terça-feira, 20 de janeiro de 2026

História do cotidiano

O Violeiro, de José Ferraz de Almeida Júnior, 1899.

Os dicionários definem o cotidiano como o "conjunto das ações praticadas todos os dias e que constituem uma rotina" e algo "comum ou banal" que "ocorre com frequência". Levantar-se pela manhã, tomar café, frequentar espaços públicos, trabalhar, ir à igreja, se divertir, cozinhar e manter relações sociais são hábitos e costumes que compõe nosso dia a dia. A História do Cotidiano, Histoire du quotidien em francês e Alltagsgeschichte em alemão, busca historicizar essas práticas diárias.

De acordo com a historiadora Mary Del Priore, é do senso comum dividir a realidade em duas esferas: a da vida pública, dos grandes eventos políticos, militares, econômicos e sociais, que "transformam" a história; e a da vida cotidiana, privada, marcada pela repetição de práticas comuns. Dessa forma, os atores sociais da primeira esfera estariam imbuídos de protagonismo histórico, enquanto os da segunda seriam meros coadjuvantes nas transformações sociais.

Contrapondo a ideia corrente, a filósofa Agnes Heller, uma das principais teóricas do cotidiano e autora de O cotidiano e a história, registra que a vida cotidiana é comum a todo homem, independente de sua posição na sociedade, pois é impossível desligar-se da cotidianidade, onde deixamos impressos diferentes aspectos de nossa individualidade. Nesse sentido, o historiador Michel de Certeau destaca que o cotidiano não é mera repetição, mas um local de criatividade, resistência, reapropriação e ressignificação sobre as instituições de poder, como o estado, a igreja e o patronato, que buscam sempre controlar e normatizar a sociedade.

"Habitar, circular, falar, ler, ir às compras ou cozinhar, todas essas atividades parecem corresponder às características das astúcias e das surpresas táticas: gestos hábeis do "fraco" na ordem estabelecida pelo "forte", arte de dar golpes no campo do outro, astúcia de caçadores, mobilidades nas manobras, operações polimórficas, achados alegres, poéticos e bélicos". O cotidiano, na perspectiva de Certeau, é marcado pelas noções de estratégia, que são as ações dos grupos de poder, e tática, a "arte do fraco" que, através de falhas e brechas, opera novos usos na sociedade.

A invenção do cotidiano se deu no século XVIII, período em que a burguesia, em meio a transformações gestadas pelo capitalismo comercial, do qual era fruto e agente, operou uma divisão entre o local de produção econômica, público, e o local de reprodução dos modos de vida, privado. A casa, que no período medieval era habitação e unidade produtiva, era agora um ambiente apenas familiar, de descanso, afetos e intimidades privadas. No entanto, devemos ter em mente que, como afirma o historiador André Burguière, o interesse de escritores pela vida cotidiana existe desde a Antiguidade, com autores como Heródoto e Tucídides dedicando-se ao registro dos modos de vida dos povos dos lugares por onde passaram, com a separação entre público e privado sendo contemporânea.

Os primeiros estudos sobre o cotidiano tratavam essa dimensão da existência como um conjunto de curiosidades pitorescas, que serviam apenas para entreter os leitores, diferente dos estudos de História Política, Econômica e Militar, vistos como altamente instrutivos. Compunham essa literatura os relatos de viagens e ensaios filosóficos onde eram descritos os usos e costumes de povos estrangeiros. Essas obras abundam entre os séculos XVIII e XIX, período em que naturalistas, antropólogos, biólogos e artistas europeus e norte-americanos percorrem o mundo coletando, catalogando e registrando espécies e sociedades.

Existem, claro, algumas exceções de autores que buscaram compreender a vida cotidiana de seus próprios países, produzindo trabalhos densos sobre suas vidas materiais, como os franceses Pierre J.-B. d'Aussy, autor de Histoire de la vie privée des Français depuis l'origine de la nation jusqu'à nos jours (1783), e Alfred Franklin, autor de La vie privée d'autrefois: arts et métiers, modes, moeurs, usages des Parisiens, du XII au XVIII siècle (1887-1902). Em que pese a importância e pioneirismo dessas obras, elas não conseguiram ir além da mera descrição do cotidiano, situação que, conforme Mary De Priore, só será superada com a Escola dos Annales.

Em 1938 a editora francesa Hachette inicia a publicação da coleção La Vie Quotidienne, em português História da Vida Cotidiana. Contando com trabalhos de historiadores como Edmond Faral, Abel Lefranc, Jean Robiquet, Jérôme Carcopino e Frédéric Mauro, tornou-se um grande sucesso editorial, tendo sido publicados mais de duzentos títulos que abordam desde a vida cotidiana no tempo de São Luís ao cotidiano nos tempos de Dom Pedro II. Apesar do sucesso, também recebeu críticas por parte dos historiadores acadêmicos, que não deixaram de notar que, em meio a bons livros, existiam aqueles que eram simplesmente descrições da vida material, tentativas de reconstituir o cotidiano sem qualquer tipo de análise crítica.

Na década de 1960, o historiador Fernand Braudel foi um dos primeiros pesquisadores a destacar a importância do cotidiano na História, defendendo que o vestuário, os hábitos alimentares e outros aspectos da vida material eram tão importantes quanto as instituições políticas e administrativas na reconstituição da trajetória humana no tempo. Diferente dos precursores do gênero nos séculos XVIII, XIX e 1930, os historiadores da Escola dos Annales buscaram ir além do arrolamento e descrição da vida material e da dicotomização entre a vida privada e a história, mostrando como essas duas dimensões estavam intimamente imbricadas. 

Sobre essa perspectiva analisada no parágrafo acima, Braudel registra em Civilização Material, Economia e Capitalismo, séculos XV-XVII, que "A vida material, entre os séculos XV e XVIII, é o prolongamento de uma sociedade, de uma economia antiga que muito lentamente, muito imperceptivelmente se foram transformando e que, pouco a pouco, criaram acima de si, com os sucessos e as deficiências que se adivinham, uma sociedade cujo peso forçosamente suportam". 

A História do Cotidiano emerge como campo de investigação acadêmica na década de 1980, período em que o movimento historiográfico da Nova História, com suas novas preocupações teóricas e metodológicas, dialogando com outras áreas como a Antropologia, extremamente importante nos estudos da vida material, expandiu os objetos de estudo da pesquisa histórica. Os historiadores Georges Duby e Philippe Ariès publicam em 1985 a coleção Histoire de la vie privée. Composta por cinco volumes que vão do Império Romano à década de 1980, contou com a participação de renomados pesquisadores, como Paul Veyne, Roger Chartier, Michelle Perrot, Antoine Prost e Gérard Vincent, tornou-se um grande sucesso de vendas e a base de pesquisas sobre o cotidiano em outros países.

No caso do Brasil, podemos destacar o pioneirismo de autores como Alcântara Machado, autor de Vida e Morte do Bandeirante (1929), e de Gilberto Freyre, com Casa Grande & Senzala (1933). Em seus estudos, o primeiro sobre a sociedade paulista do período colonial e o segundo sobre a sociedade patriarcal brasileira, utilizaram como fontes diários, testamentos, livros de receitas, relatos de viajantes e a tradição oral. Para Machado e Freyre, esses elementos da vida cotidiana, ainda que vistos por uma ótica nostálgica e romantizada, são peças essenciais na construção da identidade brasileira. 

A historiadora Laura de Mello e Souza considera as obras de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936), Monções (1945), Caminhos e Fronteiras (1957) e Visão do Paraíso (1959) como as responsáveis pela ampliação do conceito de cultura, englobando as noções de vida material, cotidiano, mentalidades, práticas e usos populares. Suas pesquisas foram metodologicamente elaboradas com bases conceituais sociológicas e etnológicas, diferenciando-se das pesquisas ensaísticas anteriores.

O sucesso da Histoire de la vie privée serviu de inspiração para que obras de mesmo enfoque surgissem em outros países, não sendo diferente no Brasil, que em 1997 viu nascer a coleção História da Vida Privada no Brasil, coordenada pelo historiador Fernando Antônio Novais. A coleção brasileira é composta por quatro volumes: Cotidiano e vida privada na América Portuguesa, Império: a corte e a modernidade nacional, República: da Belle Époque à Era do Rádio e Contrastes da intimidade contemporânea. Cada um contou com a organização de historiadores brasileiros que desde a década de 1980 vinham se dedicando a estudos sobre cultura, cotidiano e vida privada: Laura de Mello e Souza, Luiz Felipe de Alencastro, Nicolau Sevcenko e Lilia Moritz Schwarcz.

No prefácio do primeiro volume de História da Vida Privada no Brasil, Fernando Novais destaca que a principal qualidade da Nova História, como mencionado anteriormente, foi a abertura temática, mas, em contrapartida, sua principal fragilidade reside na recusa de se elaborar um esquema conceitual para abordar tais temáticas, sendo priorizadas a narrativa e a descrição. Os autores da versão brasileira buscaram superar a descrição, realizando uma reconstituição mais detalhada do cotidiano na sociedade brasileira em suas especificidades. 

Interessante nesse caso é a discussão sobre a historicidade do conceito de privado, brevemente abordada no início do texto. Novais afirma que uma História da Vida Privada só poderia ser possível a partir do século XIX, quando têm fim as revoluções liberais. Mas quando o conceito é historicizado e alargadas as indagações, pode-se chegar à uma "pré-história" da vida privada, que seriam manifestações de intimidade ainda não plenamente definidas. Para o estudo da vida privada no Brasil, manteve-se a periodização tradicional de nossa história, não por praticidade, mas por se compreender a devida importância desses marcos nos estudos históricos.

Diante de tudo que foi exposto, como escrever a História do cotidiano? Com base nos trabalhos de Fernand Braudel, Mary Del Priore, Michel de Certeau e Agnes Heller, a História do Cotidiano deve ser escrita através da compreensão inicial de que não se trata simplesmente da narrativa do dia a dia, mas da investigação de uma dimensão da vida atravessada por relações de poder, valores e resistências e articulada às dimensões políticas, sociais, econômicas e culturais. A descrição da vida material, de hábitos e costumes é insuficiente, devendo o pesquisador buscar nelas continuidades, rupturas e releituras pelos agentes históricos.

Bibliografia consultada:

BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo, séculos XV-XVII. As estruturas do Quotidiano, Tomo I, Lisboa: Teorema, 1992.

BURGUIÈRE, André. Pierre J.-B. d'Aussy, historien du quotidien au siècle des Lumières. Communications, n° 112, p. 13-22, 2023.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: Artes de Fazer. 3° ed. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 1998.

DEL PRIORE, Mary. História do Cotidiano e da Vida Privada. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. 5° ed. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. 4° ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

NOVAIS, Fernando A. Prefácio. In: História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 07-13.

SOUZA, Laura de Mello e. Aspectos da Historiografia da Cultura sobre o Brasil Colonial. In: FREITAS, Marcos Cezar de. Historiografia Brasileira em Perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998, p. 17-38.

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