sábado, 31 de agosto de 2013

Conclusão: As Revoltas do Brasil Colonial



Mesmo que as rebeliões coloniais tenham sido derrotadas,ficava cada vez mais evidente que a separação definitiva entre Brasil e Portugal não iria demorar.As insatisfações,geradas pela exploração e opressão da metrópole,apontavam para a impossibilidade de se manter um sistema colonial no Brasil.A resistência colonial prendia-se ao sentido parasitário e inviabilizador de qualquer desenvolvimento interno da exploração lusa.Fortaleciam-se os interesses comuns entre os setores coloniais e as grandes potências capitalistas industriais,exigindo uma economia livre do controle mercantilista.

A Revolução Pernambucana (1817)




As dificuldades econômicas do Nordeste e os pesados impostos cobrados pelas autoridades portuguesas à população da colônia,somados às idéias de liberdade e independência que circulavam na Europa e na América,ocasionaram,em 1817,na capitania de Pernambuco,uma nova rebelião colonial.

Diversas vezes,a região havia passado por momentos de confrontação entre interesses locais e externos,a exemplo da Insurreição Pernambucana contra os holandeses e a Guerra dos Mascates entre Olinda e Recife,de 1710 a 1711.Os pernambucanos revoltavam-se agora contra o aumento dos tributos determinados pelo príncipe-regente,D.João,que,com a corte portuguesa,refugiara-se dos franceses,transferindo-se para o Brasil em 1808.

A transferência da sede da monarquia lusa para o Rio de Janeiro promoveu o aumento dos gastos para custear as crescentes despesas da corte e,consequentemente,a elevação dos tributos devidos ao governo português.Isso gerou descontentamento entre os colonos,que,no início do século XIX,enfrentavam difícil situação financeira,pois vendiam produtos cujos preços estavam em baixa no mercado mundial (como o algodão e o açúcar por exemplo).Diante disso,grupos populares e de classe média,entre os quais muitos padres,militares,comerciantes e intelectuais,organizaram-se para libertar o Brasil do domínio português e instalar um regime republicano em Recife.

Entre os revoltosos,destacaram-se o comerciante Domingos José Martins e os padres João Ribeiro e Miguel Joaquim de Almeida e Castro,conhecido como padre Miguelinho,que derrubaram o governador e implantaram um novo governo,decretando a extinção de impostos,a liberdade de imprensa e de religião e a igualdade entre os cidadãos.Chegaram a buscar,sem sucesso,apoio e reconhecimento dos Estados Unidos,Inglaterra e Argentina,ao mesmo tempo que conquistaram a adesão de revoltosos em Alagoas,Paraíba e Rio Grande do Norte.

A Lei Orgânica,publicada pelo governo republicano como se fosse esboço de constituição,destacava a igualdade de direitos e também a garantia de propriedade privada,inclusive de escravos,o que tranquilizava a elite local,mas descontentava alguns de seus líderes mais radicais que defendiam o fim da escravidão.

"De fato,os limites da camada que se propunha dirigente se definiam mais claramente no mundo do trabalho.E,nesse nível,o elemento dominante era composto pela escravaria,a qual se encontrava especialmente inquieta na segunda década do Dezenove.Não deve o observador iludir-se,entretanto,procurando situar a raiz dos conflitos apenas nos segmentos em que se encontrava a mão-de-obra escrava: de outros setores também provinham contestações à ordem estabelecida e,desde logo,pode-se incluir parcela da população livre,composta de mulatos,pretos forros,índios e até mesmo militares de baixa extração..."

(MOTA,Carlos Guilherme.Nordeste 1817.São Paulo,Perspectiva,1972.p.143.)

Contudo,as divergências internas ao movimento e,especialmente,a violenta repressão portuguesa reforçada por tropas vindas da Bahia e do Rio de Janeiro levaram a república nordestina à derrota.Seus participantes foram presos e alguns,mortos em execuções sumárias.

O movimento,que começara em 6 de março de 1817,acabou vencido em 19 de maio do mesmo ano.A ele seguiu-se a devassa que investigou o plano e determinou a execução dos líderes,como o padre Miguelinho,e a prisão de mais de duas centenas de implicados,que só foram soltos graças ao indulto das Cortes de Lisboa de 1821.O fracasso da Insurreição Pernambucana,de 1817,no entanto,deixou profundas raízes na sociedade de Pernambuco,que,anos depois,revoltou-se novamente durante a rebelião de 1824.






A Inconfidência Baiana (1798)



A Inconfidência Baiana,dentre as rebeliões coloniais,foi a que manifestou um caráter nitidamente popular.Dela tomaram parte padres,médicos,advogados,mas sobretudo pessoas do povo,como sapateiros,escravos,ex-escravos,soldados e vários alfaiates,motivo pelo qual ficou também conhecida como Conjuração dos Alfaiates.

"Retomar o estudo da sedição de 1798 é tarefa mais difícil do que se imagina.Sobre a mesma base documental conhecida e publicada,os 'Auto da Devassa do Levantamento e Sedição Intentados na Bahia em 1798',vários escritos históricos se produziram buscando responder aos requisitos mais diversos.O regionalismo baiano fez dos Alfaiates um dos seus avatares,visando demonstrar a maior contribuição baiana,mais social e mais popular do que a mineira,para a formação do Brasil independente.Aí também buscou-se a manifestação sul-americana da Revolução Francesa,que,segundo alguns autores,viajou mundo afora.Outros daí extraíram o esboço de proto-proletariado brasileiro,já precocemente socialista.Hoje grupos culturais como o Olodum recuperam o caráter étnico da sedição de 1798,chamando-o inclusive pelo seu nome mais popular: Revolta dos Búzios."

(ARAUJO,Ubiratan C."A Inconfidência Baiana".In Folha de S.Paulo,Caderno de Resenhas,9/8/1996.p.6)

As origens da revolta devem ser buscadas na transferência da capital para o Rio de Janeiro,em 1763,que acarretou dificuldades econômicas para a cidade de Salvador.Nela vivia uma população miserável,sobrecarregada de tributos,que contestava com frequência a exploração metropolitana.Este clima de descontentamento estimulou a propagação dos ideais de liberdade,igualdade e fraternidade,que varriam a Europa e a América,favorecidos pelo sucesso da independência dos Estados Unidos (1776),pelas realizações da Revolução Francesa,de 1789,e pela rebelião de escravos das Antilhas,ocorrida a partir de 1791,que culminou na independência do Haiti em 1793.

Esses ideais chegavam à Bahia por intermédio dos intelectuais e profissionais liberais e empolgavam a população de Salvador,ocasionando encontros secretos em que se discutiam os princípios revolucionários e se preparava uma conspiração contra as autoridades lusas.Nesse quadro,sobressaiu a atuação revolucionária da organização secreta Cavaleiros da Luz,sediada na casa do farmacêutico Figueiredo Melo.

Participaram da preparação do movimento tanto membros da elite baiana,como indivíduos representando as camadas pobres da população de Salvador - mulatos livres e até mesmo alguns escravos.Os objetivos de segmentos tão distantes da sociedade colonial brasileira coincidiam no que se refere ao desejo de autonomia do Brasil,mas divergiam quanto às mudanças da estrutura interna.Tanto que,quando as camadas populares passaram a enfatizar a luta contra os privilégios senhoriais e contra a escravidão,vários membros da elite local retiraram-se do movimento.

O tom popular da revolta foi dado pelos diversos motins que envolveram soldados e pessoas simples das ruas de Salvador,incluindo saques a armazéns e propriedades.Além disso,panfletos contendo idéias e propostas radicais foram afixados nas esquinas e nos muros de igrejas da cidade.

Entre os principais líderes da revolta estavam os alfaiates João de Deus e Manuel Faustino dos Santos Lira,os soldados Lucas Dantas de Amorim Torres,Luís Gonzaga das Virgens e Romão Pinheiro,o padre Francisco Gomes,o farmacêutico João Ladislau de Figueiredo,o professor Francisco Barreto e o médico Cipriano Barata.

Os conspiradores pregavam a proclamação de um governo republicano,democrático e livre de Portugal,a liberdade de comércio,o aumento dos salários dos soldados e boa parte deles defendia também o fim da escravidão e do preconceito contra os negros e mulatos.

No dia 12 de agosto de 1798,os rebeldes espalharam cartazes pela cidade proclamando o início da rebelião,ao mesmo tempo que o então governador de Pernambuco,D.Fernando José de Portugal,iniciava a repressão contra o movimento.A revolta acabou sendo denunciada às autoridades portuguesas por alguns traidores,que apontaram,inclusive,seus líderes,permitindo ao governador prender os cabeças do movimento.Foram presos dezenas de envolvidos,a maioria pessoas modestas,incluindo nove escravos.A revolta acabou sendo desarticulada por completo.

Depois de mais de um ano de prisões,interrogatórios e depoimentos,foram definidas as sentenças dos envolvidos.Aos mais pobres couberam as penas mais duras: João de Deus Nascimento,Manuel Faustino,Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens foram enforcados e esquartejados,e as partes de seus corpos,espalhadas pela cidade de Salvador.Vários condenados receberam castigos corporais.As penas mais leves foram reservadas aos membros da elite baiana e alguns deles acabaram inocentados;outros,porém,foram presos e degredados.




A Inconfidência Mineira (1789)



Esse movimento separatista ocorreu,em parte,devido aos pesados tributos cobrados por Portugal em Minas Gerais,cujo pagamento tornou-se quase impossível com a decadência da produção mineradora na segunda metade do século XVIII.Nessa época,a região aurífera já não conseguia,com a arrecadação do quinto,alcançar as 100 arrobas exigidas anualmente pela Coroa.Dessa forma,a dívida com a metrópole ampliava-se consideravelmente.O governo português,julgando que os mineiros estivessem sonegando os impostos devidos,lançava mão da derrama para obter o montante estipulado,forçando a população mineira a entregar,sob violência,parte dos seus bens para pagar a dívida.

O descontentamento dos colonos crescia na mesma medida e que se arrochava a tributação e ocorriam atos de violência dos soldados portugueses.Além disso,as autoridades portuguesas controlavam a divulgação de idéias,proibindo a impressão de jornais e livros na colônia,e os altos cargos administrativos eram ocupados só por lusitanos.

A tal quadro explosivo,deve ser adicionada a cobrança de elevados preços pelos produtos importados,como tecidos,calçados,ferramentas,sabão e outros manufaturados,proibidos de ser produzidos na colônia pelo Alvará de 1785.

Diante dessa situação,um grupo de colonos passou a se reunir secretamente em Vila Rica,conspirando contra o governo português e preparando a revolta.A maioria dos participantes dessas reuniões eram pessoas da alta sociedade mineira.Alguns deles estudaram na Europa,destacando-se os nomes de José Joaquim Maia,que estabeleceu contato com Thomas Jefferson quando este ocupava o cargo de embaixador dos Estados Unidos na França,e José Álvares Maciel,que buscou apoio de comerciantes ingleses à rebelião.Apesar dos contatos e assimilação das idéias revolucionárias iluministas,os membros da elite mineira não conseguiram apoio efetivo em favor da conspiração,exceto manifestações de simpatia.

No início de 1789,a cidade de Vila Rica devia mais de 5 mil quilos de ouro à Coroa e estava na expectativa da decretação de uma nova derrama.Assim,os conspiradores decidiram intensificar suas reuniões e acelerar a eclosão da revolta.Entre os mais ativos,destacam-se os poetas Cláudio Manuel da Costa,Inácio José de Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga,os padres José de Oliveira Rolim,Carlos Correia de Toledo e Melo e Manuel Rodrigues da Costa,o tenente-coronel Francisco de Paula Freire Andrade,os coronéis Domingos de Abreu e Joaquim Silvério dos Reis e o alferes Joaquim José da Silva Xavier,conhecido como Tiradentes.Este atuou como divulgador do movimento junto ao povo e foi um dos poucos participantes de origem modesta: fora tropeiro,comerciante,dentista-prático e militar.

Entre os objetivos estabelecidos pelos rebeldes estavam a adoção do sistema republicano de governo,tomando a Constituição dos Estados Unidos como modelo,a transformação de São João del Rei na capital do novo país,a obrigatoriedade do serviço militar e o apoio à industrialização.Adotariam para a nova nação uma bandeira branca tendo ao centro um triângulo verde com os dizeres: Libertas quae sera tamen,que,em latim,significa "Liberdade ainda que tardia".




Quanto à escravidão nada ficou definido,pois poucos inconfidentes manifestaram-se favoravelmente à sua extinção,já que a maioria deles possuía terras e muitos escravos.

Os líderes do movimento também decidiram que o início da revolta ocorreria assim que a derrama começasse a ser aplicada pelo novo governador da região,o Visconde de Barbacena,e esperavam poder prendê-lo,contando com o apoio de uma população revoltada.Ainda segundo o plano,Tiradentes iria ao Rio de Janeiro para divulgar o movimento e obter apoio,armas e munições.

Apesar dos preparativos,a rebelião em Vila Rica não chegou a acontecer,porque foi denunciada por alguns de seus participantes que,em troca do perdão de suas dívidas pessoais,traíram o movimento.Os traidores,com destaque para o tenente-coronel Joaquim Silvério dos Reis,entregaram ao governador o plano da revolta com o nome de todos os participantes.

O visconde de Barbacena suspendeu a derrama e deu início à prisão dos conspiradores,frustando a revolta.Presos,os revoltosos aguardaram durante três anos o julgamento.Cláudio Manuel da Costa,segundo a versão oficial,enforcou-se na prisão antes do julgamento.Acredita-se que tenha sido assassinado por seus carcereiros.

Os demais líderes,mesmo negando a participação na conspiração,foram condenados ao desterro,sendo enviados às colônias portuguesas na África.Apenas Tiradentes,que assumiu integralmente a responsabilidade pela conspiração,foi condenado à morte,sendo enforcado em 21 de abril de 1792,no Campo de São Domingos,no Rio de Janeiro.Seu corpo foi esquartejado e os pedaços distribuídos pelas cidades onde estivera buscando apoio.Sua cabeça foi exposta publicamente em Vila Rica a fim de intimidar possíveis conspiradores e evitar novas rebeliões.

"Segundo uma testemunha,...então se vio representada a scena mais tragico e comica,que se póde imaginar.Mutuamente pedirão perdão e o derão;porém cada um fazia por imputar a sua ultima infelicidade ao excessivo depoimento do outro.Como tinhão estado,ha tres annos incommunicados,era n'elles mais violento o desejo de fallar...'Depois de quatro horas de recriminações recíprocas os presos foram postos sob pesadas correntes ligadas às janelas da sala.Então,dramaticamente como fora planejada,a leitura da carta de clemência da rainha transformou a situação.Todas as sentenças,salvo a do alferes Silva Xavier,foram comutadas em batimento.O espetáculo estava quase no fim.Na manhã de 21 de abril de 1792,Tiradentes,escoltado pela cavalaria do vice-rei,foi conduzido a um grande patíbulo nas cercanias da cidade.Aí,ao redor das 11 horas,sob o rigor do sol,com os regimentos formados em triângulo,depois de discursos e aclamações'a à nossa augusta,pia e fidelíssima Rainha' o bode expiatório foi sacrificado."

(MAXWELL,Kenneth.A devassa da devassa.2 ed,Rio de Janeiro,Paz e Terra,1978.pag.221-222.)

É preciso registrar que a Inconfidência Mineira só ganhou importância e dimensão de maior revolta colonial brasileira muito tempo depois,durante o século XX.Isso se deu porque,no século passado,o Brasil era ainda governado por descendentes diretos de D.Maria I,Pedro I e,depois,D.Pedro II.Foi só no período republicano que,enfatizando uma posição contrária aos ex-monarcas e ao regime Imperial,exaltaram-se as lideranças da Inconfidência,especialmente a de Tiradentes,transformado em herói e mártir republicano.



sexta-feira, 30 de agosto de 2013

As Rebeliões Separatistas do Brasil Colonial



As rebeliões separatistas foram as primeiras a revelar claramente a intenção dos participantes em lutar pela emancipação do Brasil em relação a Portugal e mostraram-se possuidoras de alguma consciência nacional,além de certa organização política e até militar.A Inconfidência Mineira,a Conjuração dos Alfaiates e a Insurreição Pernambucana não se limitaram a contestar determinados aspectos da dominação colonial (impostos,abusos),mas questionavam o próprio pacto colonial,a dependência e sujeição da colônia à metrópole.Buscavam,enfim,a independência política diante de Portugal,apesar de circunscritas às regiões em que aconteceram,Minas Gerais,Bahia e Pernambuco.

Os revoltosos sofreram forte influência dos acontecimentos históricos do período,como a independência dos Estados Unidos,em 1776,e o início da Revolução Francesa,em 1789.Esses fatos propagaram ideais de liberdade e foram exemplos de lutas vitoriosas contra a dominação e exploração,como acontecia com o regime colonial brasileiro.As rebeliões  separatistas,seja pelo movimento em si e seus resultados,seja pela projeção simbólica que acabaram adquirindo,disseminaram o sentimento de nacionalidade entre os vários setores brasileiros.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A Revolta de Filipe dos Santos (Vila Rica,Minas Gerais,1720)



A Revolta de Filipe dos Santo,ou de Vila Rica,ocorreu como consequência dos crescentes tributos aplicados por Portugal em Minas Gerais.

A rebelião começou quando o governo português proibiu a circulação de ouro em pó,exigindo que todo o ouro extraído fosse entregue às casas de fundição,onde seria transformado em barras e quintado.Mais de 2 mil mineradores se rebelaram contra a medida e dirigiram-se ao governador,o Conde de Assumar.Este,porém,não contava com soldados suficientes para fazer frente aos manifestantes e,estrategicamente,prometeu atender-lhes as exigências,que incluíam a não instalação das casas de fundição e o fim de vários tributos sobre o comércio local.

Mas,assim que o governador conseguiu reunir tropas suficientes - os Dragões da Cavalaria - para conter os manifestantes,lançou-as contra os revoltosos de Vila Rica,prendendo vários deles e queimando diversas casas.

O português Filipe dos Santos,um dos líderes mais pobres da revolta,foi condenado à morte,enforcado e esquartejado como exemplo para evitar outras rebeliões.Ao mesmo tempo,garantindo a vitória metropolitana,foram mantidas as casas de fundição e,para melhor controlar a região mineradora,Minas Gerais foi separada da capitania de São Paulo.

A Guerra dos Mascates (Pernambuco,1710 - 1711)



Desde a expulsão dos holandeses do Nordeste e a consequente decadência da economia açucareira,a aristocracia rural da Vila de Olinda,em Pernambuco,enfrentava dificuldades econômicas.Continuava,no entanto,controlando a vida política da capitania,através de sua Câmara Municipal,à qual estava submetido o povoado de Recife.

Enquanto Olinda decaía economicamente,Recife prosperava graças ao intenso comércio exercido pelos portugueses,apelidados de Mascates.Além dos grandes lucros obtidos com a venda de mercadorias,os comerciantes passaram a emprestar dinheiro aos olindenses a juros altos.Assim,Recife se transformava no principal centro econômico de Pernambuco,enquanto Olinda mantinha o predomínio político.

Em 1709,os comerciantes de Recife conseguiram da Coroa sua emancipação,deixando de ser um simples povoado e obtendo o estatuto de Vila independente,com condições de vir a ser o centro político de Pernambuco.Os olindenses,então,sentindo-se prejudicados,invadiram Recife,iniciando a Guerra dos Mascates.

Os conflitos terminaram em 1710,quando Portugal nomeou Félix José Machado governador de Pernambuco.Este prendeu os principais envolvidos no conflito e manteve a autonomia de Recife.No ano seguinte,todos os revoltosos foram anistiados e Recife passou a ser sede administrativa de Pernambuco.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A Guerra dos Emboabas (Minas Gerais,1708 - 1709)



A descoberta de ouro em Minas Gerais pelos bandeirantes paulistas,em finais do século XVII,atraiu para a região milhares de colonos de outras províncias,além de um grande número de europeus.Julgando-se com direito exclusivo de exploração das minas,os paulistas hostilizavam os forasteiros,que apelidaram de emboabas (em tupi,amô-abá significa "estrangeiro").

Sob a liderança de Manuel Nunes Viana,alcunhado de "governador das minas",os emboabas enfrentaram os paulistas em vários combates.O mais marcante deles ocorreu no chamado Capão da Traição,no qual 300 paulistas foram cercados pelos emboabas.Diante da promessa de que ninguém seria morto,os paulistas se renderam e entregaram as armas.O comandante dos emboabas,Bento de Amaral Coutinho,entretanto,ordenou o ataque e massacrou os inimigos.'

Em 1709,o governo português interveio e,a fim de pacificar e melhor administrar a região,separou a capitania de São Paulo e Minas Gerais da capitania do Rio de Janeiro.Pouco depois,os bandeirantes paulistas partiram em busca de ouro em Goiás e Mato Grosso,abandonando a região das Minas Gerais.

Além disso,alguns deles,enriquecidos com a exploração de ouro,retornaram a São Paulo,onde estabeleceram unidades de produção de gêneros de abastecimento para as minas,integrando,dessa forma,a economia paulista à mineira.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A Revolta de Beckman (Maranhão,1684)



No século XVII,o Maranhão era uma região pobre,que vivia principalmente da exploração das "Drogas do Sertão" e da reduzida lavoura com mão-de-obra indígena,mais barata que a africana,empregada principalmente nos engenhos da Bahia e Pernambuco.O uso dos indígenas como escravos desencadeou forte oposição por parte dos Jesuítas da região,que também utilizavam os índios para manter suas propriedades.

Devido aos constantes atritos entre colonos e religiosos,a metrópole criou,em 1682,a Companhia Geral do Comércio do Estado do Maranhão,detentora do monopólio do comércio da região pelo prazo de vinte anos.Com isso,Portugal procurava incentivar a colonização da região e o trabalho dos colonos.Sua função seria vender produtos europeus aos habitantes do Maranhão,como bacalhau,azeite,vinhos,tecidos,farinha de trigo,e deles comprar o que produziam,como algodão,açúcar,madeira e as "drogas do sertão".A companhia também se responsabilizava por fornecer à região 500 escravos por ano,num total de 10 mil ao longo de vinte anos,para resolver o problema da mão-de-obra.

Por usufruir da exclusividade comercial,porém,a companhia vendia seus produtos a preços muito elevados e oferecia muito pouco pelos artigos adquiridos ao colonos,além de não cumprir o acordo de fornecimento de escravos.Sendo assim,o descontentamento da população local só não diminuiu como se ampliou,levando os colonos á revolta.

"Não resta outra coisa senão cada um defender-se por si mesmo; duas coisas são necessárias: a revogação do monopólio e a expulsão dos jesuítas,a fim de se recuperar a mão livre no que diz respeito ao comércio e aos índios; depois haverá tempo de mandar ao rei representantes eleitos e obter a sanção dele." - Manuel Beckman


Sob o comando do fazendeiro Manuel Beckman,os revoltosos ocuparam a cidade de São Luís,de onde expulsaram os representantes da Companhia e os jesuítas que se opunham a escravização indígena,governando o Maranhão por quase um ano.

O irmão de Manuel,Tomás Beckman,dirigiu-se como emissário a Lisboa,para afirmar a fidelidade ao rei e reforçar acusações contra a Companhia pelo descumprimento do contrato e várias outras irregularidades.

Contudo,a reação metropolitana foi violenta: um novo governador;Gomes Freire de Andrade,foi nomeado e enviado para o Maranhão,bem como tropas para combater os revoltosos.O movimento foi vencido e seus principais líderes,Manuel Beckman e Jorge Sampaio,foram enforcados.Os colonos,entretanto,conseguiram extinguir a Companhia,em 1685,depois de confirmadas as queixas dos revoltosos.

Postagens da Semana: As Revoltas do Brasil Colonial

É meus amigos,depois de alguns dias sem postar voltei com toda a potência.A minha ausência se deu pelo fato de que eu estava preparando uma série de resumos para virar postagens.El Rey Fábio declara essa semana como a "Das Revoltas Coloniais".Isso mesmo,irei abordar nas postagens dessa semana as principais revoltas do Brasil Colonial. Vou utilizar o livro História do Brasil, de Cláudio Vicentino e Gianpalo Dorigo, 2007.




A partir do século XVII,vão surgir no Brasil os primeiros movimentos de contestação ao domínio e aos abusos da metrópole sobre a colônia.Os Primeiros não chegaram a reivindicar a independência nacional: tratava-se de manifestações contra medidas isoladas e contrárias aos interesses dos colonos de uma ou outra região brasileira.Tais movimentos serviram para mostrar a existência de interesses de uma população já enraizada no Brasil e receberam o nome de Rebeliões Nativistas.

Nas últimas décadas do século XVIII,ocorreram,no entanto,Rebeliões Separatistas,movimentos com típico caráter de libertação nacional,como a Inconfidência Mineira,em 1789,a Inconfidência Baiana,em 1798,e a Insurreição Pernambucana,em 1817.O caráter separatista desses movimentos,inspirados pelos ideais de libertação presentes na filosofia iluminista,inseria-se no contexto das transformações ocorridas na "Era das Revoluções",cujo maior exemplo para o Brasil e outras colônias ibero-americana foi a independência dos Estados Unidos em 1776.

Vale ressaltar,entretanto,que,considerando-se todo o conjunto da população,as rebeliões coloniais no Brasil foram setoriais e não revelavam indícios de uma tomada de consciência verdadeiramente nacional.Não reivindicavam a abolição da escravidão e,com isso,a integração da população cativa ao quadro nacional,nem tampouco almejavam profundas alterações na estrutura socioeconômica sedimentada ao longo do período colonial.









terça-feira, 20 de agosto de 2013

Uma Missa para o Dr.Eduardo Gonçalves Ribeiro

Eduardo Gonçalves Ribeiro. 

Eduardo Ribeiro (São Luís, 18 de setembro de 1862 - Manaus, 14 de outubro de 1900), foi governador do Amazonas, de 2 de novembro de 1890 a 5 de maio de 1891 e de 27 de fevereiro de 1892 a 23 de julho de 1896.

Eduardo Ribeiro foi o grande responsável pela transformação da capital amazonense em fins do século XIX. Seguindo o exemplo do prefeito de Paris, Georges-Eugène Haussmann, operou grandes transformações em Manaus, com obras até hoje existentes.

As bibliotecas virtuais, sem dúvida, são um dos melhores instrumentos de pesquisas atualmente. Encontrei raridades na Biblioteca Nacional. A Biblioteca Nacional disponibiliza através da Hemeroteca Digital Brasileira parte dos periódicos de época em formato digital.

Encontrei duas edições do jornal "Commercio do Amazonas", um dos poucos exemplares digitalizados sobre a cidade de Manaus. Ao ler o conteúdo das duas edições do Commercio do Amazonas encontrei textos sobre a missa que foi realizada em homenagem a Eduardo Ribeiro, no ano de 1900. Irei transcrever o conteúdo nessa postagem.


COMMERCIO DO AMAZONAS - 21 de outubro de 1900 - Segunda-feira .

Dr.Eduardo Ribeiro

" As caridosas irmãs de Sant'Anna dirigiram ao nosso confrade < A Federação> a seguinte carta:



(carta das irmãs de Sant'Ana)

Sr.Major Euclydes Nazareth.


" As filhas de Sant'Ana e as pobre orphãs do Instituto Benjamin Constant,por esta vêm dar sentidissimos pezames pelo falecimento do nosso querido e inesquecivel protetor, dr.Pensador. A nossa magua é summamente profunda... Entretanto a Providencia Divina quiz assim. Por alma do grande bemfeitor do Instituto Benjamin Constant, mandamos celebrar missas nesta cidade,para que Deus Nosso Senhor, pela sua alta misericordia, de aquelle que fez tanto bem nesta terra a recompensa devida. - Anna Justina Colombo, superiora."


O governador Silvério José Nery também se manifestou:

" Silvério José Nery, governador do Amazonas e o secretário d'este, Porphirio Nogueira, convidam ao povo para assistir a missa de requiem que em nome do estado mandam rezar na Cathedral, às 8 horas do dia 22 do corrente, em suffragio à alma do pranteado dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro, antigo governador do Amazonas e presidente do Congresso Legislativo,ao tempo do seu fallecimento.

Outro detalhe a acrescentar: Em pesquisa no periódico do Commercio do Amazonas, do mês de outubro de 1900, encontrei uma nota sobre a vinda da mãe do governador para seu velório na Catedral de Manaus:

" No paquete < Pernambuco> chegou do Maranhão, onde reside, a exma. sra. d. Florinda Ribeiro, veneranda mãe do chorado homem público dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro

A respeitável senhora vinha a chamado urgente dos médicos assistentes do illustre finado quando foi surpreendida em viagem pela notícia do doloroso acontecimento que enluctou esta capital

Saudamos á digna matrona, respeitosamente ".

Eis que chega o dia da Missa:



Commercio do Amazonas - 22 de outubro de 1900 - Terça-feira.

" Conforme estava annunciado pela manhã de hontem realizaram-se as exequias mandadas rezar pelo exmo.Sr.Dr.Silvério Nery e seu digno secretario Dr.Porphirio Nogueira,em suffragio da alma do benemerito Dr.Eduardo Gonçalves Ribeiro. Pela volta das 7 horas da manhã era extraordinário o numero de pessoas que cercavam e enchiam a Cathedral, onde devia ter lugar a pomposa commemoração religiosa. D'entre as muitas famílias que compareceram, temos em lembrança as seguintes: Serapião Mello, Carlos Studart, Alfredo Bastos, Jaymes Baird, Leonel Mota, Grans, Dr.Antonio Palhano, Lemos Bastos e o Dr.Miranda Leão."

Eduardo Gonçalves Ribeiro, aproveitando a boa situação financeira do Amazonas, o transformou em um dos Estados mais prósperos e modernos do país. Ele foi, junto de outros seletos políticos, um dos poucos que realmente se importaram com essa região. Deixo aqui minha saudação à sua memória.






A Cidade de Tenochtitlán vista por Hernán Cortez


Tenochtitlán, foi uma das grandes cidades do mundo no século XVI. Ultrapassava facilmente Veneza e Paris. Fundada em 1325, era habitada por mais de 300 mil pessoas. Irei utilizar como base uma parte da carta do espanhol Hernán Cortez, que comandou a conquista da sociedade asteca em 1521. Essa carta, que foi transmitida ao Rei da Espanha, apresenta as impressões de Cortez sobre a cidade, suas características e opulência.

" [Tenochtitlán é uma] cidade tão grande como Sevilha e Córdoba.As ruas principais são muito largas e retas. [...] Tem muitas praças,onde há mercados e pontos de compra e venda. Há uma praça tão grande que corresponde a duas vezes a cidade de Salamanca, com pórticos de entrada, onde há cotidianamente mais de 60 mil almas comprando e vendendo.

Há todos os gêneros de mercadorias, desde joias de ouro, prata e cobre, até galinhas, pombas e papagaios. Há casas como de boticários, onde vendem medicamentos feitos por eles, assim como unguentos e emplastros. Há casas como de barbeiros,onde lavam e raspam as cabeças. [...] Há verduras de todos os tipos, mel de abelha, fios de algodão para tecer, couro de veado, tintas para pintar tecidos e couros, louças de muito boa qualidade, milho em grão ou já transformado em pão de excelente sabor. [...] Há no centro da praça uma casa de audiências, onde estão sempre reunidos dez ou doze juízes para julgar as questões decorrentes de desacertos nas compras e vendas. [...]

Possui esta grande cidade muitas mesquitas [termo impropriamente usado por Cortez para designar os templos astecas] ou casas de seus ídolos, todas de formosos edifícios [...]. Dentro da grande mesquita há três salas onde estão os ídolos principais, todas de maravilhosa grandeza e belos trabalhos em cantarias, madeiramento e figuras esculpidas. Os principais desses ídolos e nos quais eles tinham mais fé eu derrubei de seus assentos e os fiz descer escada abaixo. Fiz também com que limpassem aquelas capelas, pois  estavam cheias de sangue dos sacrifícios que faziam. Em lugar dos ídolos mandei colocar imagens de Nossa Senhora e de outros santos [...] As estátuas desses ídolos  são feitas de sementes e legumes que comem, moídos e amassados com sangue de coração de corpos humanos, os quais arrancam do peito vivo. [...]

As pessoas andam bem-vestidas, com boas maneiras, quase da mesma forma como se vive na Espanha. Nos mercados e lugares públicos há muitas pessoas e especialistas de determinados ofícios que ficam na espera de quem os venha contratar por jornadas.

Cortez, Hernán. A Conquista do México. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 62-6.

No texto é possível identificar aspectos do cotidiano da sociedade asteca, atividades econômicas, urbanização e o planejamento da cidade. O que também fica visível é a destruição de uma cultura, que iniciava lentamente, destruição essa que ocorreu por meio da imposição religiosa e por meio das armas. 

sábado, 17 de agosto de 2013

A Vida e a Saúde nas Cidades Coloniais do Brasil

Talvez já tenha passado pela cabeça de vocês duas pequenas e complexas questões: Como era a vida nas cidades coloniais do Brasil ? e a saúde ? Bem bem...revirando algumas revistas na minha "pequena" biblioteca,encontrei a edição de número 82 da Revista de História da Biblioteca Nacional,de julho de 2012.Essa edição trata especialmente da Revolução Constitucionalista de 1932.Mas como se sabe,a revista também vem abordando outros assuntos,um desses assuntos é a Vida e a Saúde nas cidades do Brasil colonial.Irei usar essa revista como referência para a postagem.




CRISTINA BRANDT FRIEDRICH MARTIN GURGEL*


A Carta de Pero Vaz de Caminha afirma,sobre a terra descoberta,que se "querendo aproveitá-la,tudo dará nela,por causa das águas que tem".Mas,menos de um século depois,os comentários já não eram tão generosos.No final do século XVI,as descrições sobre a colônia falavam de uma terra "quente como um vulcão e doentia",considerada imprópria para uma vida saudável e tranquila.A paradisíaca visão inicial dos europeus sobre os trópicos,explicitada por Sérgio Buarque de Holanda em Visão do Paraíso,logo sucumbiu à dura realidade do dia a dia,e os colonizadores não demoraram para perceber isso.

Havia o calor e a distância dos grandes centros comerciais.Isso dificultava,por exemplo,a aquisição de bens de consumo,já que o transporte marítimo era irregular e descontínuo.Produtos simples,que facilitassem a vida ou proporcionassem pequenos prazeres,como roupas,sapatos,farinha de trigo e vinhos,estavam praticamente fora de alcance.Além disso,mal as aglomerações começaram a surgir,tiveram que enfrentar os primeiros surtos de doenças contagiosas.

Diante do desconforto,da difícil adaptação ao clima e do aparecimento de epidemias que arrasavam a população,a salubridade das paragens brasileiras começou a ser duramente questionada.Os viajantes e jesuítas que propagavam a ideia dos "bons ares" da nova terra e recomendavam aos doentes de além-mar que atravessassem o Atlântico para aqui se tratarem foram desacreditados.Com o passar dos anos,poucos concordavam com as recomendações do padre Anchieta,que afirmavam ter sido curado de uma séria enfermidade pelos bons ares e pelo clima ameno da nova terra.O dia a dia mostrava-se diferente.Não sabiam os colonizadores e seus descendentes que eram eles próprios os responsáveis por muitas das doenças que os assolavam,como a tuberculose,sarampo e varíola.

A pequena população urbana brasileira vivia em vilas e cidades acanhadas.As moradias serviam apenas como abrigo contra as intempéries,em local defensável contra uma possível invasão inimiga - índios,piratas,franceses,ingleses ou holandeses.No início,os espaços urbanos localizavam-se perto da costa e possivelmente não abrigavam mais de 40 colonos - o número de famílias era contabilizado pelos "fogos" que ardiam na cozinha de suas casas.

Braços escravos levantaram casas,igrejas,edifícios públicos e muros das povoações coloniais.Diante de uma natureza desconhecida e hostil,os nomes de santos dos nascentes núcleos urbanos serviam para afastar seus demônios e cristianizar a paisagem.São Paulo era descrita no século XVII como uma vila de duas centenas de fogos,formada por prédios acanhados e alcovas restritas,com pouco asseio nas ruas e quintais e nenhum sistema de esgoto ou água encanada.

Em termos de salubridade,São Paulo,naquele século,não era diferente de outros núcleos urbanos brasileiros e sequer de Lisboa,onde por muito tempo persistiu um modo peculiar de livrar-se das fezes e da urina: lançavam-se pelas portas e janelas.Para evitar que transeuntes fossem atingidos por tão desagradável carga,foi elaborado um decreto que obrigava o cidadão a gritar "água vai!" ao atirar os excrementos às ruas.No Brasil,os dejetos humanos eram carregados e jogados diretamente nas águas do mar ou nos rios por cativos - os "tigres",escravos como pele listrada pela acidez dos detritos que lhes escorriam pelas costas através da palha dos cestos.Até hoje,em São Luís do Maranhão,o povo perpetuou o nome de "beco da Bosta",um antigo trajeto usado pelos escravos para jogar as fezes e a urina de seus senhores no mar.

Uma maneira mais engenhosa de higienização urbana foi posta em prática em Paraty,no atual estado do Rio de Janeiro.Elevada à categoria de Vila em 1667,suas ruas,mais baixas em relação às casas,foram traçadas obedecendo às normas coloniais.Todas as vias são côncavas,formando uma canaleta central que se direciona para o mar,o que permite a invasão das águas nas marés altas.Com o baixar das águas,todos os detritos eram levados para o mar.Mas,em geral,os núcleos urbanos aguardavam as chuvas para sua limpeza,e diante da imundície que se acumulava,as doenças infectocontagiosas tinham um lugar ideal para a sua disseminação.

"Os dejetos humanos eram jogados diretamente nas águas do mar ou nos rios pelos "tigres",escravos com a pele listrada pela acidez da carga que escorria por suas costas".

A expectativa de vida dessas populações era baixa,condenada tanto pelas condições adversas do meio quanto por uma medicina ausente ou ineficaz.Johan Nieuhof (1618 - 1672),um funcionário da Companhia das Índias Ocidentais holandesa que viveu no Nordeste entre 1640 e 1649,ali testemunhou índices de sobrevida alarmantes entres filhos de estrangeiros: apenas uma de três crianças nascidas vivas conseguia sobreviver.

Cidades como Salvador,de construção planejada,tinham espaços limitados,murados,o que fazia com que a população,apesar de pequena,vivesse aglomerada.Os poucos cuidados com as edificações limitavam-se à exposição aos ventos e à umidade,que poderiam tornar a saúde mais frágil.Apesar desses cuidados,frequentemente apareciam nos espaços urbanos casos de "icterícias" - leptospirose ? hepatite ? malária ? -,uma praga que se espalhava nos meses chuvosos,de tal maneira que suas vítimas assumiam um assustador aspecto macilento e cadavérico.Muitos morriam,alguns tão rapidamente que sequer havia tempo para receberem os últimos sacramentos.

Distúrbios gastrointestinais eram comuns,como as "câmaras de sangue" (disenterias sanguinolentas),doenças oculares como uma "meia-cegueira" (conjuntivites comuns ou específicas) - que acometia principalmente soldados e pobres de origem europeia - e afecções de pele.Sobre a Hanseníase,até meados do século XVII há poucas referências nas crônicas e documentos.Uma delas está nas notícias sobre a primeira área de isolamento de doentes conhecida no Brasil - o Campo de Lázaros,em Salvador (1640) - e sobre o projeto de um hospital próprio no Rio de Janeiro.Em contrapartida,alusões à doença tornam-se cada vez mais frequentes no século seguinte.

Mas o que de fato abalava a população era a ocorrência de uma grande epidemia.Gripe,sarampo,febre amarela e,em especial,a varíola periodicamente assolavam também as áreas rurais.A fragilidade da vida na Colônia tornava-se mais evidente: houve períodos de fome,pela falta de braços na agricultura;desestruturação social,principalmente indígena;falta de assistência médica e hospitalar e,sobretudo,a perda de vidas em um país com um já enorme vazio demográfico.No final do século XVI,o Rio de Janeiro tinha aproximadamente 1.000 moradores e nenhum médico formado.

Os senados das Câmaras continuamente solicitavam ao poder central o envio de médicos,então denominados físicos.Mas,escassos em Portugal e diante das dificuldades impostas pela vida colonial,poucos se aventuraram no Brasil.Uma solução encontrada foi a contratação e o pagamento de profissionais pelo governo de Lisboa.Os salários não eram tentadores: durante o governo de Tomé de Souza (1549 - 1553),o físico Jorge Valadares tinha ordenado anual pago pela Coroa de 60 mil réis - um Bispo recebia 200 mil réis anuais.Para conseguirem se manter,os médicos exerciam mais de uma profissão,e suas atividades,devido à falta de moeda corrente,podiam ser pagas com panos,açúcar,galinhas,milho ou algodão.

Os físicos que vieram para o Brasil nos primeiros séculos da colonização não se destacaram em seus feitos.É raríssimo encontrar alguma obra escrita de valor,como a de Ferreira Rosa,que,como testemunha da primeira epidemia de febre amarela no país,foi imortalizado por seu Tratado Único de Constituição Pestilencial de Pernambuco,publicado em Lisboa em 1694.Na maioria das vezes,a qualidade do trabalho dos físicos era vista com desconfiança porque havia poucos resultados favoráveis da medicina oficial.Um dos exemplos está num pronunciamento do bispo do Grão-Pará e Maranhão,Frei Caetano Brandão,já no século XVIII: "É melhor tratar-se  a gente com um tapuia do sertão,que observa com mais desembaraçado instinto,do que com um médico de Lisboa".

A população brasileira vivia,de fato,muito longe do paraíso.


* Cristina Brandt Friedrich Martin Gurgel é professora de clínica médica da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e autora de Doenças e Curas.O Brasil dos primeiros séculos (contexto,2010).

História do Bairro de São Lázaro - Manaus

Bairro,sem dúvida o mais amplo instrumento de aquisição de valores culturais,sociais e tecnológicos.É a partir do bairro que as pessoas se unem,é onde surge a cidadania em confluência com a história.

São Lázaro,antigo Morro de São Lázaro do Barro Vermelho,nome um tanto extenso,mas também um tanto interessante.O São Lázaro é um bairro de muitos contrastes.Por meio desta postagem,pretendo revelar aspectos do bairro já citado.O principal objetivo aqui é fazer com que a história deste bairro tão querido não caia no esquecimento total.Isso é só um pequeno recorte comparado a verdadeira história deste bairro.




(A Igreja "primitiva" de São Lázaro,anos 50)


O bairro de São Lázaro localiza-se na zona Sul de Manaus,zona essa que concentra os bairros mais antigos da cidade.O bairro limita-se com o Crespo,Betânia,Distrito Industrial e Morro da Liberdade.

Como a maioria dos bairros de Manaus,o bairro de São Lázaro nasceu em meio às ocupações improvisadas,geradas por demandas de habitações na cidade,resultado dos intensos fluxos de migrações internas e externas,ocorridas em certos momentos complicados da história da cidade.



(Igreja de São Lázaro em dias atuais)


A povoação do espaço onde hoje se encontra o bairro São Lázaro tem início por volta de 1950,quando um grande fluxo de famílias vindas do interior do Amazonas se instalam no local.Entre esses moradores,muitos eram nordestinos órfãos do Segundo Ciclo da Borracha (1939-1945).Os primeiros moradores construíram casas de madeira e taipa,e a principal atividade econômica da qual viviam era da venda de capim para as fábricas de colchões,da coleta de caju e da produção de farinha e beiju.

Nessa época,o único meio de transporte pelo bairro eram as carroças puxadas por burros.A partir de 1958,a comunidade começa a ser organizar,pelas mãos de um garoto de 14 anos,Carlos Viana,e de uma senhora conhecida como Dona Mariquinha.Ambos buscavam melhores condições de vida para os moradores do bairro,à época denominado de "Barro Vermelho",devido os terrenos estarem localizados em solo de coloração avermelhada.

No dia 3 de maio de 1958,a comunidade convida o padre Paulino Lammeier,da paróquia de Santa Luzia,para celebrar a primeira missa no local,num altar improvisado,armado sob um tronco de marizeiro,onde mais tarde foi construído o Seminário Cristo Sacerdote.



(Padre Paulino e Paroquianos.Fonte: Blog do Coronel Roberto)


Após a primeira missa ter sido rezada,com a imagem de São Lázaro cedida pelo pai de Carlos Viana,o lugar passou a se chamar Morro de São Lázaro do Barro Vermelho.Em 9 de maio de 1958,são fundadas as associações religiosas Apostolado de Oração,Congregação Mariana e Filhas de Maria,marcando o caráter religioso predominante no bairro.

Em 31 de janeiro de 1959,iniciou-se a construção da primeira capela do bairro e,em 11 de fevereiro,dia de São Lázaro,é realizada a primeira procissão em homenagem ao Santo,percorrendo as poucas ruas que formavam a comunidade.



(Santo São Lázaro de Betânia)


Na década de 60,o bairro ainda era formado,em sua maioria,por casas de palha e o abastecimento de água era feito pelas cacimbas.No dia 5 de setembro de 1963 foi inaugurado o primeiro estabelecimento de ensino do bairro: o Grupo Escolar Antóvila Mourão Vieira,inaugurado pessoalmente pelo governador da época,Plínio Ramos Coelho.



(Grupo Escolar Senador Antóvilla Mourão Vieira,2006)


Em 1964,atendendo ao pedido do então arcebispo de Manaus,Dom João de Souza Lima,as irmãs doroteias iniciam um trabalho de evangelização e promoção social no bairro,utilizando como sede o grupo recém - inaugurado.

Durante a década de 70,o bairro sofreu uma expansão urbana,atraindo novos moradores,principalmente pessoas oriundas do interior do Estado em busca de empregos oferecidos pelo Distrito Industrial.Durante a década de 70 Manaus sofria,depois do ciclo da borracha,um segundo surto econômico: a Zona Franca.

É durante esse período de surto econômico que a comunidade passa a receber mais infraestrutura,como pavimentação de ruas,ampliação da rede de energia elétrica e a chegada da distribuição de água.Também vão ocorrer a ampliação e a construção de escolas para atender a necessidade sempre crescente de novos alunos,considerando-se o aumento da população do bairro nesse período.O bairro conta atualmente com quatro escolas,sendo duas estaduais: Mourão Vieira e a Brigadeiro Camarão (estudo nela,yeah!),e dua municipais: São Lázaro e Graziela Ribeiro.



FONTE (S): História dos Bairros.Santa Luzia.Aguinaldo Nascimento Figueiredo.2008.

Geografia do Amazonas.Marconde Carvalho de Noronha.2005

*Blog do Coronel Roberto*

*JORNAIS*

Jornal do Commercio.Edição Especial.Manaus 343 anos.24 e 25 de março de outubro de 2012

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O Imaginário Europeu


(Gravura do século XVI representando monstros marinhos)

Até o século XIV,o conhecimento que se tinha na Europa a respeito de outros lugares do mundo era bastante restrito.Além dos relatos do veneziano Marco Polo,as informações disponíveis sobre o Oriente eram encontradas,quase sempre,em obras escritas por pessoas que jamais haviam estado na Ásia.

Os europeus do século XV costumavam misturar conhecimentos geográficos com lendas,realidade com imaginação.Acreditavam,por exemplo,na existência de um país imaginário,Offir,de onde teriam se originado todos os tesouros do Rei Salomão.Os navegantes Cristóvão Colombo e Sebastião Caboto tentaram encontrar Offir na América e vários navegantes portugueses o procuraram na África.

Outro reino imaginário,governado por um rei cristão bondoso e rico chamado Preste João,reunia as cavaleiras amazonas,as relíquias de Santo Tomé,a fonte da juventude e enormes rios de ouro,prata e pedras preciosas...Localizado inicialmente na Ásia e,a partir do século XIV,na África,esse reino,apesar de nunca ter existido (quem sabe ?),recebeu descrições detalhadas:




" [...] Ora,devendo fazer menção ao Império do Preste João,que é o maior e mais rico príncipe que se encontra em toda a África,digamos,resumidamente,que [...] pode ter o Império deste Rei Cristão 4.000 milhas.A cidade principal [...] chama-se Babelmaleque; e o Estado é rico e abundante de ouro e prata e de pedras preciosas e de toda sorte de metal.A gente é de desvairadas cores,branca,preta e intermediária,de boa estatura e de bom parecer.Os cortesãos e Senhores trajam-se bem de panos de seda com ouro e pedraria [...] Na festa de Nossa Senhora de Agosto,ajuntam-se todos os Reis e Senhores principais [...] celebra-se uma procissão muito solene; e,da Igreja,de onde sai,levam uma imagem da Virgem Mãe de Deus,grande como uma pessoa comum,toda de ouro; a qual imagem tem por olhos dois riquíssimos e grandes rubis; e todo o mais corpo da estátua é coberto e arraiado de pedraria e de lavores diversos; e é conduzida num andor de ouro [...]

Nesta procissão,sai em público o Preste João,num carro de ouro ou em cima de um elefante [...] todo adornado de jóias e de coisas preciosas e raras,vestido de tela de ouro; e é tanta a multidão de gente que concorre a ver aquela imagem,que muitos morrem sufocados pelo aperto. [...]

(Filippo Pigafetta,humanista italiano,e Duarte Lopes,comerciante português,Relação do reino de Congo e das terras circunvizinhas,1591)

Da ignorância nascia o medo.Os europeus acreditavam que nos oceanos desconhecidos moravam terríveis monstros,prontos para atacar os marinheiros:




" Tinha somente a aparência de homem na cara,na cabeça não tinha cabelos mas uma armação,como de carneiro,revirada com duas voltas; as orelhas eram maiores que as de um burro,a cor era parda,o nariz com quatro ventas,um só olho no meio da testa,a boca rasgada de orelha a orelha e duas ordens de dentes,as mãos como de bugio,os pés como de boi e o corpo coberto de escamas,mais duras que conchas. [...]

(Relato do português Francisco Correia a respeito do naufrágio da nau Nossa Senhora da Candelária,na Ilha Incógnita,século XVII)

Existiam também no imaginário europeu as sereias,avistadas por Colombo na América e pelo padre jesuíta Henry Enriquez na Ilha Manor,juntamente com tritões,como eram chamados os homens-sereias.Outro jesuíta,Eusébio de Nuremberg,assegurava que os marinheiros da Galícia

" [...] descendem de um tritão e de uma moça (bastante avoada) das redondezas. [...]

Conta-se que,em 1548,o arquiduque Filipe da Áustria exibiu uma sereia que "viveu longos anos num convento.Ela não falava,mas trabalhava e tecia.Só que não podia corrigir seu amor pela água e fazia todos os esforços para a ela voltar".

O francês Ganeau,por sua vez,classificou as sereias entre os moluscos:

[...] Entre os moluscos há um peixe com rosto e seios de mulher,do tamanho de um novilho,cuja carne tem gosto de vaca.Dizem que seus dentes são um bom remédio para disenteria. [...]

Muitos europeus acreditavam que em direção ao Sul o mar seria habitado por monstros e estaria sempre em chamas.Segundo essa crença,aqueles que arriscassem cruzar o Atlântico - conhecido como Mar Tenebroso - iriam se deparar com o fim do mundo: em algum ponto o oceano acabaria e daria lugar a um enorme abismo.




FONTE: GISLANE E REINALDO. História em Movimento.Volume 1.

AMADO, Janaína ; GARCIA, Ledonias Franco. Navegar é Preciso.Grandes Descobrimentos Marítimos Europeus. 198925° edição.