quarta-feira, 30 de abril de 2014

A Era Meiji

Mutsuhito Meiji, 122° imperador do Japão. Retrato feito por Edoardo Chiossone.

O Japão desperta a curiosidade de muitas pessoas. No meu caso, um importante período histórico desse país me chamou atenção: A Era Meiji ou Restauração Meiji, foi o período histórico que moldou o Japão da forma que o conhecemos atualmente. Os 45 anos de reinado do Imperador Mutsuhito Meiji (Meiji: iluminado) foram decisivos para a transformação do Japão em potência, isso ainda no final do século 19.


A frota do comodoro Perry na segunda visita ao Japão em 1854.

Até 1854, o Japão tinha uma política de relações internacionais conhecida como "Sakoku". Essa política de "quase" isolamento, isso porque o Japão ainda mantinha, mesmo que de forma restrita, relações com a China e a Holanda, estabelecia que nenhum estrangeiro poderia entrar e nem qualquer japonês deixaria o país. Essa política de isolamento foi criada pelo Xogunato Tokugawa em 1639, tendo vigorado até 1854.

O isolamento acabou em 1853, quando o comodoro Methew Perry, à serviço do presidente dos Estados Unidos, Millard Fillmore, ancorou com seus navios na Baía de Edo (atual Tóquio). Os americanos agiram com ferocidade, bombardeando as águas da baía. O objetivo era mostrar superioridade bélica e conseguir respeito. O comodoro Perry trazia uma carta do presidente Fillmore, na qual ele solicitava permissão para que barcos americanos aportassem no Japão. Foi a "tacada final": ou os japoneses abriam caminho para os americanos ou iriam sofrer as consequências.

Uma rua japonesa em 1860.

Perry, depois de ter dado essa "demonstração" de superioridade, retornou ao Japão em 1854, e dessa vez conseguiu o que queria. Em 31 de março, o Japão assinou um tratado com os Estados Unidos, abrindo os portos de Shimoda e Hokodate. Os japoneses nada podiam fazer, pois eram belicamente inferiores. Ainda no período Xogum, ocorreram algumas tentativas de modernizar o exército. O Tokugawa Yoshinou importou armas americanas e assessoria militar da França.

Samurai empunhando uma Katana, 1860.

Estava rompido, assim, um isolamento de mais de 200 anos. Mas como era o Japão antes dele entrar na economia capitalista? O Japão tinha uma economia totalmente agraria e era dividido em várias ilhas autônomas governadas por daimiôs (chefes de clãs). O principal clã era o Tokugawa, que possuía a maioria das terras em seu poder e também o maior número de samurais (soldados da aristocracia rural).

Mesmo com as medidas  de Yoshinobu, alguns líderes locais acreditavam que ele não era a pessoa ideal para levar o país à modernização. Em 1866, Takamori Saigo e Takayoshi Kido, dois influentes líderes regionais, formaram uma aliança para derrubar o líder Tokugawa e restaurar o poder imperial. O imperador ficava em Kyoto, era venerado pelo povo mas não possuía poder político, era um símbolo. O xogum renunciou em 1867. Estava iniciada a Restauração Meiji, ou Restauração Iluminada, que não seria nada pacífica.

Em 1868, o exército do antigo xogum enfrentou as forças de Takamori e Takayoshi no conflito que ficou conhecido como Guerra de Boshin. O conflito durou um ano, e as tropas de Yoshinobu foram derrotadas. Estima-se que 3,5 mil pessoas morreram nessa guerra. Mas os conflitos não param por ai.

O Jovem Mutsuhito, com apenas 17 anos, assume o poder em 1869 e muda a corte de Kyoto para Tóquio, que passou a ser a capital oficial do país. O jovem imperador não demorou em tomar medidas para modernizar o país. Em 1871, aboliu o sistema de domínios, substituídos por províncias administradas por governadores nomeados pelo imperador, em lugar dos senhores feudais que transmitiam o poder hereditariamente. Os samurais, que haviam sido decisivos para o fim do xogunato de Tokugawa, acabariam sendo mortalmente atingidos no novo regime. O governo Meiji formou seu próprio exército, composto por estrangeiros. O Imperador se autoproclamava descendente direto da Deusa Amaterasu e o Xinstoísmo foi atribuído como religião oficial.


O jovem Imperador Meiji usando vestes militares, 1873.

Em 1876, os samurais foram proibidos de portar espadas – somente militares uniformizados do novo exército poderiam carregar a arma. Na prática, isso representava a extinção da classe dos samurais. O golpe final veio com a abolição do estipêndio pago aos samurais – que recebiam um salário fixo, proveniente da taxação do arroz produzido pelos camponeses. Com isso, cerca de 2 milhões de samurais, 6% da população japonesa da época, viram-se da noite para o dia obrigados a buscar outra atividade para sustentar-se.

1877, esse foi o ano de "extinção" dos samurais. Takamori, um dos líderes que apoiou a restauração Meiji no início, estava insatisfeito com a nova situação, em que cada vez mais os estrangeiros e os costumes ocidentais invadiam o país. Takamori reuniu um exército de 25 mil samurais, mas não resistiu ao Exército Imperial composto por mais 300 mil soldados e artilharia moderna.

Suprema Corte de Tokyo, 1900. Aos poucos, os hábitos, costumes e a arquitetura iam ganhando características ocidentais.

Depois desses conflitos, as mudanças ocorreram sem interferência . As mudanças implementadas por Meiji, possibilitaram a criação dos zaibatsus (grandes grupos econômicos controlados por famílias poderosas que controlavam as atividades industriais e financeiras e que tinham relações com o governo) como a Mitsubishi, Sumitomo, Yusuda e Mitsui. Para expandir seus negócios, o governo assegurou o equilíbrio entre a importação e a exportação de produtos. Logo, com essa solução típica de capitalista,o Japão transformou-se em uma potência imperialista da Ásia.

A educação foi altamente valorizada. As autoridades e o Imperador afirmavam que a riqueza e o poder do país seriam prejudicados se as pessoas comuns fossem iletradas. Da mesma forma que o serviço militar,a educação fomentava a identidade nacional japonesa. A educação deveria qualificar os cidadãos sem distinção de nível social.

Sobre esse período, que considero uma Belle Époque Oriental, existem relatos da época:

Texto imperial de 1868 sobre a Restauração Meiji.

" Vimos de assumir a sucessão do Trono imperial, no momento em que o Império é submetido uma reforma total. Reservamo-nos o direito de decidir, de modo supremo e exclusivo, os assuntos civis e militares. A dignidade e felicidade da nação reclamam a interferência de Nossa elevada função. De modo constante e sem repouso, consagraremos a isso os Nossos pensamentos. Por indignos que sejamos para a tarefa, pretendemos continuar o trabalho começado pelos nossos sábios antepassados e aplicar a política que nos legou o falecido imperador, dando paz aos clãs e ao nosso povo, e promovendo, além dos mares, no exterior, a glória da nação. Devido às intrigas imoderadas que o shogun Tokugawa Keiki alimentou, o Império se reduziu a pedaços e, em consequência, veio a guerra civil que padecimentos sem conta impôs ao povo. Assim, fomos forçados a fazer, pessoalmente, campanha contra ele.

Como já se declarou, a existência de relações com países estrangeiros implica em problemas muito importantes. Assim, também nós, por amor ao povo, estamos dispostos a enfrentar os perigos do abismo, a sofrer as maiores dificuldades, jurando estender ao estrangeiro a glória da nação, e a satisfazer aos manes dos nossos ancestrais e do defunto imperador.

Portanto, que vossos clãs reunidos nos assistam em nossas imperfeições; que unindo nossos corações e vossas forças desempenheis os papéis que vos estão atribuídos, desdobrando todo vosso zelo para o bem do Estado".

(selo imperial) - 21 de março de 1868.


Família Imperial Meiji, 1900.

A Era Meiji termina em 1912, com a morte do Imperador Mutsuhito. Ela deixou profundas marcas no país, que já no fim do século 19 e 20 era uma potência, vencendo entre 1894 e 1895 a China (conquistando o domínio de Taiwan) e, entre 1904 e 1905 a Rússia (conquistando a região da Manchúria). Nas palavras do historiador britânico Eric Hobsbawm:

" Não parecia de forma alguma que em apenas meio século o Japão seria uma potência mundial, capaz de derrotar uma potência européia numa guerra de maiores proporções, usando apenas uma das mãos, e que em três quartos de século estaria perto de rivalizar com a marinha inglesa; me- nos ainda, que na década de 1970 alguns observadores esperassem o Japão ultrapassar a economia dos Estados Unidos em alguns anos. "



FONTES: Era Meiji e os últimos samurais. Revista Aventuras na História. 01/04/2008.

SOMMA, Isabelle. Japão - O dia em que a ilha se abriu ao mundo. Revista Aventuras na história. 01/11/2003.

HOBSBAWM, Eric J. A Era do Capital. 1848-1875. 9° ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História - das cavernas ao terceiro milênio - Do avanço imperialista no século xix aos dias atuais. São Paulo: Moderna, 2010.

CRÉ, Kamila Gouveia Camargo; SARRAF, Luiza Rafaela Bezerra; LACERDA, Natália de Fátima de Carvalho. O Japão na Era Meiji: quando o distante se torna próximo. Disponível em: http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/O_Japao_na_era_Meij_-_quando_o_distante_se_torna_proximo.pdf Acesso em: 30/04/2014.


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domingo, 27 de abril de 2014

Monarquias que resistiram ao tempo

Monarquia é um sistema político hereditário em que o Chefe de Estado (monarca) é um rei ou imperador. O Absolutismo é a forma de governo em que o poder é centralizado na figura do monarca. Foi a principal forma de governo na Europa entre os séculos 16 e 17. Desde a Revolução Francesa, ocorrida em 1789, as Monarquias Absolutistas foram perdendo força, mas atualmente ainda existem sistemas desse tipo, além das Monarquias Constitucionais.


Reino Unido

Família Real Britânica.

Atualmente, a Monarquia do Reino Unido é representada pela Rainha da Inglaterra, Elizabeth II. Ela é a chefe de Estado do Reino Unido e de mais 53 países, que fazem parte da Commonwealth (países que faziam parte do antigo Império Britânico). Aos 88 anos, ela tem quatro filhos, oito netos e duas bisnetas, além de um novo bisneto, filho de William e Kate.


Vaticano

Jorge Mario Bergoglio, 266° Papa da Igreja Católica e Chefe de Estado do Vaticano.

O Tratado de Latrão, de 1929, criou a cidade-Estado do Vaticano. "Papa", bispo de Roma, é um título teocrático-monárquico que existe desde o século 1. Líder da Igreja Católica desde 28 de fevereiro de 2013, Jorge Mario Bergoglio, mais conhecido como Papa Francisco, é chefe do Estado do Vaticano, última Monarquia Absoluta da Europa e a única Teocracia cristã do mundo.


Arábia Saudita

Abdallah da Arábia Saudita.

A Arábia Saudita é uma Monarquia Absoluta. Abdallah bi Abdul Aziz Al-Saud é Rei da Arábia Saudita desde 2005. A casa de Saud foi criada em 1744 por Muhammad bin Saud, e comanda o país desde que ele foi unificado, em 1932.  Por ser o maior exportador de petróleo do mundo, o país é a maior potência econômica do Mundo Árabe. É considerado por muitos o Monarca Árabe mais fanaticamente religioso, desrespeitando várias vezes os Direitos Humanos e as ordens da ONU.


Tailândia

Bhumibol Adulyadej

A Tailândia é uma Monarquia Constitucional desde 1932. Bhumibol Adulyadej, o Grande, é o atual rei da Tailândia. Conhecido como Rama IX, é o monarca que reina há mais tempo e o chefe de Estado mais antigo do mundo, reinando desde 1946. É também um dos mais ricos, tendo uma fortuna avaliada em 35 bilhões de dólares. Bhumibol faz parte da Dinastia Chakri, criada em 1782, e que comanda o país desde que ele era conhecido como Império Sião.


Jordânia

Abdullah II bin al-Hussein, atual Rei da Jordânia.

O Rei Abdullah II governa a Jordânia desde 1999. A Monarquia da Jordânia é comandada pela Dinastia Hachemita, criada oficialmente em 1921, mas que possui suas raízes históricas ligadas ao profeta Maomé. A dinastia é originária do Hejaz, região do Oeste da Arábia Saudita.


Butão

Jigme Khesar Namgyal Wangchuck.

O Butão é uma Monarquia Constitucional. Jigme Khesar reina desde 2006, e é considerado um dos chefes de Estado mais jovens do mundo. Khesar é membro da dinastia Wangchuck, que foi criada no mesmo ano em que o país foi unificado, em 1907. contando com o atual rei, cinco da mesma dinastia governaram o Butão desde o início do século 20. Junto à Tailândia, o Butão é um dos últimos reinos budistas.


Dinamarca

Margarida II da Dinamarca.

A Dinamarca tornou-se uma Monarquia Constitucional em 1849, logo após as Revoluções Europeias de 1848. Atualmente, a rainha da Dinamarca é Margarida II, no poder desde 1972. Possui o título de Sua Majestade Real Margarida II pela Graça de Deus: Rainha da Dinamarca, Rainha da Groelândia, Rainha de Feroé, Duquesa de Schleswig, Holstein, Dithmarschen, Targino, Stormarn e Oldemburgo. A atual família real faz parte da Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg, fundada em 1825, da qual também fazem parte membros da Casa Real da Noruega.


Marrocos

Mohammed VI.

O Marrocos é uma Monarquia Constitucional desde 1972. O país é governado há 15 anos por Mohammed VI. O rei Mohammed VI é membro da Dinastia Alaoui, que desde 1666 governa o país. Foi criada por Moulay Ali Cherif em meados do século 17. A Dinastia é descendente direta de Maomé. O atual rei é responsável pela modernização do país.


Suazilândia

Mswati III.

A Suazilândia é uma Monarquia Absoluta desde 1978, quando a Constituição do mesmo ano atribuiu os poderes Executivo e Legislativo ao rei. Quem governa o país atualmente é o Rei Mswati III, no poder desde 1986. Mswati pertence à Dinastia Dlamini, que descende diretamente de Ngwane III, o primeiro rei da Suazilândia. Uma prática comum é a Poligamia. Um exemplo é Sobhuza II, o falecido pai do atual rei: ele teve 110 esposas e 250 filhos. O rei possui uma imagem negativa devido seus gastos com carros luxo e construção de mansões (cada uma das 15 esposas do rei possuí uma mansão). De acordo com a Forbes, o rei possui uma fortuna estima em 200 milhões de dólares, mas outras fontes falam de valores bilionários.


Japão

Akihito, 125° Imperador do Japão.

Desde a Constituição de 1947, o Japão é uma Monarquia Constitucional. Desde 1989, quem governa é o Imperador Akihito, único monarca reinante que detêm o título de Imperador. Akihito é membro da Dinastia Yamato, a mais antiga Monarquia hereditária do mundo, tendo como membro o Lendário Imperador Jimmu, que começou seu reinado em 660 a.C. O Imperador é responsável por manter uma boa relação entre os antigos rivais do Império do Japão, como a Rússia e a China.


Camboja

Norodom Sihamoni.

O Camboja é uma Monarquia Constitucional, restaurada em 1993. Quem comanda, desde 2004, é o rei Norodom Sihamoni. Sihamoni é membro da Dinastia Norodom, criada em 1860 por Norodom I e que atualmente comanda a monarquia do país. No total, os últimos reis do Camboja, do século 19 e 20, e o atual, vieram dos Norodom.


Outras Monarquias atuais

Henrique, Grão-duque de Luxemburgo, chefe de Estado de Luxemburgo.

Carlos XVI Gustavo da Suécia, chefe de Estado da Suécia.

Juan Carlos I, rei da Espanha.

Guilherme Alexandre dos Países Baixos, rei da Holanda.

Haroldo V, rei da Noruega.

Alberto II, príncipe soberano de Mônaco.

Hamad bin Isa al Khalifa, rei do Bahrein.

Khalifa Bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, chefe de Estado dos Emirados Árabes.

Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani, Emir absoluto do Qatar.

Letsie III, rei do Lesoto.

Abdul Halim de Quedá, chefe supremo da Malásia.


FONTES: SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de Conceitos Históricos. - São Paulo: Contexto, 2009.

NASSIF, Luis. Qual o futuro das monarquias europeias? GGN, o jornal de todos os brasis. 04/06/2013. Disponível em: http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/qual-o-futuro-das-monarquias-europeias Acesso em: 26/04/2014.

Forbes, information for the World's Business Leaders. Disponível em: http://www.forbes.com/ Acesso em: 27/04/2014.

Monarcas vivos- Reis, rainhas e príncipes da vida real. Disponível em: http://fotos.noticias.bol.uol.com.br/entretenimento/2013/02/05/monarcas-vivos.htm#fotoNav=25 Acesso em: 27/04/2014.

Absolutismo resiste na Suazilândia. Pequeno reino situado entre a África do Sul e Moçambique tem família real bilionária e população miserável. Estadão, 01/07/2010. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,absolutismo-resiste-na-suazilandia,574541,0.htm Acesso em: 27/04/2014.


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quinta-feira, 24 de abril de 2014

As origens do Boi-Bumbá

Boizinho de Ubatuba, Rio de Janeiro, 1960.

O Bumba Meu Boi sofre, de Estado para Estado, alterações ou variantes desde a denominação: Boi Calemba (Recife), Boi de Rei, Boi-Bumbá, Bumba meu Boi (Maranhão - Amazonas - Pará - Alagoas - Rondônia), Reis-do-Boi (Rio de Janeiro).

" A origem do Bumba meu Boi ou Boi-Bumbá data aproximadamente das últimas décadas do século 18 e e seu ambiente foi o litoral, engenhos de açúcar e fazendas de gado irradiando-se para o interior ".

Os pesquisadores acreditam que essa manifestação cultural esteja ligada ao desenvolvimento da pecuária no período colonial.

" Suas raízes históricas estão provavelmente no ciclo do gado ou pastoreio em plena vida colonial brasileira. Na sua formação recebeu influências, em diferentes pesos, da cultura branca de origem europeia, negra vinda da África e ameríndia. E seu enredo, embora diversificado em algumas vezes, tem a fazenda como palco ".

O termo "Bumba-meu-Boi", e seu significado, fruto de divergência entre os estudiosos. Para Gustavo Barrosos, a expressão “Bumba-meu-boi” significa“zabumba, meu boi” ou “o zabumba está te acompanhando boi”, porque durante a exibição do boi, o coro que canta o estribilho diz: “ê bumba, marcando o ritmo no zabumba. Para Câmara Cascudo, “Bumba” é a interjeição “zás” que significa: “Bate, chifra, meu boi”. 

Em seu princípio, o Bumba-meu-boi sofreu grande repressão por ser uma festa de origem escrava. Ele foi perseguido pelas elites nordestinas e também pela polícia e chegou a ser proibido entre 1861 e 1868.

" O boi-bumbá no Brasil começou com a movimentação ginástica do boi-de-canastra português, surgido no meio da escravaria rural, que trouxe consigo o vaqueiro e o auto se criou com a aglutinação incessante de outros bailados (rancho da burrinha, Bahia e cavalo marinho). O centro de maior e mais forte atração fez gravitar ao seu decorrer os motivos comuns ao trabalho pastoril e figuras normais dos povoados e vilas próximas: capitão do mato, vigário, doutor curador, escravo fujão, o valentão e as visões da literatura oral, duendes velhos, caiporas, gigante ".

A permanência do boi como figura central provavelmente deve-se à sua importância sócio-econômica no Brasil em geral e a todo um misticismo que cerca a figura do boi, haja vista a prodigiosa literatura no domínio místico: Lendas hindus, brâmanes, gregas etc., bem como a sua presença nas cerimônias religiosas da Igreja Católica.

A encenação do bumba-meu-boi conta com diversos personagens
Boi - Figura mitológica nas mais diversas culturas, o boi era visto por escravos negros e indígenas como companheiro de trabalho, símbolo de força e resistência. É por isso que toda a encenação gira em torno dele. A pessoa que veste a fantasia do animal é chamada de miolo e seus trajes variam bastante de uma festa para outra. Alguns abusam de paetês, miçangas e lantejoulas. Outros preferem bordados com menos brilho e mais cores.
Vaqueiro - Ao lado de caboclos, índios e seres fantásticos como o caipora (figura da mitologia tupi), o vaqueiro é um dos personagens coadjuvantes do bumba-meu-boi, mas consegue i - mpressionar pelo figurino, principalmente o chapéu, sempre enfeitado com longas fitas. No enredo, ele é quem avisa o dono da fazenda da morte do precioso boi.
Dono da fazenda - Também chamado de amo ou patrão, é o senhor de engenho que, proprietário do boi morto, jura vingança contra o casal Catirina e Nego Chico e exige que o animal seja ressuscitado. Em geral, a pessoa que faz esse papel também é responsável pela organização do grupo folclórico. Na foto ao lado, o dono da fazenda é interpretado por Humberto de Maracanã, famoso cantador de boi do Maranhão.
Os músicos - O auto do bumba-meu-boi sempre é acompanhado por uma banda musical. Vários ritmos e instrumentos são utilizados: só no Maranhão há mais de cem grupos folclóricos. Em alguns estilos (ou sotaques, como dizem os maranhenses), dá para ouvir até banjos e saxofones. Os instrumentos mais comuns, porém, são os de percussão: tambores, pandeirões, matracas (dois pedaços de madeira batidos um contra o outro), maracás (uma espécie de chocalho) e tambor-onça (tipo de cuíca rústica, de som gravíssimo).
Nego Chico e Catirina - Depois do boi, são os personagens principais do auto. Representam um casal de escravos, ou de trabalhadores rurais (dependendo do tipo de enredo escolhido). Grávida, Catirina sente uma grande vontade de comer a língua do boi mais precioso da fazenda em que trabalha. Com medo que seu filho nasça com a cara da língua do animal se o desejo não for atendido, Nego Chico (ou pai Francisco) mata o bicho para satisfazer a mulher. A personagem dela costuma ser interpretada por um homem vestido de mulher.
O boi-bumbá na sua essência representa uma sátira à opulência dos fazendeiros e senhores de engenho da época colonial. Por mais contraditório que parece há, ao mesmo tempo, um enunciado de paz, amor, fraternidade e igualdade e uma mensagem final de redenção, de ressurreição, de outra vida para essa gente sofrida.



FONTES: NASCIMENTO, Sued Fernandes do. Boi-Bumbá em Porto Velho. Porto Velho, FUNCER, 1993.

CEARÁ. Secretaria de Indústria e Comércio. Manifestações do Folclore CearenseFortaleza, 1978. Trabalho Elaborado pelo Departamento de Artesanato e Turismo e empresa cearense de Turismo.

CRISTINA, Cíntia. Qual é a origem do bumba-meu-boi e o que ele representa? Revista Mundo Estranho, 6° edição.

Bumba-Meu-Boi. Disponível em: http://bumba-meu-boi.info/ Acesso em: 24/04/2014.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://www.novomilenio.inf.br/festas/folclore02.htm






segunda-feira, 21 de abril de 2014

O Martírio de Tiradentes

Uma farsa criada por líderes da Inconfidência Mineira

Guilhobel Aurélio Camargo




"Martírio de Tiradentes", de Aurélio de Figueiredo.

Ele estava muito bem vivo, um ano depois, em Paris. O feriado de 21 de abril é fruto de uma história fabricada que criou Tiradentes como bode expiatório, que levaria a culpa pelo movimento da Inconfidência Mineira. Quem morreu no lugar dele foi um ladrão chamado Isidro Gouveia.
A mentira que criou o feriado de 21 de abril é:  Tiradentes foi sentenciado à morte e foi enforcado no dia 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, no local chamado Campo da Lampadosa, que hoje é conhecido como a Praça Tiradentes. Com a Proclamação da República, precisava ser criada uma nova identidade nacional. 

Pensou-se em eternizar Marechal Deodoro, mas o escolhido foi Tiradentes. Ele era de Minas Gerais, estado que tinha na época a maior força republicana e era um polo comercial muito forte. Jogaram ao povo uma imagem de Tiradentes parecida com a de Cristo e era o que bastava: um “Cristo da Multidão”. Transformaram-no em herói nacional cuja figura e história “construída” agradava tanto à elite quanto ao povo.

A vida dele em poucas palavras: Tiradentes nasceu em 1746 na Fazenda do Pombal, entre São José e São João Del Rei (MG). Era filho de um pequeno fazendeiro. Ficou órfão de mãe aos nove anos e perdeu o pai aos 11. Não chegou a concluir o curso primário. Foi morar com seu padrinho, Sebastião Ferreira Dantas, um cirurgião que lhe deu ensinamentos de Medicina e Odontologia. Ainda jovem, ficou conhecido pela habilidade com que arrancava os dentes estragados das pessoas. Daí veio o apelido de Tira-dentes.

Em 1780, tornou-se um soldado e, um ano à frente, foi promovido a alferes. Nesta mesma época, envolveu-se na Inconfidência Mineira contra a Coroa portuguesa, que explorava o ouro encontrado em Minas Gerais. Tiradentes foi iniciado na maçonaria pelo poeta e juiz Cruz e Silva, amigo de vários inconfidentes. Tiradentes teria salvado a vida de Cruz e Silva, não se sabe em que circunstâncias.

Tiradentes, maçonaria e a Inconfidência Mineira: Como era um simples alferes (patente igual à de tenente), não lideraria coronéis, brigadeiros, padres e desembargadores, que eram os verdadeiros líderes do movimento. Semi-alfabetizado, é muito provável que nunca esteve plenamente a par dos planos e objetivos do movimento. 

Em todos os movimentos libertários acontecidos no Brasil, durante os séculos XVIII e XIX, era comum o “dedo da maçonaria”. E Tiradentes foi maçom, mas estava longe de acompanhar os maçons envolvidos na Inconfidência, porque esses eram cultos, e em sua grande parte, estudantes que haviam recentemente regressado “formados” da cidade de Coimbra, em Portugal. Uma das evidências documentais da participação da Maçonaria são as cartas de denúncia existentes nos autos da Devassa, informando que maçons estavam envolvidos nos conluios.

Os maçons brasileiros foram encorajados na tentativa de libertação, pela história dos Estados Unidos da América, onde saíram  vitoriosos – mesmo em luta desigual – os maçons norte-americanos George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson. Também é possível comprovar a participação da Maçonaria na Inconfidência Mineira, sob o pavilhão e o dístico maçônico do Libertas quae sera tamen, que adorna o triângulo perfeito, com este fragmento de Virgílio (Éclogas,I,27) Tiradentes era um dos poucos inconfidentes que não tinha família. Tinha apenas uma filha ilegítima e traçava planos para casar-se com a sobrinha de um padre chamado Rolim, por motivos econômicos. 

Ele era, então, de todo o grupo, aquele considerado comouma “codorna no chão”, o mais frágil dos inconfidentes. Sem família e sem dinheiro, querendo abocanhar as riquezas do padre. Era o de menor preparo cultural e poucos amigos. Portanto, a melhor escolha para desempenhar o papel de um bode expiatório que livraria da morte os verdadeiros chefes.

E foi assim que foi armada a traição, em 15 de março de 1789, com o Silvério dos Reis indo ao Palácio do governador e denunciando o Tiradentes. Ele foi preso no Rio de Janeiro, na Cadeia Velha, e seu julgamento prolongou-se por dois anos. Durante todo o processo, ele admitiu voluntariamente ser o líder do movimento, porque tinha a promessa que livrariam a sua cabeça na hipótese de uma condenação por pena de morte. Em 21 de abril de 1792, com ajuda de companheiros da maçonaria, foi trocado por um ladrão, o carpinteiro Isidro Gouveia. 

O ladrão havia sido condenado à morte em 1790 e assumiu a identidade de Tiradentes, em troca de ajuda financeira à sua família, oferecida a ele pela maçonaria. Gouveia foi conduzido ao cadafalso e testemunhas que presenciaram a sua morte se diziam surpresas porque ele aparentava ter bem menos que seus 45 anos. No livro, de 1811, de autoria de Hipólito da Costa (“Narrativa da Perseguição”) é documentada a diferença física de Tiradentes com o que foi executado em 21 de abril de 1792. O escritor Martim Francisco Ribeiro de Andrada III escreveu no livro “Contribuindo”, de 1921: “Ninguém, por ocasião do suplício, lhe viu o rosto, e até hoje se discute se ele era feio ou bonito…”. O corpo do ladrão Gouveia foi esquartejado e os pedaços espalhados pela estrada até Vila Rica (MG), cidade onde o movimento se desenvolveu. A cabeça não foi encontrada, uma vez que sumiram com ela para não ser descoberta a farsa. Os demais inconfidentes foram condenados ao exílio ou absolvidos.

A descoberta da farsa: Há 41 anos (1969), o historiador carioca Marcos Correa estava em Lisboa quando viu fotocópias de uma lista de presença na galeria da Assembléia Nacional francesa de 1793. Correa pesquisava sobre José Bonifácio de Andrada e Silva e acabou encontrando a assinatura que era o objeto de suas pesquisas. Próximo à assinatura de José Bonifácio, também aparecia a de um certo Antônio Xavier da Silva. Correa era funcionário do Banco do Brasil, se formara em grafotécnica e, por um acaso do destino, havia estudado muito a assinatura de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Concluiu que as semelhanças eram impressionantes.

Tiradentes teria embarcado incógnito, com a ajuda dos irmãos maçons, na nau Golfinho, em agosto de 1792, com destino a Lisboa. Junto com Tiradentes seguiu sua namorada, conhecida como Perpétua Mineira e os  filhos do ladrão morto Isidro Gouveia. Em uma carta que foi encontrada na Torre do Tombo, em Lisboa, existe a narração do autor, desembargador Simão Sardinha, na qual diz ter-se encontrado, na Rua do Ouro, em dezembro no ano de 1792, com alguém muito parecido com Tiradentes, a quem conhecera no Brasil, e que ao reconhecê-lo saiu correndo. 

Há relatos que 14 anos depois, em 1806, Tiradentes teria voltado ao Brasil quando abriu uma botica na casa da namorada Perpétua Mineira, na rua dos Latoeiros (hoje Gonçalves Dias) e que morreu em 1818. Em 1822, Tiradentes foi reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira e, em 1865, proclamado Patrono Cívico da nação brasileira.

CAMARGO, Guilhobel Aurélio. O Martírio de Tiradentes, uma farsa criada por líderes da Inconfidência Mineira. Disponível em: http://www.ubern.org.br/canal.php?codigo=290 Acesso em: 21/04/2014.

Sabe-se que, não só na história do Brasil, mas no mundo, existem panteões de heróis nacionais que foram idealizados, fugindo da realidade em que viviam. A fabricação dessas personagens se dá em momentos cruciais da História, como ocorreu com Tiradentes durante a Proclamação da República, e a afirmação deste durante o Governo dos Militares. Na França, por exemplo, a heroína Joana d' Arc, símbolo de patriotismo e resistência, vêm sendo estudada desde o século 19, numa tentativa de separar as lendas dos fatos reais. Por mais que estes personagens heroicos ainda tragam uma aura de dúvida e lenda, eles são símbolos nacionais, exaltados de forma patriótica, em uma abstração clássica de trazer em suas costas as nações pelas quais deram a vida.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://commons.wikimedia.org/


domingo, 20 de abril de 2014

A sociedade do Antigo Regime


A sociedade do Antigo Regime era dividida em três ordens ou Estados. Os dois primeiros, Clero e Nobreza, eram sustentados pelo último, que eram as camadas populares.

O Primeiro Estado era o Clero, formado por membros da Igreja. Essa ordem era dividida em Alto Clero (cardeais, arcebispos e bispos) e Baixo Clero (padres, monges e frades). Os indivíduos do Alto Clero vinham de famílias nobres ou burguesas. Os do Baixo Clero vinham de camadas populares. A Igreja era dona de grande parte das terras da Europa e estava isenta de impostos. Alto e Baixo Clero as vezes entravam em conflitos por poder.

O Segundo Estado, a Nobreza, era formado por pessoas que dominavam altos cargos militares e administrativos, formando o controle político do país. Era dividida em: Nobreza cortesã, que vivia no Palácio real e recebia dinheiro do Estado; Nobreza provincial, que vivia dos tributos dos servos; e Nobreza de toga, burgueses que compravam títulos de nobres. A Nobreza cobrava tributos e também estava isenta do pagamento de impostos.

O Terceiro Estado, as camadas populares, não possuía privilégios. Era dividida em: alta burguesia: banqueiros e grandes empresários; média burguesia: profissionais liberais; pequena burguesia: artesãos e lojistas; sans-culottes: trabalhadores, camponeses, aprendizes e marginalizados urbanos, que representavam a maioria da população europeia.


Analisando, percebemos que, vivendo com muitas características do período Feudal, a sociedade do Antigo Regime era formada por grupos privilegiados e não privilegiados. A caricatura acima expressa essa situação: O Terceiro Estado, formado principalmente pelos camponeses, sustentava o Clero e a Nobreza.


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sábado, 19 de abril de 2014

Lima Barreto e as enchentes no Rio de Janeiro

Enchente no Rio de Janeiro (Praça da Bandeira), 1904.

O Estado do Rio de Janeiro é frequentemente alvo de enchentes, que atingem principalmente a região metropolitana. Esse problema é antigo, e o descaso com a maioria da população também. As enchentes geralmente impactam as comunidades pobres nas várzeas e aterros próximos à Baía de Guanabara; nas favelas em morros (freqüentemente próximas ao centro e à Zona Sul carioca) e na Baixada Fluminense, que não possui um sistema de drenagem propício para uma área originalmente pantanosa. O jornalista e escritor Lima Barreto, em artigo publicado no jornal Correio da Noite, em 19 de janeiro de 1915, denuncia o problema das enchentes:

" As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro inundações desastrosas. Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.

De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes. [...]

O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver sua vida integral. Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha! [...]

O prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grande precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social ".

BARRETO, Lima. Vida urbana. p. 18. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br Acesso em: 20/04/2014.


CRÉDITO DA IMAGEM: http://pelarua.wordpress.com/