélia Bittencourt Vieira - História do Brasil I e História do Brasil II; Edinea Mascarenhas Dias - História do Brasil II e III; Francisco Jorge dos Santos - História Antiga; Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro - Metodologia da História e Pesquisa Histórica; Hideraldo Lima da Costa - História do Amazonas II e III; Luiz Francisco Rodrigues Barreiro Bitton Telles da Rocha - História da América III; Mareia Seroa da Motta Brandão - História Contemporânea I e II e História Moderna I e II; Maria Regina Celestino de Almeida - História da América I e II e Prática de Ensino em História; Patrícia Maria Alves de Melo - História Moderna II e Metodologia da História I e II; Sínval Carlos Mello Gonçalves - Pré-História e História Medieval; e Vânia Maria Tereza Novoa Tadros - História da América II e Teoria da História (Parecer n° 1270/1988, p. 04-05).

A criação e institucionalização do curso de História da UFAM insere-se no contexto das mudanças que estavam ocorrendo no país com a redemocratização, cujos efeitos se espraiaram por diferentes instituições e áreas, destacadamente as universidades e a História. Cursos de graduação e pós-graduação foram implementados e abordagens e métodos tradicionais passaram a ser revistos, questionados e outros foram criados (Dantas, 2017; Gomes, 2004). No lugar de grandes personagens e generalizações, as massas, os trabalhadores, as mulheres - os excluídos da História - ganharam espaço. A História Social, a História Cultural e a História das Mentalidades deram vazão a novos temas e objetos de estudo. O profissional de História formado nos bancos das universidades não deveria mais ser apenas um professor formador, mas um professor e historiador munido de prática e teoria (Derossi, 2020; Ferreira, 2016).

Nesse sentido, a primeira geração de historiadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) reflete bem o ideário dessa época, engajada na transformação da pesquisa histórica no Amazonas, o que nos lembra, como registra Marc Bloch, citando um provérbio árabe, que "Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais" (Bloch, 2001, p. 60).

E ao fazer recortes, enquadramentos, lidamos com a inclusão e a exclusão, a lembrança e o esquecimento. É delicado escrever sobre a história do curso de história. É necessário, dessa forma, deixar bem explicitados os critérios utilizados na demarcação. Neste artigo, que tem o título Filhos de Clio: a primeira geração de historiadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), considerei como primeira geração aquela que se formou e começou a lecionar no curso ainda na década de 1980, lutando por sua institucionalização, formando a geração seguinte e produzindo os primeiros trabalhos que renovaram a historiografia amazonense.

José Ribamar Bessa Freire, mestre de gerações

O professor José Ribamar Bessa Freire foi um dos fundadores do curso de História, responsável por iniciar a primeira geração na pesquisa histórica e na docência, organizando e coordenando a publicação de artigos e livros seminais de nossa historiografia. Professor normalista pelo Instituto de Educação do Amazonas (IEA), graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em Sociologie du Développement pelo Institut International de Recherche et de Formation en vue du Développement Harmonisé (IRFED), doutor em História pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), foi professor do curso de 1983 a 1987.

Temos uma dimensão de sua atuação como pesquisador e docente através dos relatos de seus ex-alunos. A professora Vânia Novoa Tadros, em uma carta a ele endereçada, registra que em 1983 ele "Havia chegado recentemente do doutorado em Paris, portando ideias inovadoras e cópias de documentos inéditos sobre a História do Amazonas. Com grande desprendimento dividiu o conteúdo das fontes históricas conosco e iniciou-nos na pesquisa histórica" (Tadros, 2008). Militante engajado em causas sociais, perseguido pela Ditadura Militar, deixou em cada discente, como lembra o professor Sínval Gonçalves, "o exemplo da indispensável conexão entre a vida e a atividade intelectual" (Gonçalves, 2021).

Com seus documentos e ideias, contribuiu decisivamente para que a História, no Amazonas, tomasse novos rumos. Certa feita, em entrevista ao jornal A Notícia, disse que "A grande contribuição da historiografia tradicional do Amazonas à história foi a criação de uma corrente que podemos denominar a História da Fofoca", descompromissada com a sociedade e sem qualquer tipo de reflexão sobre as trajetórias e lutas de homens e mulheres no tempo: 

"Durante todo o tempo, os historiadores se preocupam em registrar quem nasceu e quando, que rua fez, ou pior, discutir e gastar laudas e laudas para saber qual era a cor original do Teatro Amazonas, deixando de lado o essencial que é o conhecimento do processo social da concepção política da história" (A Notícia, s. d.).

A fala do professor Bessa nos remete aos embates pela "autoridade da História". Essas disputas são antigas. No passado, os polos irradiadores da pesquisa histórica eram os institutos históricos e geográficos, cujos membros, oriundos das elites política e econômica, tinham formações diversas da do historiador, como o Direito, a Geografia, a Medicina e outras áreas, ou mesmo não tinham uma formação acadêmica, mas sim notório saber. Com o surgimento dos cursos universitários de graduação e mais tarde de pós-graduação em História, o eixo transferiu-se para as academias. No caso do Amazonas, os cursos universitários de Geografia e História foram criados apenas na década de 1980. Até então, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), fundado em 1917, monopolizava esses dois campos do conhecimento.

A relação entre o meio universitário e o instituto, por esse motivo, foi bastante conflituosa. De um lado, a universidade não via com bons olhos a produção do conhecimento sem teorias, métodos e de forma acrítica. Do outro, o instituto preferia manter-se distante de novas discussões e aportes teóricos, dificultando o acesso ao seu acervo. Nos últimos anos, no entanto, vêm ocorrendo mudanças nessa relação. Professores universitários passaram a fazer parte do instituto, inclusive membros da primeira geração de historiadores da UFAM, e antigos membros do IGHA passaram a buscar a especialização em suas áreas de interesse.

Naquele período, além da luta pela renovação da História no Amazonas, lutava-se pelo reconhecimento do curso de História e a criação do Departamento de História. O professor Bessa, junto de seus discípulos, travou intensa luta institucional, indo à imprensa denunciar o descaso da universidade para com o curso, que funcionava com apenas quatro professores que realizavam cursos de extensão, palestras e seminários às próprias expensas. A vitória veio em 1985, com a criação do Departamento de História, do qual Bessa foi o primeiro chefe.

Durante quatro anos, lecionou na graduação as disciplinas História do Amazonas I e II, História da Cultura Amazonense, História da América II e Etnohistória. Na pós-graduação Lato Sensu, foi professor dos cursos de Demografia Amazônica e História da Amazônia Brasileira e Peruana. José Ribamar Bessa Freire é mestre de gerações, da primeira do curso de História da UFAM e de várias outras instituições como a Unirio, UFRJ, UFF e UFAC.

Perfis históricos e práticas historiográficas da primeira geração

Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, Vânia Maria Tereza Novoa Tadros, Maria Luiza Ugarte Pinheiro, Patrícia Maria Alves de Melo, Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro e Hideraldo Lima da Costa. Foto de 1985. Fonte: Acervo de Vânia Novoa Tadros.

Os membros da primeira geração de historiadores da UFAM seguiram caminhos distintos, mas com o objetivo em comum de renovar a historiografia amazonense. É marcante a influência da História Social Inglesa, a "História vista de baixo" dos que se dedicam a "[...] explorar as experiências históricas daqueles homens e mulheres, cuja existência é tão frequentemente ignorada, tacitamente aceita ou mencionada apenas de passagem na principal corrente da história" (Sharpe, 1992, p. 41). Neste tópico veremos detalhadamente os perfis históricos e as práticas historiográficas desses historiadores e historiadoras que se lançaram nessa ambiciosa tarefa há mais de quatro décadas.

Francisco Jorge dos Santos é graduado em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em Demografia Amazônica pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Francisco Jorge é uma das maiores referências em História da Amazônia, dedicando-se ao estudo da História do Amazonas, da Amazônia Portuguesa, da Capitania de São José do Rio Negro, da História Indígena e do Indigenismo. 

Na dissertação de mestrado Guerras e Rebeliões Indígenas na Amazônia na Época do Diretório Pombalino (1757-1798), analisou as guerras e rebeliões das nações indígenas da Amazônia contra os portugueses na época do Diretório Pombalino, quando aldeamentos indígenas foram elevados à condição de vilas administradas por diretores, demonstrando que elas foram mecanismos de enfrentamento desses povos à ocupação da região e que eles não foram passivos ao processo, confrontando seus algozes (Santos, 1995). O projeto de colonização portuguesa, suas contradições e particularidades nos confins da América Portuguesa são abordados na tese Nos Confins Ocidentais da Amazônia Portuguesa: mando metropolitano e prática do poder régio na Capitania do Rio Negro no século XVIII (Santos, 2012).

Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro (in memoriam) tinha graduação em Estudos Sociais pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutorado em História pela Universidade do Porto (U. Porto). Geraldo dedicou-se a estudar a História da Amazônia, com destaque para a Historiografia Afro-Brasileira, a História Indígena, a História da Imprensa e do Periodismo no Brasil. Sua tese de doutorado, Imprensa, Política e Etnicidade: Portugueses letrados na Amazônia (1885-1937), é um alentado trabalho sobre jornais produzidos por imigrantes portugueses em Manaus e Belém, no qual analisa o papel desses periódicos dentro dessas comunidades como instrumentos políticos e construtores da identidade lusitana na região (Pinheiro, 2012).

Vânia Maria Tereza Novoa Tadros (in memoriam) tinha graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em Demografia Amazônica pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialização em Gestão e Administração Universitária pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). A professora Vânia Tadros enveredou pelo caminho da Antropologia, atuando em temáticas como circularidades, práticas comerciais e relações interétnicas. Muito de sua produção acadêmica, infelizmente, não está disponível ao público, mas o pouco que existe possibilita uma breve compreensão de sua prática historiográfica. 

No artigo A conveniência da imagem: J. G. Araújo e o exercício do poder econômico na Amazônia (1887-1940), investigou de forma pormenorizada a construção do império comercial do empresário português Joaquim Gonçalves Araújo e de sua autoimagem como forma de acesso a círculos comerciais e políticos (Tadros, 1995). Em outro, Pode um ser humano temer a Antropologia Ecológica?, discutiu o trabalho do antropólogo Walter Neves e sua perspectiva materialista sobre as sociedades humanas (Tadros, 2000). No artigo A histórica resistência do Pajé, escrito em coautoria com João Bosco Botelho, estudou a figura do Pajé enquanto alicerce das sociedades indígenas e suas estratégias de resistência contra a ação colonizadora, que desde o início tentava eliminá-lo e se apropriar de seus conhecimentos (Tadros, 2000).

Patrícia Maria Alves de Melo é graduada em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). A professora Patrícia Melo se dedica desde a década de 1980 ao estudo das desigualdades, atuando nas áreas de História Indígena e do Indigenismo, História da ciência, Amazônia Colonial e Imperial, História da escravidão africana na Amazônia e do pós abolição. 

Sua dissertação de mestrado, Os Fios de Ariadne: tipologia de fortunas e hierarquias sociais em Manaus, 1840-1880, é um estudo ímpar que desconstrói a ideia difundida pela historiografia tradicional de que a presença negra teve pouca ou nenhuma importância na formação da região. Analisando inventários post-mortem e escrituras públicas, demonstrou que a mão de obra escrava, apesar de ser reduzida se comparada a outras regiões, foi fundamental na formação de fortunas em Manaus no século XIX (Melo, 1993). Na tese Espelhos Partidos: Etnia, Legislação e Desigualdade na Colônia. Sertões do Grão-Pará, c. 1755 - c. 1823, estudou o processo de criação e implementação da legislação indigenista no Grão-Pará e como os indígenas elaboraram diferentes estratégias para garantir seus direitos, fazendo suas próprias leituras e se apropriando desse conjunto de leis (Melo, 2001).

Sínval Carlos Mello Gonçalves é graduado em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). O professor Sínval Gonçalves é um dos maiores medievalistas do país. Essa afirmação pode ser constatada a partir da leitura de sua larga produção e atuação em sala de aula. 

Na dissertação Tristão e Isolda: A Viagem da Paixão. O Imaginário do Amor no Século XII, estudou as primeiras versões da história de Tristão e Isolda, publicadas na segunda metade dos século XII, centrado na análise do dualismo paixão-casamento e o imaginário ligado à corte e à floresta (Gonçalves, 1997). O imaginário também foi investigado na tese de doutorado Na Medida do Impossível: O cavaleiro além da cavalaria nos romances de Chrétien de Troyes (1165-1191). Através do estudo da literatura arturiana do poeta e trovador francês Chrétien de Troyes, descortinou diferentes aspectos do imaginário da Baixa Idade Média e os modelos de sujeitos propostos em seus romances de cavalaria (Gonçalves, 2004).

Hideraldo Lima da Costa (in memoriam) tinha graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-USP). O professor Hideraldo Costa dedicou quatro décadas de sua vida ao estudo da Amazônia, da História e Saúde, dos viajantes e da cidade. 

Em sua dissertação Cultura, Trabalho e Luta Social na Amazônia - Discurso dos viajantes, século XIX, analisou os discursos dos viajantes naturalistas que passaram pela região no século XIX, identificando nos seus relatos aspectos do cotidiano, do trabalho e dos conflitos sociais em curso (Costa, 1995). Na tese Questões à margem do encontro do velho com o novo: saúde e doença no paiz das Amazonas (1850-1889), defendeu que as políticas de povoamento da região foram acompanhadas pelo extermínio dos povos indígenas - sobretudo por doenças - e que as políticas de saúde pública implementadas no século XIX, para além do saneamento, visavam o fortalecimento da população para a manutenção da integridade do território (Costa, 2002).

Luiz Francisco Rodrigues Barreiro Bitton Telles da Rocha é graduado em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), graduado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em Direito Ambiental pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), especialista em Política e Tratamento de Arquivo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), especialista em IX Curso de Especialização/Organização de Arquivo pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Administração de Centros Culturais pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV - EASP) e mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Luiz Bitton pesquisa sobre a Amazônia, a Modernidade, veículos culturais e, principalmente, a iconografia. Na monumental dissertação Práticas imagéticas nas retratações da Amazônia: séculos XVI, XVII e XVIII, examinou um conjunto de imagens da região produzidas entre a expansão marítima europeia e o período iluminista, indo do fantástico ao científico, atribuindo a essa iconografia papel de destaque na construção do imaginário sobre a Amazônia (Rocha, 1999).

Trabalhos com sólida fundamentação teórica, metodológica e inovadores. Em ensaio sobre a Questão social e historiografia no Brasil do pós-1980, a historiadora Ângela de Castro Gomes registra que os acadêmicos daquela geração se dedicaram à investigação de movimentos sociais urbanos e rurais em que os protagonistas eram escravizados, libertos, artesãos e operários (Gomes, 2004, p. 159). Isso é bastante claro através da análise dos perfis históricos e práticas historiográficas da primeira geração dos historiadores da UFAM, com suas pesquisas sobre resistência indígena, o papel da escravidão e as sociabilidades de operários e imigrantes.

Os historiadores brasileiros da década de 1980, de Norte a Sul, se preocuparam em reconstituir as trajetórias daqueles que por séculos foram marginalizados, bem como com a função social do ofício do historiador, agora engajado na construção de uma sociedade capaz de refletir sobre seu tempo com base nas múltiplas experiências de homens e mulheres em diferentes temporalidades. O impacto dessas pesquisas foi muito bem registrado pelo professor José Ribamar Bessa Freire na crônica A História vista de baixo, publicada em 1995:

"Nos últimos anos, a Universidade do Amazonas (UA) tem enviado seus professores para fazerem sua pós-graduação em diferentes centros do Brasil e até do exterior. Desta forma, trabalhos relevantes foram produzidos, em dissertações e teses, cobrindo os vários campos do conhecimento: medicina, engenharia, física, química, ciências sociais.

O Curso de História, por exemplo, começou a formar a primeira geração de pesquisadores em meados da década de 80. Dos alunos graduados, alguns dos quais se tornaram professores da própria UA, começaram a sair os primeiros mestres na década de 90.

No início do ano passado, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, houve a defesa da dissertação de mestrado "Os fios de Ariadne - tipologia de fortunas e hierarquias sociais em Manaus: 1840-1880", elaborada por Patrícia Maria Melo Sampaio. Sua pesquisa foi aplaudida com entusiasmo pela orientadora Maria Yedda Linhares como uma contribuição original.

Agora foi a vez de Hideraldo Lima da Costa. Na semana passada ele apresentou a uma banca examinadora da PUC de São Paulo a sua pesquisa de mestrado "Cultura, Trabalho e Luta Social na Amazônia. Discurso dos viajantes - século XIX". Orientado por Maria Antonieta Martines Antonacci, obteve a nota máxima, além dos elogios e do reconhecimento de seus examinadores, o que certamente contribui para a consolidação de uma imagem positiva da qualidade da UA.

No dia 5 de dezembro próximo, outro ex-aluno e atual professor da UA estará apresentando na USP os resultados de sua pesquisa sobre a resistência indígena no sec. XVIII, depois de haver localizado importante documentação em arquivos do Rio de Janeiro e do Pará. Trata-se de Francisco Jorge dos Santos, o próximo a obter o título de mestre, que escreveu "Guerras e rebeliões indígenas na Amazônia na época do Diretório Pombalino (1757-1798)".

Por esse caminho estão transitando outros pesquisadores da UA: Geraldo Sá Peixoto Pinheiro e Vânia Tadros, ambos com pós-graduação em andamento na USP, o primeiro focando seu interesse sobre os jornais editados na Amazônia por imigrantes portugueses e a segunda registrando as relações interétnicas nos seringais.

Na PUC de São Paulo [...] Luís Bitton [...] analisa a iconografia da região [...] Na UFF, Sinval Gonçalves registra a consolidação dos estudos medievais na Amazônia. Todos eles fazem parte da nova safra de graduandos da UA a serem titulados [...]

Desta forma, a UA vai pouco a pouco se transformando num centro de pesquisa. Espera-se que as conclusões desses trabalhos rompam os muros da academia e se incorporem ao sistema de ensino, trazendo-nos uma visão mais rica de nossa história" (Freire, 1995).

A Amazônia Colonial (1616-1798) e Cem Anos de Imprensa no Amazonas (1851-1950)

A Amazônia Colonial (1616-1798) e Cem Anos de Imprensa no Amazonas (1851-1950). Fonte: Acervo pessoal.

Nada define melhor essa primeira geração de historiadores que o trabalho em equipe. E o elo dessa equipe, sem dúvida, foi o professor José Ribamar Bessa Freire. Em uma de suas crônicas, ele registra que "[...] todo mundo cresceu junto" (Freire, 1992). Dessa união nasceram duas importantes obras da historiografia amazonense: A Amazônia Colonial (1616-1798) e Cem Anos de Imprensa no Amazonas (1851-1950).

A Amazônia Colonial (1616-1798) foi publicado inicialmente em forma de artigos para o jornal A Crítica com o título A História da Amazônia contada pela Amazônia. O professor Bessa Freire foi convidado pelo periódico para produzir material de estudo para os vestibulandos que trouxesse novas perspectivas sobre a História da Amazônia. A convite do professor, participaram da produção dos textos seis alunos dos últimos períodos do curso de História da UFAM: Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, Francisco Jorge dos Santos, Hideraldo Lima da Costa, Patrícia Maria Alves de Melo, Vânia Novoa Tadros e Luís Boaes Maciel. O material foi publicado como livro em dezembro de 1984, sendo assinado pelo professor Bessa como coordenador e os cinco primeiros alunos como coautores (Freire, 2010). Atualmente está na 6° edição, já esgotada.

Os autores buscaram produzir uma obra didática, acessível ao público acadêmico e aos estudantes do ensino básico, apresentando uma análise crítica - que no período era praticamente uma novidade, dada a predominância da historiografia tradicional e seu caráter laudatório da ação portuguesa - do processo de conquista, fixação, organização e desenvolvimento da região entre os séculos XVII e XVIII. Sobre esse aspecto, o editor José Maria Mendes o descreve como "Uma leitura alternativa para todo e qualquer estudioso da História regional que esteja saturado das visões mistificadoras, quer seja ele pesquisador, professor ou estudante de 1° e 2° graus" (Mendes, 1991). A passagem a seguir define bem a proposta:

"Um rio tinto de sangue: este poderia ser o título de um filme sobre a Conquista da Amazônia. Nas primeiras décadas, a partir de 1616, muitas batalhas foram travadas entre portugueses, holandeses, franceses e ingleses. No entanto, o vermelho que tingiu as águas barrentas do rio Amazonas não foi do sangue dos europeus, mas dos índios" (Freire et al, 1991, p. 27).

Com pouco mais de 70 páginas, possui quatro capítulos: A Pré-História e os descobrimentos (período de 10.000 anos até o século XVI), Ocupação ou despovoamento da Amazônia?, Amazônia: 140 anos de escravidão e A Lusitanização da Amazônia.

No primeiro capítulo é apresentado um roteiro sobre como estudar a Amazônia, os tipos de fontes primárias e onde encontrá-las; o processo de ocupação da região pelos indígenas, de onde e quando vieram, quantos eram, suas formas de vida e organização e o início do despovoamento com a colonização. O segundo trata do início da colonização, a instituição do trabalho compulsório e a resistência indígena. No terceiro, é analisada a escravização dos indígenas e os conflitos entre os missionários e os colonos. O último é dedicado à política do Marquês de Pombal, o Diretório dos Índios e o Corpo de Trabalhadores. Ao final de cada capítulo são apresentadas leituras complementares, a cronologia dos períodos abordados e a bibliografia básica utilizada. Conta ainda com anexos intitulados As Primeiras Imagens da Conquista, um conjunto de textos dos cronistas Cristobal de Acuña, Frei Gaspar de Carvajal, Alonso de Rojas e Maurício de Heriarte.

O historiador Hélio Dantas considera essa obra a primeira de nossa historiografia que rompeu com os cânones de abordagens puramente economicistas, factuais e político administrativas (Dantas, 2017, p. 190). Conciso, permanece atual com seus questionamentos e considerações, principalmente a de que os "vencidos" resistiram por séculos à violência da colonização, utilizando diferentes formas de enfrentamento a esse processo.

Em 1979 o professor Bessa Freire deu início, com cerca de 33 alunos do curso de Comunicação Social da UFAM, a um projeto de inventariação de jornais editados no Amazonas entre 1851 e 1950, localizados nas hemerotecas do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Biblioteca Pública do Estado do Amazonas, criando um catálogo. Trabalharam na sistematização dos dados cinco alunos do curso de História: Francisco Jorge dos Santos, Vânia Maria Tereza Novoa Tadros, Patrícia Maria Alves de Melo, Geraldo Sá Peixoto Pinheiro e Luiz Francisco Rodrigues Barreiro Bitton Telles da Rocha. O livro Cem Anos de Imprensa no Amazonas (1851-1950) foi publicado em 1987, sendo reeditado em 1990.

O objetivo dos historiadores foi produzir um catálogo que servisse de instrumento de trabalho a jornalistas, historiadores e pesquisadores de outras áreas, suprindo uma demanda há muito reclamada. Não se trata apenas de um simples arrolamento, mas da análise detalhada de cada periódico, com informações sobre o título, subtítulo, tempo de existência, periodicidade, proprietários, diretores, redatores, colaboradores, número de páginas, preço, tiragem, colunas, formatos e cadernos (Freire, 1990).

A importância do catálogo é inegável quando se observa, passadas mais de três décadas, sua ampla utilização como base de um sem número de ensaios, artigos, monografias, dissertações, teses e livros. O professor Narciso Júlio Freire Lobo o considera uma iniciativa pioneira no campo da História da Imprensa no Amazonas (Lobo, 2002), opinião compartilhada pelas historiadoras Jordana Coutinho Caliri (Caliri, 2014) e Priscila Daniele Tavares Ribeiro (Ribeiro, 2014).

As primeiras Semanas de História

A Primeira Semana de História foi realizada em setembro de 1986. O evento, que teve como tema Como Ensinar História, teve grande repercussão, contando com a participação de centenas de professores das redes municipal e estadual de ensino. Durante cinco dias foram realizados importantes debates sobre o ensino de História no Amazonas e os problemas da falta de documentação e incentivo à pesquisa.

No primeiro dia foi realizada a sessão solene de abertura, a elaboração de diagnósticos sobre o ensino de História no Amazonas e a apresentação dos relatórios das unidades de ensino. No segundo, pela manhã, as professoras Patrícia Maria Alves de Melo, Maria Regina Celestino de Almeida e o professor Hideraldo Lima da Costa ministraram um curso de Metodologia da História; o professor Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro deu o curso A Questão do Ensino de História; e o professor José Ribamar Bessa Freire ministrou o curso de História do Amazonas

Posteriormente foi realizada a mesa redonda Visão da História, com representantes da SEDUC, SEMEC, IGHA, Biblioteca Pública, Arquivo Público, CEDEAM, Museu do Homem do Norte, Museu do Porto e Museu Tiradentes, sendo as debatedoras a professora Vânia Maria Tereza Novoa Tadros e o acadêmico Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro. Às 15 horas a professora Selda Valle da Costa apresentou o filme No Paiz das Amazonas, de Silvino Santos.

No terceiro dia representantes da SEDUC, Semec, o professor Francisco Jorge e os debatedores professora Patrícia Maria Alves de Melo e professor Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro apresentaram a mesa redonda A Regionalização do Ensino. Às 15 horas os representantes da SEDUC e da SEMEC estivaram à frente da mesa redonda Os Currículos de 1° e 2° Graus.

Na manhã do terceiro dia o professor José Ribamar Bessa Freire palestrou sobre A Formação do Operariado no Amazonas, 1890-1920 e O Que Mudou com a Criação da Província. No quinto e último dia os professores Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, Francisco Jorge dos Santos e Sínval Carlos Mello Gonçalves realizaram o debate Recuperação da Memória: Levantamento de Fontes Primárias para a História dos Municípios do Amazonas.

A professora Vânia Tadros, então coordenadora de extensão do curso, disse o seguinte sobre como a História era vista pela sociedade, uma simples "matéria decorativa", e como de fato ela deveria ser compreendida e ensinada: "Não é aprender história por história, mas saber que é uma ciência que tem a função social de transformar a sociedade" (Jornal do Commercio, 02/09/1986).

A segunda Semana de História, que teve como tema Novos Horizontes, foi realizada entre 28 de setembro e 02 de outubro de 1987. O principal objetivo dessa segunda edição foi o de reciclar professores de História do ensino básico através de cursos de metodologia e didática, mesas redondas, exposições e comunicações.

Conforme publicações do Jornal do Commercio, foram realizadas a comunicação A Pesquisa Histórica do Departamento de História, a mesa redonda História da Medicina, e os cursos Manaus e o Processo de Modernização, ministrado pela professora Ana Amélia Bittencourt Vieira e o professor Hideraldo Lima da Costa; O Controle e a Organização da Força de Trabalho na Amazônia Colonial, ministrado pelo professor José Ribamar Bessa Freire; Métodos e Técnicas em História Local, com a professora Maria Regina Celestino de Almeida; e História Social do Trabalho, ministrado pelas professoras Vânia Novoa Tadros e Patrícia Alves de Melo.

Sobre a importância dessa segunda edição, o professor Sínval Carlos Gonçalves, coordenador, afirmou que "A nossa preocupação básica é a de conscientizar o historiador no sentido de não se restringir somente à história como ciência, pois que todas as ciências mantêm uma interligação entre si, haja vista que toda e qualquer ação humana pode vir a ter uma importância dentro da área de atuação da história" (Jornal do Commercio, 01/10/1987).

Considerações finais

Analisar trajetórias é uma tarefa árdua e delicada. E quando se trata de uma geração, um grupo tão distinto de pessoas, a operação demanda ainda mais cuidado na hora de se estabelecer critérios de seleção/exclusão, com o risco de se atingir vaidades e autoimagens que se supõe cristalizadas. Nesse breve artigo, que de forma alguma pretendeu esgotar o tema, tratei da geração responsável pelo encaminhamento das demais, que colheram os frutos de seu trabalho e puderam, com isso, dar seus próprios passos, mas sem esquecer suas origens.

Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro, Francisco Jorge dos Santos, Hideraldo Lima da Costa, Vânia Maria Tereza Novoa Tadros, Patrícia Maria Alves de Melo, Sínval Carlos Mello Gonçalves e Luiz Francisco Rodrigues Barreiro Bitton Telles da Rocha. Os pioneiros, a primeira geração. Nomes indissociáveis quando se fala na criação e institucionalização do curso de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

A criação do curso de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em 1981, reconhecido em 1989, está ligada às transformações políticas e sociais do país e à demanda existente por profissionais de História no ensino básico. A geração de pesquisadores que surgiu após a década de 1970 passou a refletir sobre seu papel social e as possibilidades que surgiam com a abertura política e a expansão dos cursos de graduação e pós-graduação.

A História praticada até então era predominantemente política, economicista, administrativa e laudatória dos "feitos" dos colonizadores, políticos e heróis, atendendo aos interesses das elites. Na Europa e, no Brasil, nas regiões Sudeste e Sul, floresciam os debates sobre novos métodos, abordagens, temas e objetos de estudo. Os excluídos da História, a cultura e as mentalidades ganharam espaço, tendo início um novo momento da historiografia brasileira.

No Amazonas, a renovação da pesquisa histórica, processo constante, foi iniciada pelo grupo de historiadores aqui analisado, sob coordenação do professor José Ribamar Bessa Freire, como se depreende através da leitura de seus perfis históricos, práticas historiográficas e das obras A Amazônia Colonial (1616-1798) e Cem Anos de Imprensa no Amazonas (1851-1950). Seus trabalhos, influenciados pela História Social Inglesa, revelaram uma outra Amazônia, marcada por lutas e resistências, em que indígenas, escravizados, imigrantes, mulheres e operários são os protagonistas da História. 

Em memória de:

Geraldo Pantaleão Sá Peixoto Pinheiro
Vânia Maria Tereza Novoa Tadros
Hideraldo Lima da Costa

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